11º Andar
5 Contas
Notas iniciais
O funcionário do caixa encarou os dois homens que estavam à sua frente e aceitou o dinheiro sem questionar nada, mas claramente os julgando. Jimin só queria receber o troco logo para sair daquele estabelecimento o mais rápido possível, começando a sentir as mães e os pais atrás dele os julgando também. Ele contou até dez, viu algumas notas finalmente sendo colocadas nas mãos de Yoongi e marchou em direção à porta, quase ajoelhando no meio da rua para agradecer aos céus quando sentiu o ar fresco invadir seus pulmões ao invés do cheiro enjoativo de morango artificial.
“Ok, talvez vir até uma sorveteria feita especificamente para crianças tenha sido uma má ideia.”
Jimin encarou Yoongi de cenho franzido, mas o homem claramente não ligava enquanto afundava sua colher de plástico vermelha no sorvete de baunilha com gotas de chocolate e cobertura de caramelo. Depois de um tempo, Yoongi percebeu que estava sendo fortemente julgado e deu de ombros, começando o caminho de volta até o prédio onde trabalhavam. Fingindo ofensa, Jimin foi atrás com seu sorvete de morango e confeitos de chocolate, quase derrubando sua colher cor de rosa. Yoongi colocou mais um pouco da sobremesa na boca e continuou andando, sem ligar para as pessoas que passavam por ele, julgando um homem com seus trinta anos segurando um pote de sorvete colorido na mão.
“Como você descobriu esse lugar?” Jimin perguntou, finalmente tomando um pouco de seu sorvete. Ele precisava admitir, era realmente delicioso e valeu a pena ser um dos únicos adultos na loja comprando a sobremesa para consumo próprio.
“Meu irmão tem um filho, o moleque gosta de vir aqui quando vem visitar Seul com o pai.” Yoongi deu de ombros, completamente alheio às pessoas que passavam ao lado dele e provavelmente se questionavam por que um homem de terno estava tomando sorvete de criança. “É gostoso, não posso fazer nada.”
Algumas semanas haviam se passado desde a conversa que eles tiveram no carro, e o clima no décimo primeiro andar estava ótimo desde então. A sincronia dos dois era exemplar, e às vezes até mesmo Hoseok se enrolava para falar com seus chefes mesmo depois de anos de amizade e convívio. Jimin descobriu que era muito fácil falar com Yoongi se ambos dessem abertura para um diálogo, e era quase assustador como aquela mudança havia melhorado seu humor drasticamente.
“Você vai ser o homem mais feliz do mundo quando der pra esse cara.” Taehyung comentou enquanto pendurava as roupas para secar, fazendo Jimin engasgar com a água que estava bebendo. “Só de vocês serem amigos você já está desse jeito.”
Para ser sincero, Jimin não pensava mais tanto nisso. Claro, às vezes sua mão queimava de tanta vontade que sentia de deixá-la cair sobre a de Yoongi, apenas para sentir o contato das peles. Ele também permitia que sua mente o levasse de volta à noite do aniversário de Jungkook, quando seus lábios tocaram a nuca de seu chefe e seu corpo foi tomado por um calor inexplicável. Só que ele tentava afastar isso tudo, sabendo quais eram as prioridades de Yoongi, e o que eles tinham combinado que seriam.
Amigos.
Mesmo com esses pensamentos o atormentando às vezes, Jimin conseguia tirar o máximo da amizade que tinha com Yoongi. Eles tinham boas conversas quando arrumavam tempo para pensar em outra coisa que não fosse trabalho, sem contar que uma carona para casa de vez em quando era muito bem-vinda. Era engraçado ver seu chefe – um homem sério com um cargo tão importante e respeitado – se enrolar para pronunciar algumas palavras em inglês junto com os rappers dos quais ele ouvia as músicas. Trazia uma sensação esquisita de conforto, parecido com o que ele sentia quando estava com Hoseok e Jungkook, seus amigos. Era diferente, não exatamente o que ele queria no começo, mas era bom.
A frustração ainda estava lá, martelando sua cabeça nas horas mais inconvenientes, mas não era mais seu foco. Jimin gostava de ouvir Yoongi falando de sua família, de sua época de faculdade, de seus planos para o futuro e até mesmo de algumas decepções amorosas de sua adolescência. Ele tinha um humor peculiar, mas nunca falhava em arrancar uma risada que vinha do fundo do peito de Jimin. Eles davam certo, por mais que parecessem diferentes. Yoongi sabia a hora certa de descontrair e ser divertido, e Jimin sabia quando seu chefe apreciava o silêncio que havia se instalado entre eles.
Talvez fosse um pouco preocupante para seu coração, que às vezes batia um pouco mais rápido quando Yoongi ria sozinho se lembrando de alguma coisa. Jimin não queria pensar nisso. Queria pensar que gostava da amizade deles, da dinâmica deles, e que por mais que nunca fosse saciar sua sede de dar para Min Yoongi, ele acabou ganhando algo muito bom no final das contas.
“Obrigado, boa noite.” Yoongi sorriu para a atendente do drive-thru e colocou o saco com comida no colo de Jimin, quase fazendo-o derrubar tudo. Ele subiu o vidro da janela e suspirou, soltando um som de aprovação logo em seguida. “O cheiro está bom. Eu não lembro quando foi a última vez que comi num fast food.”
“Ainda bem que eu não tenho carro, senão eu viveria só de hambúrguer e batata frita.” Jimin disse e deu um gole em seu refrigerante, ajeitando tudo em seu colo para que Yoongi também tivesse como consumir seu lanche. “Essas coisinhas gordurosas são uma praga, quanto mais eu como, mais vontade de devorar tudo eu tenho.”
“Por isso que eu evito.” Yoongi abriu a boca e olhou de soslaio para Jimin, que entendeu o recado na hora e colocou uma batata frita ali. Ele grunhiu enquanto mastigava, deixando Jimin um pouco mais alerta no banco do carona. “Só essa batata foi uma perdição. A gente vai ter que parar em algum lugar para eu comer meu hambúrguer.”
Era quase terapêutico ficar parado num estacionamento vazio devorando tudo que há de ruim na indústria alimentícia, esquecendo-se de todas as responsabilidades da vida adulta depois de uma longa e estressante semana de trabalho. O cinto de Jimin estava o incomodando desde cedo, sua gravata estava o enforcando mesmo depois dele ter a afrouxado, mas ele se sentia em paz comendo um hambúrguer dentro do carro de uma pessoa que ele havia recentemente começado a considerar como um amigo. Era bom, como toda aquela experiência desde a famosa conversa estava sendo.
“Prometi pra mim mesmo que não iria falar de trabalho, mas eu preciso de um favor muito sério seu na segunda.” Yoongi disse de cenho franzido, julgando-se por começar o assunto mesmo quando ele não queria. “Eu gosto de rever nota fiscal por nota fiscal meus gastos no cartão de crédito antes de pagá-lo, só que segunda eu vou ficar enfiado em um monte de sala de reunião e não vou ter tempo de fazer isso.”
“Tudo bem, eu faço.” Jimin levou seu dedão sujo de ketchup até a boca e o chupou, perdendo totalmente o olhar de Yoongi preso em sua ação. “Eu também faço isso com o meu cartão, então estou acostumado. Só preciso das notas fiscais.”
“Está tudo na minha gaveta, eu te dou a chave para você pegar lá.” Yoongi disse casualmente, mas Jimin sentiu seu coração parar por uma fração de segundo. Ele não sabia que seu chefe confiava tanto nele a ponto de dar acesso a um espaço que poderia ser muito pessoal. “Não precisa fazer essa cara. Não tem nada demais lá, só notas fiscais e mais um monte de papel.”
Eles não tocaram mais no assunto depois disso. Terminaram suas refeições em silêncio – se é que aquilo podia ser chamado de refeição –, Yoongi levou Jimin em casa, desejou-o um bom fim de semana e foi isso. Sem toques, palavras sugestivas, sem nada. Apenas dois bons amigos se despedindo depois de passarem algum tempo juntos em silêncio, aproveitando a companhia um do outro. Jimin suspirou no elevador, pensando sozinho e dando uma risada fraca. Era impressionante como às vezes ele não conseguia ficar satisfeito nem com o máximo que ele poderia ter.
Sábado à noite costumava ser um dia movimentado para Jimin. Ele tinha incontáveis fotos gravadas em seu HD dele e de Taehyung em festas em locais diversos da cidade, mas hoje em dia não tinha muita disposição para sair todo fim de semana. Quando saía, ele ia a um bar novo com seu melhor amigo, deixava que seu corpo se aquecesse com algumas cervejas, depois pegava um táxi para casa e se deitava em sua cama antes da meia-noite. Às vezes Taehyung reclamava dizendo que eles estavam ficando velhos, mas Jimin apenas dava de ombros e concordava, era verdade que eles não tinham mais a disposição da época de faculdade deles.
Só que naquele sábado seria diferente. Jimin estava com uma disposição que não sentia havia anos, e estava pronto para sair de casa a qualquer instante. Taehyung franziu o cenho e riu, colocando seu livro de lado e indo se arrumar, apesar de ainda estar achando o ânimo de seu amigo muito suspeito. Jimin queria sair de casa, ir à alguma boate no centro da cidade e beber até trocar os pés, e se beijasse alguém, seria lucro. Ok, talvez ele quisesse sair justamente para se atracar com pessoas desconhecidas, mas Taehyung não precisava saber de suas intenções – pelo menos não por enquanto.
Quando chegaram ao local, uma boate que eles frequentaram muito na época que ainda saíam todos os fins de semana, Jimin sentiu-se estranho. Todos pareciam jovens demais, dispostos demais, e de repente bateu um cansaço como se a semana inteira de trabalho tivesse resolvido dar o ar de sua graça. Taehyung riu baixo ao ver o biquinho que seu amigo estava fazendo, mas entregou-lhe um drink suspeito e levantou o copo em sua mão, sugerindo um brinde à festa. Jimin suspirou e pegou a bebida, batendo-a de leve contra a de Taehyung, dando os primeiros goles no que ele esperava ser a perdição para sua noite.
Era quase irritante como Taehyung não tinha dificuldade nenhuma em arranjar alguém para ficar, e era definitivamente constrangedor para Jimin ficar segurando o copo de seu amigo enquanto ele estava ocupado demais. As pessoas passavam, olhavam a cena e às vezes até riam, mas nenhuma alma boa chegava em Jimin para acabar com seu constrangimento. Alguns minutos depois, Taehyung pegava a bebida de novo, limpava a boca, e dava alguns goles no álcool e continuava dançando como se nada tivesse acontecido.
Jimin era um pouco tímido de primeira, mas depois do segundo copo, era difícil controla-lo. Qualquer olhar trocado já era motivo para ele se atracar com uma pessoa, e Taehyung nem se dava mais o trabalho de segurar seu drink, largando-o em um canto qualquer e o esquecendo ali mesmo. Jimin não sabia explicar o que acontecia, mas ficar beijando desconhecidos, às vezes trocando carícias maldosas com eles no banheiro, era bom e lhe trazia satisfação. Não só física, mas também emocional. Ele gostava de se sentir desejado, gostava de arrancar reações da pessoa com quem estava ficando, gostava de ouvir um gemido ou um suspiro pesado contra sua boca.
Ele costumava gostar disso tudo, até perceber que nenhum dos sons que ouvia o satisfazia tanto quanto os sons que Yoongi tinha feito na noite do aniversário de Jungkook.
Jimin se separava da pessoa, dava seu melhor sorriso, um selinho rápido, e voltava para onde quer que Taehyung estivesse. Ele realmente não tinha mais disposição para fazer aquilo, pensou enquanto via algumas pessoas ainda se divertindo quando ele já sonhava em deitar em sua cama. Eles não estavam ali havia muito tempo, mas já estavam prontos para ir embora, bastasse que um deles sugerisse. Então quando Taehyung apontou para a saída com a cabeça, Jimin não hesitou em assentir e ir em direção à porta.
Ambos andavam pelas ruas rindo baixo, contando de alguns casos que haviam acontecido na noite. Taehyung contou rindo de uma menina que chorou em seu ombro porque havia terminado com o namorado recentemente, enquanto Jimin contou com uma careta no rosto de um garoto que tentou passar a mão onde não devia, mesmo quando ele já tinha pedido para que ele se afastasse. Eles tinham milhares de histórias como aquelas para contar, juntando tudo de todas as vezes que saíram juntos. Era bom rir com o melhor amigo daquela forma, mas Jimin se sentia estranho, e Taehyung conseguia perceber apenas pela forma como ele olhava para seus pés enquanto caminhava.
“Jimin, se você gosta dele, você sabe que não vai conseguir acha-lo em outras pessoas.” Taehyung disse, sua voz saindo tão baixa que Jimin quase não conseguiu entende-lo. “Não vai ser beijando um milhão de bocas que ele vai sair de sua cabeça.”
“Não é isso.” Jimin mentiu, mas Taehyung deixou que ele continuasse. Talvez ele precisasse de um tempo para aceitar tudo que estava acontecendo – que estava sentindo — antes que conseguisse falar daquilo direito. “É muita frustração acumulada. Eu preciso transar com alguém que não seja você, talvez conhecer uma pessoa nova.”
“Você que sabe, Jimin.” Taehyung sorriu e passou uma mão pelo ombro do amigo, fazendo-o sorrir também. “Você que sabe.”
No fundo, Jimin sabia que seu melhor amigo estava certo. Mas ele era teimoso, queria acreditar que era tudo frustração, que uma boa foda acabaria com todos os seus problemas. Ter a amizade de Yoongi era bom, mas Jimin era egoísta e queria mais do que apenas isso. Ele queria que algum dia, em uma outra festa de aniversário de Jungkook, fosse ele sentado no colo de seu chefe mostrando para todos os convidados que eles eram um casal.
Jimin parou de andar no meio da rua quando se deu conta do que estava pensando.
“Jimin?” Taehyung franziu o cenho. “O que houve?”
“Nada.” Jimin balançou a cabeça e continuou andando, tentando se livrar de todos aqueles pensamentos que invadiram sua mente. “Nada, não houve nada.”
Era a primeira vez que Jimin pensava na possibilidade de ser um casal com Yoongi. Era a primeira vez que ele admitiu para si próprio que aquilo passava por sua cabeça, que era um desejo dele.
Jimin estava ferrado.
**
Segundas-feiras sempre costumavam ser mais cruéis do que Jimin esperava. Ele sabia que não teria tanta coisa para fazer, visto que seu chefe estaria ocupado o dia todo e não ficaria pedindo mil e uma coisas desnecessárias para ele, mas seu emocional estava completamente destruído. Suas pálpebras pesavam na hora de dormir, mas sempre que estava prestes a pegar no sono, seu pensamento de sábado à noite o acordava e ficava o assombrando por minutos que pareciam não terminar nunca.
De manhã, quando Yoongi entregou a chave de sua gaveta na mão de Jimin, o homem foi incapaz de dar um sorriso sincero. Ele deu sorte de seu chefe estar com a cabeça tão ocupada que não percebeu, mas sabia que a qualquer momento Hoseok o perguntaria se havia acontecido alguma coisa. E se não fosse Hoseok, Jungkook passaria em frente à sua mesa e lhe ofereceria um café como forma de conforto, e se não fosse nenhum deles dois, Taehyung o olharia de cenho franzido e exigiria uma explicação para as olheiras que chegavam até seu queixo e a cara emburrada de causar inveja em pessoas que precisavam ficar sérias o tempo todo.
Jimin estava rodeado de pessoas boas, mas nenhuma delas conseguia tirá-lo do estado de negação que ele estava vivendo no momento.
Sua impaciência para viver o dia era perceptível por qualquer pessoa que passasse perto dele, então ninguém o perturbava ou se importava em dizer algumas poucas palavras, com medo de que Jimin se irritasse com o mínimo. Ninguém disse nada quando viu o homem entrar na sala do diretor Min, abrir sua gaveta como se fosso dono do lugar, e remexer em tudo lá dentro em busca de algo que ninguém sabia o que era.
Na cabeça de Jimin, cada movimento seu era muito bem calculado. Entrar na sala, abrir a gaveta, pegar as notas fiscais e sair dali o mais rápido possível. Ele não se sentia bem mexendo nas coisas pessoais de Yoongi mesmo que tivesse a permissão do homem para fazer aquilo, algo o dizia que o que estava fazendo era bem errado. Claro que nada sairia exatamente como ele planejava, porque Jimin achava de tudo naquela maldita gaveta, menos o pequeno envelope que Yoongi disse que estaria lá.
“Merda,” Jimin murmurou e revirou tudo com menos delicadeza que antes, o medo que alguém achasse a cena estranha o atormentando. “Cadê a bosta das no–”
Antes que pudesse terminar sua frase, Jimin identificou o envelope que Yoongi havia mencionado, todas as notas fiscais dobradas e guardadas com cuidado. Só que ele foi incapaz de pegá-lo porque sua mão estava travada no ar bem em cima de um pacote de camisinhas e um tubo de lubrificante. Jimin abriu um pouco a boca, umedeceu os lábios e olhou para os lados, apenas para ter certeza de que ninguém viu o que o grande e temido diretor Min Yoongi guardava. Ele pegou o envelope, fechou a gaveta, trancou-a e tentou apagar da mente a imagem do que tinha acabado de ver.
Foi difícil focar nos números pequenininhos e nas diversas lojas de diferentes lugares onde Yoongi havia feito suas compras, mas Jimin conseguiu manter seus pensamentos parcialmente longe do segredinho de seu chefe. Às vezes ele se distraia e imaginava o que Yoongi fazia com aqueles objetos, e o que estavam fazendo em seu ambiente de trabalho. Jimin piscava os olhos, esfregava as mãos no rosto, tudo para não começar a imaginar coisas que ele não devia. Yoongi era seu amigo, seu superior, e nada além disso. Precisava afastar toda e qualquer ideia errada que seu cérebro poderia lhe dar.
“Jimin, você está bem?”
A voz de Hoseok não devia ter o assustado tanto, mas Jimin pulou na cadeira e segurou um grito, como se tivessem o pegado fazendo uma coisa errada. Ele deu um sorriso amarelo, assentiu e voltou a focar nas porcarias das notas fiscais, ignorando completamente a presença de seu amigo. Hoseok suspirou e saiu dali, sabendo que insistir em falar com Jimin naquele momento não resultaria em nada. Uma hora ou outra talvez ele tivesse sua resposta, mas não naquele momento. Não quando o homem parecia estar tão perturbado e tão pouco focado em sua tarefa.
Certo, tarefa. Ele tinha um trabalho a fazer. Um trabalho bem pessoal, que não tinha nada a ver com a empresa, mas ainda era algo que Yoongi tinha pedido para que ele fizesse. Ou seja, um trabalho. Um trabalho que Jimin precisava fazer. Certo. Ele precisava focar, precisava de foco. Mas e se sua mente divagasse, e se ela o fizesse pensar nos dedos de Yoongi enfeitados com anéis e cobertos de lubrificante, prontos para adentrar seu–
Foco, Park Jimin. Foco.
Com muito esforço, seus pensamentos pararam de tentar distrai-lo e Jimin conseguiu focar nas letrinhas pequenas e nos diversos locais onde Yoongi tinha feito compras. Um café caro, um terno novo, um par de sapatos que custou muito. Pelos seus gastos, Jimin reparou que seu chefe realmente vivia em função de seu emprego, ou fazia compras básicas para sobreviver. Ele nunca gastava muito no mercado, e sempre que comia em algum restaurante caro, Jimin sabia qual era porque ele havia o indicado para levar algum outro diretor para jantar. Era tudo negócios, pouca diversão.
Até que ele começou a notar uma diferença.
Yoongi comprou flores alguns dias depois da conversa que eles tiveram no carro. Depois disso, Yoongi foi a um restaurante que Jimin nunca tinha ouvido falar, mas após uma rápida pesquisa, ele viu que era um local aconchegante, muito frequentado por casais segundo as resenhas que achou na internet. O homem engoliu em seco e fechou a aba, piscando os olhos algumas vezes e voltando a prestar atenção em sua tarefa. Depois das flores e dos restaurantes, Jimin viu que Yoongi havia comprado presentes. Algo dentro dele pareceu despencar, como se a realidade tivesse arrombado a porta de seu coração e tivesse lhe dado um soco.
Claro que Yoongi tinha insistido em manter a amizade, ele estava saindo com outra pessoa. Jimin respirou fundo e tentou voltar à realidade, repetindo várias vezes que tudo estava bem, que ele estava bem, e que droga de ardência era aquela que ele estava sentindo nos olhos? Ele não ia chorar, não, ele não tinha motivos para chorar. Yoongi era seu amigo, nada além disso, e estava saindo com outras pessoas. Jimin deveria ficar feliz por ele, talvez assim Yoongi começaria a sair um pouco do escritório e começaria a viver mais a vida. Ele vivia dizendo que sua prioridade era seu emprego, sua carreira, talvez ele agora conseguisse adicionar alguém à sua lista de prioridades.
Mas, que merda, Jimin queria tanto que fosse ele na droga da lista.
“Jimin, você vai chorar.” Hoseok disse, quase como se tivesse se materializado ao lado do colega de trabalho quando percebeu que algo estava errado. Jimin piscou os olhos e sentiu as primeiras lágrimas escorrendo, sendo incapaz de impedi-las de cair. “Droga, droga, segura um pouco. Vamos ao banheiro, ok? Isso que você está fazendo pode esperar?”
“Pode, pode.” Jimin fungou e tentou secar as lágrimas antes que alguém visse. “Pode esperar, sim.”
“Então vamos.”
Às vezes, Jimin se perguntava qual país ele tinha salvado em sua vida passada para ter pessoas com um coração tão bom em sua vida. Hoseok não hesitou em ajuda-lo quando achou que algo estava errado, e agora estava ali, no banheiro frio do décimo primeiro andar, limpando suas lágrimas pela segunda vez desde que a amizade deles havia se fortalecido. Jimin nunca tinha reparado em como chorava na presença de outras pessoas até então.
“Uma hora você está bem, olhando sei-lá-o-que do Yoongi, e outra hora você simplesmente congela e começa a chorar.” Hoseok disse com um sorriso de canto no rosto, claramente numa tentativa de animá-lo. “Quer me contar o que aconteceu?”
“Hoseok hyung, já era.” Jimin engoliu em seco e olhou para o teto, fazendo o que podia para impedir as lágrimas chatas de caírem. Ele já estava ficando cansado de seus próprios sentimentos o fazendo passar vergonha. “Já era, sério, eu...” Jimin suspirou e abaixou a cabeça, encarando Hoseok. “Eu gosto dele, hyung.”
“Você mesmo disse que não podia se dar esse luxo.” Hoseok passou uma mão no braço do amigo, oferecendo o conforto que podia naquele momento. “O que houve?”
“Não dá para controlar essas coisas.” Jimin negou com a cabeça, parecendo com uma criança explicando alguma coisa para os pais. Hoseok soltou uma risada nasalada, mas deixou que o amigo continuasse. “Eu tentei, eu juro. Nós somos amigos agora, eu sei muito mais dele do que eu sabia quando nós tínhamos aquela coisa acontecendo, mas... Não é o suficiente, hyung.”
Hoseok respirou fundo e olhou para os quatro cantos do banheiro, pensando em algo. Jimin queria manter sua atenção focada nele, mas admitir para si próprio e para o amigo que gostava de Yoongi fazia tudo ser real demais. Agora era real demais, e ele ainda não sabia lidar. Ele estava atordoado, pensando no que faria, como esconderia, e como não misturaria as estações se Yoongi fosse gentil demais com ele, como às vezes era. Quando Hoseok pigarreou e Jimin foi puxado de volta à realidade, prestando atenção no que ele estava prestes a dizer.
“Tem uma pessoa muito, muito especial na minha vida que nem sempre foi minha.” Hoseok franziu o cenho com suas próprias palavras e balançou a mão, como se estivesse tentando apagar o que havia dito. “Essa pessoa não é minha, ela não me pertence, mas ela faz parte da minha vida agora. Nem sempre foi assim, sabe? Nós tivemos algumas complicações. Ela não gostava de mim, eu sabia disso, e eu nunca forcei nada. Nós éramos amigos acima de tudo, e a pessoa gostava de me lembrar disso sempre. Eu acho que ela já entendia que eu estava apaixonado, mas não queria me dar um fora sem saber se ela estava certa.” Hoseok soltou uma risada com a memória, fazendo Jimin abrir um pequeno sorriso. “Com o tempo, isso foi mudando. Eu percebia como a pessoa me olhava às vezes, e eu sempre fazia questão de devolver o olhar na mesma intensidade. Aconteceu. Sem forçar nada, só foi. Hoje eu não consigo me imaginar sem ela, e ela já me disse que não consegue imaginar uma vida sem mim.”
“Isso é muito bonito, hyung.” Jimin abriu um sorriso e secou suas lágrimas, que já não caíam mais como antes. “Eu por acaso conheço essa pessoa?”
“É claro.” Hoseok deu uma piscadela, arrancando uma gargalhada fraca de Jimin. “E ela adorou o presente de aniversário que você deu. Agora, você entendeu onde eu quero chegar? Pode parecer ruim agora, mas quem sabe no futuro as coisas não mudam?”
“Você por acaso sabe de alguma coisa que eu não sei sobre o Yoongi, hyung?” Jimin arqueou uma sobrancelha.
“Não, e mesmo se eu soubesse, eu não te falaria.” Hoseok deu de ombros. “Tiraria a graça da coisa. Se alguém souber de alguma coisa, esse alguém é Kim Seokjin. Sério, ele e Yoongi confiam um no outro para contar tudo.”
“Anotado.” Jimin riu e deu uma fungada, secando de vez a última lágrima. Hoseok fazia milagres quando se tratava de melhorar seu humor. “Muito obrigado, hyung. Prometo parar de chorar no banheiro depois de hoje.”
“Não precisa prometer nada.” Hoseok riu e colocou um braço em volta do ombro de Jimin, conduzindo-os em direção à saída. “Se quiser chorar, chore. Eu vou estar aqui.”
Quando Jimin voltou a se sentar em sua cadeira, vendo nota por nota as evidências de que Yoongi estava saindo com alguém, ele se sentia um pouco mais leve. Ainda tinha uma pequena parte dele que estava triste, mas ele achou melhor ignora-la pelo menos por enquanto. O dia foi corrido como sempre era, o almoço sendo o momento mais relaxante, e quando se deu conta, Jimin já tinha terminado todas as suas tarefas e o céu já estava escuro lá fora.
Ele se espreguiçou na cadeira, ouviu seus ossos estalarem de forma gostosa e soltou um barulho estranho com a boca, fazendo Hoseok pular em seu lugar. Jimin deu uma risada fraca e começou a arrumar suas coisas, sem pressa de nada. Se estivesse correto, a última reunião do dia de Yoongi estava prestes a acabar, e ele iria para casa um pouco mais cedo do que ele já tinha se acostumado. Um funcionário exemplar, como ele sempre ouvia de seus superiores.
“Ei, Jimin.” A voz grave de Yoongi invadiu os tímpanos do homem, fazendo-o ficar mais alerta, ao mesmo tempo em que podia derreter a qualquer momento. Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, sentiu um toque familiar em seu ombro e tentou evitar que seus músculos enrijecessem, surpreso. “Já está indo para casa?”
Jimin queria responder rápido com a voz calma e serena, mas a mão em seu ombro o impedia. Ele já esteve naquela situação antes – sentado em sua cadeira, com Yoongi dizendo algumas coisas ao pé de seu ouvido, a mão pesada parecendo tão suave repousada em seu ombro. Engoliu em seco e assentiu, sem confiar em sua voz para dar uma resposta que não denunciasse seu nervosismo. Logo, como se soubesse exatamente o que estava causando em Jimin, Yoongi colocou sua outra mão no outro ombro do homem, apertando o local duas vezes, e removeu as duas em seguida.
“Ok, vou só pegar a chave do meu carro na minha gaveta e nós vamos.” Yoongi apontou para a porta de vidro, e Jimin só assentiu de novo, ainda um pouco mexido com o que tinha acabado de acontecer. “Ah, você pegou as notas? Não nos falamos o dia inteiro, não tive tempo de perguntar.”
“Sim.” Jimin finalmente achou sua voz para responder, limpando a garganta e ignorando o olhar atento de Hoseok não muito longe dali. “Está tudo certo e tudo pago, não se preocupe.”
Yoongi apagou as luzes, saiu de sua sala e abriu um sorriso simpático, sem nem perceber o redemoinho que passava pela cabeça de Jimin durante a conversa. Ele agradeceu aos céus por Yoongi não ser a pessoa mais falante do mundo, porque ele não teria capacidade de manter uma conversa dentro do carro enquanto eles iam para casa. Despediram-se com poucas palavras, e logo Jimin se encontrou sozinho dentro de seu elevador, ainda com a respiração irregular por algo que parecia ser tão bobo.
Era a primeira vez que Yoongi o tocava propositalmente desde o incidente do aniversário de Jungkook. Podia não significar nada, ou podia ser só um sinal que ele estava mais confortável com a amizade de Jimin. O homem suspirou aliviado, decidindo que focaria naquilo e nada além daquilo. Amigos. Eles eram amigos, e apenas isso. Sem forçar nada, exatamente como Hoseok havia dito.
Mas e se...
E se aqueles toques estivessem de volta? E se as mãos deslizando por braços, o toque súbito de dedos, os leves afagos de incentivo estivessem de volta? E se, mesmo com todo o papo de ser apenas amigos, Yoongi queria aquela intimidade de volta tanto quanto Jimin? Por Deus, ele surtaria. Ele queria mais do que tudo sentir uma mão firme em sua cintura enquanto explicava alguma coisa na planilha, queria um aperto leve em seu ombro no fim do dia, um simples esbarrar de dedos já era suficiente.
Jimin queria tudo. Ele era egoísta, ele queria a amizade de Yoongi, queria seus dedos deixando marcas invisíveis em sua pele, queria sentir de novo como se ele o pertencesse. Ele queria o que tem agora, e o que tinha antes de tudo dar errado.
Era definitivo.
Jimin estava realmente gostando de Yoongi.
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