100 coisas para fazer quando se é uma bruxa
10 Não estou disposta
Eu pisava descalça em algo gelado e macio. Olhei para meus pés, e era grama. Deveria ser umas dez da manhã, pois o sol já estava alto no céu.
Eu vestia um longo vestido branco, estava indo em direção de algo que eu não fazia ideia do que era.
O lugar era agradável: parecia ser um bosque, com grama verde por todos os lados; não havia árvores ou arbustos; também não se via o horizonte, apenas o céu azul praticamente sem nuvens.
Logo vi algo distante. Não dava para ver claramente, mas parecia ser uma pessoa. Andei até lá, dessa vez com mais pressa.
Ela estava lá, parecia um anjo. Vestia o mesmo traje que eu e estava lendo alguma coisa, mas quando me viu, fechou o livro e sorriu para mim. Ela estava sentada num banco, e me convidou para sentar, mas sem precisar falar.
Minha mãe era linda, de longe a mais bonita entre as mulheres. Ela era engraçada sem nunca ser má. Seus olhos azuis sorriam mais que sua boca. Seus cabelos eram negros como o meu.
— Oi, mãe. — Eu disse, quando me sentei ao seu lado.
Ela começou a passar a mão em meus cabelos, como sempre fazia.
— Como vai, minha pequena? — Ela perguntou.
— Nada bem. Sinto sua falta.
— Eu sei, mas você está se saindo muito bem.
— Não estou, não. Seria muito melhor se você estivesse comigo.
— Posso não estar presente visivelmente, mas estou sempre com você.
Eu a abracei, e podia sentir-la, depois de tantos anos. Ah, como senti falta daquilo.
— Mãe, me ajuda, o que eu faço?
— Se eu te disser, fica fácil demais. Você sabe o que faz, e sei que vai fazer o certo. Sempre fez. Mas uma coisa posso lhe dizer: não aja por impulso, pense bem no que vai fazer. Lembre-se: pode se arrepender depois.
— Mas é tudo tão difícil... Sinto o mundo inteiro nas minhas costas.
— Querida, olha o poder que tem em mãos. Você só precisa saber controlá-los.
— Você sabe que...?
— Eu sei, querida. Sei de tudo.
— Então, como pode? Isso não é possível.
— Tudo é possível quando acreditamos. Agora eu preciso ir, e você também.
Ela me deu um beijo na testa.
— Não se esqueça do que eu disse. Tudo vai ficar bem. Eu te amo.
E então ela desapareceu...
Acordei logo depois disso, toda suada. Sentei-me na cama e olhei pro relógio. Cinco horas.
Levantei e desci as escadas. Ninguém lá embaixo. Provavelmente Castiel ainda dormia.
Voltei para o quarto e peguei um papel e uma caneta e escrevi um bilhete.
"Querido Castiel.
Obrigada pela noite passada, não sei o que faria sem você. Obrigada mesmo.
Não se preocupe comigo, vou ficar bem.
Rebecca"
Peguei minha mochila, desci as escadas e deixei o bilhete em cima da bancada. Abri a porta, saí, fechei e joguei a chave por baixo da porta.
Fui pra casa andando. Precisava de tempo pra pensar.
Quer dizer, até um pedaço, quando comecei a ficar cansada.
Então abri um carro — sabe, o lance da mágica — e continuei.
Quando cheguei, deixei o carro em qualquer lugar e destranquei a porta do mesmo jeito que destranquei o carro.
Subi para o quarto, cuidando o máximo pra não fazer barulho.
Elas nem deviam estar precoupadas. Bom, minha tia pelo menos não.
Deicidi não ir pra escola naquele dia. Eu ia ficar assistindo TV — minhas séries, óbvio. E não estava ligando pra o que elas iriam pensar.
Deitei na cama e voltei a dormir, porque não tinha dormido o suficiente. Dormi até as nove e tive um sonho da qual não me lembro.
O legal de ser bruxa é que você não precisa levantar pra pegar alguma coisa. Tudo bem que eu tava longe de conseguir controlar meus "poderes", mas até que não fazia tanto fiasco.
A ideia de não ter que levantar pra pegar nada não se aplica a comida, pois a cozinha ficava no andar de baixo, então óbvio que teria que encontrar alguém.
— Rebecca? Tava preocupada com você! — Minha vó largou o que estava fazendo e veio até mim.
— Sério? Não parece. — Rebati, desviando de seu abraço e fui na geladeira e fiquei olhando o que tinha no seu interior.
— Liguei pra todos os seus amigos e quase liguei pra polícia. Não faça isso de novo! Onde diabos você tava?
— Na casa de um amigo, você não conhece.
— Olha, da próxima vez, vê se me avisa. Ah, e por que não foi à escola?
— Não estou me sentindo bem. E também não queria.
— O que você tem? Quer um remédio? Posso fazer um chá.
Eu tentava não culpá-la do que acontecia, mas era inevitável.
— Não precisa. Só quero ficar no meu quarto comendo e vendo TV.
— Tudo bem então. Me chame se precisar de algo.
Eu peguei um copo de iogurte e uma maçã e subi pro quarto de novo. Tomei um banho e deitei na cama, de novo.
Consegui terminar a primeira temporada de Arrow naquele dia, enquanto comia muito e brincava de levitação — comigo e com os objetos, pelo menos não quebrei nada dessa vez.
Castiel me mandou algumas mensagens perguntando por que não fui à escola e tal, como sei que mandaria. Eu respondi que falaria na escola, que não tava me sentindo bem. Na verdade eu tava, só não queria conversar, nem por SMS.
Fiquei o dia todo pensando no sonho que tive com minha mãe...
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