犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
26 二十六 かごめ Kagome
A contagem regressiva no calendário da sala havia se tornado uma presença quase física na casa dos Higurashi.
Faltavam pouco menos de um mês.
O que antes fora um círculo azul desenhado despretensiosamente por Mamãe transformara-se em caixas de lembrancinhas empilhadas no corredor, amostras de doces tradicionais sobre o balcão da cozinha e discussões intermináveis sobre a ordem de entrada no pequeno santuário da família.
Kagome estava sentada no chão da sala, cercada por envelopes caligrafados à mão. Ao lado dela, Inuyasha observava a pilha de papéis com uma expressão que oscilava entre a mais profunda desconfiança e um esforço genuíno de concentração.
— Então...
Ele apontou uma das garras para um pequeno leque decorativo de papel de arroz.
— Esse pedaço de pau dobrado serve pra quê mesmo?
— É uma lembrança para os convidados, Inuyasha.
Kagome respondeu sem erguer os olhos da lista.
— Representa prosperidade e bons ventos.
— Se alguém quer bons ventos, é só subir no topo de uma colina.
Ele bufou, cruzando os braços.
— Vocês humanos inventam muito trabalho à toa.
Kagome suspirou, já preparando o sermão habitual, mas antes que pudesse falar, Inuyasha inclinou o corpo para a frente, pegando um dos envelopes com cuidado incomum para não rasgar o papel delicado com as unhas compridas.
— E aquele ritual com o saquê que o velho falou ontem?
Perguntou, a voz mais baixa agora.
— Três goles em três xícaras diferentes?
Ela parou a caneta no ar, surpresa.
— O san-san-kudo*?
— É. Esse nome esquisito aí.
Ele desviou o olhar para o jardim pela porta de correr, as orelhas movendo-se de leve.
— Ele disse que se eu derramar ou errar a ordem das taças, dá azar pro resto da vida.
Kagome quase sorriu ao notar a ponta de tensão no maxilar dele.
— Não dá azar, Inuyasha. É apenas um símbolo. Três goles representam três laços: o nosso, o com as famílias e o com o futuro.
— Hum...
Ele encarou a xícara de cerâmica vazia deixada sobre a mesa para treino.
— Então eu só preciso beber sem engasgar e sem quebrar a louça do velho.
— Basicamente, sim.
— Fácil...
Declarou, embora tenha puxado a xícara discretamente para perto, testando como segurá-la entre os dedos sem arranhar a borda fina.
— Não vou errar.
Kagome observou o gesto em silêncio.
Aquilo não era apenas tolerância; era Inuyasha se esforçando para aprender um idioma que nunca fora o seu, apenas porque sabia o quanto aquilo significava para ela. O peito dela se aqueceu com uma ternura calma, daquelas que não precisavam de grandes palavras.
A porta da cozinha se abriu e Mamãe entrou trazendo uma travessa com fatias de melancia fresca.
Souta vinha logo atrás, digitando furiosamente no celular.
— O tio do mercado perguntou se vamos precisar de entrega especial para os arranjos florais — Mamãe comentou, pousando a travessa na mesa baixa. — E a senhora Tanaka perguntou se vocês já decidiram onde vão morar depois da cerimônia.
O silêncio caiu como uma folha seca tocando a água.
Kagome congelou com a caneta entre os dedos.
Souta ergueu os olhos da tela do aparelho, e até mesmo Inuyasha parou o movimento com a xícara de treino.
— Morar...
Kagome repetiu, a voz quase inaudível.
— Sim, querida.
Mamãe sorria com a doçura prática de sempre.
— Ela comentou sobre aquele anexo perto da estação, ou se pretendem alugar algo menor no bairro até que as coisas se ajeitem.
Kagome engoliu em seco.
A resposta óbvia, a única resposta que fazia sentido em sua alma, estava na ponta da língua:
"Na Era Feudal. Na nossa cabana. Perto do rio, na aldeia de Kaede-obaa-san."
Mas ela não podia dizer aquilo.
Não quando o poço continuava selado como pedra morta há semanas.
— Nós... Ainda estamos vendo isso, mãe.
Conseguiu responder, forçando um tom leve que não convenceu nem a si mesma.
Inuyasha olhou de lado para ela. Não disse nada, mas a mandíbula dele endureceu e a mão pousou discretamente sobre a bainha da Tessaiga, encostada ao lado do tatame. Ele sentia o peso daquela incerteza tanto quanto ela.
Mais tarde, quando a casa adormeceu sob o canto fraco dos grilos de fim de verão, Kagome desceu os degraus de madeira da varanda sem fazer ruído.
A noite estava fresca. O céu de Tóquio, tingido pelo reflexo alaranjado dos postes e edifícios distantes, não exibia quase nenhuma estrela.
Ela caminhou pelo pátio de cascalho em direção à construção de madeira que abrigava o Poço Devorador de Ossos. Empurrou a porta rangente com cuidado. O cheiro familiar de terra antiga e madeira envelhecida a acolheu na penumbra.
Kagome aproximou-se da borda. Não havia pressa em seus passos, nem o desespero febril das primeiras semanas. Havia apenas uma saudade mansa, profunda, daquelas que já tinham feito morada em seu peito.
Ela apoiou as mãos nas vigas desgastadas e desceu devagar pela escada interna até que seus pés tocaram o chão de terra batida no fundo do poço.
Sentou-se ali, abraçando os joelhos. Apoiou a palma da mão direita diretamente contra a parede de madeira velha.
Fechou os olhos.
Não tentou forçar o seu poder espiritual. Não gritou por passagens temporais. Apenas respirou fundo, deixando que as memórias fluíssem: o som do vento agitando a grama alta da aldeia, as broncas bem-humoradas de Sango, a risada escandalosa de Shippou, a sabedoria ríspida de Kaede, a presença serena de Rin separando ervas no riacho.
Esperou por um segundo.
Nada.
Nenhum clarão azul. Nenhuma correnteza invisível puxando seu corpo através das eras. Apenas o silêncio denso e escuro daquela noite moderna.
Um sorriso pequeno e triste tocou os lábios de Kagome.
— Ainda não, né...?
Murmurou para a escuridão.
Ela não estava desamparada. Tinha sua mãe, Souta, o avô e o homem que amava dormindo a poucos metros dali, pronto para casar-se com ela sob qualquer céu.
Tinha uma casa ali. Mas faltava a outra.
Faltava o caminho para o lugar que ela escolhera chamar de lar.
Kagome preparava-se para levantar quando seus dedos pararam contra a madeira.
Ela franziu o cenho.
A viga sob a sua palma... Estava morna.
Não era a umidade fria e úmida da terra subterrânea. Era um calor sutil, quase biológico, como a superfície de uma pedra que acabara de ser tocada pelo sol poente.
E, por uma fração de segundo tão rápida que pareceu ilusão de ótica, uma pulsação tênue de energia espiritual reverberou pela base do poço, como um coração distante despertando de um longo sono.
O ar no fundo da estrutura tremulou levemente, trazendo uma lufada de vento que não cheirava a Tóquio. Cheirava a ar rarefeito, a névoa de montanha e a ozônio puro.
Kagome recolheu a mão em sobressalto, os olhos arregalados na penumbra.
— O que foi isso...?
Sussurrou, o pulso disparando contra a garganta.
— Kagome!
A voz áspera ecoou do topo da abertura antes mesmo que ela pudesse se mover. Inuyasha pulou para dentro do poço com um estrondo leve, pousando agachado à frente dela em guarda protetora, as garras afiadas prontas e o nariz farejando o ar com intensidade frenética.
— Você sentiu isso?! — Kagome perguntou, apoiando-se nele.
— De que? Youki?
Os olhos âmbares investigavam a escuridão, as orelhas de Akita girando em todas as direções.
— Tem um cheiro esquisito aqui... E não é cheiro desse mundo.
— É cheiro de quê?
Inuyasha estreitou os olhos, farejando as frestas da madeira com uma expressão de pura confusão e alerta ancestral.
— Cheiro de céu alto... E de inu-youkai!
Kagome piscou, sem compreender.
O calor na madeira esvaiu-se tão rápido quanto surgira, deixando para trás apenas a terra fria e o velho silêncio de sempre. Mas a sensação de que algo imenso acabara de se mover do outro lado do tempo permaneceu suspensa no ar entre os dois, impossível de ignorar.
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