100 coisas para fazer quando se é uma bruxa
2 Quem ainda acredita em estrelas cadentes?
O dia seguinte chegou, e eu estava mais que determinada a começar a arquitetar meus planos de vingança contra o casal 20 — ou seria 16? Foda-se. Ninguém liga.
Me produzi toda, dando resultado a uma bela garota desconhecida, que estava me encarando, com um sorriso estampado numa cara com um quilo de maquiagem — não exagere, Becca -, do outro lado do espelho. Vesti uma saia rodada — "pode usar saia na sua escola?" ninguém liga para isso também — florida com fundo preto até a metade da coxa e a metade do abdômem, um cardigã branco e, para completar, um coturno com fivela de lado na cor amarela.
Não, eu nunca tinha ido assim, tão arrumada, para a escola, aliás, para qualquer outro lugar. Mas adivinha quem queria disfarçar o vexame que passou na noite passada? Se você chutou que foi a Rebecca, marcou gol
.
Desci as escada lenta e gloriosamente, fingindo que estava num clipe do Ed Sheeran, enquanto balançava minhas belas — ou nem tanto — crinas castanhas e onduladas.
– Enlouqueceu? — perguntou minha tia Annie, ao ver a cena, sentada na mesa com o café da mnhã posto.
– Não tia. É só meu lado vingativo dando olá ao mundo — respondi, ainda descendo as escadas de forma glamourosa.
– Desde quando se arruma tanto para ir ao colégio? — argumentou minha avó, dando fim à minha interpretação magnífica, colocando as panquecas sobre a mesa, e se sentado conosco.
– Pode usar saia na sua escola? — Tia Annie franziu a testa, com cara de que desconfiava.
– Foi isso que minha consciência me perguntou hoje mais cedo. Mas quem se importa? — respondi com um sorriso sarcástico no rosto.
– Por que não coloca algo mais adequado para ir à escola? Depois que é sequestrada, estuprada e esquartejada, ainda comentam ai, coitada, era uma moça tão digna. Morreu tão cedo. — Minha tia, sempre tão amável e delicada ~sorriso forçado.
– Que tal pararmos com perguntas que não nos levarão a lugar algum e tomarmos nosso delicioso café da manhã?– propus, dando fim aos comentários evasivos.
Comi uma torrada com manteiga e tomei café com leite, enquanto arquitetava meu "plano". Que tal se eu os colocar em uma situação inconveniente?, pensei. Não, isso é muito clichê. Preciso de algo melhor.
Com esse tipo de pensamento masoquista, ou nem tanto, segui caminho até a escola. Logo no portão, todos me lançaram olhares com os dizeres "uau, nunca a vi tão bonita", "quando foi a última vez que ela se arrumou tanto?" ou "ela deveria se arrumar assim mais vezes".
Ignorei a todos, afinal, eu sempre fui a desprezada tanto pelos garotos, quanto pelas garotas. Agora seria a minha vez de maltratar e pisar em todos que o fizeram comigo. Como dizem, todo Pokémon evolui.
Depois de alguns muitos elogios, cantadas, pedidos para sair, olhares e comentários, a aula acabou, e eu estava livre daquele constante inferno pessoal.
Ou pelo menos era o que eu achava.
Para minha infelicidade emocional, porém felicidade mental, Castiel resolveu dar as caras, me puxando pelo braço.
– Como ousa me tocar, seu canalha? — me desvincilhei dele, e não pude deixar de nota em como era forte. Foco, Becca, foco.
– Não foi assim que me tratou quando aceitou sair comigo. — O cafajeste sorria, para minha tentação.
– Hum, e você também não me contou que traria alguém pra ficar de vela, mas quem acabou ocupando esse papel fui eu, não é mesmo? — Isso, continue assim, está indo bem.
– Ahn... Você viu? — Ele coçou a nuca.
– Não, você tem de reformular a pergunta para: quem não viu?
– Olha, eu sinto muito, eu...
– Nada disso, comigo não tem desculpas, ninguém é obrigado a fazer nada. A menos que esteja com uma arma apontada pra cabeça, mas enfim... Não fale mais comigo, não ouse me tocar novamente. Agora, dá licença, você está me atrapalhando. — Empurrei ele pro lado, e quando já estava longe o suficiente para não ouvir, sussurrei um yes enquanto ia em direção à saída da escola
Lá encontrei Daisy, minha única amiga. Mesmo que não fôssemos muito próximas, ela e eu conversávamos de vez em quando.
– Uau, Becca! Nunca te vi assim tão...
– Menos trouxa? É eu também — interrompi a frase dela, quase que involuntariamente.
– Ahn, eu ia dizer linda, mas...
– Ah, desculpa. Força do hábito. — E era, de certa forma. Todos queriam me desprezar.
– Tudo bem. Vamos? — Ela direcionou o corpo para a rua, lotada de estudantes.
– Claro. — Segui Daisy.
– Então... Qual o motivo dessa mudança tão drástica e repentina?
– Achei que estava na hora de mudar para algo melhor. Você não gostou?
– Não, eu adorei. Acho que está muito bonita.
E foi nesse estilo de conversa entediante que retornamos para nossas casas. Não que Daisy fosse entediante, só que isso não fazia mais meu estilo.
Cheguei em casa, vesti uma roupa mais confortável e comi algo. Logo, mudei de ideia e decidi vestir uma calça jeans skinny e uma blusa branca de corte V, com uma bota marrom de cano baixo. Desci as escadas e nem avisei quando saí.
Fui até o cemitério, que ficava umas 5 quadras de distância da casa. Encontrei o túmulo da minha mãe, e lá fiquei sentada por um tempo. Olhei para o céu e, vocês não irão acreditar, mas juro que vi uma estrela cadente! O que passou pela minha cabeça? Que era uma ideia boba, claro. Mas e daí? Eu acreditava em superstições. Você não? Fiz um pedido que, é claro, não contarei, pois dizem que não se realiza, e me despedi da minha mãe, com um belo sorriso no rosto.
Cheguei em casa, novamente, e minha avó e sua filha que, por coincidência, era irmã da minha mãe, começaram a me dar sermões do tipo "eu não te autorizei a sair, ainda mais numa hora dessas", "onde você foi?" e "da próxima vez, avise". Não cogitei em subir direto para meu quarto, e trancar a porta. Vesti um pijama e deitei na cama, completamente sem sono.
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