É por isso que eu odeio o futuro!
11 Capítulo 11- Caminho errado
Notas iniciais
Definitivamente eu não nasci para resolver problemas. Talvez seja por isso que eu nuca fui muito bom em matemática. Agora, para criar os problemas... Ah, isso sim eu era excelente. Tão bom, que poderia até ganhar um salário pela minha eficiência.
Eu bem que deveria ter ido morar nos Alpes e ter virado monge. Não estaria aqui agora.
E quando eu digo “aqui”, me refiro ao fato de estar com a mão apoiada no queixo, sentado no sofá, enquanto crio coragem para me levantar e fazer o que eu deveria estar fazendo. Exatamente como eu estava há quase uma hora atrás.
Fazer algo em relação ao Beto era exatamente como fazer a prova de final de ano. Você só tem duas alternativas, a certa e a errada. Você tem certeza de que a que você marcou é a certa. Mas não é, e você está lascado.
E eu te pergunto: E agora, José?
Pois bem, foi exatamente por isso que passei esse tempo inteiro olhando para o nada, silenciosamente, tentando levantar daqui e tomar uma atitude. Minha mãe sempre dizia que eu só iria realmente tomar atitudes quando elas vendessem em comprimidos. Essas palavras nunca fizeram tanto sentido quanto agora.
Acabei me levantando bruscamente do sofá; Em parte porque eu já deveria ter feito isso há horas. E outra, porque, bem, minha bunda já estava doendo de ficar sentado na mesma posição por tanto tempo. Não que isso venha ao caso.
Mas como eu estava dizendo, levantei e caminhei até o quarto. Beto estava deitado no meio da cama com um dos braços cobrindo os olhos. Não se mexeu quando entrei. Na verdade, acho que ele sequer reparou. Talvez estivesse dormindo.
Arrisquei a me sentar na beira da cama e o fitei. Acabei suspirando um pouco alto.
Beto tinha sido mais do que, hum, como dizer? Um amigo de quarto. Ele havia ficado comigo mais do que qualquer pessoa da qual eu ainda me lembrava. E também havia se mostrado muito mais preocupado.
Mas ele ainda era um estranho para mim. Um estranho, muito estranho e que eu conhecia. E isso não faz o menor sentido. Quero dizer, eu o conhecia, no sentindo mais vago da coisa, a mais ou menos duas semanas e mesmo assim já o achava muito importante... E eu tinha acabado de me dar conta de que eu gostava dele.
Oh sim! Eu gostava. Esse era o problema.
—Talvez, se eu não gostasse isso seria mais fácil. – Balbuciei.
Mas como ia dizendo, eu gostava dele. Porém não queria dizer que eu havia mudado minha ideia de que eu não o merecia.
Percebi que ainda estava o encarando. Estava observando a expressão quando ele dormia, como os lábios estavam entreabertos e como a camiseta preta grudava em seu e corpo. Reparei também em como eu estava pirando cada vez que eu chegava mais perto dele. Sentia-me como se fosse pular de paraquedas, sem paraquedas e com pesos amarrados nas pernas.
Acabei deslizando meu corpo da cama para o chão, fazendo um grande ruído quando estes se encontraram. E aquilo pareceu acordar Beto; vendo que ele se sentou na cama como se estivesse acabado de acordar em um lugar que não conhecia. Depois piscou os olhos e olhou para mim.
— Alex?– O modo como ele falou mostrou que estava tão surpreso em me ver quanto estaria se fosse um porco espinho de vestido. –Mas o que...?– Ele ainda estava meio perdido. Talvez pelo sono.
— Escuta – Comecei. Levantando-me rapidamente do chão e ficando em pé para olha-lo. – Você me pediu uma decisão. Pois bem. Eu tomei uma.
Ele piscou novamente e me encarou. Ah, como eu odiava quando ele me olhava assim...
Respirei fundo tentando me acalmar. Mas é que eu nunca fui muito bom com as palavras e sempre parecia um rap quando estava nervoso.
— Eu espero que você entenda que... –Comecei lentamente, buscando falar com calma.
— Você vai embora. –Ele interrompeu. E eu parei. Apenas o fitei.
— O que?
— É isso que o seu rosto está dizendo. E digo isso porque já vi essa expressão uma vez. –Beto me encarava.
Eu ainda estava esbabacado olhando para ele; por isso quando percebeu que eu não ia dizer nada, apenas suspirou, balançou a cabeça e voltou olhar pra mim.
— Então é isso... –Ele não fez a menor questão de esconder a decepção no rosto. – Essa é realmente a conclusão que chegou...
E eu queria me atirar pela janela. A conversa estava indo por um caminho completamente diferente do que eu havia planejado...
A verdade é que queria mesmo ficar com Beto. Mesmo que minha consciência gritasse para eu comprar uma passagem só de ida pra timbuktu.
— Te deixar seria a opção certa... Não é? – De repente, lembrei-me da comparação que havia feito com a prova.
—A opção certa? Está julgando a nossa situação por ser a coisa certa? Pro inferno a coisa certa, Alex! O que você quer? – Droga, em menos de vinte minutos eu já havia transformado a situação em um clima horroroso. Realmente. Deveria ter ido morar nos Alpes...
—O que eu quero?–Minhas mãos estavam fechadas em punhos. – Bem, eu quero muita coisa, Roberto. Eu quero voltar para minha vida. Eu quero voltar aos meus quinze anos. Para os problemas que já eram impossíveis de mais. Quero voltar a ter a minha família... E principalmente, por alguma droga de motivo desconhecido, quero ficar com você. Seu grande idiota!
Ao fim das minhas palavras eu estava ofegante. Não que eu realmente tivesse a intenção de despejar tudo em cima dele assim, mas como sempre, aconteceu. Um minuto eu estava bem e controlado e do outro estava surtando com um monte de palavras pulando para fora.
Acabei me recompondo. Respirei fundo e olhei para Beto. Que estava com a boca aberta olhando em minha direção como se fosse falar alguma coisa.
—Desculpe. – Interrompi antes que ele o fizesse. – Não deveria ter falado assim. Apenas... Você me perguntou o que eu queria. E bom, é isso que eu quero. Mas sabemos que nem sempre temos o que queremos e bla. Mas o que eu realmente queria, era não ter te machucado desse jeito...
—Alex... –Ele começou. A voz estava ríspida. Provavelmente eu havia o irritado novamente. – Somos dois homens. Não precisa tratar isso como se o que tivesse acontecido fosse nos quebrar em milhões de pedaços. Não somos de porcelana.
— Mas isso não vai mudar o fato de que eu o prejudiquei durante tanto tempo. Você é quem deveria querer que eu fosse embora.
— Bom, você está certo. É uma escolha minha. E você sabe muito bem qual foi a que eu fiz. Agora falta você descer desse muro e saber o que fazer da sua vida.
— Descer do muro é o problema, Beto. – Comentei. – Algumas pessoas têm medo de cair.
Ele se levantou colocando-se ao meu lado. Segurou meu rosto para que olhasse para ele.
— Mas você não precisa ter esse medo, Alex. Eu estaria lá em baixo para te segurar.
Acabei sorrindo.
— Meu Deus... De que livro você tira esse tipo de coisa?
— Dos mesmo que você tira os seus dramas desnecessários. –Ele também sorriu.
Balancei a cabeça.
— Não é desnecessário. Estou perdido. No meio de uma encruzilhada e que não posso sequer voltar...
— Por que você não pode confiar um pouco mais em mim?
— Beto, FOCO! Não estou julgando confiar em você ou não. Não confio em mim. Aliás, não confio em ninguém que não come carne.
Ele suspirou. Ainda segurando o meu rosto.
— Realmente se sente culpado por tudo? Realmente sente muito?
— É obvio que sim! Por acaso acha que estou fingindo? – Indaguei.
— Claro que não! Acredito em você. – Ele falou calmamente. – Disse que queria ficar comigo. Isso é verdade?
Afirmei e olhei para o chão.
— Então me compense. – Ele disse seriamente.
Olhei pra ele confuso.
— E como eu deveria fazer isso?
— Fica comigo. – Ele sussurrou. – Me ame mais do que eu te amei por todo esse tempo. Você não quer ir, e eu não quero que vá... Eu não me importo de esquecer tudo, assim como você. Desde que você seja completamente meu.
Primeiro fiquei processando as palavras. Depois olhei pra ele com os olhos arregalados.
— Este... É um pedido muito estranho. Quer dizer, não é como se você estivesse me pedindo pra te pagar um cachorro-quente toda terça-feira, ou algo assim. É algo que eu não sei se posso fazer...
—Ah... Mas você pode. Porque em todo esse tempo que eu te conheço, nunca vi você olhar pra mim como agora.
— E... Como eu te olho agora?–Perguntei cautelosamente.
— Como se finalmente estivesse me enxergando. – Ele se aproximou. – Essa é minha ultima oferta, Alex. Já facilitei muito pra você. Então o que fará agora?
Suspirei e o encarei.
— Acho que já disse muitos “nãos” para você...
Eu provavelmente tinha muito mais coisas para dizer. Mas fui interrompido. Adivinhem? Pois é. Outro beijo sem aviso. Não que eu esperasse que Beto me mandasse um telegrama dizendo a hora, o local e a razão. Isso também já seria o cumulo da bizarrice. Mas ele poderia pelos menos, parar com essa mania... Mania essa que na realidade eu não estava achando tão ruim assim... Droga.
Prendi minha mão em seu cabelo e o puxei para mais perto, e acho que ele entendeu um isso como “seja bem vindo”, pois de repente o beijo se tornou mais íntimo. Mais intenso. Sentia minha cabeça girar. Quase como se eu fosse perder os sentidos.
Beto praticamente se jogou na cama me puxando junto e me fazendo ficar sobre ele. Sua boca esquadrinhava a minha completamente. Separei-me dele o suficiente para fitar seu rosto. Os olhos agora escuros de desejo. E eu sorri. Não sei porque, mas sorri. Um sorriso indecente
Levei minhas mãos à barra de sua camiseta e a puxei, e Beto pareceu mais do que disposto a colaborar para se livrar do tecido. Toquei seu peito e senti o calor sobre meus dedos. Havia um caminho de pelos macios e mais escuros que seu cabelo, descendo até o abdômen. E eu fiz este mesmo percurso com eu dedos até chegar ao cós da calça de algodão. Ele estremeceu. E sussurrava meu nome em gemidos.
Antes que eu continuasse ele inverteu as posições ficando sobre mim. Sua mão deslizava pela lateral do meu corpo, parando quando alcançou minha coxa. Sua língua percorria todo meu pescoço, enquanto eu me sentia cada vez mais quente. Dessa vez ele retirou minha blusa sem que eu ao mesmo percebesse. Só tive tempo de conter um gemido quando sua boca se fechou ao redor de um de meus mamilos. Arquei meu corpo e meu quadril se encontrou com dele, fazendo com que um som rouco escapasse de sua garganta.
Movi meu corpo de modo que pudesse alcançar sua boca novamente. Todo meu corpo parecia dolorido e em chamas a cada toque.
Continuamos com os beijos e apertões por todas as partes possíveis, ainda que atrapalhados, Beto e eu tentávamos nos livras das poucas peças de roupa que atrapalhava nosso contato.
Separei novamente minha boca da dele e abracei seu pescoço para que minha cabeça alcançasse sua orelha.
— Me diga... O que você quer?– Balbucie com a voz ardendo de desejo.
— Você! Eu quero ter você. – Ele abocanhou meu pescoço.
— Então pede. Você só precisa pedir o que você quer. – Falei maliciosamente.
Beto se afastou e sorriu. Fazendo um arrepio prazeroso correr pela minha pele.
E foi naquele momento em que notei uma pequena coisa. Eu não estava apenas sentindo aquelas coisas. Eu estava assistindo.
Sabe? Imagine que você esta vendo um filme, e de repente os protagonistas começam a se pegar e do nada, você nota que o protagonista é você.
Ainda deitado na cama, com Beto sobre mim, fechei meus olhos. E o ouvi chamar pelo nome. Várias e várias vezes.
Então os abri novamente, e encontrei os olhos dourados de Beto com um olhar, não mais febril, mas de preocupação.
— O que exatamente aconteceu?– Perguntei sentido à tensão na minha voz.
— Eu é que te perguntou! Você apagou. – Ele respondeu, confirmando a preocupação.
— Sim. Eu sei. Mas em que parte, exatamente, eu apaguei?
— Quando eu te beijei.
Sentei-me na cama. Certo, então isso foi verdade. Olhei para Beto completamente vertido. E eu também estava. O que era um excelente sinal.
Mas não queria ficar no mesmo lugar que Beto. Não depois daquela... Visão. Então me levantei, tropeçando no que quer que fosse e corri para o banheiro gritando:
— Preciso dar um telefonema.
É claro que eu não fui realmente fazer ligação nenhuma. E também não fiquei pra ver o que Beto imaginou que “dar um telefonema” pudesse significar. Mas ele ainda bateu várias vezes na porta perguntando se estava tudo bem. Eu apenas afirmava.
No dia seguinte, acordei com mais batidas na porta e uma estranha dor nas costas. E demorei um tempo até entender a onde estava e porque estava ali.
As batidas eram do Beto dizendo que precisava tomar banho e usar o banheiro, e que já estava atrasado. A dor nas costas foi por ter dormindo na banheira.
Assim que abri a porta, Beto me recebeu com uma sobrancelha erguida e um olhar inquisitivo.
— Imagino – Começou ele. – Que não irá me contar o que houve ontem à noite.
Balancei a cabeça.
— Não sei o que aconteceu, pra ser sincero. Não sei se foi uma lembrança ou um sonho. – Um sonho muito estranho.
E se fosse uma lembrança, poxa, será que não dava pra ter lembrado o aniversário do gato da tia avó do Beto? Tinha que ter sido algo tão... Embaraçoso?
Mas o rosto dele se suavizou.
— O que você lembrou? Foi tão ruim assim?
— Foi... Esquisito. Depois conversamos sobre isso. Você já está atrasado.
Imaginei que ele ainda fosse insistir, mas não, apenas concordou e entrou no banheiro. Beto tinha um dom que eu particularmente invejava. A de se arrumar com a velocidade da luz. Em menos de meia hora, lá estava ele novamente, impecável. Geralmente eu levava até uma hora pra me arrumar e ainda assim continuava com aquela cara de zumbi adormecido.
Eu estava sentado no sofá remexendo uma tigela de cereal com leite, sem fome alguma. Minha mente estava vagando por aí e eu me afundava mais em pensamentos.
— Tem certeza de que está tudo bem, Alex?– Beto várias vezes me perguntou e eu apenas assentia debilmente.
Estava tentando entender tudo que havia se passado nas ultimas doze horas. Não sei dizer como realmente ficou a minha situação com ele, nem sei por que tive aquela... Lembrança explodindo na minha cabeça do nada. Eu deveria ir conversar com a minha mãe. Com certeza ela saberia o que fazer.
É triste viver em um mundo, onde até uma galinha parece ter mais noção da vida do que você. Eu só tenho duas lembranças sobre quase toda a minha vida, e uma dela, eu preferia não ter lembrado.
E foi aí, que algo me ocorreu. Nas duas vezes em que eu consegui lembrar-me de algo em relação a minha vida anterior, havia duas coisas em comum.
A primeira era que em ambas, Beto estava presente. Segunda, é que também em ambas, ele estava me colocando sob pressão de algum modo. Então de algum modo, Beto era o que me ligava às minhas memorias.
Não que eu realmente pudesse prova minhas teorias. E também não sabia sequer como fazer isso...
A campainha tocou.
Fiquei imaginando que fosse Beto, falando que havia esquecido alguma coisa. Ou no fundo, era eu, quem queria que fosse ele.
Mas quando abri a porta, não foi ele quem eu vi. Na verdade, eu nem sei quem eu vi. Á minha frente estava outro cara. Alto. Com cabelos de uma cor escura em um corte militar e tinha um sorriso cínico.
Fiquei encarando tal do fulano por um tempo. Até me dar contar de que eu havia cometido uma burrice épica. Quem em sã consciência abre a porta para um desconhecido? Bom, a anta aqui abre.
O problema, não era somente que eu não o conhecia. O problema era que ele me conhecia.
—Há quanto tempo, Alexander! – Ele disparou com uma voz sarcástica.
Será que ainda tenho tempo de me mudar para os Alpes?
Fale com o autor