Luna não tinha sequer uma memória de si mesma pequena sem estar perto de algum livro. A infância naqueles dias foi praticamente reduzida a “esperar crescer”, pois crianças não tinham nenhuma funcionalidade para a sociedade atual, não podiam trabalhar, e as instituições de ensino foram substituídas totalmente por Centros De Conhecimento.

Assim, Luna gastava todo o tempo do seu dia enfiada no porão escondido da família, desde os 3 anos de idade, que era a idade mínima para se usar um Centro De Conhecimento, então, seus pais a levaram até lá, e baixaram nela a capacidade de ler. Foi a primeira, e uma das poucas vezes que Luna usou um Centro De Conhecimento.

Sempre que seus pais estavam em casa eles lhe ajudavam com matérias acadêmicas e coisas das quais envolviam mais raciocínio, lhe contavam que antigamente, a muitos séculos atrás, as crianças se reuniam em um local grande, inundado por todas elas, onde um adulto iria lhes ensinar coisas novas todos os dias, e que as lendas diziam que elas odiavam esse lugar. Eles chamavam isso de: Escola.

Luna achava impossível odiar um lugar tão perfeito como esse parecia ser, então ela apenas ria das histórias absurdas do passado, mas sonhava em poder ter vivido nele. Quem sabe até ter feito amigos nessa tal de Escola.

Amigos de verdade, de carne e osso, diferente dos amigos que Luna sempre teve. Não que ela não gostasse dos seus espantalhos falantes, ou bravos guerreiros com espada, até dragões ela já tinha visitado. Mas sempre acreditou que todas aquelas incríveis historias seriam ainda mais impressionantes na realidade.

E assim Luna foi contando seus livros, um por um. Somando na sua pilha de leitura que jamais poderia ser contada a alguém, mas que era seu maior orgulho, e que só fazia com que ela desejasse que ficasse ainda maior e maior.

Quando tinham tempo, seus pais também contavam histórias de livros perdidos pra ela, ou lhe ensinavam coisas que não tinham nos livros, sempre a incentivando a não usar os Centros De Conhecimento para algo que estivesse ali, ao alcance da sua capacidade própria de aprender, foi se tornando cada vez mais independente e única.

Existia, porém, um livreto do qual gostava muito, e sempre andava com ele pra lá e pra cá. O livreto era totalmente ilegível, pois seu interior estava colado, e ela nunca o conseguiu abrir. Havia apenas um título gasto, e uma nota abaixo dele escrito J.F.

Luna crescia como uma garota saudável e forte, conhecia poucas crianças, mas sempre que as via, tentava ensinar pra elas, sem chamar atenção, coisas que não estavam disponíveis nos Centros De Conhecimento da sua Classe.

Foi se tornando uma leitora, e então, uma sonhadora cada vez melhor, aprendeu a calcular e a discutir. Aprendeu história e Biologia. Coisas inimagináveis para os seus vizinhos, coisas incontáveis para qualquer um.

Adora principalmente os números, fórmulas e desenhos, suas memórias e anotações feitas com pedras nas paredes lhe rendaram umas boas questões para que seguisse em frente no Mude o Mundo. Usou multiplicação, aplicou Thales e Baskara mais para frente, as perguntas iam sendo respondidas, e a dificuldade começava a aumentar.

Porém, a atenção do público realmente foi totalmente voltada para ela quando respondeu uma conta a partir do Cálculo de Retroesfera. Uma teoria que foi descoberta logo após a Ascenção Lunar para calcular o retorno conjuntivo das marés com a nova órbita do então satélite natural do planeta, hoje substituído pelo que nomearam como Luna II, que, por ventura, foi lançada em orbita no dia de seu nascimento, e batizou a então finalista aqui presente com seu nome.

Os anos se seguiram, e os livros continuavam a ocupar o dia de Luna, ela gostaria de ler todos, mas nunca pôde, sequer estava na metade do acervo quando os dias mudaram.

Seus cabelos castanhos haviam crescido, seus braços e pernas alongados, parecia ter mordido a boca uma sequência de vezes, pois seus lábios agora eram maiores e mais vermelhos, haviam curvas no seu corpo, e partes crescendo. Seu rosto afinou, e os olhos azuis ganharam um brilho verde quando a luz os tocava, suas mãos eram cada vez mais ágeis para folhar e seus dedos mais delicados para tocar.

Luna não era, e nem poderia ser mais uma criança que vivia no mundo dos livros, ela havia crescido, havia lido tudo o que podia, mas agora seu tempo estava acabando, e com a adolescência chegando, haveriam de chegar os compromissos com a sociedade também. E com certeza eles vieram bater a sua porta com uma cobrança pesada de que o tempo passa, e que se você não usá-lo com a maior intensidade que conseguir, se não suga-lo até a última gota, ele se esvai pelos dedos, e deixa apenas memórias.

E foi com a memória do número 2 sumindo da sua vista que Luna remeteu a um outro passado, mas agitado, e um pouco mais sombrio.