Última Chance
1 Capítulo 1: A Causa.
Notas iniciais
É madrugada de sábado, precisamente as 04:30 e Vanessa ainda não conseguiu dormir. Na verdade ela deitou e levantou da cama milhares de vezes, e sempre que fechava os olhos lembrava da terrível briga que havia tido com Roland, seu impaciente marido. As palavras insensíveis martelavam em sua mente, e o seu coração sofria cada vez mais ao sentir a dor penetrar como uma bala ao sair do revolver. Não era a primeira briga alucinante que eles tiveram e provavelmente não será a última, e ela sabe infelizmente que a cada dia as discussões deles irão se intensificar até que no fim não sobrará mais nada, apenas mágoa e acusações falsas e verdadeiras. Encostada na parede da varanda de seu quarto ela se pergunta qual foi o exato momento que tudo mudou, qual foi esse fatídico momento em que ela e Roland pegaram o caminho errado e acabaram chegando no inferno que estão vivendo hoje. Só que no fundo ela sabe o motivo, apesar de tentar esquecer e fingir que não conhece a suposta causa de seus recentes problemas conjugais. Não foi culpa dela... Não pode ter sido, afinal ela não pediu que aquilo acontecesse, jamais desejaria que algo tão doloroso como aquilo acontecesse. Observando o dia nascer com a brisa gelada do amanhecer tocando seu rosto, ela fecha os olhos e encosta a cabeça na parede se permitindo tentar ter um momento de paz, sonhando com a tranquilidade que imaginou viver para sempre ao lado de seu marido. Vestida apenas com uma camisola preta bem curta com o tecido dando visibilidade e forma ao seu corpo elegante, ela sente o vento bater mais forte em seu corpo e cruza os braços sentindo frio, mas no fundo ela sabe que esse frio não vem de fora e sim da turbulência interna de sentimentos que tocam seu coração e martelam em sua cabeça. Ela se sente esgotada. Antigamente quando ficava triste tinha como remédio a dança, sim... Se a tristeza batia ela ia para o palco e fazia o que sabia fazer de melhor: dançar. Era dançando que ela conseguia fazer seu coração e sua mente parar de atormentá-la por uns instantes, e foi em um desses dias de pura liberdade de sentimentos que ela conheceu Roland. Ele estava sentado em uma mesa de dois lugares bem afastado da grande multidão que se aglomerava sempre na frente do palco para vê-la mais de perto, e na frente dele em cima da mesa tinha um caderno já bem gasto, um cinzeiro, um copo de alguma bebida que ela não lembra e ele segurava uma caneta ou era um lápis, ela também não se recorda desse detalhe. Nesse dia ela apresentava um número mais clássico de dança, uma mistura de tango com valsa pois era a noite dos casais como eles chamavam lá no clube Hampstens. O Hampstens era um clube caro e fino, lugar de executivos e famílias ricas, nada de boate e coisas baratas. Enquanto ela dançava no palco de vez em quando olhava de relance para Roland que quase sempre estava com à atenção voltada para seu caderno, escrevendo com rapidez e uma certa fúria, lembrando a ela alguém que possui ideias e não quer perder nenhum detalhe. Mas ela mal sabia que enquanto dançava e se concentrava em outros pontos da plateia ele olhava pra ela de forma atenciosa e detalhista, explorando seu corpo com seus olhos perspicazes e curiosos, segundo disse mais tarde naquela noite sua amiga Sarah, que costumava ficar no bar justamente ao lado da mesa onde Roland estava sentado. E Sarah lhe disse mais, disse que ambos os dois formaram um padrão de comportamento naquela noite: enquanto ela olhava pra ele, ele desviava e encarava o caderno e enquanto ela dançava e desviava o olhar, ele encarava ela e aproveitava o momento... Era como se ambos estivessem tímidos um com o outro, mesmo sem terem nem se conhecido, acrescentava Sarah.
— Nessa? — Uma voz surgiu da porta da varanda, era Roland. Era a forma carinhosa dele de chamar a esposa, sempre foi, mesmo nos tempos de crise recente. Ele jamais deixou de chamá-la assim e ela sabe que jamais deixará. E ela adora ouvir sua voz sensual pronunciar seu apelido de forma tão simples e carinhosa, e sempre que isso acontece uma parte confiante e positiva do coração dela se anima com a esperança de que tempos melhores cheguem novamente para eles.
— Oi. — Ela diz de forma suave mas um pouco surpresa mas não se vira para encará-lo, apenas permanece contemplando o horizonte e sentindo a presença e os olhos do marido sobre ela.
— Não consegue dormir? — Ele indaga, demonstrando na voz apreensão sabendo no fundo o motivo da esposa não ter conseguido pregar o olho a noite toda. Claro que ele sabe, nos últimos tempos frequentemente ela não tem conseguido dormir, pelo simples fato de que frequentemente eles brigam e terminam cada um se isolando em seus pensamentos e indagações interiores.
— O que você acha? — Retruca de forma sarcástica e áspera. — Toda vez você me faz a mesma pergunta e toda vez você sabe a resposta, portanto será que podemos deletar essa parte? É exaustivo, parece um roteiro pronto e de coisas prontas eu já estou até o limite.
— Sabe, eu devo ter algum motivo para toda vez perguntar a mesma coisa... Talvez eu queira apenas conversar e amenizar as coisas, mas é claro que você não percebe e não se importa afinal você só enxerga na gente a possibilidade de brigas e acusações. — Ele responde no mesmo tom da esposa.
— Conversar? Amenizar? — Ela olha pra ele sem acreditar no que acabou de escutar. — Você dizendo Roland? Qual é o personagem dos seus livros que você está encarando agora? Em? Deixe-me ver, o marido conciliador? — Ela questiona agressivamente demonstrando total falta de paciência, revirando os olhos e desviando o olhar pra qualquer outra direção. Ela sabe que o marido não é assim tão receptivo depois das inúmeras brigas, e ela se pergunta o que ele está querendo com isso.
Roland fica encarando ela, sem ter o que dizer e sem conseguir expressar nada... Nessas horas ele não enxerga mais nada além do caminho doloroso que eles estão tomando, na realidade ele não consegue ver mais nada além do fim do relacionamento deles, que a cada instante parece estar mais próximo e mais real. Vanessa continua olhando pra frente fingindo ignorar a presença do marido, mas ele sabe que no fundo ela está nervosa e que sempre tentou e tenta se fazer de forte e desinteressada nesses momentos... Ela nunca foi de demonstrar fraqueza, mas ultimamente tem deixado escapar momentos de vulnerabilidade em sua aparente armadura de ferro. Não aguentando mais o clima tenso e o silêncio torturante que se estabeleceu entre eles, Roland volta pra dentro do quarto deixando Vanessa mais confusa e irritada. Ela odeia esse comportamento dele de não responder e fugir quando as coisas tornam-se mais profundas e mais acusatórias pro lado dele. Ele sempre faz questão de tentar jogar toda a culpa da frustração deles pra cima dela, afinal ele não tem piedade em dizer que foi ela que não se cuidou e perdeu o bem mais precioso deles. O bem que todo casal que se ama um dia sonha e planeja ter com muita esperança e felicidade, o bem que vem ao mundo para agregar mais amor e iniciar uma família. Um filho.
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