- Superando Barreiras -
2 Capítulo 2
Após minha refeição deprimente voltava para meu quarto, quando ia subir as escadas Angy me chama a atendo achando que ela me daria uma de suas poeirinhas que ela acha atrás dos móveis, mas não.
— Roun – Assim como ela me chamava – Boa noite!
Eu não aguentei não olhar aquela carinha bochechuda e seus olhinhos brilhantes.
— Boa noite princesa!
— Princesa? – pergunta ela, fiquei surpresa qual menina de quatro anos não deseja ser uma princesa, eu não desejava, mas eu não tinha quatro anos.
— Sim! Princesa... Por quê? Você não é uma?
— Não! Não sei... – responde ela confusa. – Você vai dormi?
— Sim – olho para os lados e abaixo a voz – Talvez, acho que vou ler um pouco.
— Você lê pra mim?
Meus olhos ficaram arregalados e surpresos nunca pensei que a menina que não para nem para comer me pediria para ler para ela.
— Sim, claro!
Subi Angy primeiro pela escada e depois subi, joguei todos os travesseiros e almofadas no chão no pé da cama. Angy se divertia com tudo aquilo, me recostei nas almofadas e travesseiros e coloquei-a recostada em meu colo, peguei o livro e comecei a ler da mesma forma que a minha mãe lia para mim. A lembrança foi tão forte que segurei as lágrimas ao ler, a história era de aventura por que eu choraria? Ela não entenderia.
Então eu continuei lendo e olhava para seu rostinho reluzente sorrindo, como eu sorria para minha mãe e na hora em que o cavalheiro cravava a espada no dragão a tia Trixten sobe ao sótão como um dragão feroz.
— O que está acontecendo aqui?
— Nada! Só estou lendo para ela. – respondi assustada.
— Isso é hora de ler? Esta menina devia estar dormindo, não é você que aguenta ela vinte e quatro horas por dia e não é você que trabalha o dia todo, só fica aí lendo, parasitando... – Ela observa uma barata morta no canto do quarto, ela ainda movimentava as patinhas de um modo asqueroso, mas nesse estado até dava pena. – Você é como esta barata, não faz nada, fica apenas sentada no seu mundinho, só que nesse mundo você não trabalha, não estuda, não é ninguém... O que eu fiz para merecer isso? Vem Angy você tem que dormi. – E saiu como se realmente tivesse falado com uma barata meio morta.
Ela desceu partindo meu coração como se fosse um pedaço de papel rabiscado por Angy, vi no rostinho de minha prima a dor por minha causa, acho que nem ela entendia o porquê do destrato sendo que eu estava fazendo um bem a sua filha, levando ela a mundos mágicos na segurança e no conforto de sua casa, mas naquele momento não pensava em nada mais a não ser em minha mãe e meu pai e chorava agonizando como se a espada do cavalheiro tivesse sido cravada em meu coração. Eu deite-me sobre as almofadas chorando sem parar, mas tentava não fazer barulho, fui chorando e apertando uma das almofadas com as mãos molhadas, até que senti meu livro quando o peguei sentei-me novamente com a roupa abundantemente molhada de lágrimas, então eu parei por um longo minuto, parei de chorar e apenas observei o livro e subiu-me uma raiva no coração que o arremessei para o canto mais escuro no quarto, voltando a deitar e chorar.
Mas assim que percebo o que eu faço, me dou conta que a culpa não era minha então fui até aquele canto escuro recuperar meu livro, meus olhos estavam um pouco embaçados pelas lágrimas, mas quando abaixei para pega-lo achei uma foto, a qual já parecia velha e estava manchada, mas a observei melhor e percebi que eram meus pais, jovens e felizes, acho que era de quando eu era um bebê. Eu peguei juntamente o livro e voltei para as almofadas, observando bem a foto, pude perceber que eu jamais seria feliz como eles eram então outras lágrimas caem em sequência. O motivo da consecutiva série de lágrimas era a extrema falta deles, eles morreram em um acidente de avião, eles eram cartógrafos, é bem estranho um casal de cartógrafos, mas assim que se conheceram na faculdade minha mãe mudou o curso de psicologia, apenas para ficar mais perto do meu pai, isso que é amor!
Estavam viajando para uma ilha perto de Madagascar e houve complicações no motor do avião ou algo parecido, todos morreram até mesmo o piloto de confiança chamado Tibério, minha tia Trixten era irmã do meu pai, eu acho que ela pegava toda essa dor de sua falta, mais as conturbações de sua vida e jogava tudo em cima de mim, ela recebeu uma pequena indenização da empresa do jatinho que eles viajavam, mas ela não falou quase nada sobre isso, ela nunca fala.
A vida de minha tia Trixten é lamentável, eu admito que com tudo que a minha tia passou certamente ser um pouco mais áspera não seria surpresa, mas ela vai, além disso. Há uns três anos meu tio Lean Kendrick ex-marido da minha tia partiu, não digo de falecer, mas de ir embora. Ele é alto e forte, quase dois metros de altura e levanta cinco crianças de uma vez, ele amava fazer isso nas festas de família, pele parda, cabelos e barba ruiva, um típico escocês. Estavam casados uns vinte anos, por aí, mas só há quatro anos tiveram uma filha, motivo? Eu não sei, acho que minha tia nunca quis ter filhos, mas assim que seu casamento entrou em crise ela engravidou, porém o que era para acontecer aconteceu.
Desde que me lembro de minha tia ela é ríspida, mas ainda se via um sorriso em seus finos lábios, porém depois que meus pais morreram, ela ficou fechada e começou a trabalhar e se ocupar o tempo todo e assim que o tio Lean foi embora, dizer o que? A vida não sorriu pra ela. O tio Lean é extrovertido e falante, quando criança eu não pensava nisso, mas é uma surpresa, ele ter se casado com alguém como ela, tão calada, dura e sem senso de humor. Posso estar exagerando... Não é exatamente assim, ele voltou para Escócia assim que Angy fez um ano, ele manda dinheiro, brinquedos, cartas e fotos para ela, mas minha tia só fica com o dinheiro e dá alguns brinquedos a Angy, os que ela acha que são inúteis, barulhentos ou perigosos ela joga fora. Ele sempre nos ajudou após a morte dos meus pais, sempre me incentivou a pintar, a escrever me ajudava a colecionar minhas bugigangas.
Aquela época era boa, porque eu tinha um amigo, um grande, parrudo e confiável amigo, mas ele e minha tia já brigavam muito, uma hora porque havia discussões de como cuidar de Angy, outras porque eu só ficava no meu quarto, ou lendo ou qualquer coisa assim e ele queria ir para Escócia, levar minha tia, Angy e eu, porém ela não quis, ela ficou tragicamente teimosa, nem mesmo fazia o jantar como antes ou conversa com ele se não fosse preciso. Bateu o pé no chão e não foi e eu fiquei aqui com ela, mas naquela tarde chuvosa cada fibra do meu ser dizia: Tio, me leve com você.
Fale com o autor