Última árvore
1 Ironia
Era uma ironia infeliz que eu, logo eu, a mãe do ar e da vida dos malditos seres ao meu redor, sofresse de sufocamento. Isso mesmo, eu me sentia sufocada. E nem vem você zombar de mim. A culpa é sua. Devia ter vergonha de machucar uma donzela como eu. Está tossindo, não é? Tomara que morra com toda essa sujeira na sua garganta.
Agora não escuto mais meu admirador disparar palavras de amor para mim. Pobrezinho, cortaram sua cara ao meio com aquela máquina terrivelmente barulhenta.
Não tenho mais minha amiga para quem contar sobre os lindos pássaros que decidiram fazer ninhos nos meus galhos.
E preciso admitir que nem basto para atrair bichinhos mais. Tudo bem que a maioria deles cantava muito mal e eu odiava, mas fazem falta.
Se eu não for derrubada também, acabada, exterminada, dilacerada... Vou morrer com a falta de alimento nesse chão. Não importa o esforço que eu faça, há tempos não consigo mais puxar qualquer nutriente desse solo.
Quem me dera poder cair por cima de um de vocês. Seria uma baita ironia.
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