紫目 Murasakime - As pétalas que não caem mais
6 Suck My Kiss
O som grudento e irritante do despertador fez Sho abrir seus olhos. Era um sábado de manhã, e Yukihira acordou lentamente. Desligou seu celular com calma, e observou ao seu redor.
A luz que entrava pela janela batia no rosto cansado de Shoyo, que pegava seus óculos na cabeceira enquanto limpava seus olhos com o dedo. Ele soltou um longo bocejo e se levantou da cama desarrumada.
Eram 8:00 da manhã, um horário que Shoyo não estava muito acostumado a acordar em um sábado. Mas dessa vez ele tinha decidido fazer algo diferente.
Ao sair do quarto, Sho foi no banheiro. Era um banheiro relativamente pequeno com uma aparência bem limpa, afinal apenas duas pessoas moravam naquela casa. Yukihira se olhava no espelho ouvindo a descarga da privada que ele tinha urinado. O borbulhar da água sanitária não atrapalhava seus pensamentos fixados enquanto ele se encarava. Era um pensamento niilista e narcisista, que misturado com um altruísmo raro, formava a pessoa Yukihira Shoyo. Ele era daquele jeito, e nada mudaria. Talvez ele tenha se formado sozinho, ou por influência de pessoas externas. Mas ele era assim, e isso que importava.
Voltando ao mundo real, Shoyo escovou os dentes e sem se banhar ou trocar de roupa, ele desceu as escadas. Sua mãe estava vendo televisão, e respondeu o cumprimento de seu filho com um murmúrio baixo que Sho teve que prestar atenção para ouvir. Apesar do quase silêncio da senhora Mirin, a pobre mãe ficou surpresa de seu filho ter acordado cedo. Mas a surpresa sumiu com um sentimento de curiosidade, que não pode ser resolvido pois Sho fechou a porta da saída sem contar á ela aonde iria.
O cotidiano de uma manhã em Saitama foi alterado com um jovem cabeludo que andava apressado, vestido de roupas amarrotadas que ele usara pra dormir. O som de seus passos corridos naquele bairro longe do centro da cidade, misturado com alguns velhos andando de bicicleta, davam um ar de calmaria.
Mas a loja de conveniência não iria ser visitada, e o caminho para a ponte não seria percorrido pelo jovem aquele dia. Shoyo estava indo em direção á casa de seu melhor amigo Sawamura Shin.
A cada passo Sho percebia como era diferente o caminho que ele estava fazendo. Como a casa de seu amigo era em direção ao centro da cidade, mais carros iam surgindo, e menos arvores enfeitavam as calçadas de Saitama. Mais lojas e pequenos prédios surgiam, até que ele chegou em uma casa grande, uma casa que era de uma família rica chamada Sawamura.
Ele tocou a campainha enquanto ofegava. Sho com certeza não estava acostumado a fazer exercícios.
Alguns minutos passaram até que um homem alto atendeu. Ele possuia cabelos grisalhos e bem penteados, e uma expressão bem séria ressaltada pela sua sobrancelha grossa e seus olhos verdes que lembravam um gavião.
—Bom dia senhor Sawamura. Você lembra de mim?
—Oh, bom dia Yukihira, mas é claro. Que surpresa vê-lo por aqui. Venha entre. — Convidou Sawamura Oru.
Após deixar seus calçados, Shoyo entrou lentamente na casa dos Sawamura. Se sentou no sofá confortável deles, e ouviu o que Oru tinha a dizer:
—Você veio procurar Shin? Espere um pouco que irei chamá-lo, ele está no quarto dele.
Shoyo esperou tranquilamente enquanto o pai de Shin ia procurar seu filho. Eis que surge uma figura pequena e simpática. Ela possuia olhos verdes igual seu pai, e era bem pequena.
—Bom dia! — Exclamou Uraraka.
—Oh bom dia Uraraka. Acordou cedo hoje hein? — Respondeu Sho.
—Sim! Papai sempre me acorda cedo.
—Onde está sua mãe?
—Mamãe foi dar uma caminhada no parque.
A garotinha se sentou no sofá, e com o controle remoto ligou a televisão, colocando em um canal infantil.
—Bom dia Shoyo. O que está fazendo aqui? — Perguntou Shin que surgiu de repente. Ele tentou ser o mais gentil possível, camuflando a decepção que tinha com seu amigo. Shin estava ainda com seu pijama, e provavelmente tinha acabado de acordar.
—Vim te chamar pra dar uma caminhada no parque. — Respondeu Sho.
—Se eu quisesse eu iria com a minha mãe cara. Você podia ter me ligado para avisar.
—Me perdoe, mas vamos. Eu preciso conversar com você.
—Ok, só espere eu me trocar.
Após mais alguns minutos, os dois amigos saíram juntos. Shoyo não percebeu, mas Shin estava tentando mostrar um clima desconfortável, afinal Shin estava bravo com seu amigo.
Os dois estavam caminhando lentamente em direção ao parque, até que Shin cortou o silêncio.
—Onde estamos indo?
—Estamos indo para o parque. Tenho que te mostrar algo lá. Te explico no caminho.
Shin pensou em perguntar sobre a garota, mas decidiu hesitar. Eles caminharam calmamente, e sem dizer palavra alguma. Era uma amizade que estava ligeiramente fragilizada, por culpa de decisões tomadas por Shoyo. Se Sho tivesse conhecido a garota mais recentemente e não tivesse tido tempo para contar ao seu amigo, Shin teria ficado mais calmo. Mas o fato que Sho estava faltando muito recentemente apenas confirmava que ele estava visitando a garota.
Quando eles estavam se aproximando da ponte, Sho parou.
—Chegamos, vamos descer esse barranco. — Disse Yukihira, enquanto se aproximava da descida. Porém ele reparou que Shin estava parado. — Você não quer vir?
—Eu sei o que você quer me mostrar Sho.
—Hã?
—Eu sei que tem uma garota que você visita aí embaixo. Eu fiquei decepcionado por você não ter me contado, mas não tenho interesse em conhecê-la.
—Não sei como você descobriu, mas porquê veio até aqui então?
—Eu queria ter certeza que você me mostraria isso. Mas eu tenho que ir agora. Não precisa me chamar novamente.
Sem se despedir, Shin se virou indo embora. Sho ficou confuso assistindo seu melhor amigo ir embora sem dizer nem uma palavra. Ele não imaginou que Shin ficaria tão chateado por causa disso. Cabisbaixo, ele desceu o resto do barranco, reparando que Murasaki não estava debaixo da ponte.
Ao invés de ir em direção ao esconderijo, Sho se sentou onde Murasaki costumava sentar. Depressivo, ele se lembrou da madrugada em que ele pensava em seu amigo. Mais uma vez Sho cometeu erros com as pessoas que ele possuía laços.
—Porquê eu não contei pra ele? — Pensou alto o pobre garoto. — Tudo se resolveria tão fácil se eu tivesse contado pra ele.
Olhando pro teto obscuro da ponte feita de concreto, Sho fechou os olhos. Ouviu o som dos carros, pássaros, passos de pessoas, o som de uma cidade. Era isso que Murasaki ouvia, pensou Sho. Era um som calmo e relaxante, que acalmava qualquer coração que se depositasse debaixo daquela ponte.
Desejando que tudo aquilo terminasse, Sho começou a lacrimejar. Ele não queria perder mais alguém. Ele não queria perder seu amigo. O conjunto de sons da cidade de Saitama ganhou mais um som. Era o soluçar de um pobre garoto que estava solitário debaixo de uma ponte.
As lágrimas pararam. Sho olhou em direção ao esconderijo e viu Murasaki parada na sua frente, estática, sem ter o que dizer.
—Sho-shoyo?
—Murasaki...
—O que houve Shoyo? E-eu...
—Eu estraguei tudo Murasaki... Tudo...
—Do que está falando Shoyo? Eu ainda estou aqui...
—Meu amigo descobriu sobre a gente. Ele não sabe que você é uma robô, mas ele ficou profundamente decepcionado por ter descoberto que eu me encontrava com você.
—Porque?
—Ele entendeu isso como uma traição. Eu e ele sempre contamos tudo um para o outro. Tudo mesmo. E ele é praticamente meu único amigo na minha escola.
—Shoyo, relaxe, vocês ainda resolverão isso.
—Espero que sim. Parece que aos poucos eu estou perdendo os laços que tenho. Minha mãe não dá a mínima para mim, e agora meu amigo está se distanciando. Eu não quero ficar sozinho.
Murasaki se sentou ao lado de Shoyo, abraçando o braço direito dele.
—Eu estou aqui. Eu não te abandonarei, nós prometemos.
Os dois olharam um para o outro.
—Obrigado Murasaki. Você é a única que pode me ajudar neste momento.
E assim o som da cidade continuava. O silêncio dos dois pairava sobre o som de pássaros, carros e passos. Até que um novo som se juntou ao caos do cotidiano. Era o som da boca dos dois se tocando lentamente, um beijo que simbolizava o maior laço que Shoyo poderia ter nestes últimos dias.
Com os olhos fechados, Shoyo sentia a respiração quente de Murasaki. Nesta hora o jovem cabeludo nem se importava se Murasaki era um robô ou não. Ele a amava acima de tudo, e a abraçou enquanto o beijo não terminava.
Murasaki tocou os cabelos longos e castanhos de Shoyo. Seu estômago parecia que estava cheio de borboletas. Shoyo era seu guardião em uma época que ela se sentia muito sozinha. Beirando a solidão, Murasaki encontrou algum motivo para estar lá todo dia debaixo daquela ponte.
Após o beijo dos dois, eles permaneceram abraçados por um longo tempo que nenhum deles poderia calcular. Assim como a última noite que os dois dormiram juntos, eles permaneceram inseparáveis.
Mas o coração de Yukihira se assemelhava á uma montanha russa. A felicidade de ter avançado mais um passo com a Murasaki se misturava á tristeza de ter quase perdido seu amigo.
Porém no fundo Shoyo sabia que era impossível de evitar isso.
Se ele quisesse ajudar Murasaki ele tinha que ter algum tributo de sua vida. Ele teria que abrir mão de muitas coisas e Shin não estava fora disso. O principal problema era o pai de Shin descobrir a existência de Murasaki.
Ainda mais agora que Sho e Shin estavam brigados, Yukihira não iria contar para Shin o fato de Murasaki ser uma robô. Pelo menos não agora. Shin em alguma medida súbita de raiva poderia contar ao seu pai, e isso não seria nada bom.
Shoyo não sabia o que fazer, então decidiu novamente aproveitar o presente. A última vez que ele tomou esta decisão ele acabou conhecendo Murasaki. E ela estava ali com ele, abraçados.
—Eu vou te ajudar Murasaki. Ninguém pode descobrir que você é uma robô.
Os dois estavam abraçados e confortáveis. E ali perto da ponte, atrás de uma coluna ao lado do barranco, um jovem alto e loiro estava escondido.
Shin tinha escutado tudo.
Fale com o autor