À beira mar

4 Um convite e uma boa xícara de café


Carol convenceu os responsáveis pelos recursos humanos a adiantarem minhas férias, e mesmo que eu não tenha feito nenhum tipo de plano para o final do ano, eu fiquei irritada por ela não ter me consultado a respeito. Depois de algumas horas, eu percebi que não conseguia voltar para o escritório mesmo que eu quisesse e que eu só estava procurando um alvo para liberar esta raiva incompreensível que se transformara no combustível do meu coração.

Voltei para o meu apartamento depois de alguns dias, apesar dos protestos de Carol. Eu disse que precisava cuidar de algumas coisas, organizar o lugar e começar a colocar minha vida de volta nos trilhos, mas a verdade é que o modo como a casa de Carol era perfeitamente organizada e quase milimetricamente alinhada estava me enlouquecendo. Eu era uma bagunça, uma pilha de escombros que não combinava com a decoração.

O primeiro dia de volta ao meu apartamento foi preenchido com faxina. O vinho que ficara ali manchou permanentemente meu tapete e eu apenas o joguei fora. Abri todas as janelas e liguei todas as luzes, não suportando a ideia de ter algum canto escuro por aí. No final da tarde, o ambiente cheirava a produto de limpeza e tudo estava em perfeita ordem, o que me fez considerar se eu não estava passando tempo demais com Carol. Todas as coisas de Peter estavam em uma caixa sobre o sofá e eu a encarei por alguns minutos, tentando decidir se era uma boa ideia deixar isso com o irmão dele. Como eu nunca realmente conversei com Ray, apenas alguns segundos por telefone, achei melhor lacrar a caixa e jogá-la no fundo do armário.

À noite, eu me sentei no sofá e liguei a televisão, uma taça de vinho na mão esquerda e um cigarro na mão direita, todas as luzes ligadas. O filme aleatório se transformou em um som secundário e eu apenas fiquei ali, encarando o corredor, parte de mim esperando que Peter saísse do quarto a qualquer momento. Quando a segunda garrafa de vinho acabou, o terceiro maço de cigarro se transformou em cinzas e o sol nasceu sem que meus olhos tenham se fechado por um único momento, eu sabia que precisava sair dali.

Dirigi até o centro da cidade, procurando por alguma padaria ou supermercado que já estivesse aberto. Encontrei um lugar calmo próximo ao parque, onde a garçonete ainda tirava as cadeiras de cima das mesas. Sentei-me na primeira mesa e pedi um café com a primeira coisa que vi no menu. Estava com tanta fome que poderia comer qualquer coisa que ela decidisse colocar na minha frente. Pelo olhar que a garçonete lançou em minha direção, eu sabia que minha aparência não era das melhores, talvez eu estivesse fedendo a cigarro, o vinho que derramei na blusa poderia ser confundido com sangue e as olheiras provavelmente estavam assustadoras agora.

— Jane? – ouvi alguém dizer atrás de mim. Eu não reconheci a voz, mas amaldiçoei a pessoa mesmo assim. – É você?

Como não me virei, ela veio até mim, parando ao lado da mesa. Então eu vi Sarah, seu uniforme branco e amassado, cabelos presos em um coque que ameaçava se soltar a qualquer momento e um estetoscópio esquecido em seu pescoço.

— Sarah. – falei, passando a mão pelos meus cabelos, tentando ajeitá-los. – O que está fazendo aqui?

A falta de sono com certeza eliminara minha cortesia e bons modos. Nada de “como você está” ou “ há quanto tempo não nos vemos”, eu só queria saber como ela me encontrara aqui, tão cedo.

— Procurando algo para comer que não venha do refeitório do hospital. – ela riu. – Acabei meu turno agora e não tenho a mínima disposição de ir para casa e preparar qualquer coisa.

Sem esperar por um convite que não viria, Sarah sentou-se à mesa e chamou a garçonete, pedindo um café da manhã reforçado. Falava sem parar sobre como fora seu turno, os pacientes chatos com quem teve que lidar e até contou a história emocionante de uma pequena criança, vítima de leucemia, que apresentara uma dança no show de talentos da ala pediátrica. Eu não esbocei nenhuma reação. O café ainda não tinha chegado ao meu sistema nervoso e, até não terminar a segunda xícara, eu era incapaz de esboçar qualquer emoção.

— Como você está, Jane? Depois do Peter? – ela perguntou, sobrancelhas franzidas. Mais pessoas chegavam ao pequeno café e a cidade acordava de maneira preguiçosa.

— Estou tentando seguir em frente. – falei, me perguntando se alguém reclamaria caso eu fumasse aqui dentro. O café não era o mesmo sem o gosto de cinzas.

— Desculpe se isso soar um pouco rude, mas parece que você não dorme há uma semana. – ela disse. Era rude, sim, mas eu não importei.

— Não tenho dormido muito bem. – confessei. Na verdade, eu não dormia de jeito nenhum. – Mas sou eu quem deveria estar perguntando como você está.

Sarah era amiga de Peter, não minha. Nós nos dávamos bem, nos tratávamos com delicadeza, mas ela só fazia parte da minha vida por causa de Peter. Ela deveria estar arrasada pelo que acontecera, muito mais do que eu conseguia imaginar.

— Também estou tentando seguir em frente. – ela disse, rápido demais. – Olhe, eu tenho uma proposta para você.

— Uma proposta?

— Eu vou ser transferida por alguns meses. Consegui uma vaga na equipe de pesquisa do hospital e nós vamos observar alguns pacientes em outro hospital, reunir dados e estudar uma doença dermatológica grave. – ela dizia, parecendo realmente animada.

— Nossa, isso é... incrível. – falei, tentando imitar sua animação.

— Realmente é. Nós temos a chance de descobrir a cura para esta doença, ou pelo menos fazer um grande avanço neste campo. – ela percebeu que eu compartilhava de seu entusiasmo. – Tudo bem, isso não importa agora. O que importa é que isso é em outra cidade, um vilarejo bonito próximo ao mar. Acho até que alguns filmes foram filmados por lá... Enfim, eu já aluguei uma casa lá, mas ela é bem grande, a única que estava disponível. Você pode vir comigo, se quiser.

— Para estudar uma doença dermatológica grave?

— Não, é claro que não. – ela riu da minha pergunta. – É um lugar calmo e pacífico, onde você pode descansar. Eu vou passar o dia todo fora, de qualquer jeito. Vamos ter turnos de observação e eu só vou voltar para casa para tomar banho e desmaiar na minha cama, você nem perceberá minha presença. Pode ser bom para você.

Pensei no meu apartamento. Visualizei o lado da cama onde Peter dormia, o espaço vazio na armário onde estavam suas roupas, o lugar específico do sofá onde ele sempre se sentava e percebi que tudo estava impregnado com a sua presença, mesmo agora. Eu não suportei a ideia de voltar para lá.

— Tem razão, isso pode ser muito bom. – falei, acendendo um cigarro. – Quando você vai para lá?