Desde o encontro inusitado entre os dois, Murasaki e Sho acabaram construindo um laço. Sem saber o passado um do outro, este laço nunca era destruído, afinal nenhum queria saber sobre a vida do outro, eles só queriam curtir o fato de que estavam juntos.

Porém as consequências de uma vida como essa chegariam logo.

A mãe de Sho chegava tarde do trabalho, tarde o suficiente para que Sho já estivesse dormindo. Mãe preocupada como era, ela sempre checava o quarto de seu filho para ver se o mesmo estava bem. Mas nos últimos dias ele não estava lá. Talvez essa época da juventude teria chegado, pensava ela. Ir em festas, baladas, ou curtir com os amigos eram possibilidades de coisas que um adolescente como Sho poderia estar fazendo. Mas não no meio da semana, em vésperas de aula.

Era um dia desses em que seu filho não chegava, e Yukihira Mirin estava sentada no sofá, esperando que Sho chegasse. A luz do luar entrava pela única janela da sala, que refletindo na TV, iluminava o rosto cansado de Mirin. 43 anos de vida eram justificados pelas rugas que surgiam em seu rosto, e também os fios de cabelo branco que surgiam no coque bem preso. Mas Mirin era uma mulher forte, e não se deixava abalar pela velhice, portanto ela possuía um corpo bem jovem para alguém da idade dela.

O som agudo das chaves se batendo, mais o ranger da porta se abrindo foram sinais suficientes para que ela soubesse que Sho estava chegando.

—Oh! Oi mãe que susto, não imaginei que você estava acor...

—Onde você estava?

—Eu saí com uns amigos.

—São onze e meia da noite. Era para você estar dormindo!

—Me deixa por favor.

—Não, você é o único filho que eu tenho, e eu tenho que me preocupar com você. Shoyo cerrou os punhos. Desprendeu seu cabelo e foi subindo as escadas em direção ao seu quarto.

—Não me ignore Shoyo!

—Cale-se! Se você se preocupasse tanto comigo você estaria mais presente na minha vida! Você só se preocupa com seu umbigo! Não me fala onde trabalha, nem para quem trabalha, e vive ás custas do dinheiro do papai!

—Isto não é problema seu! Se não fosse eu você não teria essa sua vida magnífica!

—Vida magnifica? Eu não tenho a mínima vontade de tê-la! Trabalhar a vida inteira para ter uma vida triste? Não obrigado!

—Quem disse que você trabalha seu vagabundo!?

O silêncio tomou conta da casa dos Yukihira. Uma tensão tão forte que parecia que qualquer movimento iria explodir a casa.

—Eu vou dormir. – Sussurrou Shoyo sem olhar para sua mãe.

Ele bateu a porta do seu quarto com força e se jogou na cama bagunçada. Colocou os fones de ouvido e ficou ouvindo uma fúnebre melodia de uma banda que ele gostava. O som alto da música abafou o choro que sua mãe soltava no andar de baixo. Depois de um tempo, Sho adormeceu.

O dia amanheceu como qualquer outro. As pessoas na vizinhança viviam as suas vidas, as suas rotinas, e isso não era diferente pra Sho. Desta vez ele não acordou com o despertador, nem com a música que ele esqueceu de desligar. O cantar dos pássaros e a luz que batia na janela iluminavam o rosto do pobre Sho, que despertou após um pesadelo horrível.

Nove e meia da manhã.

—Mais um dia em que eu faltei... Droga...

Yukihira Shoyo levantou e se trocou rapidamente, ele iria visitar a Murasaki. Desceu as escadas já pronto e de cara lavada, e percebeu que desta vez não havia lanche nenhum guardado na geladeira. Suspirou, arrumou a casa antes de sair, e pegou o resto do dinheiro que ele estava juntando.

Ao fechar a porta, prendeu o cabelo e foi em direção a ponte, sem reparar no olhar maldoso daqueles que passavam, afinal um jovem como ele neste horário deveria estar no colégio.

Passou na loja de conveniência velha que havia perto de sua casa. Ela estava totalmente vazia, exceto pelo velhinho que cuidava do caixa. Sho tinha pego este costume desde que começou a visitar a Murasaki, comprar algum quitute para a pobre menina. Desta vez ele escolheu um docinho de morango que ela adorava.

Sho observou o olhar triste do velhinho. Provavelmente sozinho e solitário, o velho tinha que trabalhar todo dia mesmo com uma idade em que já poderia se aposentar. Talvez porque o Japão ainda não tinha se recuperado totalmente da crise desde a guerra civil, ou talvez porque o velho tinha que sustentar uma família, Yukihira pensou que o velho não tinha escapatória.

Realmente o mundo era cruel, pensou ele.

Deixando isso de lado, Shoyo focou seus pensamentos na sua amiga Murasaki, que percebeu sua chegada debaixo da ponte.

—Você veio cedo hoje... – exclamou a menina.

—Sim, perdi a hora da classe. Aqui está seu doce preferido.

—O-obrigada... Ei Shoyo, me siga, tenho que te mostrar uma coisa.

Sem pestanejar, Yukihira seguiu sua amiga na margem do rio raso, passando pelo parque que havia perto dali, terminando em uma entrada para o esgoto, onde a água corria. Longe do bosque, encima desta entrada, havia uma estrutura velha e carcomida, provavelmente abandonada e largada no meio do bosque.

Era uma casa antigamente usada pelos faxineiros do parque. Trancada e abandonada, possuía uma janela quebrada que Yukihira e Murasaki facilmente se esgueiraram por meio de uma escada que Murasaki tinha encontrado outro dia.

—Este é meu esconderijo...

Ao adentrar a janela, Murasaki viu uma sala com chão de madeira e paredes cinzas. Era realmente uma casa antiga, e a porta que havia do outro lado da sala estava bloqueada por umas caixas cobertas por um pano. Shoyo também percebeu que alguns pertences que estavam ali eram de Murasaki, inclusive a escova de dentes que ele deu pra ela. Uma cama improvisada no canto da sala indicava onde ela dormia; era um travesseiro velho por cima de uns panos e cobertores bem sujos que provavelmente ela encontrou largados no rio.

—É aqui que eu durmo e passo o resto do dia. –explicou Murasaki para o Shoyo, que não parava de observar a sala.

—Onde você achou isso tudo Murasaki? Tem até uma vela aqui.

—Todo dia alguém larga algo na margem do rio. A coleta de lixo sempre passa pra pegar as coisas que as pessoas jogam, então eu aproveito pra ver se tem algo útil, como alimentos ou roupas.

—Isso é incrível! Mas porquê quis me mostrar isso?

—E-eu acho que já ganhei confiança com você o suficiente pra te mostrar isso. Todas as pessoas que se aproximaram de mim sumiram depois de um tempo mesmo me ajudando. Isso simboliza que nosso laço está completo.

Surpreso, Shoyo ficou pensativo. Realmente eles tinham ganho confiança, mas ele não entende o porquê ela não quer sair debaixo da ponte ou porquê ela está ali. Chegou a hora dele perguntar seriamente sobre isso.

—Obrigado Murasaki, eu fico lisonjeado. Mas porquê você não me fala o motivo de morar na rua? Eu fico triste de imaginar você passando perigo quase todo dia.

—Shoyo, me perdoe... Mas quando chegar a hora certa eu explico.

Yukihira Shoyo acenou com a cabeça tranquilamente, aceitando a proposta. Ele não iria insistir e acabar com essa nova amizade logo de cara.

Murasaki se desaproximou, pegando um pedaço de papel dentro de uma caixa. Fez uns movimentos com a mão e se virou pro Shoyo.

—Isto é... Pra simbolizar nossa amizade Shoyo. Você me deu um nome, e eu quero retribuir isso de alguma forma.

Shoyo ficou em silêncio, e deu um leve sorriso.

—Obrigado Murasaki, eu aprecio muito. Vamos deixar isso aqui no seu esconderijo, afinal pode amassar se eu colocar no meu bolso.

Shoyo colocou o origami encima de uma das caixas que bloqueavam a porta. Então ele percebeu que estava meio esfomeado, afinal não tinha tomado café.

—Você quer comer algo Murasaki?

—N-não... Estou bem.

—Que isso, vamos! Eu tenho certeza que iremos encontrar algo que você goste.

Saindo com cuidado pela escada, os dois caminharam pela margem do rio, até chegarem na ponte em que se encontraram pela primeira vez. Shoyo começou a subir o barranco tranquilamente, até que percebeu Murasaki parada embaixo da ponte, meio retraída.

—O que houve Murasaki?

—Eu não posso ir... Ainda não. Me perdoe Shoyo, se quiser pode ir, depois a gente se fala.

Shoyo decidiu não insistir. Se despediu de sua amiga e foi em direção á alguma lanchonete.

Yukuhira começou a refletir sobre sua relação com sua nova amiga, enquanto caminhava. Era uma garota um tanto misteriosa, ja faziam duas semanas que eles se viam debaixo desta ponte. Ele gostava de vê-la porquê sabia que ela se parecia com ele. Ignorando tudo e todos á sua volta, os dois apenas queriam viver como quisessem, fugindo desta sociedade.

Eles não queriam fazer parte da sociedade que massacrou a própria criação deles, que possuía emoçoes, choravam, dormiam e comiam.

Viver debaixo de uma ponte era parecido como viver feito uma árvore. Alguns notarão sua presença, mas ninguém vai se perguntar o porquê de você estar ali.

Shoyo realmente invejava Murasaki.