10 dias pro amanhã

2 A Queda dos grandiosos


Todo mundo ama um escândalo. É uma verdade absoluta, não há o que mude nossa vontade de xeretar e de sentir toda a emoção de um grande escândalo. Porque afinal, escândalos exatamente isso. Sentir a emoção, ficar com a respiração acelerada só por saber daquela notícia estonteante.

E a dois anos atrás, pude aprender isso com Jacob White, aquele clássico amigo brincalhão e indesejável, mas que as pessoas ainda querem por perto. Viramos amigos ao acaso, quando encontrei uma cachoeira escondida entre as sequoias daquela densa floresta. Parei ali, senti a temperatura agradável com a palma da mão, e não hesitei em me banhar.

Era um dia tão claro e ensolarado, a água gelada sobre minha pele fez-me sentir no paraíso. Quando fui interrompido por um “Sai daí!”. Pulei em um susto e logo me vesti, e enraivecido, apareceu Jacob, na época um garoto magro e bastante alto pra sua idade. Os cachos de seu cabelo castanho quase cobriam seus olhos, mas dava pra ver sua tamanha raiva. Ele se aproximou de mim, e disse em alto e bom som que eu deveria pedir permissão para entrar naquela cachoeira, já que ela se chamava Waterfalls White. A cachoeira tinha um nome, pertencia a uma família e eu sequer percebi. Envergonhado, me desculpei e estava prestes a ir embora quando Jacob chamou minha atenção com mais um grito, dessa vez não tão agressivo. Perguntou se eu gostaria de jogar xadrez, eu aceitei, e naquele mesmo dia nos tornamos amigos.

Percebi duas coisas naquele dia. A primeira é que Jacob sempre teve tendência a gritar e chamar atenção, não que fosse um problema pra mim. A segunda coisa que percebi foi que ele era um rapaz solitário, devo ter sido um dos primeiros amigos dele.

Sem dúvidas, era podre de rico, e percebi isso assim que pus os pés naquela mansão impecável. Fiquei boquiaberto, mas quis disfarçar. Enquanto jogávamos xadrez pela manhã inteira, muito descobri sobre Jacob. A verdade é que a semelhança que ele tinha comigo era seu lado sensível, dócil. Um lado que ele, assim como eu, preferia por esconder.

Os meses se passaram, e nós nos aproximamos ainda mais. A amizade dele era divertida, embora ele fosse um pouco competitivo. Estávamos frequentemente querendo ver quem era o melhor em tudo. Qualquer simples atividade se tornava uma competição ao lado dele, e eu adorava isso.

Só houve um dia em que não competimos, e foi justamente nesse dia que eu pude perceber que tudo havia acabado. Eu estava na casa dele, comíamos mingau enquanto tentávamos escrever uma poesia para nossa aula de Literatura. Nunca vi Jacob tão ansioso, e logo ele revelou-me o motivo: Depois de três anos, seu pai voltaria de viagem. Na verdade, a casa inteira estava uma correria intensa. As empregadas preparavam comida, limpavam feito loucas. A volta do papai White deveria ser perfeita. Demos uma pausa no estudo e eu disse que precisava ir ao banheiro. Entrei, tranquei a porta, urinei, e não consegui sair. A fechadura da porta havia emperrado, e bem no momento que eu quis gritar por ajuda, o pai de Jacob chegou, e é óbvio que eu não seria ouvido nem tão cedo.

Não pude ver a festividade, os abraços, a emoção de Jacob, porque me tranquei no banheiro. Em mais uma das minhas artimanhas, resolvi pular pelo basculante. Eu ainda era pequeno, magro, eram vantagens de ser um pré-adolescente.

Senti uma pontada de culpa por não estar junto com meu amigo em um momento de tanta felicidade. Mais culpado ainda de não ter encerrado o trabalho de Literatura, e então tive a genial ideia. Entraria pela porta da frente, tocaria a campainha de sua casa. Seria genial fingir que eu havia acabado de chegar.

Jacob foi esperto, e quando abriu a porta pra mim, entendeu tudo de vez. Deu um sorriso rápido e entramos, dando baixas gargalhadas. Estávamos orgulhosos por tramar. Mas os sorrisos desapareceram de nossos rostos quando adentramos a sala de jantar.

O pai de Jacob enforcava a esposa com uma violência estarrecedora. Seus olhos saltavam, e o rosto do homem era vermelho feito um tomate. Jacob não se controlou e empurrou o pai para longe, com uma força que eu nem sabia que ele tinha. Abraçou a mãe com muita tristeza, enquanto ela ainda buscava fôlego. Seu pai soltou um “Era melhor eu não ter voltado!” e foi embora na mesma hora. Eu e as empregadas ao redor éramos espectadores assustados, sem qualquer reação. Nossas mentes estavam processando tudo aquilo, e logo comecei a me questionar se aquilo era algo frequente, e passei a entender a personalidade mascarada de Jacob. Sim, ele era alguém sensível e dócil, mas fora de casa ele era alguém sarcástico, maldoso. Eu finalmente pude entender.

Fui embora me despedindo de Jacob com apenas um aceno, e sei que era exatamente isso que ele queria. Estava tão envergonhado, tão sem jeito, e por um momento eu queria me pôr no lugar dele. Se eu pudesse sentir a dor no lugar dele, faria isso.

Quando cheguei em casa, mamãe tricotava meias na varanda, e eu me sentei ao lado dela, contando tudo que havia acontecido, detalhe por detalhe. Antes desse diário, minha mãe era minha pessoa de desabafo, aquela que eu podia confiar a qualquer instante. Pude dormir tranquilo depois de descarregar. Era satisfatório ser ouvido, principalmente por uma pessoa que tenho um amor incondicional ao peito. Fiquei inquieto em boa parte da noite, tentando expulsar aquelas imagens da mente. Mas enfim chegou o dia seguinte, e eu levantei cedo para comprar a primeira fornada de pão para o desjejum. Todas as aberturas e clarões no bosque estavam impregnados com a luz amarelada do amanhecer. Aqui e ali meu jardim de tulipas era salpicado pela luminosidade. Os ventos balançavam a copa das árvores, e não havia música mais doce no mundo do que aquela da brisa do amanhecer soprando nos pinheiros. Era essa a experiência de ter o prazer de acordar em Dalton Kamp, dia após dia.

Eu sempre fui a pessoa a acordar cedo, então comprar alguns pães tratava-se apenas de uma deferência. E quando estava prestes a ir, o jornal diário foi arremessado sobre as graciosas tulipas, e eu logo o busquei e pus o olho na primeira manchete. “Lincoln White, grande ícone da ópera, foge de Dalton Kamp após confusão.” Senti a garganta embolar a cada palavra, e só consegui pensar em Jacob.

Larguei o jornal, e deixei com que o pão aguardasse. A única coisa que consegui fazer foi correr até a casa de meu amigo. Corri como nunca, meu coração palpitava de maneira impressionável. Meu ritmo acelerado acompanhava o voo dos pássaros, que voavam em conjunto até a cachoeira mais linda daquele lugar.

Mas quando cheguei a mansão White, já era tarde demais. Jacob e sua mãe estavam indo embora, levando consigo apenas algumas roupas e os móveis essenciais. Pude ver apenas a carroça se afastar apressadamente, e sua silhueta sobre a forte luz do sol. Não pude me despedir, não pude lhe consolar. Não ajudei meu amigo quando tive a oportunidade. Me dominei pela culpa, pelo arrependimento. Eu poderia tê-lo abraçado, poderia conversar com ele e tentar acalmá-lo, mas tudo que fiz foi ir embora.

Será que foi essa a sensação de Rowland? Esse sentimento impetuoso, que nos faz querer repetir tudo outra vez e tentar mudar a situação? O jogo se inverteu de uma maneira que eu nunca pude imaginar. Eu era Rowland agora, e me sentia tão mal por isso.

Mas, por uma ironia do destino, no ano passado, quando fui ver se estava aprovado no exame da Academia Paulson, encontrei meu nome em segundo lugar. O primeiro lugar era Jacob White. E quem diria? Voltamos as nossas competições.

Embora não tenhamos a mesma amizade de antes, Jacob agora está no dormitório ao lado. Sempre que eu o vejo, sinto um pouco de remorso. Mas diferente de mim, Jacob conseguiu evoluir, e ele aprendeu a habilidade invejável do perdão. Disse que tudo que eu pensava era paranoia, e que eu não deveria me culpar por nada daquelas coisas. Bem, talvez essa tenha sido minha primeira evolução, afinal. Aprendi que caso eu deva fazer algo, faça o quanto antes. A vida é curta demais para se calar.

Sim, todos amam um escândalo. Afinal, o que pode ser mais divertido que assistir à queda dos poderosos? O que pode ser mais satisfatório que a exposição pública de pecadores hipócritas? Embora tudo isso tenha acontecido com Jacob, escândalos são coisas que sempre vão ativar o nosso senso de fofoqueiro, mas que também podem nos mudar. E finalmente, estou mudando.