Notas iniciais
O encontro dentre James Bond e Silva promete ser tão revelador quanto perturbador.

Uma risada afetada já conhecida por Bond estremeceu o teto do armazém. Aproximou-se com seus passos delicados, por suas costas, saltitando como uma corça.

Bond largara sua arma, jogando-a próxima a seus pés e recebera de Samir um olhar que lhe pedia clemência, como se estivesse arrependida do que fizera.

— Veja se não é o meu segundo inglês favorito — disse uma voz igualmente aguda, que reverberava insanidade — Vire-se, Bond.

Bond virara-se e encontrara um homem de não mais do que um metro e sessenta e cinco, com olhos que não refletia vida, que mais pareciam de um louco que acabara de morrer no instante que dera sua última gargalhada. Seu terno preto e sua boca de lábios finos e vermelhíssimos só não lhe dava todo um arrepiante destaque, porque em sua cabeça uma cabeleira tingida de loira resplandecia até mesmo na mais completa escuridão.

Apontava uma arma para Bond que sorrira de forma canastrona para ele.

— Diga-me, Silva. Qual é o seu inglês favorito, então?

Raoul Silva rira mais uma vez, como se reencontrasse um velho amigo, e talvez ele realmente visse em Bond um aspirante a amigo.

— Atualmente veio acompanhando mais de perto o trabalho de Bryan Ferry, que há algumas décadas vem demostrando ser o único motivo para não se detonar uma bomba naquela ilha perversa.

Silva aproximara-se de James, olhando cada detalhe de seu rosto. Daquela distância, Bond podia sentir seu hálito quando ele começara a cantar aos cochichos.

— I could feel at the time there was no way of knowing. Fallen leaves in the night, who can say where they're blowing... More than this... you know there's nothing...

Ele continuou encarando Bond com uma serenidade, como se esperasse algo a mais daquele momento. Bond rira, como se sentisse uma profunda vergonha por aquela situação.

— Pensei que já havia resolvido sua situação, Silva.

— E resolveu, James. Até que decidiram que um mundo sem Silva não era tão engraçado e me deixaram ir seis meses atrás. E veja onde me encontro, agora.

— Comandando uma rede de terroristas — completou Bond.

— Não que isso não seja verdade, mas não foi a isso que me referia. Falava sobre o fato de há poucas semanas estarmos tão próximos um do outro, mas somente aqui podermos contar as novidades.

— Andou me seguindo...

— Não foi sua intenção me encontrar em Roma? — Silva forçara um cinismo teatral, mas em seu rosto via-se apenas uma expressão doentia inalterada — Godetevi la città eterna come se fossimo sempre giovane. Uma pena, terei de lhe dar seu presente aqui mesmo.

— Matar não faz seu tipo, então aposto que você aproveitará essa noite e revelar seu sadismo.

Silva sorrira, tocando o pescoço de Bond e lhe indicando a segunda porta à sua esquerda.

***

Silva tirara toda a roupa de Bond e com uma força inconcebível lhe amarra os pés e pendurara-o de cabeça para baixo, em uma corda amarrada ao teto.

Um balde cheio de água jazia em um canto da sala, enquanto fios desencapados rodeavam as pernas de Silva — que àquela altura usava luvas isolantes — como se fosse uma cobra morta. Tais fios eram ligados em uma tomada junto ao chão.

Samir posicionou-se junto à porta entreaberta, temerosa.

— Espero que você ao menos me explique do que se trata tudo isso, Silva — disse Bond, girando lentamente.

— Basta você fazer a pergunta certa, Bond...

Silva aproximou-se, ajeitando o corpo de Bond de maneira a ficar de frente para ele. Ele tocara no agente com um cuidado quase como se fosse alguém para venerar-se.

— Onde estamos? — começou Bond.

— No centro de recebimento e distribuição de armas da Warlike Inc., é claro.

— Warlike Inc, subsidiária da Heydrich Corporate Industries — completou Bond.

— Não que isso seja um segredo para alguém, não é Bond?

— Não. Todos sabem dos negócios podres feitos pelas corporações...

— Evidente. Com o nome já diz... são negócios.

Sem motivo aparente, Silva voltou a rir e mostrar dentes muito brancos e simétricos. Samir continuava observando a cena, em silêncio.

— Mas eu também tenho algumas perguntas, Bond. Qual o motivo de sua presença aqui essa noite. A que devo a honra?

— Estou apenas de passagem. Passei a noite com uma jornalista muito gostosa na Itália, conheci o mediterrâneo e cheguei à Síria para acabar com a guerra.

Silva ficara muito sério enquanto ouvia Bond, mas quando ele terminou surgiu em seu rosto um sorriso sórdido e psicopático, virando-se em direção a Samir.

— Mas vejam só! Já sou a segunda pessoa que te o pelado.

— E se tenho algumas perguntas é apenas para lhe dar tempo de se preparar para morrer, porque, veja bem, você realmente vai morrer hoje.

Com a mesma expressão, Silva voltou a encarar Bond.

— Então diga lá, Bond. É você quem deve contar a história, então.

— A Heydrich Corporate Industries não é mais do que uma corporação fantasma — começou Bond —, ela usa subsidiárias apenas para que instituições do governo que tentam minimamente regular o jogo corporativo não a acusem de cartel e poder fechar negócios com os Estados.

— É um início exemplar, Bond — observou Silva.

— A Heydrich, dessa forma, está globalmente presente de forma infinita. Construções civis, investimento em bolsas de valores, terceirização de mão de obra na indústria de calçados, roupas... Acredito que vocês têm milhares de acordo com os governos de todo o mundo, o que lhe dão não só influência em países estratégicos, mas...

— Autonomia, é a palavra.

— Autonomia. Exatamente — continuou Bond —, o que permite a vocês transitarem pelos corredores dos bastidores, usando todos os artifícios necessários para fecharem negócios para administrar o setor petrolífero e militar, por exemplo.

Silva ouvia tudo com muita atenção, concordando com a cabeça, com uma pontada de orgulho.

— Dessa forma, vocês distribuem armar através do “selo” Warlike Inc., monitoram nosso espaço aéreo com a Monitor Air... Enfim... negócios.

— Sim. Negócios.

— E como bons negociantes, agentes do livre mercado, vocês não veem nada de errado em negociar com diferentes nações, como a Rússia.

— E há? — replicou Silva.

— Não, claro. Guerra é economia. Se podemos nos orgulhar das riquezas de nosso país é devido às guerras que travamos contra o terror.

— Que belo discurso, Bond.

— Uma pena que esses governos não veem nada mais do que o dinheiro quando iniciam a negociação... E nem ao menos percebem que por detrás da Heydrich Corporate Industries, da Warlike, Monitor Air, está a SPECTRE, a organização que eles buscam incessantemente deter, quando na verdade estão fortalecendo-a.

Silva começou a aplaudir Bond, fingindo uma profunda emoção. Suas palmas ecoavam na sala sem móveis.

— Quem dera que as autoridades do seu país fossem tão a fundo de uma investigação como a finada MI6 foi, Bond.

— E eis a parte interessante...

— Não faça mistério, sir.

— Os acionistas da Heydrich, além de terroristas como você, são políticos que ocupam as cadeiras de nosso parlamento, dessa forma eles fazem todo o tipo de lobby para que acordos como a que fora fechado com a Monitor Air se concretize e, principalmente, usam sua influência para obrigar o Rei Bolacha a fechar o MI6 e integrar nossa inteligência com os americanos e franceses.

Silva aproximou-se de Bond, fechando os olhos e apurando os ouvidos.

— E por que seria nossa intenção fechar o MI6, Bond?

— Para que o governo britânico, com o apoio dos americanos e franceses, armasse o ISIS sem que alguém de dentro arruinasse seus planos. Armando os inimigos que eles mesmos combatem, eles poderiam destruir a Rússia e ganhar aliados no Oriente Médio. Acabar com o ISIS e derrubar o Assad seriam questão de tempo depois disso.

Silva fechou os punhos e balançou-os retorcendo o rosto de alegria.

— Deixe-me falar a parte mais prazerosa disso tudo, Bond, deixe-me dizer.

Ele começara a girar pela sala, com os olhos fechados, movimentando suavemente as mãos como se dançasse uma música que só ele podia ouvir.

— O Reino Unido só não contava com o fato de que nós, a SPECTRE, munia a Rússia e que o próprio ISIS já tivesse um acordo com o Kremlin. Dessa forma, os britânicos não só armaram seus inimigos que a imprensa insistia em afirmar que eles combatem, como também colocou o dinheiro dos seus contribuintes nos cofres da organização que ela caça anos após ano.

Infeliz, Bond completou:

— E uma vez a SPECTRE e a Rússia controlando os céus de toda a Europa ocidental, é provável que vocês carreguem aquele Lockheed com milhares de homens e incendeie o céu de Londres.

— E antes mesmo do Primeiro Ministro tomar ciência do que acontece, já teremos tomado toda a ilha, o canal da mancha... a Europa inteira. Deixando todas as bombas apontadas para a América.

Quando Silva finalmente deixara de dançar, pegara o balde e despejara toda a água no corpo de Bond.

— É uma pena que M e sua gangue tenham sido julgados como desajustados, Bond. Vocês estavam no caminho certo. Há essa hora, Q já sabe o que se passa e acredita cegamente que montara uma estrutura invisível na rede mundial, quando na verdade eu estava sempre a um passo à frente de vocês. Em tudo — Silva agachara-se e pegara os fios desencapados — Não duvido que M cruze com Blofeld até o fim da noite.

Bond suspirara, tentando controlar seu tremor. Ele olhara para Samir, quase oculta próximo à porta.

— E você? Traiu seu grupo em troca de uns trocados, eu aposto.

Samir nada respondera. Silva aproximou-se dele, tocando-lhe suas partes íntimas com os fios. Ele sentira a eletricidade cortar todo o seu corpo, fazendo-lhe perder os sentidos momentaneamente.

Silva, rindo excitado, afastara os fios, observando a reação de Bond como se fosse um rato de laboratório e ele o cientista louco.

James, rangendo os dentes, seus olhos fora de orbita, dera a última olhada em Samir antes de se entregar a próxima carga elétrica.

— Não há revolução sem mudança.