Peguei meu livro da pequena estante e sentei-me em frente à janela redonda, por cima de umas almofadas velhas e empoeiradas, poderia parecer pouca coisa, mas era meu mundo e eu o apreciava até minha tia Trixten aparecer berrando:

– Rouni, por favor, seria demais pedir a você para guardar suas roupas? Eu já lavo e passo, eu acho que não é demais você guardar...

– Tudo bem... – Respondo sem tirar os olhos do livro, mesmo eu não estando mais lendo já que tudo que eu conseguia ouvir eram berros.

Voltei a ler e terminando a estrofe uma lágrima cai, sabe aquelas meio sem importância, pois era uma lágrima de rotina que já estava acostumada a cair nessas horas. Então parei de ler marquei a página e fiquei a olhar para fora da janela redonda do sótão, não era exatamente um sótão, era espaçoso e iluminado não havia divisórias, mas era um bom lugar para se ler, um pouco acinzentado e é claro que por esse motivo ficava um pouco sombrio, exatamente como eu gostava.

Fiquei ali na janela horas e horas olhando apenas a movimentação dos comerciantes, caixas e mais caixas chegando, o dono da quitanda e seu belo filho, loiro, forte e de atraentes olhos verdes, como ele se dava bem com o pai e como ele ria de suas piadas sem graças, fiquei-o encarando como se ele não pudesse me ver, de certa forma não podia, mesmo que eu morasse ao lado do seu comércio, por que ele olharia para minha casa de madeira de cor e enredo tristes e logo para minha janela redonda de vidros de cores escuras e detalhadas, típicos vidros antigos? Não faria sentido, até porque ninguém que lhe agradava ou tinha intimidade morava aqui, mas assim que eu pensei isso, eu me surpreendo com o seu olhar diretamente para mim. Ele estava conversando com o seu pai, interrompendo-o apenas para cumprimentar as moças que não tinham a mínima vergonha de demonstrar interesse.

No mesmo instante recuei o olhar e dei um pequeno pulo para trás. Foi isso mesmo que eu tinha visto? Não, não pode ser! – pensei, então cuidadosamente voltei para almofada e ergui a cabeça como um hipopótamo na água, mas nem ele nem seu pai estavam mais lá, me senti aliviada e constrangida ao mesmo tempo, mas minha tia entra no meu quarto sem avisar assustando meus pensamentos.

– Não vai comer? – pergunta ela indiferente.

– Vou, vou... – respondo baixo.

– Está fazendo o que? Vigiando os vizinhos?

– Não! ­– respondo de forma fria e irritada. Levanto-me da almofada com as mãos sobre o chão e desço pela passagem estreita que dá direto a escada e a escada ao corredor.

Percebo a cara de irritada de minha tia, então não falo mais uma palavra, quando chego à cozinha lá está Angy, minha prima mais nova, ela tem quatro anos e parece viver num mundinho só dela, é elétrica e certamente nem parece filha de minha tia, em todos os ângulos até mesmo na aparência, minha tia Trixten é velha, mas nem tanto uns quarenta e oito se não me engano, é magra e alta, na verdade mediana de cabelos grisalhos e a pele parda, na verdade sua tonalidade foi feita pelo sol, pois pelas fotos que ela guarda e não gosta nem de ver ela possuía uma pele mais pálida, tem a aparência de acabada e todas suas rugas ficavam mais nítidas por causa da cara emburrada e do mal humor. Já Angy é inquieta e brincalhona, ela não para e isso irrita, pequenina e gordinha tem a pele parda, mas essa natural e cabelos curtos caracolados e castanhos, muito bonita com seus meigos e enormes olhos castanhos madeira.

Minha prima estava lá, sentada a frente da mesa redonda de madeira lustre, inquieta como sempre, com seu pratinho e colher de patinho, tinha bico e tudo, a comida estava sobre a mesa: Arroz, feijão, carne com batatas bem temperadas e um macarrão que de longe saíra bom, não sabia se era a marca ou como ela fazia, mas era grudento e sem gosto como o macarrão da escola. Minha tia se sentou e logo mandou Angy para de brincar e comer a comida, é claro que ela não obedeceu eu fui até o armário embutido e peguei um prato de vidro transparente e me sentei, assim que acabei de tocar na cadeira minha tia me manda pegar água para Angy.

Eu pego um copo de vidro e abro o filtro à torneira, encho metade e coloco na frente de Angy que ainda não ficara quieta, minha tia pegou o copo e deu impaciente para ela, o copo ficara sujo de comida na borda, isso me enjoou um pouco então abaixei a cabeça e comecei a colocar a comida em meu prato. O silencio entre nós duas permanecia apenas Angy que brincava sem parar mesmo com a comida na boca.

– Você vai ajudar na festa desse ano? – pergunta ela arisca como sempre.

– Não sei... – Coloco uma garfada na boca.

A festa a qual ela se referia era a festa do bairro que tinha todo ano era como uma festa do meado de junho havia também barraquinhas de comidas, gincanas, brincadeiras sem atração alguma e tudo mais, mas essa para homenagear nosso prefeito que nada fazia, por que as pessoas amavam tanto ele? Eu não sabia, ele é o cara que dá uma cesta básica em troca de seu trabalho duro, mas como ele era do povo, passava nas ruas, lembrava o nome de algumas pessoas, apertava sua mão e estava sempre sorrindo já era motivo para o povo ama-lo.

– Como assim não sabe? Você não sabe de nada acho que sua preguiça está no limite... – ela falava enquanto brigava e colocava colheradas de comidas na boca de Angy.

Eu fiquei em silencio de acordo com aquilo e continuei a comer. Eu não ajudava na festa por preguiça, não ajudava porque teria de ter contato com outros adolescentes e eu não conversava com quase ninguém do bairro se não umas senhoras e com os vendedores, alguns apenas, só os de livros, bugigangas que eu colecionava e o dono da quitanda, mas ele eu só dirigíamos uma ou duas palavras no máximo, pois seu robusto filho sempre estava por perto e eu não me sentia à vontade.

Pra falar a verdade não conversava com ninguém porque não me identificava com ninguém e ninguém vinha conversar comigo, eu era a menina estranha dos livros que todos conheciam, mas de nada sabiam. Eram bastante jovens no meu bairro, mas os que primeiramente vêm em minha cabeça e os que eu menos ouso conversar são Laynanre Bexten uma garota morena e magra, com os cabelos longos e lisos, claramente artificiais que ela pintava e alisava, só usava roupas curtas e decotes exagerados, ela não tinha um corpo cheio de curvas, mas ela mostrava a barriga e seu piercing o que era o bastante para ser a mais desejada da rua.

Outra também era sua amiga e fiel faz tudo Jheniffer Monero, loira de cabelos longos e sedosos, percebia-se cada pelo louro do seu corpo em suas roupas minúsculas, era mais encorpada e alta que Laynanre, só que vivia a sombra de sua amiga se é que pode chamar alguém que te castra de amiga, a achava até mais bonita que Laynanre, porém essa é mais inteligente e mais rica, então tinha tudo quanto quisesse.

Havia também Cayo Shisuzkt um garoto muito mimado, que vivia de esfregação com Lay como seus amigos a chamavam, era bonito não pode se negar moreno e alto, cabelos pretos arrepiados, brinquinho na orelha direita e vivia sem camisa para mostrar o belo abdômen definido. E também seu amigo paspalho Rienchard Têmero um garoto tão, mais tão bobo que eu achava impossível ele ser humano. Sempre copiando Cayo usava seus cabelos castanhos claros arrepiados e não vestia camisa se não fosse obrigatório, tinha dois furos nas orelhas, pois achava que assim não estaria copiando o amigo, ele era um exemplo de estupidez.

E o filho do dono da quitanda George Ohio era o mais legal entre os populares do bairro, eu não o conhecia exatamente, porém se percebia que ele era educado e tinha um tão belo sorriso que você se distraia facilmente, falava com todo mundo e não era da badalação como os outros populares, conversava e ria com eles, mas não andava sempre com eles, ele era o garoto mais visível que não gostava de se exibir, pelo menos é assim que eu o via.

Fora o grupinho da elite, havia outras pessoas na minha rua que assim como a minha, suas casas eram simples e não faziam festas quase sempre, desses não conhecia nada, eles eram os invisíveis e só um invisível reconhece outros.