Notas iniciais
Perdoem qualquer erro e boa leitura. ♥

Jimin decidiu não ser deixado para trás.

Na verdade, não foi bem assim. Taehyung tinha ouvido suas lamentações sobre estar gostando de seu chefe, sobre as notas fiscais, sobre os supostos encontros que Yoongi tinha, e decidiu que seu amigo não podia deixar aquilo passar. Se depois do que tiveram – seja lá o que tenha sido, nem eles sabiam o que era – Yoongi era capaz de comprar flores e levar alguém para jantar, então Jimin seria capaz de fazer o mesmo.

O problema era que Kim Taehyung às vezes atrapalhava quando tentava ajudar. Jimin estava contente vivendo sua solteirice, gostava de chegar em casa para reclamar sobre a vida com o melhor amigo. Talvez ele estivesse sem transar com alguém diferente havia um tempo, mas isso eram apenas detalhes, não é como se sexo fosse essencial em sua vida. Ele podia resolver todos os seus problemas passando alguns minutos a mais no chuveiro, mesmo que a conta de água viesse mais cara no fim do mês. Jimin gostava de passar domingos à tarde bebendo vinho e reclamando da programação da televisão aberta, quem disse que ele queria achar alguém para passar o dia abraçadinho sem pensar em responsabilidades?

“Eu disse.” Taehyung colocou uma jaqueta por cima de sua camiseta, tentando esconder a mancha de molho barbecue que nunca saiu do tecido. “Agora, será que você poderia fazer o favor de me acompanhar? Eu prometi ao Daewon que estaria em frente à casa dele em quinze minutos, e nós já estamos atrasados.”

“Pela milésima vez, eu não vou com você e meu antigo colega de trabalho na merda da loja de construção para nós nos conhecermos melhor.” Jimin disse de braços cruzados, fazendo força para baixo, tentando fazer com que a gravidade o ajudasse a ficar plantado no sofá. “Sério, loja de construção? Não tinha melhor lugar para eu seduzir o cara, não é mesmo?”

“Eu fiquei de ajuda-lo a comprar uma mesa de centro, agora será que você poderia colaborar?” Taehyung tentou puxar o amigo, mas Jimin era bem insistente quando queria. Talvez ele tivesse feito contato acidental com os deuses da física e a gravidade estava mais forte nele. Taehyung choramingou. “Daewon é gente boa, nós almoçávamos com ele de vez em quando, lembra? Vamos lá, Jimin. Eu estou fazendo isso pelo seu bem.”

“Eu não quero pensar em um dia namorar o Daewon.” Jimin fez careta só de imaginar a cena. Ele definitivamente preferia beber vinho sozinho nos domingos à tarde. “Acho que ele nem gosta de homens, Tae.”

“Ninguém gosta de homens até ver sua bunda, Jimin.” Taehyung suspirou, e com sua fala, conseguiu deixar o amigo tão perplexo que o levantou do sofá sem cerimônias. “Acredite em mim, eu sei exatamente como descobri minha sexualidade.”

Enquanto Taehyung dirigia, Jimin ficava no banco do carona tocando sua parte traseira ocasionalmente, pensando sozinho se era realmente aquilo tudo que seu amigo havia dito. Descobrir sexualidade? Devia ser exagero. Ele até tinha esquecido que estava a caminho de tipo-um-encontro com Daewon na droga da loja de construção, e que de agora em diante, Taehyung não descansaria enquanto não arrumasse um pretendente para o amigo se esquecer de seu chefe de uma vez por todas.

Obviamente, a ideia foi um fracasso. Jimin estava emburrado o tempo todo, Daewon tentava puxar assunto apenas por educação, e Taehyung conseguia sentir o suor de nervoso escorrendo por sua testa. Foram as duas horas mais desconfortáveis da vida daqueles homens, mas todo mundo estava fingindo muito bem – menos Jimin – que tudo estava indo às mil maravilhas, como se eles não tivessem nada melhor da vida para fazer. No final do dia, pelo menos a mesa havia sido comprada e Daewon parecia satisfeito o suficiente com sua aquisição. Jimin não estava nada contente, e não fazia questão de esconder.

Depois do fracasso da loja de construção, Jimin achou que seu melhor amigo desistiria daquela ideia ridícula e o deixaria em paz. Só que é claro que isso não aconteceu, porque Kim Taehyung nunca desistia, principalmente quando tinha uma ideia idiota na cabeça e queria leva-la adiante. Então, depois de Daewon, foi a vez de Jongsoo, um homem simpático que aparentemente havia sido colega de classe de Taehyung na época da faculdade por apenas um período.

De primeira, Jimin ficou relutante. Ele realmente não estava interessado em sair com ninguém no momento, preferia muito mais passar o dia se perguntando o que ele havia feito de errado em relação ao seu chefe, obrigado. Mas Jongsoo tinha um sorriso bonito e um ar agradável, então, depois de Taehyung insistir muito, Jimin aceitou ir ao tal reencontro da faculdade que o homem tinha inventado. Não poderia ser tão ruim, certo? Não poderia ser o desastre que tinha sido com Daewon.

Quando se encontraram, Jimin levou um susto. Jongsoo parecia que ficava ligado na tomada o tempo todo, lembrando-o um pouco de Taehyung e até mesmo Hoseok. Dava para ver porque eles tinham se dado tão bem no único semestre que estudaram juntos na faculdade. Sua presença era agradável e seu sorriso era ainda mais bonito ao vivo, mas mesmo com todas aquelas qualidades, a mente de Jimin insistia em pensar em um ‘porém’ que nem existia.

Ele era muito legal, porém parecia forçado demais.

Ele era muito sorridente, porém aquela animação toda o cansaria alguma hora.

Taehyung estava sentindo que o amigo não estava cem por cento contente com aquele encontro, então deu uma desculpa de que precisava sair mais cedo para resolver problemas de família e precisava da ajuda de Jimin. Eles ficaram em silêncio no caminho de volta para casa, mas Taehyung já tinha uma ideia do porquê e não queria insistir no assunto para não chatear Jimin mais do que ele já parecia estar chateado.

“Você sabe que eu estou tentando fazer isso pelo seu bem, né?” Taehyung tentou iniciar um assunto, mas Jimin não estava muito a fim de conversar, apenas grunhindo em resposta. “Eu me preocupo com você, Jimin. Já te vi de coração partido antes, não quero ver de novo.”

Jimin não estava de coração partido. Ele estava levemente decepcionado porque a primeira pessoa por quem teve um interesse romântico em meses o rejeitou, mas ele não estava de coração partido. Eram duas coisas diferentes. Também não queria procurar em outra pessoa o que ele não conseguiu com Yoongi, por isso estava com o humor tão horrível nos últimos dias. Jimin só queria beber vinho e ficar em paz. Só isso.

Mas um encontro com um tal de Kihyun veio, e Jimin não conseguiu escapar. Dessa vez, Taehyung decidiu que seria melhor deixá-los sozinhos, já que talvez ele estivesse atrapalhando o fluxo da conversa com sua presença. Jimin disse que a culpa não era do amigo, que ele próprio que não dava uma chance para os homens com quem saía. Só que Taehyung era insistente, e tudo que ele mais queria era ver seu amigo bem, sem curtir a solteirice com vinho aos domingos à tarde.

Certo, Jimin não estava nem um pouco a fim de perder mais um precioso sábado em um encontro, mas Kihyun era agradável. Ele sabia respeitar seu espaço pessoal, sabia a hora de ouvir e a hora de falar, e principalmente era muito educado. Seu sorriso era bonito, tinha um charme quase irresistível, e ele fez o milagre de arrancar uma risada sincera de Jimin mais de uma vez durante o jantar. Tinha sido um sucesso, melhor do que os outros rapazes que Taehyung havia arranjado para ele.

Então eles marcaram um segundo encontro.

Um terceiro.

Um quarto encontro, na casa de Kihyun, terminando a noite com um sexo fantástico que fez Jimin se sentir uma nova pessoa.

Mas estava tudo morno, tudo mais ou menos, e Jimin não se sentia muito sincero quando passava seu dia ao lado do homem. Então eles terminaram o que nem haviam começado direito com um beijo rápido de despedida, um pedido de desculpas, e um sorriso triste de Kihyun que faria com que Jimin se sentisse um lixo pelo resto da semana.

“Aconteceu alguma coisa com você?” Yoongi perguntou de cenho franzido, cortando Jimin no meio de seu discurso sobre agendamento de visitação da nova filial em outra cidade no final do mês. “Você anda meio... para baixo.”

“É coisa da vida pessoal.” Jimin tentou abrir seu melhor sorriso, mas sabia que Yoongi não se convenceria com aquilo. Ele precisava pensar rápido para sair daquele assunto, mas não sabia o que falar. “Não se preocupe comigo, vai passar. Foi só... Um desentendimento, mas não foi com ninguém muito importante.”

“Tem certeza?” Yoongi colocou uma mão no ombro de Jimin, fazendo o homem segurar sua respiração e assentir, desesperado para que aquele momento acabasse de uma vez por todas. Yoongi apertou o local e deslizou a mão pelo braço de Jimin, sem ter ideia do tumulto interno que ele estava causando. “Nós somos amigos, você sabe disso, né? Tudo bem, nós ainda temos a relação do trabalho, mas você pode contar comigo se precisar de alguma coisa.”

Jimin assentiu e voltou a falar da filial recém-inaugurada em Busan, ganhando a atenção de Yoongi para o que realmente importava. Dentro de sua cabeça, ele ainda pensava em todos os motivos para estar daquele jeito, pensava que o culpado de tudo era tecnicamente Yoongi. Sem ele, Taehyung nunca teria feito Jimin sair com Kihyun, e ele nunca teria se sentido mal por uma pessoa que nem gostava de fato. Sem ele, Jimin não se sentiria mal por causa de algo tão simples quanto notas fiscais.

As mesmas notas fiscais que ainda apontavam para encontros, para flores compradas, para tudo que Jimin queria afastar de seus pensamentos.

“Pela última vez,” Yoongi segurou a mão de Jimin antes que ele pudesse sair do carro, soltando um suspiro antes de terminar sua fala. “Você pode contar comigo. Eu me preocupo com você, e te ver para baixo quando eu estou acostumado a te ver sempre animado chega a doer meu coração.”

“Você está sendo dramático demais, hyung.” Jimin deu uma risada e, por mais que soubesse que não deveria, segurou a mão de Yoongi de volta e fez um carinho, vendo um sorriso minúsculo se abrir no rosto de seu chefe. “Eu estou bem. E se eu não estivesse, eu ficaria. Obrigado pelo carinho.”

“Disponha.”

Quando Jimin passou pela porta da frente com um sorriso enorme no rosto, Taehyung suspirou e murmurou para si mesmo que o amigo realmente não tinha jeito. Àquela altura, só tinha uma pessoa que o deixaria parecendo com um adolescente apaixonado, fazendo Taehyung se perguntar por que ele ainda tentava distrair Jimin se nem ele mesmo tentava se ajudar.

As semanas foram passando, e Jimin sentia seu humor melhorando agora que não tinha mais encontros com pessoas que ele não queria ver. Só que sua felicidade nunca durava muito quando Taehyung tinha uma ideia, e em um belo sábado ensolarado, Jimin tinha um encontro marcado com um cara chamado Minho; alto, bonito, forte e principalmente, segundo Taehyung, tinha uma piroca de dar inveja em qualquer homem.

Como Taehyung havia descoberto aquilo, Jimin não queria saber, mas algo acendeu dentro de si e ele concordou na hora com o encontro. Seu melhor amigo ficou espantado com o fato dele não ter sido contra a ideia em momento algum, e como resposta, Jimin apenas deu de ombros e disse que estava precisando transar. Então ele pulou do sofá, tomou o melhor banho de sua vida, e disse que estava pronto duas horas depois.

Minho foi extremamente gentil. Parecia que ele tinha saído de um filme, o homem dos sonhos que fazia as mulheres de meia idade babarem e se perguntarem por que seus maridos não eram iguais. Até mesmo Jimin, que tinha sido oposto a quase todos os encontros que havia tido até então, estava gostando da companhia daquele homem simpático. A cada gole que dava em seu vinho, perguntava-se onde Taehyung havia arrumado aquele ser humano e fazia um lembrete em sua mente de agradecê-lo por ter o apresentado aquele deus grego.

Os dias passavam corridos ao lado de Minho, e era verdade, sua piroca era de dar inveja em qualquer homem. Jimin estava realmente feliz com ele – diferente de Kihyun, que apesar de ser muito legal, não o fazia se sentir bem daquele jeito. Com Minho, Jimin sentia que estava sendo sincero e dando tudo de si. Jimin conseguia ver um futuro interessante ao lado dele, e com o passar do tempo, veio o tão esperado pedido de namoro.

Mas.

Porém.

Jimin não conseguiu dizer sim. Novamente, ele se sentiu um lixo por ter rejeitado outro homem maravilhoso que o tiraria da fossa, mas não conseguia aceitar. Ele não estaria sendo totalmente honesto com si próprio se aceitasse aquele pedido. Minho levou tudo tão numa boa que Jimin quase se arrependeu de dizer não, mas tudo que fez foi pedir desculpas, e deseja-lo boa sorte na vida. Sugeriu que fossem amigos, mesmo sabendo que não daria certo. Minho riu, deu um último beijo em Jimin e saiu de seu apartamento o desejando boa sorte também.

Quando Taehyung o perguntou o que tinha dado nele para dispensar um homem feito Minho, Jimin apenas suspirou, e naquele ato tão simples estava a resposta que Taehyung já sabia antes mesmo de perguntar.

Minho podia ser maravilhoso, mas ele não era Yoongi.

Ele podia ser alto, mas Jimin queria alguém do seu tamanho.

Ele podia ser divertido, mas ele gostava mais de um humor sarcástico.

Ele podia ter o sorriso lindo, mas não tinha um sorriso adorável que mostrava sua gengiva.

Ele podia ser quem ele fosse, mas não era Yoongi.

Só isso já era suficiente para Jimin recusar qualquer futuro que ele quisesse ao seu lado. Taehyung já estava ficando cansado daquela história, dizendo que tentava fazer de tudo para ajudar o amigo, mas ele não colaborava. Era verdade. Jimin não colaborava porque não queria colaborar, não queria outras pessoas para preencher o vazio que ele sabia que só Yoongi preencheria, e estava cansado de insistir em uma coisa que nunca teve muito fundamento para ele. Não queria mais sair com ninguém para tentar fingir que não sentia nada pela última pessoa por quem ele podia sentir alguma coisa.

“Toma, seu favorito.” Yoongi chegou no escritório depois do almoço com dois copos de milk-shake na mão, um já na metade e outro completamente cheio. Jimin franziu o cenho, mas aceitou a sobremesa, pedindo com o olhar uma explicação. “Eu não sou idiota, muito menos cego. Você está mal, mas não quer falar, e não tem problema! Só queria fazer um agrado, gosto muito mais do seu sorriso do que da sua cara emburrada.”

“Pois eu digo o mesmo para você.” Jimin sorriu com o que tinha ouvido, e Yoongi acabou sorrindo também, mas se deu o trabalho de tentar esconder. “Tão fofinho com o sorriso mostrando a gengiva, quase me faz esquecer quando ainda me tratava mal.”

“Ei, para com isso.” Yoongi fez um biquinho como uma criança mimada e Jimin riu, dando um gole de seu milk-shake enquanto piscava seus olhos, claramente debochando de seu chefe. “Vamos lá na minha sala, quero conversar em particular com você.”

Àquela altura, Jimin não tinha mais medo das conversas particulares na sala de Yoongi. Ele ficava nervoso porque era só eles dois ali dentro e nada podia salvar Jimin de um possível constrangimento. Então, em silêncio, os dois foram para o espaço que de privado não tinha nada porque todas as paredes eram de vidro, e ficaram lá se encarando por incontáveis segundos. Yoongi olhava para Jimin esperando que ele dissesse alguma coisa, desse respostas para as perguntas que ele ainda nem tinha ouvido. Jimin olhava para Yoongi com medo de responder coisas que ele não queria falar sobre, não queria nem pensar sobre, mas lá estava ele.

Lentamente, Yoongi caminhou em direção à persiana que ele pediu para colocarem nas paredes de sua sala, exigindo o mínimo de privacidade caso precisasse. Ele olhou para os lados e as fechou, e enquanto isso, Jimin sentia seu coração batendo com força porque aquilo não podia significar coisa boa. Não que ele fosse ser demitido, ou fosse levar alguma bronca, porque ele sabia que Yoongi não ia ligar se alguém do lado de fora visse a cena. Se ele estava se isolando do resto do andar, queria dizer que ele faria algo que ninguém podia ver.

Com passos rápidos, Yoongi voltou para onde estava antes, e não encarou Jimin dessa vez. Tudo que ele fez foi colocar seus braços em volta do pescoço do homem mais novo e esperar uma reação. De primeira, Jimin arregalou os olhos e considerou perguntar o que diabos estava acontecendo. Aos poucos, ele foi relaxando. O perfume de Yoongi junto com seu corpo quente estavam o fazendo derreter e ele não se lembrava de quando tinha sido a última vez que se sentiu tão em paz. Jimin sentiu suas mãos subindo pelas costas de Yoongi, aconchegando-se mais no abraço dele e respirando fundo. O homem mais velho soltou um murmúrio e levou uma mão ao cabelo de Jimin, acariciando-o na área e descendo a outra para o meio das costas dele.

“Não precisa me contar o que aconteceu.” Yoongi disse com a voz bem baixinha, sem querer assustar Jimin. O ambiente estava tão calmo que até mesmo os sons da cidade grande que vinham do lado de fora eram relaxantes, e Jimin se pegou fechando os olhos e enterrando seu rosto no pescoço de Yoongi. “Só quero fazer você se sentir bem. Você se sente melhor agora?” Jimin concordou com a cabeça, e Yoongi soltou uma risada fraca. “Que bom. É só isso que eu quero. Só quero te ver bem.”

O abraço durou alguns bons minutos, mas eles precisavam voltar ao trabalho. Jimin sentia-se renovado, não ia mentir, e mal podia acreditar que aqueles toques que ele tanto gostava tinham voltado, até mesmo com mais intimidade. Não a intimidade que Jimin esperava, mas ainda assim, foi bom. Foi ótimo. Ele ainda conseguia sentir o perfume de Yoongi em sua roupa, e ficou um bom tempo debatendo em sua mente se deveria ou não colocar a camisa para lavar assim que chegasse em casa. Yoongi deu um sorriso, levantou suas sobrancelhas e mandou que Jimin checasse sua agenda para depois do almoço. Ele não ligou, apesar do lembrete indireto do que eles realmente eram. Aquele gesto de carinho tinha o deixado tão feliz e tão calmo que nada seria capaz de irritá-lo por horas.

À noite, quando todos já tinham ido embora, Yoongi se posicionou atrás da cadeira de Jimin e colocou uma mão em seu ombro e a outra em seu cabelo, acariciando ambos e falando baixinho para que não desconcentrasse o homem. Jimin respondia no mesmo tom, contando o que tinha feito durante o dia e o que estava fazendo no momento. Yoongi ouviu tudo com atenção, inclinou-se até sua boca estar na altura da orelha de Jimin e sugeriu que eles fossem para casa, todo aquele trabalho poderia esperar até o dia seguinte. Sinceramente, quem era Park Jimin para negar um pedido feito daquela maneira? Ele assentiu e sentiu a mão grande de Yoongi apertar seu ombro de leve, dando o assunto e o momento como encerrado.

No dia seguinte, de manhã, Jimin entregou um copo de café na mão de Yoongi e sentiu como as pontas dos dedos de seu chefe tocaram as suas por tempo demais, tempo desnecessário. Ambos sorriram e desejaram um bom dia um ao outro, seguindo com suas tarefas como sempre faziam. Se os dois se distraíram demais enquanto realizavam seu trabalho, ninguém comentou ou contestou, achando melhor que desse o espaço que eles queriam e precisavam.

Taehyung perguntou a Jimin o que tinha acontecido para ele estar tão sorridente, e depois de uma breve explicação, o homem riu e disse que seu amigo realmente não tinha jeito. Hoseok se juntou a eles pouco depois e lançou um olhar preocupado para Jimin quando ouviu a história de novo, mas não mostrou muito sua opinião porque sabia que não estava em posição de fazer aquilo. Ainda. Caso as coisas saíssem do controle, seria capaz até de Jungkook dar uma opinião quanto ao assunto.

“Uva de sobremesa?” Jimin colocou sua melhor expressão de confusão no rosto e cruzou os braços, andando em direção à mesa de Yoongi, checando se a persiana estava fechada mesmo. “Está de dieta?”

“Um cara não pode resolver ser saudável uma vez na vida em paz?” Yoongi disse indignado, fazendo Jimin rir um pouco. Ele riu também e colocou mais uma uva na boca, mastigando de forma grosseira com direito a boca aberta e tudo. “Tudo bem, confesso, resolvi começar a economizar no sorvete.”

“Entendi.”

Jimin sentou-se na cadeira disponível para possíveis visitantes ainda de braços cruzados, e encarou Yoongi como quem não queria nada. Eles ficaram naquela troca de olhares por um bom tempo, às vezes desviando o olhar, às vezes rindo ou se ajeitando na cadeira para ficarem mais confortáveis, sem fazer nada de fato. Em algum momento, Jimin resolveu testar as águas e abriu a boca, botou a língua um pouco para fora e apontou para o músculo. Yoongi congelou em seu lugar por uns segundos, abriu um sorriso de canto e se inclinou para frente com uma uva entre seus dedos. O movimento foi rápido, mas pareceu durar demais. Jimin fechou os lábios em volta da uva e também das pontas dos dedos de Yoongi, que assistia à cena com muita atenção. Sua língua pegou a fruta com delicadeza, mas ainda tocando a pele de Yoongi. Lentamente, ele afastou sua cabeça e soltou o indicador de seu chefe, que encarava tudo com os olhos brilhando, e começou a mastigar com um sorriso no rosto.

“Nossa,” Jimin disse ao terminar de mastigar, ignorando completamente como Yoongi ainda estava o encarando. “Adoro uva.”

“É,” Yoongi assentiu, seu rosto sério, mas não totalmente inexpressivo. “Eu também adoro uva.”

Os dias foram passando e o clima continuou daquele jeito. Jimin não sabia o que era, mas era diferente de antes deles brigarem. Agora era muito mais íntimo e mais ousado, mas Yoongi não hesitava em momento algum. Não ia para trás, não evitava o toque, não saía correndo como havia feito no aniversário de Jungkook. Eles não sabiam porque tinham voltado àquele estado se tinham combinado de ser apenas amigos, e Jimin não sabia o que havia influenciado Yoongi a esquecer toda aquela baboseira que eles haviam conversado no carro. Só sabia que agora estava acontecendo, e ele não reclamaria.

“Yoongi hyung,” Jimin sentou-se na cadeira em frente à mesa de Yoongi, apoiou seus cotovelos na superfície e colocou seu rosto entre suas mãos, espremendo suas bochechas e arrancando uma risada de seu chefe. “Vai me dar uma carona hoje?”

“Claro, por que a pergunta?” Yoongi tirou os olhos do computador para encarar Jimin. “Você nunca precisou me pedir, aliás. Sou sempre eu que tenho que insistir para ter sua companhia.”

“Resolvi perguntar hoje.” Jimin saiu de sua posição e encostou-se às costas da cadeira, dando de ombros. Yoongi voltou a prestar atenção na tela de seu computador, pensando que o assunto estava encerrado. Jimin deu um sorriso e se levantou, posicionando-se atrás de seu chefe e colocando uma mão delicada em seu ombro, curvando-se para frente para sussurrar na orelha de Yoongi. “Só queria ter certeza.”

“Hmmm,” Yoongi murmurou com a boca fechada sem tirar a atenção de seu trabalho, mas relaxando com o toque de Jimin.

“Quer uma massagem, senhor Min?” Jimin voltou a sussurrar, colocando sua outra mão no ombro de Yoongi, apertando levemente o local.

“Você não tem trabalho a fazer?” Yoongi perguntou, mas seu tom não era para afastar Jimin. Era divertido, como se estivesse brincando com ele. “Porque eu estou bem ocupado agora.”

“É uma pena.” Jimin se afastou e pôde ouvir Yoongi soltando a respiração. “Mais tarde eu volto então. Sempre tem alguma coisa para fazer, não é mesmo?”

A verdade era que Jimin tinha trabalho a fazer, mas agora com a liberdade que havia ganhado recentemente, achava mais divertido ir mexer com a cabeça de Yoongi do que ficar sentado em sua cadeira sentindo suas costas doendo cada vez mais com o passar dos minutos. Ele ainda sabia separar as coisas, mas precisava de uma distração de vez em quando e seu chefe andava sendo a melhor de todas. Hoseok viu Jimin saindo da sala de Yoongi e franziu o cenho, mas sem julgá-lo. Eles já estavam em um estágio da amizade que apenas um olhar significava mil palavras – daquela vez, Hoseok só queria saber o que tinha acontecido para Jimin passar tanto tempo na sala do chefe.

Eles ficaram em silêncio em suas mesas, teclando, discando números, falando línguas diferentes, bufando e procurando soluções para problemas que outras pessoas incompetentes causavam. As coisas no décimo primeiro andar aconteciam rápido demais; num segundo eles podiam estar em paz, no outro o mundo estava prestes a acabar e era responsabilidade de Jimin e Hoseok consertar tudo. Por alguns momentos eles esqueceram que tinham que conversar, esclarecer tudo que estava acontecendo. Até porque nem Jimin sabia exatamente o que era aquela situação, e não sabia como contar aquilo a seus amigos.

Como Yoongi havia feito com ele no aniversário de Jungkook, Jimin se levantou de sua cadeira, olhou para Hoseok e apontou na direção do banheiro. O homem assentiu e levantou uma mão, pedindo para que ele esperasse um pouco que assim que estivesse disponível, iria lá para saber o que tinha acontecido.

“Desde que Yoongi conseguiu a persiana, ela vive fechada.” Hoseok disse assim que confiscou cada cabine do banheiro, assegurando de que estavam sozinhos ali. “Você entra muito mais lá, vocês saem muito mais tarde daqui. Quer me contar o que houve?””

“Aquele lance que a gente tinha voltou, só que tipo, diferente?” Jimin disse se olhando no espelho, percebendo como sua aparência estava melhor em comparação a algumas semanas antes. “Ele fala mais e me dá mais liberdade, é menos misterioso e mais... sensual?”

“Hm,” Hoseok coçou o queixo e olhou para o reflexo de Jimin também, pensando no que tinha acabado de ouvir. “Bom, eu definitivamente não sei qual é a de vocês dois. Mas você já sabe meu conselho, não é mesmo? Tome cuidado. Nós estamos falando do homem que prioriza o trabalho, e eu não quero te ver para baixo de novo.”

“Nessas horas é fácil de esquecer sentimentos.” Jimin deu de ombros e Hoseok deu uma risada, balançando sua cabeça. “Além disso, eu só estava daquele jeito porque me dei conta do que eu sinto por ele. Não vai mais acontecer. E se acontecer, pode me dar uns sacodes. Nem eu me suporto quando fico assim por causa de homem.”

“Park Jimin, você é uma figura.” Hoseok deu uma risada e entrou numa cabine, aproveitando que estava ali para esvaziar a bexiga. Jimin sorriu e saiu do banheiro, voltando ao trabalho com um sorriso enorme no rosto.

À noite, no carro, Jimin cantarolava uma música qualquer que tocava na rádio enquanto Yoongi estava concentrado nas ruas. A parte boa de sair tão tarde do trabalho era que raramente eles se deparavam com o trânsito congestionado, e nada era melhor do que não demorar muito a chegar em casa depois de um dia longo e cansativo. Jimin até tinha se esquecido de provocar Yoongi, optando por olhar pela janela e pensar se deveria tomar banho ou jantar primeiro quando chegasse em seu destino. Ele estava tão distraído pensando na pilha de roupas que tinha que lavar no fim de semana que quase não sentiu.

Uma mão. Forte, quente. Talvez até um pouco suada por causa do contato com o volante do carro.

Jimin olhou para sua coxa e a viu ali, parada, como se fosse totalmente inocente. Como se não estivesse fazendo um calor correr por cada centímetro de seu corpo, como se não estivesse abrindo mais uma porta no corredor da intimidade entre ele e Yoongi. Aquela maldita mão, o maldito polegar acariciando o tecido da calça de Jimin, a maldita indiferença do homem ao volante, como se não estivesse fazendo nada demais. Jimin estava parado, sem saber como reagir àquele toque. Tudo bem, ele já tinha ido mais longe, mas ambos estavam embriagados quando aquilo aconteceu. Agora estavam sóbrios, e o carro estava parado no sinal. O mundo estava girando lá fora.

A mão de Yoongi estava na coxa de Jimin.

Lentamente, ele a movimentou para baixo, mais para perto do joelho, e Jimin sentiu sua respiração sair entrecortada, aliviado por ter tomado distância do seu bem mais precioso. Só que sua alegria nunca durava muito porque assim que o sinal abriu, Yoongi subiu mais sua mão, parando perto demais da virilha de Jimin, numa área que um simples toque já fazia o homem mais novo perder a cabeça.

Suas coxas eram sensíveis, e aparentemente Yoongi sabia disso.

A música continuava tocando na rádio, mas agora Jimin estava alerta demais para conseguir cantar. Ele só conseguia prestar atenção no polegar que se mexia sobre sua calça, na mão que a cada sinal vermelho subia e descia, fazendo sua respiração parar completamente. Droga, suas coxas eram tão sensíveis e agora Yoongi sabia disso. Jimin mexia em seu cabelo, movimentava-se no banco, mas nada fazia o tempo passar. Sua casa nunca pareceu tão longe como naquele momento.

Quando finalmente viu o carro parar em frente ao seu prédio, Jimin soltou um suspiro e sentiu a mão de Yoongi sair de sua coxa. Ele estava aliviado ao mesmo tempo em que queria o toque de volta, mas não tinha muito tempo para pensar naquilo. Agora definitivamente precisaria de um banho antes de jantar, mesmo que Taehyung começasse a questioná-lo sobre sua pressa e afobação.

“O que é isso?” Jimin arranjou coragem para perguntar pela primeira vez desde que aqueles toques haviam voltado. Yoongi respirou fundo, mas não soltou o ar.

“Não sei.” Yoongi deu de ombros e olhou para o painel do carro, evitando Jimin a todo custo. “Só deixa acontecer.”

“Tudo bem então.”

O carro ficou em silêncio por alguns segundos até que Jimin fechou os olhos, contou até três, e decidiu testar as águas novamente. Ele se virou para o lado e deu de cara com Yoongi o encarando inexpressivo, como se esperasse que ele fizesse algo antes de sair dali. Jimin olhou para baixo e viu o pequeno volume na calça de seu chefe, levou sua mão até ao local e a deixou ali, ainda sem arrancar uma expressão de Yoongi. Devagar, muito devagar, Jimin acariciou seu pênis e se aproximou da boca dele, mas não perto o suficiente para beijá-lo. Quando o homem deu um tão esperado suspiro, Jimin sorriu e afastou sua mão, escolhendo repousá-la na coxa de Yoongi.

“Boa noite, senhor Min.” Jimin sussurrou, e Yoongi fechou os olhos na mesma hora, sabendo que tinha sido enganado. O homem mais novo se afastou por completo e abriu a porta, um sorriso vitorioso ainda estampado em seu rosto. “Até amanhã.”

Jimin saiu do carro, fechou a porta e saiu correndo.

Se fosse para deixar as coisas acontecerem, que fosse do jeito dele.

Notas finais
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