É por isso que eu odeio o futuro!
12 Capítulo 12- Por que tantos problemas?
Notas iniciais
Estou começando a achar que a minha vida está virando uma piada. Uma piada muito ruim e sem sentido. Igual àquela da galinha que atravessou a rua.
Fiquei um bom tempo encarando o homem que estava na minha frente. E mesmo que eu provavelmente estivesse fazendo uma expressão bem confusa, o sorriso dele aumentou. O que acabou resultando nele mostrando os dentes brancos e brilhantes e eu quase tive que colocar óculos de sol para conseguir continuar olhando.
— O que é isso? – Ele disse em um tom de escárnio logo em seguida. – Depois de tanto tempo, você não dá nem mesmo um “oi” a um velho amigo?
Engoli em seco. Em seco literalmente. Parecia que eu tinha acabado de lamber uma parede de tijolos. E tudo isso porque algo no jeito como ele disse “Velho amigo” não me desceu bem. E eu estava me perguntando se deveria ou não fechar aporta na cara dele e me esconder embaixo da mesa.
Não que, exatamente, eu desconfiasse sobre e essa tal velha amizade. Na verdade, nós até realmente poderíamos ter sido amigos em outros carnavais da vida. O problema era que com tanta coisa acontecendo, com certeza esse não era o melhor momento para vir querer reviver a tal amizade e tomar o chá das cinco.
—Hã... Oi?– Acabei respondendo mesmo assim.
Ele continuava com aquele sorriso. O que me fez questionar se eu não estava em um daqueles comerciais de creme dental onde todos ficam sorrindo e mostrando os dentes cintilantes, sem nenhum motivo aparente.
—Fico feliz em vê-lo bem. Sabe, depois do acidente... Realmente sinto muito!– Ele disse.
— Pois é, né? Mas quem exatamente é você?
De todas as coisas que eu não tenho, a paciência com certeza é a que mais faz falta. E eu não estava com muito saco para fica de blá-blá-blá com o cara sem nem ao menos saber quem ele era. Então perguntei sem muitas delongas.
O sorriso dele pareceu sumir; o que fez com que meus olhos agradecessem. E por míseros segundos ele pareceu realmente assustado. Mas foi tão rápido que se eu tivesse piscado teria perdido a forma como ele se recompôs. Jogando a cabeça para trás e soltando uma longa – e forçada– gargalhada.
E eu fiquei com uma cara tipo: “socorro! Tem um maluco dando risos histéricos em frente a minha casa!”.
— Você está fingindo amnésia? É por causa do seu namorado?– Ele perguntou debochado. – Porque se for, aposto que está se divertindo com isso...
—Por que eu fingiria algo assim? – Indaguei. – Sério, cara, quem é você?
—Tudo bem. Vamos supor que eu acredite. Como é que ele está reagindo a isso? Seu namorado, quero dizer.
Ignorei a pergunta.
—Você vai me dizer quem é ou eu posso simplesmente fechar a porta na sua cara?
—Oh... Claro!– Ainda com o sorriso de deboche, ele esticou a mão. – Vitor.
E ignorei, também e completamente, a mão esticada em minha direção. Já havia assistido filmes de terror o suficiente para saber o que acontece quando você segura à mão do cara esquisito que tocou a campainha.
—Certo, Vitor. O que você quer?– Note que eu não queria ser realmente hostil com ele. Mas senti que ele estava caçoando do Beto, e por algum motivo, não gostei nada disso.
—Não vai nem me convidar para entrar?– Ele perguntou com falsa indignação.
—Não. Não vou.
Já havia cometido a burrada colossal de abrir a porta sem antes verificar quem era. Não ia cometer outra convidando o senhor simpatia para tomar um café com leite.
—Ah... Aí está ele. Alexander, o grande. – Ele satirizou e eu revirei os olhos. – Sempre um doce de pessoa. Para alguém que diz ter perdido a memória, você não mudou nada.
Agora ele havia conseguido a minha atenção. Desde que eu havia acordado aqui, tudo o que eu ouvia era sobre a enorme diferença entre eu e, bom, o outro eu.
—Está querendo dizer que eu sempre fui um grande babaca? Obrigado, Vitor. Tchau, Vitor.
Acabei não me importando com o fato de realmente fechar a porta na cara dele.
Não que ele tenha deixado, pois o cara simplesmente enfiou o braço antes que eu a fechasse por completo. E como eu não queria ser o responsável por mutilar esse maluco, acabei entreabrindo a porta novamente.
—Mas o que é que você quer, afinal? Está parado na minha frente há quase dez minutos. Falou, falou e não disse absolutamente nada ainda.
— Eu tinha assuntos para conversar com você, mas estou começando a achar que já não vai ser mais necessário. – O bom humor na sua voz era tão venenoso.
—Certo. Mas vai falar assim mesmo?
—Por que ficou tão bravo quando disse que você não havia mudado nada? – Ele está claramente tentando mudar de assunto...
— Não gosto da pessoa que me tornei. –Não sei porque respondi isso a ele. Mas respondi.
— Ah... Então quer dizer que realmente perdeu a memória? Toda ela?
— Não. Apenas uns 14 anos. – Dei de ombros.
Ele assobiou.
— E você diz isso assim? Nesta tranquilidade? Que tipo de tratamento está fazendo para fazê-la voltar?
— Nenhum. Não tem tratamento.
Agora ele realmente me apareceu chocado e sem tentar disfarçar.
—É irreversível?
—Não. Na verdade, é apenas psicológica. Terapia não é necessário. Apenas opcional. Sem falar que a memória uma hora vai voltar... Aos poucos, mas vai. – Acabei me lembrando da noite passada e com certeza, eu fiquei vermelho. E tudo que fiz foi torce para que o outro não notasse.
E graças a Deus, não notou.
—Ah... Então é basicamente Amnésia psicogênica. –Falou pensativo. – Isso, com certeza tem sentido.
Olhei para ele revoltado.
—Sentido? O que tem de sentido em se perder metade da memória sendo que, tecnicamente, o seu cérebro está em ótimas condições?
Vitor riu ainda mais.
— O seu médico não te explicou?
Err... Na verdade ele explicou. Só que... Não sei se já comentei, mas não sou muito bom em prestar atenção nas coisas. Principalmente quando a coisa é chata e entediante. E muito menos quando parece que tudo que a pessoa está falando está em latim... Então, digamos que eu deveria está achando o grampeador da mesa do consultório à coisa mais linda e interessante do mundo ao invés de realmente está prestando a atenção quando o médico “tentou” conversar comigo.
Tentei me lembrar de alguma coisa que ele havia falado e que fizesse certo sentido. Até que por fim, soltei:
— Me disse que isso era comum em acidentes de carro.
Vitor tentou me cegar novamente. Digo, sorriu novamente com aquelas lâmpadas que ele carregava na boca.
— Acho que posso te ajudar muito mais a fundo que o seu médico.
Sabe quando todo o seu corpo grita em alto e bom som: “FUJA”?
—Acho que não. Estou muito bem com a minha santa ignorância. – Esperei que ele não percebesse como minha voz quase saiu falha. – É só isso? Agora, será que dá pra você ir?
A minha esperança de que ele não reparasse em como eu havia ficado... Hum... Digamos que, apavorado com o ultimato dele, foi completamente pro vinagre.
— O que foi, Alexander? Está com medo de mim?
—Não estou com medo. – Respondi, calmamente. – Apenas, acredito que seu assunto comigo já tenha chegado ao fim. Não. Na verdade não tenho interesse no que vai me dizer. Não preciso de explicações sobre o que eu tenho ou deixo de ter. Preciso das minhas memórias de fato, mas estou me saindo bem em consegui-las do meu jeito. Então desculpa, mas não acho que você será de muita ajuda.
Fiquei surpreso, e orgulhoso, comigo mesmo naquele momento. Falei muito bem para alguém que se trancava no banheiro quando não conseguia lidar com certas... Situações.
—Tudo bem. – Vitor concordou. O que foi ainda mais bizarro, em minha opinião. – Mas acho que está enganado sobre não precisar da minha ajuda. Procurou-me quando as coisas ficaram difíceis da primeira vez, e vai me procurar novamente. Afinal, acho que seu namoradinho está te moldando de acordo com o mundo que ele quer que você viva.
— Tudo de acordo então. Eu voltarei para a “Betolândia” agora, e você pegara o seu rumo, seja lá pra onde ele for, e simplesmente espera que eu te chame. Mas assim, leva uma cadeira pra você não se cansar, Beleza? Passar bem... Velho amigo.
Dessa vez nada me impediu de fechar a porta da sala e correr para o lado oposto do apartamento.
Com certeza, todos já escutaram a famosa história sobre “a caixa de Pandora”. E era exatamente isso que Vitor me parecia. Uma caixa de pandora sarcástica e com dentes brilhantes. Pronta pra ser aberta e libertar todas as coisas ruins ao meu respeito. E convenhamos, acabei de sair de uma saia justa com Beto. Não estava muito a fim de me meter em outra logo de cara. Deixa-me tomar uma aguinha, respirar um pouco... Depois eu pensava em como lidar comigo, eu mesmo e o Beto.
Acabei me jogando no sofá depois de um tempo. E fechei meus olhos. Nada mais que, sei lá, uns cinco minutos.
Mas acordei com um rosto em cima do meu. Um rosto muito próximo, e que eu já havia me acostumado a ver depois de certo tempo.
Beto havia voltado pro almoço. Ele sempre voltava. Dizia que sem ele, eu não comeria. E se tentasse chegar perto do fogão, acabaria explodindo tudo. Às vezes tenho impressão que Beto me acha um desastre ambulante.
— O que aconteceu com você?
Não entendi qual foi a da pergunta quando eu acabava de abrir os meus olhos.
— O que eu fiz agora?– Perguntei com a voz arrastada.
Beto ficou em pé. E muito, tipo, muito mais alto do que geralmente ele é.
— Primeiro você dorme no banheiro, e agora, está dormindo no meio da sala. O que você é? Um gato? – Ele apertou os olhos para mim. O que significa que estava achando que eu tinha feito de proposito.
E eu estava quase argumentando que eu havia pegado no sono, sem querer, no sofá, quando percebi que não estava no sofá. Estava no tapete. Babando nele, na verdade; não que venha ao caso.
—Hum... Acreditaria se eu contasse que não faço ideia de como acabei aqui? Dormi no sofá. Não dormi muito bem na noite passada. – Acabei bocejando.
— E é exatamente por isso que estou ficando preocupado. Não sei o que deu em você ontem. Nem se entramos em um acordo ou se...– Ele hesitou– Simplesmente não sei o que aconteceu ontem à noite.
Levantei-me do chão e olhei para Beto.
—Nem eu. Nos beijamos ontem ,certo?– Perguntei hesitante e lentamente,por conta do sono.
— Sim. E aí você apagou por uns minutos. E depois correu para o banheiro. E agora te encontro no meio da sala desse jeito... Eu pensei que havia desmaiado!
Ah... Então é por isso que ele está tão bravo.
— Desculpe. Como disse, lembrei-me, ou talvez apenas tenha delirado sobre algo que... Deixa pra lá.
Não dava pra contar pra ele. Sério. Não consigo simplesmente chegar nele e dizer “vi a gente se pegando pra valer. Aliás, você fica muito bem quando faz aquele tipo de expressão”.
Dispensem a ultima parte.
Mas na realidade, não dava pra contar.
Olhei para Beto e percebi que ele falava alguma coisa. Para mim, na verdade. Mas só escutei a ultima parte:
—... Não sei o que exatamente temos entre nós.
— As vezes acho que você é o meu elo com as minhas memórias. – Soltei para ele.
Beto suspirou frustrado.
— Do que você está falando agora, Alex?– Ele apertou a ponta do nariz. Parecia cansado. Como se... Oh, Deus. Como se não tivesse dormido durante toda noite.
— Acho que você é a reposta de tudo isso. – Ele ainda me olhava sem entender. Bufei. – Estou dizendo que sempre que alguma coisa acontece, e como coisa eu quero dizer você, eu me recordo de alguma lembrança. Geralmente, com relação a nós dois.
— E chegou a essa conclusão por causa de ontem? – Ele levantou uma sobrancelha. E eu acho que não deveria achar bonitinho quando ele faz isso, mas sei lá... Eu acho! Do mesmo jeito que eu acho pandas bonitinhos, tá? Não me entenda mal.
Talvez seja por isso. Beto me lembrava de um panda. Um panda gigante e loiro. Existem pandas loiros? É... Tá, ele não lembrava tanto assim um panda.
— Exatamente! Depois que você me beijou eu... Como dizer... Eu me perdi. – Ele pareceu “gostar” do que eu disse. Ou seja, ele não capitou a mensagem. – Estou me referindo que não sabia mais onde estava ou que estava fazendo. Principalmente quando comecei tirar a sua roupa...
Apertei os lábios antes que mais alguma coisa saísse. Não que fosse necessário. A confissão já tinha sido feita. Não precisava ser muito brilhante para deduzir que tipo de memoria eu havia tido. Bom... Nunca disse que eu tinha o juízo perfeito, então...
Quando voltei a olhar para Beto ele me parecia muito mais concentrado na minha teoria do que no fato de ter tirado a roupa dele. O que me deixou frustrado. Que dizer, quando você conta pra alguém que teve um visão tirando a roupa dela, o mínimo que você merece é um olhar surpreso.
—Acha que as coisas que fazemos influenciam nas sua memória?– Ele perguntou com uma voz muito alegrinha pro meu gosto.
— Você ouviu a ultima parte?– Apertei o olhar para ele.
— O que? Sobre ter tirado a minha roupa? Anha, ouvi.
“Anha, Ouvi”
... Eu devo ter usando a cruz de Jesus como skate.
— E isso é tudo? Eu te conto uma parada dessas, e você me reponde com um “Ahan, Ouvi.”. Você é normal?
—Mas porque eu ficaria surpreso? Já fez isso várias vezes. Imagino que você sim, tenha ficado chocado. Mas pra mim é algo bem trivial.
— Pessoas tirando a sua roupa é algo normal?
— Não. Você fazendo isso que é normal. – Ele respondeu completamente sério.
Joguei-me no sofá e fitei o teto. E deixei um suspiro cansado sair dos meus lábios.
— Acho que eu não mereço passar por isso...
— O que foi Alex? Eu o decepcionei?– Ele perguntou com um sorriso tosco na cara. – Por acaso queria continuar de onde parou a sua lembrança?
Joguei uma almofada nele. E Beto sequer fez questão de desviar. Ele agarrou assim que ela o acertou no estomago. E fez tudo isso morrendo de rir.
—Desisto de você. – Foi tudo que consegui dizer, enquanto me levantava e ia em direção ao banheiro.
— Vai se trancar de novo?– Ele perguntou sarcasticamente.
— Adoraria. Mas só vou tomar banho. Preciso fazer uma coisa. Aliás... Poderia me fazer um pequeno favor?
O favor era me levar até a minha mãe. E como eu imaginava, ela estaria na casa da Camila. E Beto não se opôs. Na verdade, ele até apoiou a ideia de eu conversar com ela. Disse que me faria muito bem.
Beto parecia outra pessoa. Como se tudo que tivesse acontecido no dia anterior não passasse de um estranho sonho que nunca aconteceu. Ele realmente preferia assim. Algo que nunca aconteceu.
Então me dei conta de que não havia falado uma palavra sobre a estranha visita do tal Vitor. Provavelmente deveria ter contado, mas não contei. Talvez não fosse uma boa ideia. E por enquanto, achei melhor ficar na minha. Não queria brigar com ele de novo. Não depois de ontem.
Eu não desgostava da presença de Beto. Na verdade, ter ele por perto se tornou algo tão comum quanto respirar. Era como se ele sempre estivesse comigo. E isso era ainda mais estranho.
Veja bem, eu nunca senti atração por homens. Sério. E se você entrasse no vestiário masculino depois da educação física também não sentiria. Eu nunca olhei para outro garoto e pensei “nossa, ele tem olhos muito bonitos” ou simplesmente “acho legal o jeito que esse cara dorme”. Por favor. Nunca fiz isso e juro que nunca me imaginei fazendo tal coisa. Também nunca me senti com uma gastura permanente no estômago só porque um deles chegava perto de mim. E também nunca fiquei com a respiração ofegante...
Mas era exatamente assim que eu estava nos últimos dias. E eu realmente estava enlouquecendo. Não só por causa disso. Mas por tudo. Era muita coisa para falar, descobri, sentir, verificar, responder, decidir, perguntar e mais uma penca de verbos que não dá nem pra contar.
— Admirando a paisagem, Alex?– Beto me perguntou com seu tom de voz tranquilo.
Na hora não entendi o que aquilo queria dizer. Até perceber que eu estava encarando-o.
— Pois é. É uma paisagem muito linda por sinal. – Respondi.
Era legal responder coisas que ele não esperava que eu respondesse. Ela vivia fazendo isso comigo. Por que não fazer a mesma coisa?
E eu juro. Que quase por alguns momentos um fantasma de rubor passou pelo rosto dele.
E eu não menti. Beto era um homem bonito. Mas não sabia se ele realmente era mesmo bonito ou se eu simplesmente o achava bonito. Quer dizer, não dá pra sair na rua perguntando pra primeira pessoa que te aparecer: “Hey, você acha esse cara bonito?”.
Suspirei.
Aos poucos eu já havia me acostumado quase que completamente com tudo ao meu redor. A cidade, os costumes, e as ideias fixas que tinham sobre mim. Mas ainda desgostava e muito, de mim mesmo. O que? Tá achando que eu já me perdoei? Nem a pau.
Mas como ia dizendo, até mesmo já estava familiarizado com a casa da Camila. Como se eu já estivesse me acostumado a ela.
E na verdade, eu estava.
A casa da Camila não era muito diferente da minha casa. Digo minha verdadeira casa. Possuía os mesmo dois andares, e a escada de madeira. A cozinha, a sala e um banheiro no andar de baixo. Três quartos e mais dois banheiros no andar de cima. Exatamente como minha casa.
Beto me deixou em frente ao pequeno portão, e disse que não poderia entrar, visto que teria que voltar para trabalhar. Mas que iria vir me buscar. Só precisava ligar.
E eu até tentei argumentar que era desnecessário, e que eu poderia muito bem voltar sozinho. Mas foi o mesmo que ter me oferecido para dançar rumba com a árvore da esquina.
Toquei a campainha da casa umas duas vezes. E aguardei. Esperava,aliás, eu precisava, encontrar minha mãe. Porém quem antedeu foi Camila. Com uma camisola branca e os cabelos negros soltos.
— Jesus! Você está parecendo um fantasma. – Argumentei.
—Bom te ver também, Alex!– Ela abriu um sorriso sincero. Como se nem percebesse o comentário.
— Sempre atende a porta desse jeito? De camisola? Gustavo não diz nada sobre isso?
— Eu vi você chegando. Aliás, eu vi com quem você chegou!– Ela me mostrou um sorriso diabólico. O mesmo sorriso que queria dizer “problemas” quando éramos pequenos.
— Sim... Pois é. Mamãe está aqui? Preciso tanto falar com ela...
— Ela saiu faz um tempo. Disse que ia comprar algumas coisas para fazer sopa e que eu precisava renovar as forças... E você sabe como é a mamãe.
—É... Ela está cuidando muito bem de você. –Eu sei. Isso pareceu um garoto birrento, mimado e com ciúmes da mãe. Mas e daí? Alguém viu mamãe indo fazer sopa para mim? Claro que não.
—Há, não seja assim Alex. Mamãe só não fez isso por você porque Beto pediu para que ela desse um tempo a ele.
— Ele o quê?– Perguntei incrédulo.
—Sério! Não sabia? Ele pediu pra mamãe confiar você a ele. E que iria cuidar de você. E caso o tiro saísse pela culatra, ela podia intervi como bem entendesse.
Não sei se fico feliz ou irritado. Mas por ora, não disse nada.
Camila me deixou entrar e se acomodou no sofá.
Os meus fofos sobrinhos estavam ao lado. Dormindo tranquilamente nos dois moisés ao redor de Camila.
— Eles são tão tranquilos assim?– Perguntei com a voz em um sussurro.
— Nah... Por enquanto são. Mamãe disse que daqui uns dias eles irão virar pequenas coisinhas escandalosas e birrentas. Iguais a você.
Olhei feio para ela.
— Eu não sou escandaloso!
—E eu não me pareço com um fantasma. – Ela sorriu.
— Esqueci o quanto você pode ser cruel, irmãzinha. Juro que esqueci. – Balancei a cabeça, mas estava sorrindo.
— Esqueça a crueldade, meu querido. Conte-me tudo que rolou ontem. – Os olhos dela brilhavam.
Suspirei. E contei. Contei tudo na verdade. Até mesmo sobre a lembrança estupida.
No final , Camila estava, como dizer... Se contorcendo de tanto rir.
— E ele simplesmente disse “Aham, ouvi.”? Gente, eu me surpreendo cada vez mais com a suas histórias.
Revirei os olhos. Aí, me lembrei de que tinha algo que estava me incomodando.
— Camila, você conhece um tal de Vitor?– Perguntei.
Camila prendeu a respiração.
— Você se lembrou dele? Logo dele?– Ela fez uma careta.
Balancei a cabeça negativamente.
— Não me lembrei dele. Foi ele quem se lembrou de mim. O cara simplesmente brotou em frente a minha porta hoje de manhã.
— Esse cara realmente é um ...– Ela grunhiu sem terminar a sentença.
—Sim, mas quem exatamente ele é? Algo me diz que não somos só velhos amigos.
— E não são mesmo. Aquele babaca é seu ex-namorado. – Camila tinha uma coisa que eu amava nela: Ela se parecia comigo. Sim. Sempre muito direta.
Não que eu estivesse surpreso. Não estava. Na verdade, já até imaginava. O que me deixava inquieto foi o que ele me disse antes de ir embora.
— Ele... Disse que eu havia o procurado quando as coisas ficaram difíceis... E que voltaria a procura-lo.
— Ignora isso, Alex. Aquele cara é um louco. Tudo que ele diz é só pra te provocar. Aposto que isso nem significa nada. Esqueça o Vitor.
— Não posso me esquecer do cara, Camila. Nem sequer me lembro dele. – Abri um sorriso.
— Como disse, ignore que isso aconteceu. E foque no Beto. Ele sim é um homem legal. E perfeito pra você. São tão lindos juntos. – Camila é com certeza a maior fã dessa bagunça que chamam de “relacionamento”.
— É... Ele é muito legal. Até parece que pulou de um livro de época e veio parar justamente aqui.– Comentei.
— Ah... Que isso! Só porque ele é romântico? Sabe... É o que dizem. Os opostos se atraem.
Olhei sem entender para ela.
— O que isso quer dizer exatamente?
— Quer dizer que enquanto Beto é adorável e romântico, você é tão sentimental quando aquela porta de madeira. – Ela apontou com o polegar para a porta atrás do sofá.
—Não sou eu que não tenho sentimentos! Ele é quem tem de mais. Sério. Não me surpreenderia se um dia acordasse com alguém jogando pedrinhas na minha janela e quando eu levantasse para ver, Bam! Lá estaria Beto usando uma roupa com mangas bufantes, sentado em um cavalo branco e recitando Shakespeare.
Isso fez Camila rir novamente. Não que tenha sido a intenção. Não foi. Só queria desabafar.
— Alex, você gosta dele. Aliás, pelo que me contou, está se apaixonando por ele.
Corei. E odiei ter feito isso.
— Acho... Que é muito precipitado dizer isso...
— Precipitado o escambau! Aposto que está demorando mais de anos para isso acontecer. – A testa dela que estava franzida logo relaxou. – Entenda, Alex. Nenhum erro é apenas mais um erro quando se aprende com ele.
Abri um sorriso. Camila se tornou uma mulher muito incrível. E eu me sentia orgulho disso.
— Você tem razão. Em tudo que disse, na verdade.
Ela abriu um sorriso e ia me responder alguma coisa quando o celular na mesinha vibrou. Camila olhou muito espantada para o visor de vidro, e atendeu cautelosamente:
— Alou?– E esperou a resposta da pessoa do outro lado. – Ah... Certo. Não! Pode sim. Quer dizer, claro.
Ela fez outra pausa.
— Anha. Ela está bem. – De repente ela arregalou os olhos e olhou para mim. – Mas... Tem certeza? Acho que agora não seria...
A pessoa disse mais alguma coisa e Camila suspirou frustrada.
— Certo. Irei... Falar com ele. Até lá. Eu te ligo assim que possível. Certo. Também te amo.
Ao fim da ligação ela me olhou cautelosamente.
— Aconteceu alguma coisa? Gustavo? – Perguntei já ficando nervoso.
— Na verdade... Papai ligou.
Foi como levar um tapa na cara.
—E ele voltou de viajem.
Outro tapa.
—E quer falar com você.
E um terceiro tapa.
Tapas da vida, quero dizer. Estava em uma tremenda briga com ela.
E até agora... Eu estava apanhando feio.
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