Única virtude
8 Capítulo 07
Grego dormia o sono dos (in)justos, o dia já tinha amanhecido e Margot abriu os olhos por conta da luz do sol. Ela tinha esquecido de fechar as janelas, na verdade, tinha esquecido até de quem era durante a noite. Não demorou muito para que ela se adaptasse à claridade, seu corpo já não estava mais grudado no de Grego, ele já não estava em seu campo de visão e com medo dele ter ido embora, ela virou o rosto para a outra ponta da cama o encontrando ali.
Ela se sentou e passou as mãos no rosto, sua bexiga quase estava estourando de tão cheia, não sabia quantas horas tinha dormido.
Gregório dormia de bruços, suas costas expostas, seus braços flexionados, suas mãos por baixo do travesseiro e a parte inferior do seu corpo coberta parcialmente pelo lençol. Ele parecia não ter ser importado que Margot tenha puxado o tecido todo para ela durante a noite. Ela sorriu com a visão dele deitado ali.
Ela precisava urgentemente ir ao banheiro e saber se Patrícia tinha dormido em casa. Se ela abrisse a porta, Margot estava ferrada com seus sermões.
Ela se levantou e começou a procurar suas roupas no chão. Ela vestiu a camiseta do pijama e a calcinha, e foi até o banheiro no corredor, certificando-se que Pati tinha dormido fora e suspirou de alívio ao perceber que ela não tinha chegado ainda.
Quando retornou Grego não tinha mexido um músculo sequer, ela voltou a deitar em seu lado da cama e em vez de dormir ficou o observando. Seu rosto demonstrava uma expressão serena e calma que poucas vezes ela tinha notado. Seu cabelo estava todo amassado e desarrumado, ela observava suas costas e seus braços tentando adivinhar o significado de todos aqueles desenhos.
Ela passou as pontas dos dedos no contorno da tatuagem que ele tinha nas costas. Gregório era lindo aos seus olhos, um pouco bruto talvez, porém era uma pedra selvagem pronta a ser lapidada.
Ela não podia negar que estava se apaixonando e se apaixonando fortemente por ele. De alguma forma, ele tinha arrebatado o seu coração de forma avassaladora, um amor que consome, uma paixão que corrói. Ela não tinha se sentido assim com Benjamin. Margot tinha vontade de mostrar o mundo pra ele, as coisas boas que a vida tinha a oferecer, queria cuidar de suas cicatrizes e feridas, amá-lo tanto a ponto que ele mudasse seu modo de viver.
Eles tinham passado quase a noite toda acordados e ela foi com esses pensamentos que ela adormeceu novamente, sonhando que andava de mãos dadas com ele pelo Central Park.
Grego acordou com o estômago doendo de fome, ele ainda estava de bruços e sentiu a mão de Margot em suas costas. Ele sorriu ao abrir os olhos e vê-la ali dormindo. Os cabelos dela estavam uma zona e ela estava maravilhosa aos seus olhos. Ele não entendia o que ela tinha visto nele. Margot tinha um corpão cheios de curvas, porém era feito nas medidas. Ele se mexeu com cuidado para não acordá-la e sentou na cama. Não sentia mais o peso nas costas e no peito. Ao contrário, sentia-se feliz e tranquilo. Era o efeito que ela causava em sua vida.
Ele se levantou e vestiu sua calça jeans surrada. Margot estava vestindo apenas a camiseta e a calcinha.
Cê é louco! Uma mina dessas nos meus braços. Mina não, né? Mulher.
Ele a cobriu com o lençol e depois de perceber que era já era quase de tarde, desceu até a cozinha. Fazia anos que ele não dormia tanto, sentia-se verdadeiramente descansado. Ele mexeu nos armários e preparou um café da manhã reforçado, organizou tudo em uma bandeja e voltou para o quarto.
Margot se espreguiçava feito uma gata embaixo dos lençóis, ela sorriu pra ele quando ele tentava trazer as coisas com cuidado. Era a visão das visões, Grego sem camisa lhe trazendo café na cama.
_ Você não cansa de me surpreender? — ela perguntando se sentando na cama.
Ele sorriu sem graça pra ela, Margot ajeitou os cabelos e ele lhe ofereceu um morango na boca.
_ Sou uma caixinha de surpresas, tá ligado, magrinha?
_ Realmente... — ela confirmou após comer a fruta. — Posso te perguntar uma coisa?
_ Mesmo se eu falasse que não, você ia perguntar a parada do mesmo jeito... Fala aí.
Grego comia uma fruta e oferecia outra pra ela, enquanto ela o observava.
_ Pergunta... — ele insistiu.
_ É só curiosidade... O que significam suas tatuagens?
Ele se surpreendeu com a pergunta, ninguém jamais tinha se interessado.
_ Aí, na moral... Vou te dizer, não sei como explicar pra você, não. — ele tinha mais de dez tatuagens no corpo. — Aqui... — Grego apontou para o próprio peito. — "Nois é Nois", foi a primeira que fiz, quando fui em cana... Acho que representa os meus parceiros, tá ligada?
Margot assentiu.
_ Aqui é a adrenalina e pá. — ele mostrou o símbolo químico também no peito. — Nem precisa de explicação, né? Bagulho é doido mesmo.
Grego sorria sozinho e Margot o acompanhava com curiosidade.
_ E nas costas?
_ As frases? Pô, fé em Deus e força pra viver, certo? Precisa disso no dia a dia...
Ele tinha tatuado; "Força pra lutar, fé para vencer". Ao lado da frase ele fez uma pequena árvore com um outra frase "Enquanto Deus for meu chão, não há quem me derrube".
_ Tô ligada.
_ Mas ó, tem coisa pra caramba...
Enquanto Grego explicava com animação o significado de cada uma de suas tatuagens, inclusive a que ele tinha na têmpora que era outro símbolo de fé, Margot comia o café da manhã. Quando ambos terminaram, Grego precisava ir embora e resolver os problemas da quebrada. Tinha que descobrir quem tinha matado seu parceiro ou seu bonde perderia a fé nele.
Ele desceu para deixar as coisas na cozinha e lavou a louça usada para não deixar vestígios para os sermões de Patrícia virem à tona. Quando subiu, Margot tinha tomado um banho e vestia o roupão, como aquele dia. Seus cabelos estavam úmidos e o perfume dela exalava pelo cômodo.
Ela tinha escolhido um conjunto social, pois iria visitar a Pilartex. Tinha acordado decidida a retomar o seu cargo. Ela tomou um susto quando sentiu os braços de Grego enlaçando sua cintura. Eles consigam ver o reflexo no espelho do guarda roupa, ela sorriu.
_ Vou puxar o carro... — ele comentou e beijou a pele exposta do ombro dela e logo em seguida, seu pescoço. Ela se arrepiou com o gesto.
Margot se virou de frente para ele, apoiando suas mãos em seus ombros e encarando seus olhos castanhos claros. Ela queria dizer muita coisa, queria dizer que estava se apaixonando por ele, que gostava dele e queria fazê-lo prometer que ele não iria magoá-la como Benjamin fez. Mas, Grego é Grego e ela se lembrou que o grande amor da vida dele era Marizete. Não percebeu que ficou evidente em sua expressão.
_ Eita, que foi? — ele observava o olhar cabisbaixo dela. — O que eu fiz?
_ Nada, você foi maravilhoso, Grego. — ele sorriu de verdade, a fazendo suspirar. — Eu gosto da sua companhia.
_ Eu também gosto da sua companhia... — ele roubou um selinho dela. — Mas você tá com groselha nesse cabeça... Que tá passando ai?
Margot imaginava Grego indo atrás de Mari no dia do casamento dela com Benjamin, e ela ficava à deriva. Ela sabia que podia se machucar, no entanto, não podia mais soltar atrás, já estava envolvida demais pra isso.
_ Posso te visitar em Paraisópolis hoje?
_ Isso lá é questionamento? Claro que pode. Tu é a rainha da meu palácio. — Grego pegou uma das mãos dela e beijou a ponta de seus dedos.
Ela mal se cabia de tanto carinho que sentia por ele. Ela segurou o rosto dele que ainda lhe sorria e o beijou. Um beijo forte e intenso. Tinha medo que aquele momento acabasse e não tivesse outros para contar.
O relacionamento com Grego era assim, você nunca saberia se iria ter um amanhã, um próximo momento, mas sentir que o coração dele batia tão forte como dela enquanto ela o beijava era suficiente. Ela iria ser atormentada pelo seu olhar e por aquele sentimento pelo resto de seus dias. Grego tinha colocado uma marca em seu corpo e seu coração quando a tocou.
Tinha que durar, só isso.
Mais tarde ao visitar o escritório de Gregório em Paraisópolis, ela foi tratada como uma rainha por ele. Ela claramente percebeu o ciúmes de Ximena, a comparsa dele, porém a ignorou. Ela estava bem consigo mesma para se importar.
Margot tinha saído cedo da Pilartex ao discutir com Benjamin sobre o seu envolvimento com ex de Marizete.
Após Grego resolver seus problemas, ela invadiu o espaço e ele ordenou que os deixassem sozinhos. Ela compreendia, mas estranhava o fato de todos o obedecerem, como se tudo que ele falasse fosse uma lei.
Ele afastou sua cadeira da mesa e ela se aproximou, Grego a puxou para o seu colo e ela se aninhou ali. Ele a beijou com carinho e ela ainda lhe sorriu.
_ Promete uma parada pra mim? — ele pediu.
_ O quê? — ele a olhava com curiosidade.
_ Que 'cê vai me deixar ficar do seu lado, trincar junto com a Maria... Ver ela crescer e pá.
Ele parecia falar sério e ela quase se perdeu olhando em seu rosto. Era fato que ela tinha medo daquilo que sentia e onde estava se metendo, mas também tinha medo de viver aquele momento sozinha. Benjamin não seria solidário com ela nos próximos meses e tudo que ela precisaria é de um pouco de carinho. Incrivelmente, ela teria isso com Grego.
_ Isso lá é questionamento, mano? — ela zombou dele. — Claro. — ela respondeu em seguida.
Margot passava as mãos no rosto dele e Grego sorriu, enlaçando a cintura dela com mais firmeza e eles se beijaram.
Muitos perrengues estavam por vir. Era só o começo de tudo.
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