Luna agora tinha seus 15 anos, e, de acordo com o governo atual, atingira sua maior idade. Deveria começar a trabalhar para receber seu próprio mantimento através de seu próprio duto, e não através do duto de dependente que seus pais receberam quando a levaram para casa depois do parto.

De acordo com o governo, ela seria designada para uma tarefa com a que estivesse capacitada a realizar, e lá, interagir com outros jovens parecidos com ela para que assim pudesse se casar e procriar.

Foi assim que os seus pais se conheceram, na Usina Térmica do Distrito 2. Os jovens poderiam ser alocados em outros distritos de acordo com a necessidade de que o distrito apresentasse no momento.

A família de Luna vinha sendo alocada nas Usinas a muito tempo, ninguém saberia dizer desde quando, mas era o trabalho dos jovens, produzir calor para que o mundo continuasse a funcionar.

Luna, e todos os outros humanos sabiam como era gerado esse calor, de onde vinha a energia do planeta, e todos sabiam que essa era a melhor fonte de calor que se pode ter visando o custo benefício, então, todos aceitavam, e ninguém comentava sobre. A não ser, é claro, pelas pessoas da Classe 4, elas ficavam felizes ao chegar a puberdade e começarem a “ajudar” o planeta.

E quando a carta de convocação de Luna chegou, ela foi exatamente para lá, uma convocação do Distrito 4 para todos os jovens de Classe 3 que estivessem completando 15 anos naquele ano.

Ela não entraria em contato com as pessoas em si da Classe 4, seus colegas seriam todos da sua Classe, e seu superior, um veterano da Classe 2. Nunca tinha saído do seu distrito, e Luna estava arrasada, pois descobrira que não poderia levar sequer um livro consigo para a Usina. O que ela faria lá, além daquilo?

A semana de que antecedeu a viagem foi a que ela mais leu em toda a sua vida. Lia dois, três livros por dia, e seus pais sempre que podiam, sentavam ao seu lado, e liam com ela, ou para ela quando seus olhos se cansavam demais e ela estava prestes a cair no sono.

Foi nessa época, que decidiu estudar Biologia, e o corpo humano, tendo em vista o que iria fazer por alguém tempo. Então essa semana lhe garantiu mais umas boas respostas algumas perguntas atrás sobre o sistema linfático, reprodução e até vírus e bactérias nocivas para os seres humanos, algo que havia sido erradicado a muito tempo, mas, ainda assim foi exigido pelo jogo, e, cada vez como menos tempo de resposta, porém, Luna se saiu bem nessas perguntas também.

Ela não sairia bem de casa, pois, tendo aprendido tudo o que poderia sobre o corpo humano nos livros gastos, de desenhos irreconhecíveis de uma sessão escondida da sua pequena biblioteca, ela foi até os pais para saber se o que estava prestes a fazer para gerar energia não traria possíveis consequências. Os pais de Luna explicaram para ela que tudo era feito com o maior cuidado, evitando todo e qualquer perigo, mas que as vezes o pior acontecia, por acidente, ou porque os jovens burlavam os procedimentos. E foi então que tiveram que contar a Luna de seu problema, que até então haviam mantido em total segredo. E nesse dia, ela descobriu o pior sentimento que teve até então. Incapacidade.

Luna não quis acreditar no que haviam lhe dito. Por que guardaram esse segredo dela. Eles não tinham o direito, penso. Mas logo após, lhe abateu uma ideia ainda pior. Ela seria a última. Seu tio havia sofrido um acidente trágico trabalhando em uma mina de extração de Gerdium, um novo mineral descoberto após a queda do Meteoro Alfa na Terra, outra calamidade. Então, seu pai se tornara filho único, e sua mãe, como mulher, não tinha irmãs.

Descobriu isso enquanto chorava silenciosa em um canto escondido do porão, e quando ouviu a campainha, subiu correndo achando que fossem seus pais, e iria abraça-los e se desculpar por não conseguir.

Porém, não eram seus pais que ela viu quando abriu a porta, mas sim o Serviço de Recrutamento, e, implacavelmente, eles estavam prontos para leva-la. E foi assim que Luna deixou a casa dos pais, a força, ela prometeu a si mesma que pediria perdão quando voltasse, e que não deixaria isso abalar ela mais do que deveria.

Foi posta em um trem junto com os outros jovens, assim, vestindo a peça de roupa mensal que o governo enviava e nada mais, assim como todos os outros jovens. Em suas cabines, encontraram armários com seus uniformes e dutos para nutrição durante a viagem.

As cabines eram divididas para quatro pessoas, e foi nesse dia que Luna conheceu seus primeiros amigos, uma garota chamada Clara, e dois rapazes, Ethan e Maicon. Era difícil conversar, por que até então, os outros três adolescentes não haviam feito nada além de “crescer”.

Os quatro apenas se olhavam sem trocar nenhuma palavra, Luna mantendo seus segredos, e os outros três jovens apenas fazendo o que eles haviam feito a sua vida inteira. Até que se ouviu um baque na porta e um outro garoto caiu para dentro da cabine sendo chutado por outros três aos gritos de “você nunca mais vai ficar perto da gente Ander! Fiquem com ele!”

A porta de fechou atrás de um monte de carne jogada no chão e Ander levantou a cabeça para mostrar a nós um sorriso sangrento, e foi então que a viagem, e a adolescência de Luna realmente começou.

Ander contou aos quatro que aqueles eram seus amigos de infância, que eles eram vizinhos e ele os havia ensinado brincadeiras para que se divertissem enquanto eram crianças. Porém, alguns anos depois, alguém havia contado aos amigos de Ander que essas tais brincadeiras eram coisas de históricos e então decidiram parar de brincar com Ander.

Ethan e Maicon acharam incrível fazer algo antes dos 15 anos, e, um pouco envergonhados, aceitaram quando Ander se ofereceu para ensinar as brincadeiras para eles, sentaram no beliche de baixo dos garotos enquanto absorviam informações sobre coisas como pega-pega, esconde-esconde, cabra cega e outras coisas que Luna sabia bem como era, mas só tinha visto nos livros.

Sentiu como se as suas histórias realmente estivessem se tornando verdade. Então subiu até a cama de cima onde Clara estava e deu um sorriso pra ela, perguntando:

– O que acha?

– Parece divertido. – Clara respondeu, devolvendo o sorriso.

Foi assim que sua juventude começou. Luna passou 5 anos na Usina Térmica, o acaso levou ela a ser companheira de Ander, e Carol, de Ethan. Maicon ficou com uma outra garota que não conhecíamos, mas quando fugíamos nos finais de semana para passear entre os de Classe 4 ele as vezes a levava junto, pare poderem se divertir fora do trabalho também.

Foram cinco curtos anos em que Luna quase esquecera dos pais, mas agora, olhando para o relógio, ela se punia por isso, e por tudo o que viria pela frente ainda. Pois o contador havia mudado mais uma vez.