10 minutos
2 Cor de rosa
Notas iniciais
Numa manhã de sexta, Cassim dormiu mais que o planejado. Resmungava sonolento, beberia um energético para espantar a preguiça. O problema vinha depois, como acordar seu irmão? Um balde d'água na cara, um grito alto no ouvido… Nada adiantava.
Todo dia a mesma coisa. “Só mais dez minutos, só mais dez minutos”. Alibaba fazia birra para continuar dormindo. Quando se atrasava, a culpa era de Cassim, que não o acordou dez minutos antes.
...Que se foda, só vou espancar ele.
Apenas cinco passos a partir da beliche que dividiam, era tudo o que precisava para chegar a cozinha da quitinete. Arregalou os olhos quando viu Alibaba já acordado, preparando o café da manhã. Virou para trás, não havia ninguém na cama superior. Não estava sonhando, um milagre aconteceu!
Sentou-se à mesa, provou as panquecas que Alibaba lhe serviu, estavam boas. Muito melhores que o pão duro com mortadela que Cassim servia de costume. Alibaba era do tipo que conseguia fazer qualquer coisa quando queria de verdade. Então por que diabos era Cassim que cuidava das refeições deles? Agora que descobriu esse talento do loiro, nunca mais encostaria naquele fogão.
― Você de pé tão cedo, acho que hoje vai nevar ― comentou irônico.
― Cala a boca, hoje tenho algo importante para fazer.
― O quê?
― Você quer mesmo saber? Tipo, quer messssssmo saber? Uhehehe… ― Alibaba ria feito um imbecil, fazendo mistério.
― Desembucha, merda!
― Eu vou me encontrar com uma garota!― revelou empolgado.
Cassim quase caiu da cadeira. Talvez fosse mesmo cair uma nevasca daquelas hoje.
― …
― Que cara é essa? Não estou mentindo!― esbravejou.
― Sei disso. Só fiquei meio chocado. Então, é alguém que eu conheço?
― Hã... Ela mora naquela mansão... Sabe, aquela que a gente dizia que ia morar um dia.
Cassim pensou um pouco. Então lembrou-se.
― Oh, já vi uma garota saindo de lá algumas vezes. Ela é muita areia pro seu caminhãozinho, cara.
Alibaba ficou ofendido, inflando as bochechas descontente. Esse gesto fez Cassim sorrir de lado, se lembrou de quem Alibaba pegou esse hábito.
― Então você gosta das ruivas, hein. ― provocou.
― Eh?
― Morgiana. Ela também era uma ruiva, e que te deu um fora épico.
Todo o encanto que Alibaba ostentava na face se desmanchou. Cassim amava jogar sal nas feridas alheias.
― E-e-ela não me deu um fora, s-só pediu um tempo pra pensar! ― Alibaba tentou se justificar.
― Ela tá pensando faz um ano. Desde a formatura, quando um certo orador de classe trocou o discurso por uma ridícula declaração de amor. E aí levou um fora, na frente de uma platéia enorme.
― ...
Alibaba ficou com a expressão vazia. Na época achava que era correspondido, e quis imitar os finais felizes dos filmes da “sessão da tarde”. Falhou miseravelmente.
― E aí, me fale mais sobre seu encontro com a princesinha. ― Cassim mudou de assunto repentinamente. Riu vendo o rosto do garoto loiro mudar da água para o vinho, se iluminando como se jamais tivesse estado vazio.
Ele é tão simplório. Cassim amava manipular os sentimentos alheios.
Alibaba bateu o punho no peito e anunciou orgulhoso:
― Se hoje eu encontrar ela na frente da mansão, vou perguntar o nome dela!
Desta vez Cassim caiu da cadeira. Olhou incrédulo a aura cintilante do irmão adotivo.
“ Isso não é um encontro, idiota!!!”
Era isso que Cassim quis berrar, mas não o fez. A culpa foi dele de ter esperado algo de um “virjão”. Só voltou a comer, ignorando tudo que ouviu.
― Diz alguma coisa, caramba! ― Alibaba ficou ofendido.
~ ✿ ~
Alibaba pedalava apressadamente, queria chegar ao seu destino o mais depressa possível. Trabalho? Esqueceu dele completamente. Curtia o vento que soprava sua franja, trocava as marchas e se impulsionava em direção ao seu alvo: uma casa branca de esquina.
Desacelerou lentamente ao se aproximar. Os muros baixos da casa revelavam toda sua estrutura sofisticada, e nada da garota.
Alibaba se chateou. Mas ao chegar em frente ao portão, o rosto voltou ao sorriso costumeiro. Pode ver agachada no gramado a garota de cabelos róseos encarando o chão.
― O que ‘tá olhando? ― indagou
― Ontem plantei sementinhas aqui, mas elas não cresceram… ― ela falou para si mesma em tom de preocupação. Parecia ainda não ter notado a presença do rapaz. Ele riu, travesso.
― Talvez as sementes não gostem de você…
― P-P-Por quê?! ― Ela deu um pulo e se pôs de pé, em pânico.
Aquilo foi engraçado demais, ele não aguentou mais segurar o riso.
― Hahaha, só estou brincando. Acho que elas precisam de mais tempo pra crescer.
Só então ela notou o garoto, ainda um pouco confusa.
― Bom dia! ― Alibaba deu um aceno e uma piscadela.
― Humf! ― A garota virou a cara, para o espanto de Alibaba ― N-não me assuste assim! Se sabia disso, que dissesse logo. ― Ela fez um bico, emburrada.
― Foi mal... ― Coçou a nuca, sem graça.
A garota o olhou de soslaio, um pouco corada. Sua feição se suavizou, parecia tê-lo perdoado. Ele viu nisso sua deixa, estendeu a mão com um enorme sorriso:
― Eu sou Alibaba. ― se apresentou.
Ela olhou para a mão do rapaz, e depois para as próprias mãos sujas de terra. Na falta de um lenço, as limpou como pode no vestido branco e apertou a mão de Alibaba.
― Meu nome é Kougyoku. ― revelou acanhada.
Ele fitou a roupa agora suja da garota. Parecia ser de grife.
Que tipo de princesa trata suas vestes reais assim? Ela era mesmo estranha.
― Então, que sementes você plantou aí? ― perguntou curioso.
― Arroz.
― Heinnn?! Você quer dizer arroz branco, desses de super mercado?! ― exclamou.
― Sim, era só o quê eu tinha. Por quê? ― Kougyoku tombou a cabeça para o lado.
― Então não importa o quanto espere, elas não vão nascer ― informou sem jeito.
― O-o quê? Mas me lembro de plantar feijões na primeira série, eles cresceram certinho…! ― argumentou confusa.
― Tem diferença. Tipo, eles tiram a casca do arroz não é? Assim não tem como ele germinar.
Ela se entristeceu, abaixou a cabeça olhando em direção ao pedacinho de terra onde enterrou um punhado de pequeninos sonhos.
Seu idiota! Idiota!
Alibaba se chingou por fazer a menina sofrer. Bateu a cabeça no portão de ferro forjado punindo sua burrice. Talvez o impacto tenha feito seu cérebro funcionar ― ou não ―, mas ele teve uma idéia genial para anima-la.
― Kougyoku, você vai estar aqui de tarde?
― Eh, hã, sim… ― respondeu ainda chorosa. Alibaba pareceu brilhar ao ouvir isso.
― Nesse caso vou voltar aqui depois do expediente, tudo bem pra você?
― Eh, hã... sim! ― desta vez a resposta veio com a empolgação de uma criança.
Alibaba ficou surpreso com a reação imediata da garota, e ainda nem havia mencionado o presente que queria dar à ela… Tossiu recompondo-se, o resultado veio antes do planejado, mas isso foi bom.
― Então me espere, que vou lhe trazer uma surpresa, senhorita! ― tentou falar do modo mais “cool” possível, imitando os galãs de filmes oitentistas.
Ela riu da interpretação do garoto, graciosamente escondendo parte do rosto nas mangas longas do agasalho. Ele tomou isso como um sim, subiu na bicicleta que até então estava encostada no muro, e passou a pedalar.
Antes de virar a esquina, lembrou daquele pobre vestido chique. Virou para traz, ela ainda estava ali observando-o. Posicionou as duas mãos em frente a boca:
― Ah, e quando for mexer no jardim, use algo confortável que possa sujar! Pode ser uma roupa velha!
― Entendi! ― ela concordou com a voz desafinada, como quem não está acostumado a gritar.
Alibaba acenou e saiu correndo o mais rápido que pode. Queria terminar logo o que tinha que fazer no restaurante e voltar para ver Kougyoku. É, o trabalho não tinha mais espaço na mente do jovem. Tudo que ele pensava era que outras expressões e gestos ela tinha. Queria conhecer todos.
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