10 dias pro amanhã

1 Não-Querido Diário


“Amanhã” talvez seja minha palavra predileta. Embora ela tenha apenas dois significados, a partir dela pode-se imaginar muita coisa. E bem, eu acredito e mais uso aquele segundo significado, aquele que as pessoas só usam uma vez ou outra;

Para mim, amanhã significa uma época futura, algo que ainda irá acontecer em um momento indeterminado. E há quem morre de curiosidade pra saber o amanhã.

Essa pessoa literalmente não sou eu, porque sei que o meu amanhã será daqui a dez dias, e talvez o final dele não seja assim tão bom. Pra ser menos confuso, eu confirmo que estarei morto em dez dias. E se estou perdendo minutos do meu dia pra escrever nesse diário, pode ter certeza que é algo importante.

Sabe, eu sou alguém bastante ocupado. Foi a um ano atrás quando passei em segundo lugar no exame para entrar na Academia Paulson. Sem dúvidas, é uma das escolas mais requisitadas de toda New Brunswick. Sim, moro no Canadá, em uma cidade bastante afastada chamada Dalton Kamp. E bem, foi nessa cidade que passei algumas das coisas que estão motivando meu fim. É um pouco estranho expressar isso, principalmente em um caderno.

Tive um melhor amigo em Dalton Kamp antes de vir pra Academia Paulson. Se chamava Rowland North, e não só era meu vizinho, como foi a pessoa que iniciou tudo isso. Bem, começou quando nosso escritor predileto cometeu suicídio, Camilo Castelo Branco. Soubemos da notícia ouvindo uma mulher comentando na loja de doces, e bem ali na fila nós dois caímos ao choro. Na verdade, a dor foi um pouco menor do que eu achava que seria. Eu e Rowland consolávamos um ao outro.

Na tarde daquele mesmo dia, andamos pela Vereda de Bétulas — simplesmente o lugar mais lindo do mundo, passávamos por lá todos os dias — e fomos até o cemitério, que ficava ao topo da cidade. Lá era um lugar bastante religioso, e nós, ainda sentidos, pedimos permissão para enterrar um livro. Aposto que naquela hora, elas se controlaram para não rir de nós, mas acho que sentiram pena; tínhamos apenas 12 anos, porque negar algo tão inocente? Depois de muito ponderarem, enfim deixaram.

Pois nós fizemos uma pequena cruz com gravetos, e com muito pesar no coração nós enterramos nosso livro predileto, A Queda de um Anjo. Naquele momento, o choro dele me confortava — eu sabia que não estava sofrendo sozinho. Rowland e eu tínhamos muito em comum, na verdade ele era bastante parecido comigo em quase todos os aspectos. Ouvir ele compartilhar aquela dor comigo era reconfortante.

Agradecemos às duas freiras e saímos dali. O sol estava quase se pondo, e o alaranjado do céu previa a linda lua cheia daquela noite. A pacificidade terminou assim que ouvimos um disparo, tão alto que os pássaros voaram em desespero. Pow! O segundo tiro, e foi bem aí que resolvemos correr. Éramos dois garotos tão desolados, e agora assustados. Provavelmente era um caçador, mas o barulho parecia se aproximar cada vez mais. Rowland tropeçou em um galho e bateu com o rosto no chão, jorrando sangue pelo nariz. Parei de correr e logo o ajudei, embora ainda apressado. Levantei-o e limpei o sangue em seu rosto, e logo voltamos ao ritmo acelerado que era fugir de um assassino — sabe-se lá se era de animais ou crianças.

Quando alcançamos a Vereda de Bétulas, acabei ficando preso em um galho afiado. Ele segurava minha camisa, e eu não conseguia me livrar. Berrei por Rowland e pedi ajuda, e foi quando senti meu coração parar por alguns segundos. Ele se virou, fez não com a cabeça, e voltou a correr. Meu melhor amigo, que dei minha tanta confiança, me abandonou. Não continuei a gritar seu nome por medo de ser achado pelo caçador, mas chorei baixinho até conseguir me soltar do galho. Estava machucado, com a camisa rasgada, descabelado, tristonho, naquele instante eu parecia um monstro. Corri pra casa, embora eu soubesse que o assassino já tinha ido embora. Corri porque naquele momento, tudo que eu queria era o abraço da minha mãe.

Estava tão assustado, me senti tão só, largado. Quando cheguei em casa, já havia anoitecido, e mamãe me esperava na varanda, agoniada. Estava prestes a gritar comigo, quando viu meu estado. O que era raiva se tornou dor, e acho que ela conseguiu sentir o que eu estava sentindo. Ela me abraçou, e finalmente pude chorar como nunca antes. Fui abandonado, quase morto, porque meu amigo não era tão amigo assim.

Eu só consegui sentir a amargura, e raiva de Rowland. Mas agora eu enfim percebo que ele era igual a mim. Infelizmente, ele era como eu. Éramos egoístas, mesquinhos. A única diferença é que eu tinha empatia, e ele não.

Tomei um banho ardido, e logo fui dormir. Estava exausto, precisava relaxar por algumas horas. Fiquei inquieto sobre a cama, quando na manhã seguinte, fui acordado aos balanços por minha mãe.

Estava chorosa, notava-se que estava perplexa só pela expressão. Me acordou com toda delicadeza, mas eu logo soube que a notícia que iria me dar não era boa. Ela beijou minha bochecha, segurou minha mão, e meu deu a notícia de que Rowland havia morrido.

Espancado, foi a primeira coisa que pensei. Seus pais eram rigorosos, agressivos, matariam Rowland uma hora ou outra. Não chorei, não consegui mostrar nenhuma emoção. Apenas dei de ombros e pus a cabeça no travesseiro, tentando assimilar tudo aquilo. Como essas coisas aconteceram em menos de vinte e quatro horas? Eu estava consumido pela dúvida, mas logo, veio a tristeza. A ficha caiu de que meu melhor amigo estava morto.

A realidade, é que ninguém entende essa dor ao menos que passe. Sequer minha mãe entenderia meu conflito interno naquele momento. Pois eu sei que aquele foi o dia que mais dormi na minha vida. Minha mente e meu coração precisavam de descanso, eu precisava estar longe do mundo. Aquele foi meu primeiro contato com o suicídio.

Eu finalmente acordei, no meio da tarde. No segundo dia seguido, retornei ao cemitério. Ele não tinha a mesma graça daquela tarde anterior. Era um lugar pavoroso, eu ainda podia ouvir os soluços de Rowland enterrando nosso livro. Ah, bem lembrado; o livro. O dia que Rowland se foi ficou marcado como "pós Castelo Branco". Acho que foi pra tentar amenizar aquela situação, mas não funcionou comigo.

Embora a morte de Rowland tenha mudado minha maneira de pensar sobre o mundo, ainda sou uma pessoa com defeitos. Ainda sou egoísta, ainda sou egocêntrico, mas a parte boa é que agora posso admitir isso. Sinto falta de você amigo, um dia nos reencontraremos outra vez.

Meu nome é Edward Taylor, e em dez dias, sei que vou mudar. Basta apenas que o rumo das coisas melhore. Meu amanhã será definido por minhas escolhas, e torço muito pra que sejam as corretas. E eu acredito que serão.

P.S: Bem, só quero me defender abertamente de que diários não são coisa de menina, e caso alguém pegue isso e leia, é bom que não fique gozando da minha cara! Ah, e que esse diário ainda não pode ser querido. Desculpe, mas não posso confiar nesse caderno e nem nas pessoas da escola, pelo menos não ainda.

P. SS: Quanto aquilo que eu falei sobre estar morto, não se importe com isso ainda. Estou torcendo pra que esse diário ainda me dê uma esperança.