2° Caso
3 Capítulo 2
E se passou um mês.
Um mês, em que eles estavam felizes. De mãos dadas o tempo todo. Que a escola estava surpresa pelo casal diferente. E aqueles que os viam, sentiam sua felicidade. E a cada dia eu me sentia um pouco pior do que o dia anterior. E eu escondia. Mas depois de um tempo senti que minha armadura estava se quebrando. Aqueles em volta começaram a perceber que eu havia mudado, eu era uma pessoa ativa e alegre, agora eu era simplesmente. . . Calado.
Eu parecia triste, mesmo não querendo. Mas não era somente o fato de que aquele que eu amava estava com alguém que me fazia triste. É que aquele alguém que estava com meu amado me importunava. Sim, eu sofria bullying de uma garota que jogava na cara que estava feliz com meu melhor amigo, que eu não ia ser aceito pela minha mãe e que eu estava sozinho.
Eu estava com medo de que eu fosse ignorado depois que ele entrasse numa relação, certo? Então eu pensei “Claro que não, eu o conheço e sei que ele não vai fazer isso.” Mas não havia pensado que, talvez não ele, mas ela fizesse que ele me ignorasse. Agora eu estava simplesmente de enfeite. E ele não havia olhos para mim, nem em questão de amizade.
Em um dia, ele finalmente percebeu aquilo que estava na sua cara.
“O que foi Ikuto? Não está se sentindo bem?”
“Não, tá tudo bem” Mas eu tive de mentir.
“Tem certeza? Você parece meio pra baixo.”
Foi então que a Erika entrou na conversa.
“Se o Shou-chan disse que está bem é porque ele está bem, amor” Ha ha, apelidos carinhosos “Você tem que confiar nele.”
“Amor” Infelizmente e felizmente, ele parecia feliz. “Então está ok, irei confiar em sua palavra, mas se tiver algum problema, venha falar comigo.” Agora parecia sério, ele percebeu o tamanho da tristeza. Pude ver isso quando olhou diretamente em meus olhos. Estava realmente preocupado comigo. Por que faz isso? Agora vou ter que andar olhando para meus pés o caminho inteiro para casa. Para esconder meu rosto queimando.
Chegamos em casa. Cada um foi para sua respectiva porta, nos despedimos. Mesmo que quando cheguei no quarto, me debrucei na janela e fiquei olhando. A vista era direta para o quarto de Soutarou. Só o vi se jogar na cama, abraçar um travesseiro sorrindo, e rolar pela cama. Era um momento de extrema felicidade em sua vida. Parecia que nada o abalava.
Mais um mês se passou. Já havia notado que eu perdi peso, meu apetite diminuiu. Eu já não estava aguentando muito, então, senti que era hora. Era um sábado, e já fazia exatamente dois meses que começaram a namorar. Mas respirei fundo e pensei: “Tenho que falar algo. Seja os meus verdadeiros sentimentos ou o que sua namorada esta fazendo comigo. Temos que conversar.” Me levantei e parei de fazer qualquer coisa que estivesse fazendo. Com as pernas tremendo. Fui direto para a casa dele.
Sua mãe abriu a porta e já foi falando que o Soutarou estava em seu quarto. Normalmente ela não faria isso porque tinha consciência que eu sabia. Mas não raciocinei que talvez houvesse um “mas” após isso. Também não prestei atenção e nem deixei ela terminar a frase. Descobri o final da pior maneira possível.
Ao abrir a porta de seu quarto, me deparei com certa cena... um pouco... desconfortável. Não que eles tivessem fazendo algo de errado. Eram namorados afinal de contas. Mas óbvio que me deu um aperto no coração e uma raiva indescritível. Eles estavam se beijando. Só? Sim, só isso. Eles estavam na cama aos carinhos, abraços e beijos. Era muito amor para meus olhos.
Os dois se assustaram um pouco,se arrumaram e sentaram na cama rapidamente. Morrendo de vergonha se despediram com mais um selinho. Pela primeira vez vi aquele monstrinho que me denigre o tempo todo ficar tão vermelha. Mas claro que ela logo voltou a sua posição, quando passou por mim. Sussurrou: “Você é um incômodo.”
“Hum... Ikuto, quanto.... tempo.” Falou meio nervoso, mas ainda com um sorriso na cara.
“Sou...” Falei com uma expressão meio sem vida, que logo foi se quebrando, até me romper em lágrimas.
“I- Ikuto? O que houve?!”
“D- desculpe Sou... Eu não sou forte o suficiente para... para aguentar isso.” Falei enquanto lágrimas rolavam em meu rosto, mas sorria, por algum motivo, talvez ainda tentava esconder meu sofrimento? Inconscientemente, talvez.
Desabei de joelhos no chão e tentei limpá-las, mas realmente não paravam.
“Ikuto, venha aqui.” Ele falou colocando as mãos em meus antebraços e me levantando até a cama. Eu sentei. E lá ele tentou me acalmar, trouxe alguns lenços e, mesmo sabendo sobre minha atração... não a ele, mas a garotos, e ao seu tipo, ele me emprestou seu ombro. O que talvez tenha sido uma boa e má ideia. Foi bom, porque melhorou minha situação. Mas ao invés de só chorar em seu ombro, eu o abracei. Não vi muito seu rosto, mas garanto que estava sorrindo com pena, acariciava minha cabeça e costas. E até retribuiu o abraço.
Seu cheiro era bom. Eu lembro, como eu deixei sua camisa encharcada com minhas lágrimas. E como ele tinha braços grandes e confortáveis, e como seu peito era um bom lugar para recostar a cabeça. Eu sei disso porque depois de todo o choro, eu descansei em seu colo. Com os olhos fechados, mas não dormi. Só tentei fazer memórias, não queria esquecer aquele momento nunca, porque talvez fosse o último.
Após se passarem alguns minutos. Eu acho. Não tenho muita certeza. Abri meus olhos.
“Ikuto, acordou?”
“A- Ah, desculpe Sou!” Fingi não lembrar de estar em seu colo e me sentei ao seu lado. “Na verdade...”
“O que você queria falar?”
“É, sobre isso... Eu não tenho certeza se você vai acreditar. Acabou de acontecer... N- Não o negócio de abraçar ou algo do gênero... quer dizer, você pode até dizer que tem sim algo haver mas...”
“Tem alguma forma mais rápida de chegar ao ponto?”
“D- desculpe.” Respirei fundo. “Não tem haver com nós dois, a primeira coisa que eu queria falar. É com a Erika.”
“O que ela fez?” Falou confuso.
“Ela tem... feito isso, faz um tempo. Desde antes de vocês namorarem. Bem pouco antes. Naquela vez da conversa que tive com ela. Ela pressupôs algo sobre mim que não era verdade até pouco tempo depois. E quando teve certeza que era verdade, começou a realmente me pôr para baixo, e me afastar das outras pessoas, principalmente de você. Não sei se percebeu, mas sempre estive com vocês, mas me sentia mais como paisagem que como personagem. Não que eu queira ser o centro das atenções, mas ela tirava sua atenção de mim e colocava nela. Também sempre me ofendeu e se mostrou melhor enquanto você não estava. Ela disse coisas que realmente me constrangiam, e me faziam lembrar coisas ruins sobre mim mesmo. Me disse para me afastar, me disse que eu não ia ser aceito e que ninguém realmente lembrava de mim...”
“Ok, já basta. A Erika? Ela nunca faria isso!”
“Eu imaginei que não fosse acreditar...”
“E também, por que ela faria isso?!”
“. . .”
“Me diga, por que ela faria isso?!”
“Por que eu estou apaixonado pelo namorado dela.”
Ele não mudou sua expressão com raiva por alguns segundos e de uma hora para outra arregalou os olhos. Vi seu rosto se avermelhar um pouco. Bem pouco, mas o bastante para fazer uma pontinha de mim ficar feliz. Ele voltou com a maior seriedade, pegou o telefone e discou um numero. A pessoa do outro lado da linha atendeu e ele falou de cara:
“Você realmente estava ameaçando meu melhor amigo?”
Me surpreendi com as palavras e logo tentei dizer algo, porque eu não queria que eles se separassem nem nada. Quer dizer... uma parte de mim queria, mas o que mais importa é a felicidade dele, não se a mulher com quem ele está agora é do meu agrado ou não. De qualquer forma ele não deixou eu falar nada. Logo fui ouvindo sua metade da conversa:
“Sim, eu já sabia que ele era gay . . . Não, isso não me incomoda . . . Continua não sendo razão para isso . . . Se você continuar a fazer isso- . . .” E por aí foi por mais ou menos meia hora. Até que ele teve as palavras finais antes dela desligar na cara dele. “Sim, acho que prefiro a amizade dele ao seu amor.”
Nesse momento eu quase dei um grito o impedindo. Ele estava prestes a acabar com sua relação. O que no mundo você está fazendo, Sou?! Ele não devia ficar triste dessa forma por minha causa. No momento ele não deveria estar me defendendo tanto. Talvez ter uma conversa com a Erica, e não uma briga. Pare de me fazer me apaixonar mais por você, Sou.
“Ela terminou comigo.” Falou com um ar triste.
“Pare de sorrir, Sou, eu sei que você não queria falar isso.” Dei uma pausa e olhei para baixo “Sei que você vai conseguir ela de volta uma hora mas. . . enquanto isso não acontece. . . você ainda tem meu ombro. . . se você quiser.”
Ele fez um sinal de “não” com a cabeça abaixada e a levantou olhando para mim.
“Você realmente está com nojo de mim, não é?” Falei desviando o olhar.
Senti um movimento na cama e me virei para ver o que ele estava fazendo. No momento em que olhei para frente ele me beijou. Mas não um beijo como aquele de quando ele estava inconsciente, foi algo... algo mais quente. Ele realmente me abraçou e acariciou minha nuca. Como eu queria naquela noite. Quando fui retribuir todos os movimentos eu comecei a pensar se aquilo estava certo, e acabei só o afastando devagar para fora daquela situação.
“Ikuto. . .?”
“Soutarou... você... você por acaso está brincando comigo?”
“O que?”
“Você sabe que eu gosto de você! Isso por acaso é algum tipo de consolação?” Respirei fundo e continuei “Eu estou muito sério com meus sentimentos.” Me levantei e voltei para casa.
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