007 Contra o Fim do Mundo

15 A hora mais escura


Notas iniciais
A SPECRE invade o parlamento inglês, assassinando vários agentes britânicos. Blofeld revela-se como o mentor do caos que está próximo a chegar à Londres, capturando Moneypenny, Tanner e Q. Milhares de soldados preparam-se para invadir o Reino Unido. Caberá a um enfraquecido James Bond evitar o fim do mundo.

Os corpos de vinte e cinco agentes da nova inteligência integrada jaziam no chão frio do amplo estacionamento subterrâneo do Palácio de Westminster. Com a arma em punhos, M chegara à conclusão que o parlamento estava cercado, mas não sabia por quem.

Ao invés de voltar ao elevador, onde deixara o corpo de C, ele usara as escadas e com a atenção redobrada acessara o primeiro piso da câmara dos comuns.

Estava tudo silencioso, o expediente já havia acabado há varias horas. Olhando de um lado para o outro, M seguiu pelo corredor estreito, encontrando uma porta entreaberta.

Havia alguém ali, pensou M. Ele avançou cautelosamente até chegar defronte à porta e antes que ele pudesse movê-la, ela fora escancarada, revelando Moneypenny, Tanner e Q sentados próximos à parede oposta.

M riu. Abaixara a arma e esperou.

— É um prazer revê-lo, Blofeld.

Blofeld revelou-se, sorrindo, vestido impecavelmente com um terno fino e um anel vistoso no dedo mínimo da mão esquerda, onde podia-se ver um polvo negro estampado.

— O prazer é todo meu, M. É bom compartilhar um grande momento com os amigos.

Era mais do que óbvio que tudo orbitava ao redor da SPECTRE, agora. M sentou-se em uma cadeira livre. Naquele momento, Blofeld lustrava sua arma com um silenciador encaixado na ponta, sentado em uma mesa.

— É muita decência sua optar por usar um silenciador conosco, Blofeld. Vi a carnificina no subsolo.

— Viu. Mas não ouviu nada e Londres continua dormindo acreditando em sua democracia — ele finalizou com um sorrisinho convencido, levantando-se em seguida.

— Não é questão dos londrinos acreditarem ou não em democracia — recomeçou M —, mas de não terem outra opção e mesmo assim se considerarem livres — M repetiu o sorriso de Blofeld quase que a contragosto.

— Não tente se passar por um anarquista, M. Ou se considera um comunista?

— É a SPECTRE que se envolveu com a Rússia.

— E foi você que não hesitou em matar C.

— No fundo ele sabia que, ao me levar para a morte, o senhor Hinx mostraria o caminho para ele.

Blofeld rira, olhando ao redor da sala.

— Por vezes eu gostaria de ter alguém como você ao meu lado, M. Alguém que não fosse um cachorro louco como Silva.

— Na minha ordem natural para desmantelar organizações como a SPECTRE, priorizo a apreensão dos que soltam as coleiras dos cachorros loucos. Os filhotes não vivem sem a mãe, não é mesmo?

— Não sobrou mais ninguém — concluiu Blofeld.

— Bond — falou M com simplicidade.

Blofeld não segurou uma risada fria e desdenhosa.

— Já deve está morto. Quanto a vocês, em algumas horas presenciarão o nascimento de uma nova era.

— O Terceiro Reich? — vociferou Moneypenny.

Blofeld dera as costas para eles, dirigindo-se para a porta. Antes de sair, falara por cima do ombro.

— O tempo dirá como será conhecida essa geração, minha cara. Mas gosto de sua sugestão. Aproveitem.

E fechara a porta ao sair.

***

Os ouvidos de Bond zumbiam e seu corpo estava gelado sobre o chão molhado. Sentia um leve tremor em seus pés e mãos; levantar-se não era uma opção viável.

Ouvia passos indo de um lado para o outro, ao seu redor. Tentara abrir os olhos, mas pareciam grudados.

— Entregue-se — sussurrou uma voz conhecida.

Bond não precisou abrir os olhos para descobrir que tratava-se da senhora baixa e corpulenta, de nariz fino avantajado que usava a capa de chuva no alto daquele penhasco. Provavelmente ela usava as mesmas vestimentas e, naquele ambiente úmido, estava igualmente molhada.

— Entregue-se. Acabou, James. Não há mais nada para você aqui — continuou ela, fúnebre.

Bond juntou a força tênue que ainda lhe restava e emitiu um som que pouco parecia com uma risada.

— Impossível — gemeu Bond — para eles... é impossível... eu... viver.

Bond sentiu seu peito estremecer mais uma vez — quando a senhora da capa de chuva riu, irônica —, mas de um jeito diferente, como se transbordasse algo que lhe fortalecia.

— Tolo. Eres tão aferrado à vida? O que ela lhe ofereceu? Dor, sofrimento, perda. Pelo que luta, James?

Bond sentira o vento salgado cortar a sua carne e o barulho de ondas chocando-se contra as pedras muito ao longe, foi quando conseguira abrir os olhos e não havia mais senhora com capa de chuva, mas havia o chão frio e molhado da sala vazia.

Quando finalmente parecia ter recuperado os sentidos por completo — todo seu corpo ardia —, conseguira distinguir a silhueta de Silva estendida no chão e um forte cheiro de sangue.

Alguém movimentava-se ao seu redor e Bond começara a ouvir fortes estrondos vindo de uma grande distância.

— Bond! — exclamou Samir — Você está vivo.

Sentia frio. Samir agachou-se de frente a Bond, tocando-lhe o rosto.

— Me dê uma chance, James. Me dê uma última chance e me ajude a libertar meu país.

Bond rira, desdenhoso.

— Evite o pior!

James Bond virou seu rosto para o teto e estendeu a mão para Samir, que, pouco a pouco, foi ajudando-o a sentar-se. Ela pegara suas roupas e o cobrira.

— Já começou? — perguntou Bond, sentindo sua cabeça girar.

— Só começa quando você quiser — sorriu Samir.

Bond dera uma última olhara no corpo ensanguentado de Silva, respirou fundo e finalmente sentiu seu sangue circular por seu corpo.

***

Nas últimas horas, dez mil homens dirigiram-se para o deserto. Rebeldes, soldados sírios, russos e terroristas. Eles se espalhavam por diferentes bases e armavam-se por completo, prontos para a missão final, seja em nome de Allah, em nome da Rainha ou da Revolução Bolchevique.

Aos soldados ingleses, franceses e americanos fora anunciado o cessar-fogo. Pelas próximas horas, ficariam incomunicáveis com a base de seus países. Havia uma tensão no ar, mas eles não sabiam do que se tratava.

Desses dez mil homens que preparavam-se para rumar ao velho continente, quinhentos estariam dentro do Lockheed C-5 Galaxy.

Bond, ainda sentindo uma dor quase insuportável, indicava para Samir o local onde estacionara a caminhonete. Ela parou e abriu uma das caixas que encontraram pelo caminho. Dentro, havia doze clássicas AK-47. Ela pegou duas e continuou em frente.

Uma vez próximos à pista, o barulho do motor do Lockheed era ensurdecedor. As luzes vermelhas brilhavam intensamente e do lado de fora do muro, não era possível ver nenhuma movimentação. Os dozes guerrilheiros, naquele momento, estariam todos mortos, pensou Bond.

— Qual é o plano? — gritou Samir para Bond.

— Parar aquele avião! — respondeu Bond, aos berros, sentindo a aflição nas suas cordas vocais.

O Lockheed C-5 Galaxy começara a movimentar-se, pronto para alçar voo.

Bond e Samir encontrara a caminhonete junto a um contêiner. Ela assumiu a direção e pousara no colo de James uma das AK-47. Engatou a terceira marcha e acelerou em direção à pista.