Última Vítima
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Última Vítima
Que Deus tenha piedade da minha alma, pois hoje eu escolhi minha última vítima.
A primeira fora “Green Eyes”, é assim que apelido o senhor Gordon Frisk. Velho, barrigudo, calvo e com vibrantes olhos verdes. Tenho uma imagem tão nítida desses olhos em minha mente que é como se eu pudesse vê-los a qualquer instante, me observando. Frisk foi um senhor de quarenta e cinco anos que vivia sozinho em um apartamento no centro. Metódico, tinha uma rotina impecável, exceto quando viajava por dias para as cidades vizinhas. Divorciado a mais de duas décadas, dois filhos homens que já constituíam família, não tinha com o que se preocupar. Sua família (Filhos e netos) se preocupava em aparecer esporadicamente em seu apartamento. Compravam lhe flores e biscoitos para chá, seus favoritos. Até a sua ex-esposa, já casada novamente, surgia do nada em algumas madrugadas. Os risinhos, afagos e gemidos podiam ser escutados pelas paredes finas dos apartamentos, mesmo que baixinhos.
Não foi muito difícil encurralar Green Eyes, eu era jovem, muito mais jovem que ele. Fiquei aguardando dentro de seu apartamento, foi fácil invadi-lo pelas velhas e nunca usadas escadas de incêndio. Green chegou em casa, após uma de suas esporádicas viagens, assobiava alguma canção feliz, parecia feliz de fato. Jogou as chaves na mesa e sentou-se no sofá. Terrível erro. De costas para seu algoz, no caso, eu, Green não teve nem a chance de vencer a luta pela sobrevivência. Um saco preto de lixo amarrado sobre sua cabeça foi o suficiente para dar fim a sua vida. O corpo nunca foi encontrado, fiz um ótimo trabalho, é eu fiz.
A segunda vítima foi o Dr.Mistake, pois ele foi um erro, um erro enorme. Dr. na verdade era um professor de história em uma escola primária, seu nome era Philipe Addam. Um rapaz esbelto, tinha vinte nove anos e um rosto de galã de filme mexicano. Seus cabelos loiros e cacheados faziam suas colegas de trabalho e algumas mães suspirarem, para infelicidade de seus colegas e alguns pais. Provavelmente fora um grande paquerador na sua época de escola e faculdade. Era solteiro e não se tinha muitas informações sobre seus relacionamentos anteriores, se é que ele teve algum. Se tinha, soube trancafiar essas informações a sete chaves, pois ninguém sabia sobre nada disso. Parecia que sua vida amorosa era mais secreta que a área 51.
Dr.Mistake foi morto por uma lasca de madeira que enfiei em seu pescoço enquanto nós lutavamos. Não foi muito fácil, e eu ainda estava aprendendo a caçar. Quase me descobriram, mas consegui me livrar das provas antes de chegarem a mim, porém acredito que o mistério sobre a sua morte ainda ecoa nas gavetas dos policiais. Talvez eles não se empenham em descobrir por pensar que foi uma vingança de uma ex-namorada ou namorado, já que ninguém sabe nada sobre as relações que o garoto bonito teve, se é que ele realmente teve alguma.
A terceira vítima foi ela. Cabelo preto vivo, sempre amarrado como rabo de cavalo. Corpo em forma, treino militar, várias armas em sua casa, várias tatuagens em seu corpo. Estou falando de Larissa Rivaille, ou como eu prefiro chamar, The Queen. Queen era dureza, pois tinha beleza na mesma quantidade que tinha força. Era uma policial que gostava da ação das ruas, não tinha cabeça para trabalhos administrativos e investigações, ela gostava de incursões, de dá tiro em bandido. A primeira vez que a vi, pensei que havia me apaixonado. Algo instintivo, animalesco me atraiu a ela. Éramos parecidos. Pelo menos eu achei, e ela também. Saímos algumas vezes, transamos também. Foi uma relação louca, mas aos poucos fomos descobrindo que de fato não era atração sexual que estava rolando ali, nós que interpretamos mal. Acho que ela sacou antes de mim, e tentou acabar com tudo. Talvez ela tivesse percebido que estava saindo com um serial killer com seu instinto de policial? Provável. Ou tinha descoberto o que fiz antes? Não sei dizer. Só sei que não acabou nada bem, para ela.
Sinceramente, eu não podia vencer Queen, pois ela era a rainha, e eu um mero peão. Porém a vantagem do peão é a possibilidade de se tornar qualquer peça, e Queen não contava com isso. A armadilha fora feita, e eu nem precisei sujar minhas mãos nesse caso. Um líder de um cartel de drogas o fez, Manoel Neruda, ou Foxy. Não houve uma tatuagem do corpo de Queen que não tivesse um furo de bala.
Depois de Queen eu tive várias vítimas ao longo dos meus longos anos de vida. O próprio Foxy tornou-se um alvo tempo depois. E hoje eu escolhi a minha última vítima.
Estou na sua casa, na verdade em seu banheiro, tomando uma ducha com o seu chuveiro, mas antes não posso esquecer-me de explicar o meu padrão de escolha para as minhas vítimas.
Para começar, vamos ao Green Eyes. Aquele bondoso senhor de olhos verdes, quando longe de sua família e de sua infiel ex-esposa, viajava para as cidades vizinhas, sequestrava crianças, geralmente negras, mas também pardas e hispânicas, para depois matá-las, esquartejá-las e comê-las. Aquilo foi demais até para mim. Infelizmente só fui capaz de conseguir todas as provas depois que ele matou Riquelme Norris, um garoto que adorava assobiar a sua música favorita.
Dr.Mistake foi um erro terrível. Por não ter conseguido provas suficientes sobre o seu hábito de estuprar mulheres sedadas e queimá-las ainda vivas na frente de seus namorados ou maridos que eram mortos com uma lasca de madeira no pescoço, decidi que ele era inocente e não iria matá-lo. Até que o vi estuprando a mãe de um aluno, que por acaso era minha namorada. Terrível erro. Ele não esperava que eu quebraria meu próprio pulso, me soltaria e o mataria da forma que ele matava aqueles pobres homens. Pena que meu pulso não fora a única coisa quebrada ali. É um erro que jamais eu perdoarei.
The Queen era uma policial que adorava sentir adrenalina ao máximo, mas o seu pecado não era atirar em bandidos enquanto usava uma farda. Era foder com aqueles que ela elegia digno para morrer fuzilado por ela. Todos os pobres homens que passaram quentes noites com Queen acabavam por ser incriminados de crimes hediondos com provas plantadas pela rainha. Assim ela tinha a liberdade de matar os homens que considerava forte o suficiente para tal. O que ela não imaginava é que acabaria se apaixonando por uma pessoa tão doente quanto ela, e um pouco mais esperto. Xeque-mate.
Sim, eu apenas matei outros assassinos. Não diria que sou bom, ou que sou melhor que eles, me vejo tão doente quanto todos os outros. De fato sinto que sou como uma aranha que sobreviveu comendo seus irmãos, talvez seja até pior que eles. Mas isso acaba hoje, pois escolhi a minha última vítima.
A minha última vítima tem cinquenta anos, barba por fazer, cabelos negros com algumas mechas grisalhas. É um homem forte, músculos definidos. Pratica natação, Jiu-jitsu, capoeira, corridas e musculação. Tem uma alimentação balanceada e nenhuma doença crônica. Olhos castanhos claros, que estão sempre observar-me no reflexo. Minha última vítima está tomando banho em sua casa, tem tendências de isolamento, mas consegue fingir muito bem ser sociável. Sua mente é nublada e afiada ao mesmo tempo. Minha última vítima gosta de falar em terceira pessoa de si mesmo. Minha última vítima senta na banheira e ouve a sirene de várias viaturas policiais cercando sua casa. Minha última vítima ri. Minha última vítima pensa nas provas de todas as atrocidades que cometeu durante sua carreira como assassino de assassinos, elas estão todas aí, espalhadas em papéis, pendrives, computadores, dvds. Minha última vítima aumenta a abertura da água, e a pressão da água quente percorre todo seu corpo e transborda a banheira. Minha última vítima ouve os gritos do lado de fora, minha última vítima ouve os gritos do lado de dentro, de dentro de si. As portas caem, os vidros quebram, os líquidos quentes jorram, as lâminas já cortavam antes de tudo começar, os policiais entram, os curiosos olham, as balas voam, os papéis também. A minha vítima simplesmente ri. A minha última vítima se chama Egoi’am.
Que Deus tenha piedade da minha alma, pois hoje eu escolhi a minha última...
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