10 minutos

3 Sorriso de Lua


Notas iniciais
Eu tô viva! Depois de um século sem postar, aqui vai mais um cap. Desculpa mesmo a demora, tenho mil justificativas, mas a verdade é que sofri do famoso e temido Bloqueio. Agradecimentos atrasados para Claire e Nomi pelos conselhos e apoio. Boa leitura

Naquela mesma manhã de sexta, Alibaba corria de um lado para outro no Restaurante Qishan. Mal voltava de uma entrega, já limpava as mesas rapidamente, lavava o banheiro, saia para outra entrega na velocidade da luz, voltava e esfregava o chão E assim concluiu todos os afazeres do dia, talvez dos próximos três dias, com perfeição. Seu chefe assistia a cena suando frio, sua tigela de ensopado esquecida no colo.

― Aaah, que canseira! ― o garoto disse em tom revigorante, enxugando o suor da testa com o braço. Ele definitivamente não parecia cansado.

Voltou-se para Budel.

― Gerente, já terminei tudo por hoje. Posso ir embora mais cedo?

― Pode Digo, não! Eu te pago pala tlabalhar seis holas por dia! Se já acabou aí, vai alumar outla coisa pala fazer!― o homem obeso grunhiu enquanto forçava um sotaque carregado.

― Ainda nisso, Seu Budel? Os clientes não vão aumentar só porque troca o R pelo L, e veste roupas típicas chinesas. Tá na cara que o senhor é árabe.

― Ca-cala a boca, pivete! Saiba que minha avó era um pouco chinesa.

― Entendo ― O garoto preferiu não discordar.

Budel limpou o bigode engordurado de sopa, amassou o guardanapo usado e o atirou no rosto de Alibaba.

― E não pense que tem tanta liberdade pra ir saindo quando quer. Humf! Vindo pedir um emplego de entlegador sem nem saber andar de bicicleta Se o filho do dono não tivesse te recomendado, você não estaria aqui. Seja glato!

Alibaba recolheu o guardanapo do chão, sentindo uma veia pulsar na têmpora. Mas preservou o sorriso plastificado, precisava daquele salário, afinal.

― HahaBem, eu vim pela vaga de garçom.

― Com essa sua cara? Está sendo ambicioso demais, você nunca vai passar de um garoto de entregas, seu lixo imprestável!

Oh, ele esqueceu do sotaque agora.

Ironizou, cerrando os punhos com força. A vontade de socar o homem que mais se assemelhava a um porco era quase incontrolável. Porém, Alibaba continuou de cabeça erguida, olhando-o firmemente nos olhos. De alguma forma, Budel foi intimidado por esse sorriso.

Nada atinge esse pivete?

Rangeu os dentes de desgosto.

― Hunf! Você me irrita. Sai logo da minha frente! ― bufou Budel.

Assim que ouviu a frase, Alibaba lembrou da promessa que fez à Kougyoku, esquecendo de toda a raiva contida. Se fosse à loja de jardinagem agora, daria tempo de voltar para casa, se arrumar e vê-la depois do almoço.

― Yey! Então eu posso ir embora? Obrigado, gerente! ― comemorou, já saindo em disparada.

― Não foi isso que quis dizer! Ei, volta aqui! Merda! ― berrou Budel, deixando a sopa quente derramar e se queimando todo.



~ ✿ ~



Alibaba andava se sentindo muito mais confortável depois de trocar o uniforme pelas próprias roupas. Ouvia música pelos fones de ouvido, seguia o ritmo com a cabeça, batucando os dedos no quadril, com a outra mão segurava uma sacolinha plástica.

― Nah, nã, nã, Kougyoku ― cantarolou.

― O quê?

Alibaba saltou pra trás e caiu no chão.

Lá estava Kougyoku, em carne e osso, rindo do susto que deu no garoto. Quando foi que ele chegou na mansão tão rápido? Há quanto tempo ela estava ali? Ele tentou se levantar, o coração ainda batendo a mil. Kougyoku se debruçou no muro.

― Touché! ― Balançou o dedo indicador como um florete ― Esse é o troco pelo susto que me deu antes.

― Tá, tá... Eu mereci isso.

Kougyoku passou a mão pelo cabelo, satisfeita com a pequena vingança.

Finalmente em pé, ele notou que a garota seguiu sua sugestão: vestia um conjunto de moletom preto, com as mangas e barras dobradas por ser muito grande para ela. Achou que devia pertencer ao seu pai ou algo assim.

― Mas é uma grande coincidência. Cheguei bem antes da hora combinada, por acaso você não ficou esperando todo esse tempo aqui só pra me dar o troco, né?

Ela ruborizou.

― L-Lógico que não! E-eu tenho mais o que fazer! ― retrucou ― Só vinha verificar de dez em dez minutos se você não estava vindo ― A última frase foi um sussurro inaudível.

― O quê você disse?

― Nada. Me mostre a surpresa que disse que traria! ― Kougyoku ordenou, esse era seu jeitinho de esconder a vergonha.

Alibaba tirou cinco pequenos envelopes da sacola, dispondo-os como um leque na mão. As fotos coloridas nas embalagens chamaram a atenção dela.

― O que é isso?

― Sementes.

― Do tipo que nascem se plantar?

― Ahaha, toda semente nasce se plantar. Menos o seu arroz.

Ela fez uma careta.

― Vai, pega. É um presente.

― ...Para mim? ― hesitou.

― E pra quem mais seria?

Kougyoku pegou com um intenso brilho nos olhos. Essa era a primeira vez que alguém de fora da sua família lhe dava um presente. E não qualquer presente: era exatamente o que ela queria.

Como Alibaba adivinhou?

Ele firmou os cotovelos no muro, apoiando o rosto nas mãos. Admirava o encanto da garota pelo mimo modesto. Via ela segurar os envelopes para o alto, em direção ao Sol, como se quisesse ver seu conteúdo contra a luz. A expressão de alegria de Kougyoku valeu mais que qualquer obrigado que poderia ouvir.

― Ei, quer plantar isso agora? ― atraiu a atenção para sí.

― Hã? A-a-assim, de repente?

― É, aproveita que já tá vestida pra isso. Opa! ― Pulou muro adentro, pousando em frente à Kougyoku― Além do quê, você tá louca pra começar logo.

Novamente ele adivinhou os seus desejos sem que precisasse dizer nada.



~ ✿ ~



― Alibaba. Aqui, trouxe um lanche.

Ela chamou ao atravessar a porta da entrada com uma bandeja em mãos, que ele prontamente pegou enquanto ela sentava-se ao seu lado no degrau da varanda.

― Muito cansada?

― Hm-hm ― negou―, foi divertido. Principalmente por te ter como companhia. Obrigada.

Alibaba desviou o olhar, corado, mexendo na pequena argola que perfurava a orelha como um tique.

― Não precisa agradecer por uma coisinha dessas. N-nós somos amigos agora, é isso que amigos fazem. Eles se ajudam, não é?

Amigos

A palavra ressoou na cabecinha da garota como um mantra. As mãos sobre as bochechas vermelhas e a imaginação voando longe.

Amigos, meu primeiro amigo...Huhuhu.

Ria internamente, inocente.

Alheio a isso, Alibaba procurava qualquer coisa para acalmar a palpitação no peito. Os dedos foram parar na bandeja deixada entre eles.

― Oh, oh! São esfirras, e suco! Vou comer. ― anunciou forçosamente com cabeça ainda pifando.

Deu a primeira mordida. Acordou do transe com o sabor do frango invadindo a boca. Comeu o resto com vontade, e comeu mais uma, bebeu o suco de laranja em um gole. Pode lembrar dos quitutes feitos há tanto tempo por sua mãe. Isso sim era comida de verdade! Não aquela gororoba feita por macho (Cassim) com o qual se acostumou. Agradeceu esse dia ao Deus das Esfirras.

― E então, como estava? ― Kougyoku perguntou o encarando seriamente. A mesma tensão antes de um detetive revelar o culpado pairava no ar.

― Delicioso!―aprovou radiante, para o alivio da garota que ria comemorando.― Eu seria tão feliz se pudesse comer isso todos os dias na minha vida!― jogou verde fazendo pose.

― Pode vir quando quiser, o Ka Koubun não se importaria de preparar um prato a mais pra você!

― Eh? Não foi você que fez? Eh?

― Eu nem sei fritar ovo, é o Koubun que cozinha aqui em casa.

Eu comi a esfirra de um macho.

Alibaba choramingou em silêncio.

―Ele é o seu irmão? ― perguntou enxugando uma lágrima restante.

― Não, não. Eu tenho mesmo três irmãos, mas Ka Koubun é só meu professor particular.

― Só um professor não iria assim tão longe! ― gritou.

― Sério? ― perguntou verdadeiramente surpresa.

― Sério. ― confirmou.

― Hm, então acho que eu devia agradece-lo por todo o trabalho extra que ele vem fazendo

― Sim, sim, faça isso. ― Alibaba acenava a cabeça em afirmação.

― Além de me ajudar a estudar, ele cozinha, lava a roupa, costura, limpa a casa, e me treina em auto-defesa

― Caramba, esse cara é um santo!

Alibaba berrou, pasmo com os feitos do pobre homem. Realmente, Kougyoku não tinha o menor senso comum.

― E eu estive dando muito trabalho pra ele desde que reprovei no vestibular― acrescentou tristonha.

― Pra que curso você prestou? ― perguntou curioso.

― Design de Moda.

― Ah, isso é bem a sua cara.

― Arg, se eu não tivesse zerado naquelas questões de matemática!― reclamou irritada― Meu irmão prestou também e conseguiu passar, agora ele só fica zombando de mim!

― Então você é burra em matemática, isso é bem a sua cara. ― brincou recebendo um soco no ombro.

― E você, Alibaba? ― perguntou já de bom humor.

― Eu? Eu queria estudar Relações Internacionais. Até passei na prova, mas decidi deixar isso mais pra frente. A grana tá curta, sabe. Esse ano vou me esforçar no trabalho.

― A vida não está fácil pra ninguém.― ela concluiu dando um gole no suco, ele concordou.― Relações Internacionais Não é nada a sua cara. ― brincou recebendo um empurrão no ombro.

― Posso até parecer idiota, mas sou fluente em três línguas, tá!― informou orgulhoso apontando o polegar para sí.

Kougyoku segurou o riso.

― Então até futuras Designers de moda usam moletom. ― comentou.

― Ah, isso?― balançou os braços vendo como o tecido das mangas sobravam.

― Pegou emprestado de um dos seus irmãos?

― Eu nunca faria algo desrespeitoso assim. Essa roupa é do Judal, ele é um um conhecido― atropelou nas palavras. Não sabia como classificar seu relacionamento com ele, já que o próprio negou sua amizade― Ele esqueceu umas roupas aqui faz séculos. Achei que não se importaria se eu usasse sem pedir.

Alibaba entrou no modo poker face.

― Conhecido bem próximo, esse Judal. Até vai largando as roupas por aí. ―disse com voz robótica.

― Judal é o seu namorado?

A garota ficou vermelha feito um tomate. Furiosa, começou a chicotear freneticamente o garoto com as mangas longas do agasalho, que se defendia com o braços. Logo, ambos deixaram de lado a cara feia e caíram na gargalhada.

― Para haha... Para Eu não aguento mais...― pediu tentando recuperar o ar, os risos ainda persistiam mas as barrigas dos dois doíam demais agora.

Kougyoku sentou-se direito, massageando as doloridas maçãs do rosto, que nunca se esforçaram tanto. Não gostava de sentir dor, mas aquela era uma com a qual podia se acostumar. Concluiu que para ser feliz, é necessário um grande preparo físico.

― Alibaba, agora que pensei nisso, que música você estava escutando quando chegou aqui?

O garoto parou de acariciar o abdômen, pegando um dos fones pendurados no pescoço e ajeitando-o na orelha dela. Apertou o play na tela do celular. O ritmo era alegre com letras otimistas, assim como ele.

― Você gosta de rock nacional?― notou.

― É o meu estilo favorito. Também gosto de MPB, e por influência do meu irmão, comecei a curtir Rap de uns tempos pra cá. E você, o que costuma ouvir?

― Hã? Eu não sou muito ligada em música escuto o que estiver tocando ― Pensou um pouco e se lembrou― Ah! Mas gosto muito, muito mesmo, de uma banda chamada Black Sun!

― Nunca ouvi falar.

― É que ela ainda é nova, mas os vídeos dela no Youtube fazem bastante sucesso.

― Então vou assistir depois! ― Alibaba alargou a curva dos lábios.

Então isso era ter um amigo. Dizer bom dia alegremente, trocar provocações, conversar sobre assuntos banais, brigar por motivos bobos, rir até não se aguentar mais Era tão diferente do que imaginou, era muito melhor que tudo o que desejou.

Como posso te agradecer, Alibaba? Como posso te mostrar como me sinto?

A resposta era simples, e veio naturalmente: Kougyoku sorriu.

Um sorriso em forma de lua, que revelava todos os dentes branquinhos. Um sorriso que jamais mostrou à alguém antes, e nem sabia que tinha.

~ ✿ ~

Notas finais
Olá novamente, espero que tenham gostado. Não tenho muito a dizer além de pedir desculpas. Vou revisar de novo com calma depois, mas por favor me avisem dos deslizes graves. O próximo capítulo saíra logo, tipo, mais logo que esse.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.