Notas iniciais
Desci as escadas naquela manhã como uma agente do FBI invadindo uma casa.
– Já te vi. Pode parar de andar assim, bizarro – indagou minha avó.
– Você já sabe? – perguntei.
– Sim, já sei. – Ela fez gesto para que me sentasse junto a si.
– E vai me castigar?
– Primeiro me responda: você acha que sua mãe a puniria?
– Eu não sei – chacoalhei a cabeça, evitando lacrimejar. Queria que fosse ela sentada lá. Mesmo que fosse para me dar uma bronca.
– Ela diria: "essa é a minha garota." Mas não te colocaria de castigo. Então, o que acha que farei?
– Talvez não me deixar mudar de escola – argumentei.
– Certo. Vou fazer isso.
Eu e minha boca grande...
– Não! Não pode fazer isso! É injusto.
– Injusto? Sabe o que é injusto? Eu ter de criá-la sozinha, e ainda por cima ser recompensada com vidros quebrados que, aliás, eu terei de pagar. Isso não é justo.
– Vó, desculpa, eu não quis...
– Tudo bem. Só vamos tomar nossos cafés.
Terminei de comer e fui pra escola.
– Er... Oi.
Olhei para o lado e era ele.
– Oi – respondi.
– Tá tudo bem? Você parece triste.
– Sim, obrigada. – Tentei disfarçar um sorriso de satisfação.
– Não está. Eu te conheço.
Encostei na parede e fechei os olhos.
– Não, não estou. – Hesitei. – Vou mudar de escola.
– O quê? Quando? Por quê? – ele parecia surpreso.
– É isso aí. Ainda não sei quando. Andei me comportando mal.
– Não podem te trocar de colégio. Você estuda aqui a vida toda praticamente. Não é justo.
– Assim parece que se importa.
– E me importo.
– Mas quanto a isso, não posso fazer nada.
– Sempre há uma opção. Mesmo quando achamos que não.
– Quando resolveu mudar?
– As pessoas mudam às vezes, Rebecca.
– Eu sei. – Levantei. – Também mudei.
Comecei a andar.
– Espera – ele gritou. – Ainda não terminamos.
Castiel correu, me puxou pelo braço e me prensou na parede.
Primeiro, tentei me livrar dele. Depois, pensei em ceder. Por último, o empurrei – mais com magia do que com força.
– Quer parar de fazer isso? Não percebe que gosto de você, garota? É tão difícil entender? – Ele se levantou.
– Emoções não são tão difíceis de fingir, quando "amor" é uma palavra que você nunca aprendeu.
Continuei a andar.
No pátio, Kathleen e seu clã passaram por mim. Claro que eu não iria perder uma oportunidade.
Bum. Dei um encontrão na cria de Hera – mais conhecida como Kathleen Steven.
– Ei, qual seu problema, garota?
– Você – respondi, solene.
– Senhorita Loreen. Acho que a senhorita está cheia de problemas. Não precisa de mais – avisou o diretor.
– Desculpe, diretor.
– Ha, ha – comentou Abbie.
Se eu estivesse em seu lugar, teria medo de mim mesma...
– Essa escola é ótima. Ela vai aprender muito, com os melhores professores e ainda vai estar longe.
– Mas o Arizona é do outro lado do país! Isso é exagero. Os adolescentes têm essa fase. Você mesma já passou por ela.
– Rebecca está muito descontrolada. Precisa ser domada.
Elas estavam... Planejando me mandar pro Arizona? Não. A vovó não deixaria. Não poderia deixar.
Entrei no meu quarto, devagar, e peguei uma mochila qualquer. Coloquei algumas roupas que precisaria, alguns objetos, dinheiro e abri a janela. Fiz a mesma coisa de quando desci as escadas flutuando. Só que dessa vez com mais precisão.
Me certifiquei de que ninguém havia visto e corri estrada a fora.
Um carro passou. Parei-o com magia, tirei o motorista de lá – que dizia que eu estava louca, que não podia fazer aquilo, que o carro era dele... – e peguei o volante. Eu já tinha feito aquilo, no carro do pai da Daisy, no verão passado. Era só pisar na embrenhagem, acelerar e mudar de marcha, frear, acelerar, virar o volante... Era como jogar vídeo game 3D.
Ninguém me levaria pro Arizona.
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