11 Cores em uma
3 Amarelo
O retorno para a vila Troll foi silencioso. Incomodados com o ocorrido no Burker, ambos se distraíam com os elementos da natureza: árvores, pedras, até mesmo os casulos presos aos galhos. Qualquer distração parecia melhor que o incômodo que crescia no ar.
Poppy mantinha os olhos nas costas de Tronco, o semblante suavizado pela admiração. Não costumava ficar em silêncio por tanto tempo, as palavras geralmente pulavam de sua boca sem pedir licença. Mas pensar no que havia acontecido fazia algo estranho brotar em seu peito.
O corpo dele sobre o seu, as mãos prendendo seus pulsos com firmeza, determinado a provocar-lhe carícias íntimas... tudo resultara em um efeito extasiante. Os olhos azuis fixos em seu rosto a impediam de desviar o olhar. E os lábios, retos e firmes, despertavam nela uma curiosidade: qual seria o gosto deles?
Mordeu o lábio inferior com discrição, tentando afastar os pensamentos. Tronco seguia à frente, alheio à atenção que atraía. O olhar dela caiu no colete de folhas... e desceu um pouco mais, sem querer. O calor subiu às bochechas num rubor imediato, traindo o embaraço que tentava esconder até de si mesma.
— Poppy.
— EU NÃO ESTAVA OLHANDO! — gritou antes que qualquer acusação pudesse surgir.
Assustada ao ouvir seu nome ser chamado, respondeu por impulso. Tronco manteve o olhar fixo à frente, impassível. Ao lado dele, a rainha acompanhou sua direção com os olhos e se surpreendeu. Um grupo de trolls estava reunido ali, todos com expressões abatidas, como se um furacão tivesse passado por aquele lugar e levado embora mais que apenas objetos.
Determinada a entender o que havia acontecido, Poppy se aproximou de um pequeno grupo. Quatro trolls estavam sentados na grama, e a observaram com olhos carregados de tristeza. Ao questioná-los, uma das criaturinhas respondeu com clareza:
Trolls de cabelos vermelhos, liderados por uma fêmea imponente, invadiram a vila e levaram todos os instrumentos musicais. Em seguida, desapareceram floresta adentro sem deixar rastros.
Uma linha se formou entre as sobrancelhas da rainha. De soslaio, olhou para os amigos. Uma confusão inquietante tomava conta de seus pensamentos. Por que alguém roubaria instrumentos musicais? Quem eram esses trolls? Sabiam cantar e dançar também? As perguntas surgiam uma após a outra, mas não havia respostas até a chegada de uma voz familiar.
— Filha, você está bem? Te machucaram? — perguntou o rei Peppy, abraçando-a e a examinando da cabeça aos pés.
Ela sorriu gentilmente.
— Não se preocupe, veja, estou bem. — Disse, apontando para si mesma.
O rei relaxou, apoiando-se com mais firmeza na bengala. Seus olhos percorreram os amigos de Poppy, até pararem em Tronco, que o cumprimentou com uma leve reverência.
— O que faremos agora, Poppy? — perguntou Bitelo, com o Sr. Dinkles no braço.
— Levaram tudo... até a mesa da Suki — disse Guy Diamante. De soslaio, notaram a troll sentada abraçando os próprios joelhos, balançando-se em silêncio.
— Vocês tinham que ver! — disse Nina com animação. Todos se voltaram para a troll amarela. — Eram vários com espadas e flechas. A líder estava montada num pássaro! Nunca vi nada parecido!
— Espera aí — disse Tronco, avançando. Seu cabelo azul quase tocava a rainha. — Essa líder tinha o cabelo vermelho? Usava armadura?
— Exatamente! — confirmou Nina.
— Storm... — Tronco sussurrou, esquecido da presença dos outros.
— Como sabe o nome dela? — indagou Poppy, dando um passo à frente e encarando-o diretamente.
Tronco recuou nervoso, desviando o olhar para diversos cantos. O tom acusador o incomodava. Tentou se esquivar andando para o outro lado, mas ela o seguiu de perto.
— Nada disso, Tronco. Pode me contar — disse, séria.
O olhar dela examinava sua fisionomia com desconfiança. Ele arqueou os ombros, impaciente, e virou-se de costas. Havia algo não dito pairando no ar. Por fim, girou nos calcanhares e falou:
— Vou recuperar os instrumentos. Será fácil. Só há um caminho pela floresta.
Ele não disse a verdade, nem para ela, nem para si mesmo. Mas algo o chamava. Um instinto. Um desejo de saber mais sobre quem era.
O rosto de Poppy suavizou. As sobrancelhas erguidas pareciam refletir algo mais complexo.
— Vou com você — afirmou, em um suspiro.
— Irei sozinho.
— Sabe que precisa de mim — disse ela com um sorriso insinuante.
— Ah, claro… porque da última vez que você foi em uma aventura, quase foi devorada viva por um berguens graças ao Creeck. Como esquecer? Foi inspirador.
Poppy cruzou os braços, indignada.
— Não fosse por mim, os berguens ainda estariam atrás de todos nós! E tudo acabou bem, se você não se lembra.
— Se “acabar bem” significa quase sermos triturados por uma chefe de cozinha psicótica, sermos perseguidos por toda uma cidade faminta e eu ter que cantar na frente de todo mundo... então, sim, foi uma maravilha.
— Você ficou lindo cantando.
— Eu estava roxo de vergonha.
— Mentira. Você estava roxo porque estava emocionado.
— Estava roxo porque o medo drenou minha alma.
Ela riu.
— Vai continuar resmungando ou vai admitir que foi o momento mais bonito da sua vida?
— Admito que foi o momento mais estressante da minha vida. Mas... — olhou para ela de lado — pelo menos teve uma certa... compensação.
Ela sorriu vitoriosa.
— Sabia. No fundo, você gostou.
— Tenho escolha?
— Nenhuma.
Os amigos, até então calados, reagiram à decisão de partir. Mesmo com a resistência de Tronco, Poppy os convenceu, ela sempre soube como dobrar seu lado cauteloso.
Os trolls coloridos obedeceram à ordem de Tronco e começaram a preparar mochilas com os itens essenciais. Vinte minutos depois, reuniram-se novamente.
Formaram uma fila, com Tronco e Poppy à frente.
— Certo, estão preparados? — perguntou ele, ajustando as alças da própria mochila.
— Estamos! — responderam em uníssono.
— Espera! — disse Bitelo. — Esqueci a bola de pegar do Sr. Dinkles.
— Isso não é importante.
— Para ele é, Tronco — defendeu Poppy.
— Desculpe, mas se ele for engolido por um pássaro comedor de vermes, essa bola não vai servir pra nada — rebateu Tronco, com sarcasmo.
— Então essa mini-Poppy também não serve pra nada? — interrompeu Guy Diamante, mostrando uma boneca de pano com os traços da rainha.
— Olha que fofa! Uma pequena Poppy! — disse Chenille, pegando a boneca.
— É bonita... apesar da costura mal feita — comentou Setim. — Foi você quem fez, Guy?
— Não. Tronco deixou cair da mochila.
O nome dele chamou a atenção geral. Tronco sentiu o sangue gelar. Ficou paralisado por um instante, depois correu até as duas trolls da moda e pegou a boneca de volta.
— Podem levar o que quiserem. Na verdade, todos têm mais cinco minutos pra... ajeitar tudo.
Falou rápido demais. Ajoelhou-se na grama, abriu o zíper e guardou a mini-Poppy de volta na mochila. Isolou-se a alguns metros dos outros.
Poppy o observava com um sorriso singelo. Estava acostumada com o jeito paranoico de Tronco e, por mais estranho que fosse, amava cada pedacinho disso.
Ele amaldiçoou o próprio descuido. Seria difícil explicar a boneca, assim como fora difícil explicar por que guardava todos os convites que recebia. Decidiu ignorar o constrangimento.
— Tronco.
Uma voz rouca o chamou. Ao erguer os olhos, viu o rei Peppy. Levantou-se e ajeitou as alças da mochila.
— Senhor?
O rei o examinou. As rugas ao redor dos olhos, o cabelo rosa com fios brancos e a pele laranja esmaecida entregavam a idade.
— Quero desejar uma boa viagem. Sei que além da vila existem muitos perigos.
Tronco manteve os olhos no rei, intrigado com a preocupação repentina.
— Pode ficar tranquilo, senhor. Poppy ficará bem.
— Eu sei disso. Ela é forte e inteligente. — Disse, apoiando-se na bengala. — Estou falando de você, jovem. Quando decidiu recuperar os instrumentos, percebi algo diferente. Somos trolls... poderíamos fazer novos instrumentos. Mas mesmo assim, você decidiu arriscar. E essa tal Storm... certo?
Tronco permaneceu em silêncio.
— Existe algo mais nessa história, não é? Não precisa explicar. Só espero que não se machuque tentando descobrir.
Tronco não respondeu de imediato. Apertou os lábios. O desejo de reencontrar Storm vinha de um lugar que nem ele compreendia e talvez o desenho da folha na armadura dela. Um símbolo. Um chamado.
— Obrigado, rei Peppy. Mas se eu ficar... nunca saberei quem sou. — Aspirou o ar e soltou devagar. — É melhor me machucar do que viver com essa dúvida.
Seus olhos desviaram do rei e pousaram em Poppy. Ela se aproximava com o sorriso de sempre. Abraçou o pai, depois o olhou com ternura.
Tronco observou a cena com certa tristeza. O afeto familiar, o beijo de boa noite, os conselhos equivocados de um pai... Tudo isso lhe faltava. Mas lembrava-se da avó, ensinando os significados das cores. Para cada lição, uma cor.
Sorriu de leve. Se pudesse escolher uma cor para aquele instante, escolheria o amarelo — o calor, o otimismo, a alegria.
— Vamos, Tronco?
Ela perguntou após se despedir do rei. O cabelo preso num rabo de cavalo balançava com a brisa da tarde, e as sardinhas nas bochechas rosadas brilhavam mais do que o habitual.
Tronco não conseguia se livrar dos sentimentos que fervilhavam dentro de si. Poppy era sua razão de viver. Tudo nela o encantava : o riso doce, a alegria contagiante, a bondade, o talento... até a irritante mania de desafiá-lo.
— Vamos — respondeu, começando a caminhar ao lado dela. Viu-a acenar para o pai antes de continuar.
— Preparado para mais uma aventura, Tronco?
— Claro. Mas ainda acho que seus amigos deveriam ter ficado na vila.
— Eles já sobreviveram a um ataque de Bergen. O que mais poderia dar errado?
Ele revirou os olhos , mas sorriu.
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