No carro foi aquele clima pesado. Nem mesmo Martha tentou aliviar, sabia que não ia funcionar.

Assim que Sherlock estacionou o carro, Molly foi quase correndo para o quarto, gritando um "boa noite" para ambos.

Largou suas coisas na cama e correu para o chuveiro. Aquele foi um dia péssimo e naquele momento ela queria ter alguém com quem falar. Seu pai. Ou Tom.

Molly estava sentada na penteadeira, e escovava os cabelos, quando alguém bateu na porta.

– Pode entrar. — ela achou que seria Sherlock, mas ficou aliviada quando viu Martha pelo espelho.

– Olá. — ficou surpresa ao perceber que aparentava estar mais triste do que ela. A senhora usava um roupão, então para ter ido até lá, é porque estava realmente preocupada. Se sentou na cama de Molly e suspirou.

– Céus — ficou olhando para Molly, talvez esperando que ela falasse algo — só queria saber se você estava bem.

– Estou bem. — Mas sua expressão dizia o contrário. — Martha, me desculpe se eu causei...

– Não. Cada minuto foi tão especial — e lá estavam as lágrimas de novo. — Querida — ela se levantou para limpar as lágrimas de Molly. E começou a mexer no cabelo dela. Longos cabelos castanhos e lisos. — Posso? — mas já pegava a escova de cabelos.

Molly nunca teve alguém para pentear seus cabelos quando menor. Com Martha fazendo isso, se sentiu tão triste que achou que fosse desmoronar ali mesmo.

– Umas das grandes alegrias é quando alguém penteia você. — encolhida em sua cadeira, ela só fechou os olhos e aproveitou essa sensação nova.

Quando acabou, Martha fez Molly se levantar e a abraçou. Dessa vez ela não conteve as lágrimas e chorou no ombro de Martha, que ficou com ela até que Molly conseguisse se acalmar. Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma era necessária.


–--

Quando desceu para o café da manhã, ambos já estavam lá. Sherlock se levantou para puxar a cadeira para que ela pudesse sentar, como um cavalheiro.

– Molly...

– Obrigada.

– Eu...

– Nos olhos. — ele ainda estava atrás dela, ajeitando a cadeira quando começou a falar.

– Eu não tenho mais 12 anos. — e cabisbaixo voltou ao seu lugar.

– Demonstre para mim. — Martha disse.

Molly se divertia com a situação. Depois da noite anterior, já estava recuperava. Não dava para passar o resto da vida chorando.

– Eu sinto muito, Molly. Sinceramente. Não vai acontecer de novo. — ele estava sendo sincero, apesar do plano ser da avó.

– Molly, eu quero fazer um brinde. — era nove horas da manhã e eles tomavam champanhe. Europeus eram estranhos. — Quero agradecer pelo que você fez por uma desconhecida. Eu jamais esquecerei isso!

– Nem eu. — Sherlock completou.

– Passei dias maravilhosos. De verdade. Obrigada por ter me deixado acompanhá-la.

– Oh, você fez mais que simplesmente acompanhar-me. — então ela ergueu a taça — por todos os nossos bem-amados, onde quer que estejam.


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O resto dia se passou tranquilo. Eles ficaram no próprio hotel, aproveitando a piscina, escrevendo, conversando. E bebendo vinho, é claro.

Anoiteceu, mas Molly não queria ficar em seu quarto, sem fazer nada. Largou seu notebook e foi andar pelo hotel. Mas mal saiu e encontrou Sherlock deitado na grama observando o céu.

– Posso me juntar a você?

– Por favor.

Ela ficou uns minutos só observando. Era tão diferente do céu em Nova York. Ali era possível ver mesmo as estrelas, e não uma ou outra, como ela estava costumada. Era quase assombroso.

– Até alguns anos atrás eu não sabia que a terra girava em torno do sol.

– O que? — como assim? Quem não sabe sobre o sistema solar? — achei que você fosse um gênio.

– E sou — falou nada modesto — mas o sistema solar não faz diferença na minha vida. Então simplesmente apaguei. — ela conseguia pensar em pelo menos cinco argumentos contrários, mas deixou para lá.

– E como...

– Meu amigo, John.

– Ah. — voltou a observar as estrelas, mas na verdade ela estava era segurando a risada.

– Desculpe-me, Molly. — eles ficaram se olhando, até ela ficar sem graça demais para sustentar o olhar.

– Eu costumava deitar-me para ver as estrelas no verão quando era pequena. — "Duvides que as estrelas sejam fogo, duvides que o sol se mova...

– ...duvides que a verdade seja mentira, mas duvides jamais que te amo." — pelo menos ele conhecia Shakespeare. — será que ele está em algum lugar? Lorenzo?

– Sim. — ainda pensava no verso que recitaram, depois virou-se para ele — em algum lugar.

– E eu estou errado em insistir que paremos?

– Não, não. Não podemos continuar para sempre. — agora ela sabia disso. Era triste, mas era verdade.

– E por que eu me sinto como num domingo?

O que ele queria dizer?

– É quase amanhã e eu não quero ir. — ela sabia o que ele sentia.

– Eu também. E eu sempre gostei da escola.

Foi aí que algo estranho aconteceu. Como se alguma coisa puxasse ela, Molly se inclinou para perto de Sherlock — que estava fazendo a mesma coisa — e eles se beijaram.

Por mais que ela não quisesse parar, amanhã ela reencontraria Tom. Se apoiou nos braços e pensou. Aquilo não era certo.

E ainda mais confusa do que quando chegou, se levantou e saiu.

Nenhum dos dois viu Martha parada na janela, sorrindo.