Яevés

1 O Demônio


Já sentiu como se estivesse sendo espiado e quando olhou ao redor, não havia ninguém?

Esta sensação acompanhou Homero durante toda a sua vida. Na infância, a sensação era assustadora, pois fora criado em um desses lares católicos para crianças órfãs onde descobrira os assombros causados pelo Diabo. Nestas ocasiões, corria para a capela e, choroso, rezava o rosário, os olhos fechados ainda que sentisse o par de olhos encarando-o através de uma fenda.

Durante a adolescência – bastante conturbada diga-se de passagem – a vigília dos olhos misteriosos foi abreviada e se tornou o menor de seus problemas; Homero foi seduzido pelos mais terríveis desejos da carne, os quais o qualificavam como o mais perigoso dos pecadores e um dos mais dignos do Fogo Eterno. Para suprimir tais desejos, ele recomendou a si mesmo permanecer no Colégio dos Sagrados Corações onde poderia estudar para se tornar um verdadeiro servo de Cristo.

E quão assombrosa e poderosa é a mente quando a alma está em ruínas, pois foi quando voltou a chorar em seu quarto, desejoso de completar a sua alma com o que lhe faltava, mas que lhe era privado pelo dogma e moral, que voltou a sentir os olhos o encarando através da escuridão de fendas que ele mesmo não podia enxergar nas lisas paredes do colégio. Deixava-se chorar; pela saudade que sentia dos tempos em que seu coração e carne não clamavam pelo toque prazeroso de outro homem. Ah, que feliz era eu, privado desta natureza diabólica que me tenta e se desfaz de todas as minhas preces. E que posso fazer agora que já não sou mais um menino, mas um homem de alma borbulhante sob a pele pacata de um seminarista? Ou será esta pele a ânsia do meu pecado que emudece a alma do homem santo que há em mim?

E sem encontrar resposta alguma depois do pranto, Homero parou de soluçar e pôs-se defronte para a imagem do Santo Cristo crucificado. Cristo: que havia sofrido na cruz pela remissão de seus pecados imundos, mas que ardiam dentro dele como o golpe de uma lâmina em brasa. Devia sofrer; pensou. Desatou o nó do cordão que levava a cintura e despiu o manto escuro dos padres que usava em sua rotina. Quando nu, a pele branca e os cabelos negros reluziram à tremeluzente influência da luz nas lamparinas. Tomou o cordão, pôs-se de joelhos, envergonhado diante do Cristo escuro da madeira. Golpeou a si mesmo, nas costas, o mais duramente que podia. E de novo.

Por que faz isso, menino?— perguntou-lhe uma voz que vinha do canto.

Olhos escuros e diabólicos miravam-no através da fenda.

— Afasta-te de mim, demônio. – amaldiçoou sem cessar o serviço doloroso.

E quando afastou-se, Homero desejou que não o tivesse feito, pois até mesmo a mais sombria e horripilante das vozes poderia tê-lo confortado ante o silêncio e solidão a que estivera fadado desde seu nascimento.

— Eu não quero estar sozinho.

Admitiu, deitando longe o laço dos padres. O silêncio prolongou-se, cavernoso e cheio de mistério até que o demônio voltou ao quarto e seus olhos não eram, afinal, diabólicos como sempre os imaginara.

Eu também não.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.