Notas iniciais
Então, meu querido Oieeeee Foi um desafio e tanto essa história ahahaha, mas ela saiu. Só talvez não esteja laaaaaá aquela maravilha, eu não sei muito trabalhar nem com yaoi nem com angst. Fiz com as cartas o melhor que entendi delas, me dediquei ao reino do Ego. Espero ter entendido tudo do jeitinho certo :3 Boa leitura

Edmundo era uma pessoa bastante tranquila, focada nos objetivos de sua vida, que não eram nada demais, incrivelmente simples falando a verdade. Somente três: ter um ótimo parceiro em sua vida, digno, decente e quente; trabalhar ganhando a medida certa para se manter; estudar música clássica. E do jeito que as coisas andavam, podia-se dizer que estava indo bem de encontro a isso. Nunca precisou de muito para se dar por feliz, mesmo quando não conseguia alguma coisa ou falhava em algo, sempre sorria e via seus amigos à volta se esforçando também, e seu noivo, junto todo o tempo, dando o carinho, amor e apoio de que precisava. Neles é que buscava a força para continuar diante dos vários desafios que a vida lhe trazia.

E, assim, começou mais um dia de trabalho. Acordou cedo, em dois tempos, já estava sentado na sua cadeira giratória, na frente do seu computador, digitando uns cinco documentos ao mesmo tempo, o telefone estourando feito pipoca com as mensagens e um sorriso desafiador no rosto. Aquela adrenalina toda, ele podia senti-la em cada pulsação de sangue, no cheiro a cada mínima respirada, adorava aquele fio fraco entre o controle e o desespero. E o dia passou, normal. Veio almoço, veio pausa da tarde... Veio a hora da saída.

Andando pelo prédio, encontrou sua amiga, com quem já trabalhava havia certo tempo, estiveram juntos em outra empresa antes de serem demitidos e conseguirem, ao mesmo tempo, entrar naquela. Joana era bastante interessante e, não só se tornou uma melhor amiga, mas também cativou Edmundo o suficiente para ser levada em casa para uma tarde de bebedeira com ele e o então namorado. Era uma pessoa de confiança, uma amiga mais que querida. Muito carismática e incrivelmente carinhosa, vivia dizendo que era vidente e podia passar horas explicando sobre o astral, sobre as cartas, sobre como a vida funcionava e como era a arte de prever o futuro... para ela, era quase como uma ciência — no entanto algo ainda mais aprimorado.

E quando encontrou a amiga no corredor da portaria, ela arregalou os olhos e hesitou em um passo ou dois... logo fazendo uma cara de “meus pêsames”. Um pequeno arrepio se formou no topo da cabeça de Edmundo, o que o fez arregalar os olhos também, com medo. Ele, no tempo de meia piscada, perguntou o que estava acontecendo; ela até tentou desviar do assunto, mas acabou falando aquilo que acabou com o dia dele, com a noite, com o humor. “Traição” foi sua primeira palavra, o arrepio se alongou até o final da coluna.

Joana saiu com o amigo para um lugar mais privado de ouvidos curiosos, um barzinho que havia duas ruas para cima; sentou Edmundo duro na última cadeira do lugar, na mesa mais distante de todas, para poderem conversar. Foi então que revelou a ele. Passando perto dali, no horário do seu almoço do dia anterior, vira Hugo abraçando uma pessoa com o que ela achou ser intimidade e afinidade demais. E ela sabia que, àquelas horas, o noivo do seu amigo devia estar no trabalho, que era consideravelmente longe dali. Assim que chegou em casa, resolveu ver o que dizia o astral sobre isso e a palavra que lhe veio foi “traição”. Deu um gole no seu copo de água e o ofereceu ao amigo, que apenas se levantou e agradeceu por ter contado aquilo tudo, saindo com uma despedida que ficou apenas em sua mente.

O carro se dirigiu mecanicamente para sua casa, e Edmundo resolveu subir o prédio todo pelas escadas para ver se uma boa dose de cansaço físico ajudava um pouco no seu humor. Girou a chave bem devagarinho na porta, fazendo barulho de propósito para indicar que havia chegado — Hugo já devia estar lá dentro, como sempre, e estava. Ele veio até a porta recebê-lo, com uma expressão de aliviada alegria no rosto, por ver o seu querido ao fim de mais um dia de duro trabalho. Edmundo não retribuiu o abraço, não deu um passo quando Hugo se virou em direção ao sofá, nem meio músculo relacionado a sorriso se mexeu. Os olhos estavam grudados na nuca do noivo quando ele congelou e finalmente percebeu que tinha algo errado.

Edmundo esticou a sua pasta, que foi pega com gestos engessados e posta na mesa a dois passos de distância da porta. Hugo olhou para ele em agonia, sem saber o que mais fazer. Sabia que seu querido estava puto, espumando, dava para ver o ódio escorrendo dos seus olhos, mas quem se atreveria a dar a primeira palavra sem ordem naquela hora? Só um louco. Continuaram se encarando e os músculos de Hugo começaram a doer pela tensão, o chão lhe parecia ainda mais duro e frio e dolorido a cada segundo que passava sendo examinado com nojo sem saber o porquê. E sabia que quanto mais desesperado ficasse, mais culpado ele ia ser aos olhos do outro. Odiava aquilo.

— Eu vou me trocar e já te chamo — Edmundo disse e foi direto para o quarto deles, fechando, trancando e xingando a porta.

As mãos dele estavam geladas, suas roupas de ficar em casa, mais ainda, mal conseguia decidir qual era pior. Passou as mãos pelos cabelos e sentou na cama, fechando a gaveta do armário com o pé, assim como as portas deste. “Não acredito”, murmurou algumas vezes, na última dizendo também “não tem como”. Pegou sua garrafinha de água que ficava ao lado da cama para dar um gole e se levantar novamente, andando no espaço apertado que tinha, ainda tentando absorver a informação e decidir o que e como falar. Finalmente, chamou Hugo para o quarto. Estava sentado no escuro de costas para a porta; virou o pescoço para a direita quando ele entrou.

— O que foi que você fez? — sua voz estava carregada de desilusão. — Ou melhor, por que?

— O quê? Como assim? — Seus olhos tremiam e vasculhavam pela fraca luz que vinha pelas frestas da janela fechada algum indício, qualquer dica de que pudesse se valer para conseguir entender o que era, afinal, que se passava pela cabeça de seu amor. Tudo esteve tão maravilhosamente bem de manhã. Simplesmente não conseguia entender.

— Olha, quando eu possivelmente posso ter feito alguma coisa de errado, quando você me chama para conversar com cara de bravo, eu realmente sinto que estou errado, mesmo que eu nem de leve faça muita ideia do porquê, mas eu sei que tem vezes que eu dou mancada. Mas, amor, sendo sincero... não entendo. Ontem, a nossa noite foi tão linda. Foi tão maravilhosa e intensa. E hoje de manhã foi um gostoso café, foi tão fofinho e bom. E você está com uma cara de... não é de bravo, é como se quisesse desistir de tudo. Eu estou completamente perdido nessa. — Sua cara mostrava puro pânico e desespero. Não entendia o porquê daquilo, mas simplesmente não dava para deixar de lado.

— Pessoa do avesso, não se faça de fingido, não. — Se virou e deu uma boa olhada pelo rosto do seu até então companheiro, puxando o olhar dele para uma briga, o que não adiantou muita coisa, de fato, os olhos de Hugo não paravam de fugir. — Tá bom, você não quer admitir, eu vou falar então. Ontem, na hora do almoço da Joana, ela te viu agarrado com outro homem no meio da rua, lá pertinho. Quem sabe isso não te ajuda a pensar em alguma outra desculpa cínica.

— Agarrado com um homem...? Lá? Mas me diga como, se eu estava no trabalho. Eu tava do outro lado da cidade, Edmundo. Não faz sentido. Você sabe que o meu chefe me trucida se eu pisar fora da empresa no horário errado, até doente ele pergunta mil vezes se eu não posso ir lá trabalhar. Inclusive, se quiser eu até ligo para ele para te provar. Poxa, nem parece que a gente teve toda aquela conversa ontem.

— E quem é que me prova que você não está se pegando com o seu chefe?

— Amor, ele é casado, tem filhos. Filhos da esposa dele. Caraca, você não pode confiar um pouco mais em mim? E outra — apontou o dedo para Edmundo e deu um passo para frente. Estava piscando muito para tentar não deixar as emoções tomarem conta por completo de seu rosto — a Joana tem certeza disso? Ela tinha total certeza que era eu ali, que não me confundiu com ninguém? E que eu tava agarrado com outro homem, foi exatamente isso que ela falou? — sua voz era fraca e seu queixo tremia de leve.

— Exatamente, não foi; ela disse que você estava tendo um contato muito íntimo com outra pessoa. E com certeza era você, não tinha como ser outro. Ela mesma, sim, venhamos, podia até se confundir, mas eu acho que o contato astral que ela fez não se enganaria em relação a isso. Ou melhor, tenho certeza.

— E o que o contato astral dela disse? — Os olhos de Hugo estavam vidrados.

Os de Edmundo se fecharam para ele tomar fôlego.

— Traição. Essa foi a palavra que Joana me disse.

Mas ambos tinham os olhares encharcados.

— Ed... — respondeu depois de um bom tempo sem nem conseguir pensar. — Eu não fiz nada, Ed. Edmundo, olha para mim. Olha para você. A gente não precisa disso. A gente está se matando pelo que outra pessoa disse. Cadê aquela confiança que você sempre falou que tinha em mim? A gente não precisa disso. A gente se ama. Por favor — ajoelhou na cama, na frente dele. — Me escuta.

— Eu estou tentando, Hug, juro que estou, mas... e o que ela disse? Ela estava mentindo? Ela não é uma pessoa de ficar mentindo, ela sempre diz as coisas com certeza.

— E eu, eu mentiria para você? — Hugo levantou o queixo de seu noivo. — Eu seria capaz, é o que você acha?

— Não, não... eu não... sei. Eu achava que não, mas eu não sei, não sei mais. O-o astral não mente. E o que o astral disse?

— O astral não mente, mas, as pessoas, sim. — Suspirou. — Você prefere acreditar nela ou em mim? Me diga, ela ou eu? Quem é mais importante, quem você acha que sabe o que é melhor para nós dois?

— Mas... as cartas disseram. Elas disseram traição. Você já viu mais de uma vez, Hugo, as cartas não mentem, elas estão sempre certas. Sempre certas. — Edmundo tremia por inteiro.

Hugo estava quase com vontade de abraçá-lo, porém não podia suportar a falta de confiança dele. Respondeu depois de algum tempo, o mais rápido que o bolo no seu estômago lhe permitiu:

— As cartas estão sempre certas, sim, tem razão. Mas as pessoas não. Elas se enganam. Elas erram. Elas têm sentimentos bons e maus. A Joana não é diferente. Por favor, Ed, pelo amor do Senhor e pelo nosso amor, acredita em mim. Eu não seria capaz de algo que te deixasse assim. Você é importante.

— Eu sei, eu sei... é só que... é difícil acreditar. Você é importante, ela é importante, o astral é importante...

— Você tem que decidir quem é mais e em quem quer acreditar — respondeu baixinho, quase sussurrando, Edmundo só ouviu o final. Mas foi o que bastou para ele.

— Para com isso! — gritou na cara do seu companheiro. — Para com isso, cala a boca, me deixa sozinho! Me deixa quieto. Não aguento mais isso tudo — teve um acesso de choro, seus soluços eram agudos e doíam tanto nele quanto no outro. Ele não conseguia se conter e continuou chorando por um bom tempo.

Hugo não sabia se devia realmente lhe dar um abraço ou se devia lhe dar um tapa ou simplesmente sair do quarto ou de casa. Ficou ali, olhando e chorando em silêncio, lágrimas e lágrimas sem fim. Ou pelo menos era o que parecia aos dois. Depois de muito tempo, os soluços começaram a diminuir e o corpo de Edmundo a se erguer, como se estivesse conseguindo se retomar novamente. Hugo olhou para ele e deu um beijo em sua testa.

— Edmundo... você me ama?

Ele balançou a cabeça com força.

— Eu te amo, Hug.

— Eu também te amo.

Eles se abraçaram e começaram a secar seus rostos. Os dois estavam sentados na cama a essa altura, as pernas de um envolvendo as do outro. As mãos direitas estavam se segurando com força. Os dois respiravam muito pesados e se olharam com carinho por tempo o suficiente para Edmundo cair no choro de novo.

— Não tem problema, eu estou aqui. — Hugo respondeu quando ele começou a se desculpar. Em seguida, sussurrou num tom um tanto seco: — Seu grande idiota.

Notas finais
O que achou?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!