紫目 Murasakime - As pétalas que não caem mais
1 Under the Bridge
O alarme não parava de tocar nem por um segundo. Yukihira Shoyo levantou subitamente desligando o aparelho celular que emitia o som.
—Mais um dia, mais um dia...
Olhou ao redor do seu quarto. Adolescente como ele era, Yukihira não arrumava seu pequeno quarto, repleto de mangás, camisetas, e outras tralhas espalhadas ao chão.
Levantou-se ao achar o que estava procurando, seu velho e único óculos que usava há um bom tempo. Após colocar o óculos, ele se olhou no espelho do armário colocado ao lado da cama.
Altura mediana, cabelos aos ombros e expressão entediada. Este era Yukihira Shoyo. Desanimado como sempre, com auto-estima baixa, ele se trocou rapidamente para ir á escola.
Filho único de uma mãe viúva, Shoyo sempre estava praticamente sozinho, afinal sua mãe trabalhava o dia inteiro, portanto ela não era muito presente na vida dele. Mas ela sempre fazia questão de deixar um lanche na geladeira.
Ao fechar a porta da sua casa, Shoyo olhou ao céu nublado. Observou o cenário ao seu redor, um bairro bem arborizado e harmônico, ainda mais em um fim de primavera Japonês. As pétalas rosas enfeitavam as ruas de Saitama de uma maneira bem sutil. Era uma cidade bem tranquila afinal.
Caminhando distraído, Yukihira nem percebeu o cachorro latindo ao seu lado, ou o pássaro cantando encima do poste, ou o som de carros e bicicletas passando pelas ruas. Não por ser desatento, Yukihira era infelizmente uma pessoa triste. Não se animava nem ao ir pra escola, nem ao voltar. Sua única fonte de alegria eram alguns amigos, e uns mangás que Yukihira colecionava.
Chegando ao portão da escola, um garoto loiro, alto e esguio lhe chamou acenando ao longe. Era Sawamura Shin, um dos poucos amigos que Shoyo tinha.
—E aí Sho! Como vai? Ta triste como sempre? Anime-se colega! -gritou Shin, atraindo até as atenções de quem andava perto.
—Não grite Sawamura, todos estão olhando. E eu ja disse que odeio esse apelido — Murmurou Sho, sem olhar pro seu amigo.
Nem mesmo uma personalidade amigável e alegre de alguém como Sawamura Shin poderia levantar a moral do pobre Sho; que caminhou junto com seu amigo adentrando a escola.
Sua sala era bem numerosa, mas não tinha muitos alunos especiais, exceto Shin, que além de tirar ótimas notas e ser o preferido entre os professores, era o representante de classe.
Yukihira sentou-se ao fundo, onde ele adorava ficar. Alí ele poderia observar a sala inteira sem que ninguém o incomodasse, além da ótima vista que ele possuia da janela.
Como de hábito, ele viu o horizonte daquela janela. O que o futuro reservava pra alguém como ele? O que um jovem despreparado de 16 anos como Yukihira poderia fazer para a sociedade?
Observando as pétalas rosas caírem ao chão, Yukihira fechou os olhos e apenas desejou ser uma árvore. Sem preocupações, apenas se juntaria naturalmente ao ciclo da vida. Caíriam suas folhas, mas ele renasceria novamente toda primavera para a alegria daqueles que observassem. Apenas ficaria ali, até sua morte, sem lembranças, sem laços sem nada.
A natureza e o tronco prendiam as cerejeiras, mas Yukihira não sabia o que te prendia a este mundo.
A aula seguiu normalmente, Yukihira era um aluno mediano e fez as lições tranquilamente, com apenas umas ajudas de seu amigo Shin.
O alarme pro horário do almoço bateu.
—E ae Shin, vai querer almoçar comigo hoje? — disse um garoto baixinho e parrudo. Shin era bem popular.
—Hahaha desculpa, vou almoçar com o Sho. — respondeu o garoto esguio.
Alguns cochichos foram soltados. Como alguém tão obscuro e desinteressante pode almoçar com o cara mais popular da sala?
Yukihira suspirou ao se levantar e juntar sua mesa com a de seu amigo.
—Se não fosse eu hein? Hahaha. — brincou Sawamura.
—Você é um bom amigo Shin.
—Uau, que surpresa um elogio vindo de você.
—Eu posso ser um cara fechado, mas não sou tão antipático.
—Mudando de assunto, você ficou sabendo que dia é hoje?
—Sei não.
—Faz um ano que a guerra civil acabou. Até que o Japão conseguiu se recuperar rapidamente apesar de tudo.
—Ah, verdade. Realmente foi um desastre. Você acha que o que foi feito foi certo?
—O massacre contra os robôs? Sim, eles estavam se tornando uma ameaça.
—É algo bem complicado. Eu tinha um tio que possuía um robô desses, a semelhança deles com a gente é absurda.
—Acho que não houve algo tão pesado como o massacre desde o ataque de Kirishima.
—Concordo.
O sinal do fim do almoço bateu após alguns minutos, e com ela se sucedeu o resto da aula.
No fim do período, Shoyo se levantou para ir embora, quando Shu o chamou:
—Vai fazer algo hoje á tarde?
—Vou terminar um mangá que comecei.
—Não pretende estudar? As provas estão chegando.
—Eu sei o suficiente pra passar.
—Hahaha, porque não pensa em tirar uma nota melhor? Você não vai entrar em uma ótima universidade desse jeito.
—Sei lá. Não me preocupo muito no futuro. A gente se vê amanhã.
O futuro hein. Enquanto Yukihira caminhava de volta pra sua casa, ele pensava constantemente nesta idéia de futuro.
Ele não fazia a menor idéia do que fazer no futuro. Ele não queria trabalhar para o governo, que praticamente mandava em todas as empresas do país. Era uma época diferente afinal. Japão tinha se tornado um país independente.
No outro dia enquanto ia pra sua aula, Yukihira ainda pensava nesta idéia de futuro. Ele realmente não se preocupava tanto no futuro, ele era um garoto que gostava de aproveitar o presente, mas essa idéia o incomodava.
Portanto, ele decidira fazer um caminho diferente desta vez. Dobrou a esquina indo em direção ao parque da cidade.
Ao passar por uma ponte, uma ventania forte surgiu, fazendo com que o cabelo cobrisse os óculos, deixando o garoto cego.
Tropeçando, o garoto derrubou a mala, caindo na água rasa que corria debaixo da ponte. Ao descer xingando pelo barranco, ele pegou rapidamente a sua mala.
Porém algo o incomodou. Ele olhou ao lado lentamente e ficou surpreso.
Uma garota, aparentando ter 13 anos, estava sentada de cócoras debaixo da ponte. Ela tinha um cabelo loiro pequeno, estilo tomboy, mas que era grande o suficente pra cobrir seus olhos, e claro o suficiente para lembrar algo branco como a neve. Seu vestido branco que cobria seu corpo inteiro estava com algumas manchas de barro e lama. 
Ignorando o fato de que ele estava atrasado para a aula, Yukihira decidiu ver se a pobre garota estava bem.
—Err, olá?
A menina se assustou com a súbita chegada de Shoyo, e virou seu rosto para que ele não a visse.
—Você está bem? Está perdida?
—...E-estou bem...
—Onde estão seus pais?
—Não tenho, moro na rua...
—Isso é preocupante. Quer que eu chame a polí-
—NÃO! Não, eles não...
—Hã? Ok, ok, você deve estar assustada com algo.
—Apenas me deixe em paz...
Yukihira cogitou essa possibilidade. Mas ele viu algo nela que o marcou. Por algum motivo ele não poderia deixar aquela garota ali.
—Garota, eu sei que parece estúpido, mas posso ficar aqui conversando com você?
—...
—Vou entender isso como um sim. Eu apenas preciso de alguém pra conversar por agora. Qual seu nome?
—Não tenho nome.
—Não? Bom, por enquanto vou te chamar de Murasaki.
—Mu-murasaki?
—É... É que eu reparei que você tem olhos roxos, que nem aqueles robôs.
Ao dizer isso, a garota ficou vermelha e tentou cobrir de uma maneira mais eficaz seus olhos.
—Relaxe! Não cubra eles, eles são lindos!
—...
—Ok, tem problema esse nome Murasaki?
—..n-não...
—Você deve sofrer bastante preconceito por causa dos seus olhos né? Mas enfim, porquê você vive debaixo desta ponte?
—Eu não sei... Apenas estou aqui.
Yukihiro absorveu isso como um cheiro de café pela manhã. Ele apenas estava ali também. Não sabia pra onde ia e nem porque estava ali. Apenas.... estava.
Ele a observou por um tempo. Era uma garota curiosa de fato. Ele não tinha a menor vontade de deixar ela ali jogada como se fosse um animal.
—Você parece fraca. Quer algo pra comer?
—..Sim.
—Tome, este é o meu lanche, apenas um sanduíche com atum, mas acho que você vai gostar. Ah, meu nome é Yukihira Shoyo.
A garota comeu o pão lentamente, apreciando cada mordida.
—Bom, já estou aqui a um tempo e perdi minha aula. Acho que devo ir. Prazer em conhecê-la Murasaki.
Ele se levantou decepcionado com o silêncio da menina, e quando estava saindo ela disse:
—Ei...!
Yukihira virou-se.
—Obrigada. V-volte amanhã...
Com um sorriso no rosto Shoyo disse:
—De nada! Pode ter certeza Murasaki! Se cuida, e toma cuidado.
Pensando no que poderia fazer no resto da tarde, Yukihira percebeu que não sorria há um tempo. Aquela garota era misteriosa afinal, ele nunca pensaria que sorriria por alguém que acabou de conhecer.
Viver na rua, debaixo de uma ponte, se alimentando pouco. Era uma vida triste e sofrida, mas ela era livre apesar de tudo. A cidade era seu abrigo e sua fortaleza, mas ao mesmo tempo sua selva, e ali ela vivia. Sem se preocupar com aqueles que a atrapalhavam, Murasaki era livre. E Yukihira a invejava.
Ele foi visita-la no outro dia. E no seguinte também, e no próximo e no próximo. Eram pequenas visitas, as vezes mais longas, as vezes ele faltava na escola ou se atrasava apenas pra ver Murasaki.
Yukihira nunca descobriu porquê ela estava ali e nem de onde ela veio. Mas pra ele não importava, afinal ele descobria cada vez como aquela garota se parecia com ele.
Murasaki foi perdendo a timidez á cada visita de Yukihira. Altruísta como ele era, o garoto cabeludo fez a questão de comprar até uma escova de dentes pra ela. Solitária por si só, Murasaki foi começando a despertar uma paixão pelo garoto.
Até que teve um dia em especial, que em mais uma das visitas de Yukihira, Murasaki disse:
—Yukihira, posso te fazer uma pergunta?
—Sim, claro.
—Você promete, independente das circunstâncias, nunca me abandonar?
Corado, Yukihira respondeu:
—Prometo.
Mais uma vez Yukihira estava sorrindo. Ele percebeu que tinha achado um motivo pra estar ali no mundo. Assim como os troncos prendem as árvores, Murasaki fazia com que de alguma forma Yukihira sorrise ao acordar, apenas pela ansiedade de ver se aquela garota de olhos roxos como as pétalas de cerejeiras estava bem.
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