À beira mar

3 Um terremoto em uma casa de papel


Acordei com o alarme do celular, tateando à sua procura até desligá-lo, deixando com que a névoa em minha mente me embalasse de volta para o sono. Então, as memórias voltaram em uma avalanche e eu sentei-me depressa, olhando ao redor e tentando identificar onde estava. Respirei fundo e lembrei que estava na casa de Carol, tentando controlar os batimentos descontrolados do meu coração. Fui até o banheiro, joguei um pouco de água fria em meu rosto, parte de mim desejando que tudo não tivesse passado de um pesadelo, mas as marcas em meu pescoço eram bem reais.

— Bom dia, Carol. – eu disse, quando entrei na cozinha e vi minha amiga preparando o café.

— Bom dia, Jane. Eu a acordei? – ela perguntou, procurando por duas xícaras no armário superior. Por um segundo eu contemplei o fato de que não sabia onde Carol guardava as xícaras, pois apenas estive em sua casa poucas vezes e por momentos breves. Ela era minha melhor amiga na empresa desde que comecei a trabalhar lá, três anos atrás, mas sempre foi uma pessoa muito reservada.

— Não, de modo algum. Eu sempre acordo muito cedo.

— Eu também. – ela riu, baixinho. – Meu corpo implora por uma boa xícara de café.

A praticidade e destreza de Carol em servir o café eram tão parecidas com suas atitudes no escritório que eu cheguei a pensar que, ao invés da xícara, ela me entregaria mais um relatório de demonstração de resultados.

— Conseguiu dormir?

— Um pouco. – um único gole de café e eu já me sentia muito melhor. Respirei fundo e bebi mais um pouco.

— Eu liguei para o escritório e expliquei a situação, e eles concordaram em lhe dar o dia de folga.

— Você contou para eles? – eu perguntei, subitamente assustada e um pouco envergonhada. Carol olhou para mim com preocupação antes de responder.

— Não precisei, Jane. Está em todos os jornais.

O telefone de Carol tocou, assustando-me e desviando a atenção dela. Eu sabia que todo o escândalo de ontem não passaria despercebido e que algum vizinho provavelmente iria ligar para algum jornal, só não esperava que fizessem isso tão rápido.

— Ok, entendi. Obrigada pela ligação. – Carol falou, desligando o telefone e continuando de costas para mim por alguns momentos.

— Aconteceu alguma coisa, Carol?

— Peter. – ela disse, simplesmente. Fiquei tensa no mesmo momento e minha mente criou um cenário terrível em questão de segundos, um futuro terrível em que eu corria para casa, fazia minha mala em minutos e fugia do país, pois sabia que a única informação possível agora era que ele fugira. – Ele cometeu suicídio ontem à noite.

Eu senti como se o terremoto finalmente tivesse destruído a casa, enviando rachaduras crescentes pelas paredes, quebrando a louça e engolindo o chão, como se nada fosse. Peter era um terremoto enfurecido e eu uma casa de papel