Fuck Normality
8 Gritos
Notas iniciais
Boa leitura!
Clarice sentou-se a mesa de jantar mais uma vez, junto a sua família, faziam apenas dois dias que eles haviam feito o passeio para a cachoeira e ela ainda podia sentir os seus lábios formigarem após aquele beijo. Rich olhou de soslaio para Clarice que permanecia calada enquanto ouvia as risadas e piadas da família contagiarem a cozinha, a menina estava sentindo dentro de si mesma uma paz que ela desejava não necessitar da morena para senti-la.
Rich pela primeira vez estava se sentindo dentro da mesma bolha que a sua irmã sempre estava, ela não era do tipo distante que ocasionava um milhão de brigas na sua casa, mas ela era distante e quase ninguém podia entender ela. Desde que ela e Bianca se conheceram, a menina passou a agir de forma estranha e mais quieta, por vezes ela foi pega tremendo e com medo durante a noite, por motivos que ninguém poderia entender. Isso não era comum para uma menina de apenas 12 anos, que foi a época em que esse comportamento se tornou mais constante na menina, mas os seus pais não a pressionavam, eles temiam que fosse algo sobre ela e não sobre Bianca, mas eles colocariam todas as suas apostas, que a menina só estava se afundando e compartilhando os medos da sua melhor amiga, mas nesta noite, Rich sentia pela primeira vez como era compartilhar de uma espécie de segredo sombrio que só existia naquele mundo desconhecido onde eles viviam.
Mentalmente, ele preferiu associar agora como “Fuck Normality”, porque era assim que Bianca escrevia em seu diário, quando ele o encontrou ocasionalmente em uma tarde quando a irmã tinha 7 anos e começara a escrever acreditou que fosse um conto de fadas que a irmã imaginava e rabiscava, uma espécie de Peter Pan ou Alice no país das Maravilhas guiado por uma pequena loira, só alguns anos depois ele conseguiu entender que ela escrevia em metáforas sua própria vida. A pequena menina loira, não era Alice ou uma versão feminina de Peter Pan, a pequena menina loira, dividia a casa com ele.
A pequena menina loira se virou e sorriu para ele docemente, e ele sorriu de volta pegando na sua mão que estava sob a mesa.
Um dejavú ocorreu, quando novos gritos ecoaram pela sala, eles vinham da casa da pequena Bear, da pequena loira, devo dizer que nem todas as noites aquilo acontecia e na verdade, havia muito tempo que não ocorria com tanta frequência. O fator que fizera as brigas aumentarem, ninguém realmente sabia, mas era atordoante ouvir todos aqueles gritos.
-Eu também detestava as aulas de matemática. Disse o pai de Clara, continuando a conversa e olhando para a menina.
A família seguia o padrão de quando aquele tipo de coisa acontecia, agir naturalmente, como se os gritos não pudessem ser ouvidos. Clara sorriu para a família e todos sorriram de volta, em um jogo necessário de hipocrisia, para a família que se importava verdadeiramente com Bear, mas que tinham o dever, como parentes de sangue de manter Clara, o mais longe possível daquela guerra.
Um barulho de porta batendo se pode ouvir e Clara sabia que a mãe de Bear havia caminhado para fora, o seu coração palpitava desesperado e lágrimas queriam rolar pelo seu rosto, lágrimas de impotência e fúria, que ela sabia que se começassem ali, não iriam cessar. A loira mexeu nos cabelos, e balançou a cabeça os colocando em seu lugar.
-Eu ainda não acredito que o Rich ama matemática, você poderia ter colocado dois filhos parecidos no mundo, não é papai!? Brincou, a voz doce e suave da loira, estava trêmula, deixando transparecer sua vontade de chorar e ela pigarreou em seguida após notar esse detalhe.
Um novo bater de porta se pode ouvir vindo da casa da frente, enquanto os gritos de Jean repreendendo a filha cessaram por um segundo e arrisco a dizer, que todos se silenciaram naquele momento, tentando entender o que significava aquilo. As brigas sempre tinham o mesmo padrão, gritos, a porta batendo, a mãe saindo da casa, novos gritos de Bear e finalmente o silêncio ensurdecedor, e Clara sabia que dentro dela, o silêncio era o que a vinha destruindo por dentro em cada oportunidade.
Rich pigarreou e soltou um pequeno riso, para dar continuidade naquela conversa, que ele sinceramente, nem se lembrava qual era ou como haviam chegado naquele ponto. Uma nova gritaria o impediu.
“NÃO! Me solta...”
Clara não pode resistir em deixar seus olhos se fecharem, ela sabia que Bear estava do lado de fora e que ela chorava desesperada pelo seu tom de voz. Ela só precisava se elevar para outro planeta, respirar e com aquele cerrar de olhos, voltar para um mundo onde nada daquilo existia.
“Por favor!”
Aquele grito, fora aterrador e pedia por clemência, de uma maneira desesperada. Ele vinha da garganta de uma menina de 17 anos, que tinha uma das vozes mais doces e delicadas que uma menina poderia ter.
Clara se levantou em um único impulso e os olhos hipócritas que a seguiam, se espantaram ao ver o movimento brusco da menina. Em segundos, ela estava na porta de sua casa, com passos duros, podendo agora junto a sua família observar uma morena fragilizada, jogada ao chão, sendo segurada pelo braço, por um homem que usava terno e uma calça caqui, que estava com o cinto afrouxado e tinha a gravata completamente fora do lugar, com alguns botões abertos, evidenciando uma possível luta física.
-Você tá vendo que cena ridícula você está fazendo aqui? Levanta desse chão agora e vem comigo. Repetiu duramente Jean, o pai de Bear.
As lágrimas não paravam de rolar dos olhos da menina que parecia sem forças para se levantar e foi puxada em seguida.
-Levanta! Exclamou Jean enquanto puxava a filha do chão.
-Por favor, não, hoje não... Repetiu a menina, com o mesmo desespero que fora ouvido anteriormente e lágrimas rolavam furiosamente da sua face.
-Vamos pra dentro. Disse Rich, colocando a mão no ombro da irmã. A família se virou lentamente e Clara abaixou o olhar se juntando a eles, os reflexos da família não foram suficientemente rápidos, e nem mesmo os de Bear foram, porque em um segundo a pequena loira estava de costas se guiando para sua casa e no outro, ela estava correndo furiosamente em direção a sua casa, foi quando um soco acertou em cheio o rosto de Jean, uma mão pequena e delicada havia acertado sua face e aquele não parecia ser um soco de uma menina de 15 anos de idade, ele soltou o pulso de Bear com o impacto e segurou o de Clara.
Mas um novo soco acertou sua face antes que o homem pudesse reagir, dessa vez, viera de Rich, que respirava ofegante e foi segurado por seu pai que chegou após ele. Clara ajudou Bear a se levantar e nenhuma das partes envolvidas se atreveu a falar qualquer coisa ou a iniciar uma nova luta, por aquela noite, aquilo havia terminado ali e Bear iria com Clara.
-Encosta a porra do seu dedo na minha irmã mais uma vez e eu juro, que você será um homem morto!
Naquela noite, Bear se deitou abraçada ao corpo de Clarice e deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto, sussurrando todas as dores no ouvido da sua melhor amiga, e Clara chorou silenciosamente, abraçada ao seu travesseiro.
Notas finais
E agradeço a todos os que estão lendo e comentando! *-*
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