Ósculo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura.
Ó S C U L O
{"Uma gota no oceano. Uma mudança no tempo. Eu estava rezando para que você e eu pudéssemos ficar juntos"}
Ele estava agindo de maneira tão estranha aqueles dias. Algo dentro de mim não me deixava descansar apenas com essa dúvida que me açoitava a mente. Se eu fosse um pouco mais incisivo eu poderia tirar alguma coisa dele.
─ Precisa descansar um pouco, Harry. ─ comentou, Hermione, hesitante. ─ Está vendo coisas onde não há. ─ ela continuou, percebendo que eu encarava um Malfoy imerso nos próprios pensamentos no outro extremo do Salão Principal. Procurei abafar aquilo por um tempo, desanuviando.
─ Não sei mais de nada, Hermione. ─ suspiro.
Parte de mim não queria acreditar na possibilidade de Draco Malfoy ter se tornado um Comensal da Morte. Mas tudo apontava para isso e não entendo como Ron e Mione podem ser tão cegos para não terem a mesma suspeita.
─ Devo estar ficando louco. ─ deixo que as palavras se esvaiam no ar em meio aqueles corredores.
─ Então será o fim dos tempos, Harry. ─ conhecidamente delicada, uma voz se faz presente, fazendo-me notar que não andava sozinho por ali.
─ Luna. ─ a loira faz uma meiga reverencia.
─ Por que anda tão distraído ultimamente? ─ começamos uma lenta caminhada.
─ É tão evidente assim?
─ Você não costuma andar sozinho.
─ Não sei muito que pensar, mas ao mesmo tempo também ando pensando demais. ─ isso na minha cabeça parecia fazer mais sentido, admito.
─ Acho que te entendo, Harry Potter. ─ ela segurou os braços atrás das costas. Eu olhei para ela pelo canto dos olhos e pensei que essa seria uma ótima situação para eu tirar um conselho de alguém que fosse imparcial na situação.
─ Luna, e se meus pensamentos tivessem alguém envolvido? Bem, digamos que assim, eu preciso tirar satisfação com uma pessoa que não gosta muito de mim.
─ Oh, eu acho que tentaria ser o mais gentil possível e não faria muitos rodeios sobre o que eu gostaria de saber. ─ respondeu, parecendo pensar por um momento.
─ Certo.
Luna saltitou mais ligeiramente encontrando-se próxima ao salão comunal de sua casa. Antes, rodopiou sob os tornozelos e disse inocentemente:
─ Seus sentimentos por Draco Malfoy são tão admiráveis, Harry.─ expressei um semblante confuso diante daquele comentário, porém não pude toma-la para mais um pouco de conversa, pois esta já fugia para dentro de seu salão. Além do mais, como ela sabia que eu me referia a Draco?
O relógio daria suas últimas badaladas do dia. Ainda com a conversa que tive com Luna Lovegood na cabeça, decido seguir para o calor do Salão Comunal da Grifinória, encontrando lá alguns alunos se esquentando perante a lareira. Sem muito enrolar, jogo-me no conforto da cama e me permito organizar algumas ideias na minha cabeça.
Mais um sonho banhado em escuridão me faz acordar de um sono que eu nem lembrava que havia dormido. Acordo apavorado com a camisa grudada. Em um rápido movimento, tateio a escrivaninha e agarro meus óculos, me acomodando com a realidade. Deixo meus pulmões fazendo seu devido trabalho e me acalmo. Estabilizado, busco averiguar as coisas ao meu redor ali no quarto e meus olhos recaem sobre o Mapa do Maroto na escrivaninha. Surpreso, a primeira coisa que observo é as passadas de Draco Malfoy marcadas no banheiro dos professores. Num instinto, me ergo da cama e visto um jeans, cobrindo-me ligeiramente com a capa da invisibilidade.
Procuro ser o mais rápido possível, não poderia ser pego andando pelos corredores, mas realmente não poderia deixar essa oportunidade passar. Com um andar silencioso, adentro o banheiro dos professores, mas o barulho enferrujado da porta denuncia a minha presença.
─ Quem está aí? Pode sair de onde estiver! ─ indaga Draco, revirando os olhos inchados da pia com varinha em mãos.
Deixo a capa cair no chão e me revelo. No mesmo instante, escuto seus dentes ranger. Ele parecia extremamente incomodado de estar daquele modo na minha presença.
─ Malfoy, eu não vim lhe fazer mal. ─ afirmo, abaixando os olhos para sua varinha que ele apertava com força. ─ Eu só quero lhe ajudar.
─ Você não entende. Você não sabe de nada. ─ ralhou, apertando os lábios com os dentes em nervoso. Seus olhos pareciam arder de raiva com aquelas lágrimas furtivas.
─ Exatamente. ─ permito me aproximar vagarosamente.
─ Não se aproxime. ─ sua varinha aponta mais fixamente para mim. ─ Poderia ser qualquer pessoa. Qualquer um. Menos você. ─ ele vacila, voltando a agarrar-se à pia, onde deixa o pranto cair.
Eu o observo a poucos passos e não consigo raciocinar perante àquela situação. Malfoy fervia em um pranto incondicional e vê-lo naquele estado me causava um estranho incômodo. Queria desesperadamente me desprender desse estado e apenas voltar ao quarto, entretanto, contradizendo qualquer pingo de consciência minha, eu me aproximei mais. Pousei uma mão em seu ombro, apertando amistosamente.
─ Por que quer me ajudar? ─ perguntou, engolindo o choro e voltando a me encarar. ─ Em nenhum momento eu lhe pedi ajuda.
─ Eu... Eu também não sei. Mas sinto que devo.
─ Eu não preciso da sua ajuda. ─ bradou, batendo com o ombro no meu e agarrando o seu suéter jogado no chão. ─ Francamente, é muito idiota de sua parte vir aqui achando que suas gentilezas iriam mudar o que penso a seu respeito, Potter. ─ cuspiu as palavras com aquele seu tom descarado.
─ Realmente, você é um caso perdido, Malfoy. ─ retruco, virando-o de encontro a mim. O mesmo aponta novamente a varinha para mim, apertando-a em meu pescoço. Sinto minhas costas dar de encontro com a parede fria.
─ Você não entende! Eu fui incumbido a isso. ─ então, num rápido gesto, o mesmo arregaçou a manga me permitindo visualizar a assombrosa Marca Negra pulsando em seu braço. Sinto um pico de dor agonizante focar em minha testa. ─ Mas não posso deixar acontecer. ─ suas palavras parecem confusas e novamente me sinto imerso em dúvidas, mas sou pego de surpresa pelo seu ato repentino.
Um beijo desesperado.
Absolutamente atônito com aquela ação, vejo seus olhos apertados com a mesma força do beijo. Não consigo expressar nada racional em minha própria cabeça e tudo o que faço é corresponder ao beijo raivoso de Malfoy, sentindo suas mãos gélidas agarrarem minha nuca de maneira quase impetuosa.
Aquele ato petrificara qualquer tipo de pensamento, censurando-me.
─ É o suficiente para você? ─ nossos lábios se separaram com sua fala tremida. Seus olhos agora decaem cansados e avermelhados. E a última coisa que consegui acompanhar foi seu vulto loiro deixando aquele recinto, deixando-me inteiramente desconcertado com o que havia acontecido.
∆
Era fim de ano.
A ponte coberta adquiria uma atmosfera fantasmagórica nessa época do ano, mas não perdia uma de suas melhores características: era um bom lugar para se pensar.
Diante de uma paisagem tomada pela neve, aquela imensidão alva parecia limpar cada escombro de minha mente. Os acontecimentos de ontem não me permitiram ter uma boa noite de sono. As cenas voltavam, voltavam, voltavam... O que foi aquilo? Eu me perguntava repetidamente isso e simplesmente nenhuma resposta chegava para mim, entretanto eu podia sentir. Eu estava testemunhando os sentimentos mais profundos que já pude sentir, mas ao mesmo tempo não sabia ao certo como descrevê-los. Ou melhor, parte de mim não queria admiti-los. Algo me dizia que eu não havia me descoberto antes daquele ato e novamente não entendo essa mudança tão abrupta. Tudo era um misto rubro e desfocado; eu estava tendo um colapso.
Nisso, aproveitando que as minhas sombras – vulgo Ron e Mione – não estão presentes no momento, recolho um pedaço de pergaminho da Sala Comunal da Grifinória e escrevo um breve recado para Draco Malfoy, dizendo o seguinte:
Malfoy,
peço que me encontre no Corujal após o almoço. Precisamos conversar sobre noite passada.
Harry
Com um balançar de varinha, desenho um feitiço no ar que transforma aquele recorte de pergaminho em um aviãozinho de papel. O acompanho em um curto instante pairando na altura de meus olhos e logo depois, disparando célere para fora da sala rumo ao seu destino.
Devidamente agasalhado, aperto meu passo para fora do castelo em direção ao Corujal. Enquanto subo as escadas penso se aquilo era realmente necessário e se eu apenas não poderia fingir que nada acontecera noite passada, entretanto, quando a vontade de dar meia volta já é grande o bastante, percebo-me já no último degrau ao pico da torre do Corujal. Lá estava ele.
─ Olá. ─ pronuncio quase num sibilo, talvez por ter sido pego de surpresa estando tão distraído nas escadas.
De sua boca nada saiu, apenas desvencilhou os olhos de mim, focando-se novamente a paisagem e ajeitando os cotovelos no parapeito de uma das janelas do Corujal. Eu suspiro e mais uma vez sou convidado para tomar uma iniciativa, me posicionando ao seu lado.
─ Não sei exatamente por onde começar... ─ em nenhum instante ele demonstrou vontade de olhar para mim e muito menos parecia querer dizer algo. ─ Achei que não viria aqui hoje.
─ Eu também achei. ─ suas mãos se esfregam debaixo das luvas negras e ele solta um riso abafado. ─ Creio não ter mais controle de mim mesmo.
─ Realmente, você não parecia muito controlado ontem. ─ disse, como numa forma de descontraí-lo e bem, era sempre uma experiência muito cativante deixar um Malfoy irritado.
─ Droga, Potter. ─ ele crispou os dentes, quase cuspindo o xingamento e virou o rosto para o lado. Não tive como conter umas risadas. ─ Se soubesse das coisas que se passavam na minha cabeça naquele banheiro entenderia o porquê daquele... ─ uma pausa sufocada. ─... beijo.
Um extenso silêncio se formou naquele instante. Eu não me sentia desconfortável em sua presença, o que não queria dizer que ele sentia o mesmo. Ainda sim, o observando com cautela pelo canto dos olhos, era fácil captar ainda um resquício do desespero que ele sofreu noite passada. Havia traços de uma crescente angústia.
─ Você já se perguntou o que teria acontecido se eu tivesse aceitado o seu cumprimento naquele primeiro dia do primeiro ano? ─ as memórias adentram minha visão e logo imagino tudo o que poderia ter sido diferente.
─ Ainda não nos daríamos bem. ─ sinto o tom frívolo de sua voz e sinto-me desanimado por algum motivo. ─ Não sei o que vim fazer aqui.─ comentara, dando dois breves socos no parapeito do corujal. Eu o acompanhei se desvencilhar de perto de mim como se incerto da realidade. ─ Não ache que pode consertar tudo, Potter. Certas pessoas não foram feitas para terem finais felizes.
─ Malfoy, você não precisa seguir o caminho de seu pai. Deixe-me lhe ajudar. ─ digo, procurando botar toda a confiança naquelas palavras.
─ Eu estou seguindo o meu caminho. ─ instantaneamente, ele se desprende e volta a descer os degraus da escada, mas não o permito e o agarro pelo pulso.
─ Acredite em mim, Malfoy, há trevas no fim deste caminho e eu não quero que algo de mal ocorra com você. ─ estamos próximos o suficiente para eu conseguir sentir sua respiração entrecortada contra o meu rosto.
─ Por quê? ─ ele indaga, seus olhos ora em meus lábios e ora em meus olhos. O mundo em volta parecia ser restritamente pequeno para nós dois. ─ Por que isso só agora? ─ a sua voz estava tão carregada em pranto... eu sentia um pesar impossível de segurar. ─ Agora é o fim. ─
─ Não... ─ digo atordoado com a situação. Ele se desprende de mim e em instinto, busco o segurar novamente. ─ Draco!
─ Stupefy! ─ uma faísca vermelha é lançada de sua varinha, atirando-me para trás, fazendo-me bater as costas contra os degraus da escada e rapidamente ir perdendo a consciência tendo tempo apenas para vê-lo desaparecer da torre como vento.
∆
Piados incessantes fizeram-me acordar do chão empoeirado do Corujal. Algumas corujas me rodeavam certamente incomodadas com a minha presença ali. Brevemente ajustei as vestes e procurei voltar ao castelo o mais rápido possível. Por algum motivo, eu sentia que algo crucial estava para acontecer. Era um sentimento aflitivo e ansioso; daqueles que eu sentia na pele quando o Mal estava por perto.
Era noite e eu começava a suar frio, extremamente nervoso com a aura que me tomava o corpo. E eu não poderia estar mais certo dos acontecimentos.
Ao chegar ao pátio externo do colégio, encontro um amontoado de alunos e professores. Curioso mas hesitante do que iria encontrar no fim, vou atropelando algumas pessoas no caminho. Meus dentes atritaram-se quando eu deparei-me com a figura gélida de Dumbledore no chão. Os lábios suavemente entreabertos. Olhos opacos.
Morto.
Uma mescla de fúria e tristeza tomou qualquer pingo de consciência que eu poderia ter guardado dentro de mim. Ao cerrar os punhos, a figura da Marca Negra surge no céu nublado. A cobra resvalava endiabrada pela boca da enorme figura da caveira. E então um pensamento terrível atiçou meus pensamentos.
Tudo ao meu redor adentra em um súbito silencio. Ajoelho-me próximo ao corpo de Dumbledore, observando uma corrente pendurada em seu bolso. Minha mão tateia seu bolso. Sinto a silhueta do objeto, mas não o retiro de lá.
─ Então é isso. ─ concluo, mentalmente.
Vejo todos os alunos apontando suas varinhas iluminadas para o céu, dissipando a figura assombrosa e cadavérica. Aproveito este momento e retiro o objeto de suas vestes.
Impetuosamente com a varinha firme na mão, corro em direção ao fogaréu que se iniciou ali próximo à Floresta Negra e à cabana de Hagrid. Ao encontrar-me no local, avisto de primeira a figura esguia de Malfoy trajado em negro, visualizando impactado as labaredas coléricas que incendiavam a cabana de meu fiel amigo. Em um impulso, o puxei pelo braço e não detive minhas palavras:
─ Você o matou? ─ bradei. ─ Diga-me, diga-me que não o matou! ─ continuei, mais buliçoso. A fúria invadindo-me cada vez mais com o seu silêncio e o seu semblante assustado.
─ E-Eu...─ seus olhos inundaram-se. Os dentes rangiam em temor.─ Me perdoe...
Quase instantaneamente a raiva dissipou-se de meu ser e em troca meu corpo emergiu em frieza. Eu não sabia o que sentir. Eu o abracei de modo tão firme... As mãos agarrando suas costas, tentando conter meu próprio pranto dolorido. Aquecendo-nos de toda a melancolia crescente das trevas.
─ Ele iria me matar... Voldemort...─ disse Draco, em soluços. ─ Eu tive que fazer isso. ─ seus orbes tornaram-se vazios e seus dedos apertavam com firmeza meus braços. ─ Ele iria me matar... Ele iria me matar... ─ sibilou.
Eu estava tão vazio quanto a alma que habitava o seu ser, mas algo em mim chamava por seu afeto. Vê-lo naquela situação inquietava o coração frívolo que pouco batia dentro de mim. Instintivamente, percorri as mãos pelo seu rosto alvo, limpando o pranto de suas bochechas escuras.
Eu o beijei.
Tomei seu rosto para mim; degustei de seus lábios. Fiz aquilo da maneira mais afetuosa que poderia. Transpassando todo o amor que eu sentia. Todo o amor que ele nunca pôde receber.
─ Eu vou mudar isso. ─ disse-lhe, acariciando seu ombro e retirando o Vira-Tempo de meu bolso. Ele apenas acompanhou o movimento das correntes circundando o meu pescoço, incerto do que dizer. Nenhuma palavra se formou de seus lábios. Até agora.
─ Irei me lembrar de você? Irei me lembrar de nós?
─ Não. ─ seus orbes foram ao chão. ─ Mas eu sim.
O azul tempestuoso de seus olhos brilhou com minha resposta. E creio que o mesmo tenha acontecido comigo.
Novamente, o mesmo ar repousou para silenciar tudo ao nosso redor. Ele me olhou uma última vez e logo menos, permiti o rodar da ampulheta.
∆
Os primeiranistas adentravam o castelo admirados pelos salões majestosos de Hogwarts, seguindo professora McGonagall até a porta do Salão Principal. Esta, volve-se aos alunos, e os informa que voltará em instantes para averiguar a organização de seleção das casas.
Um garoto de cabelos louros em um grupo mais afastado interessa-se por uma figura famosa em particular. De certo modo, algo lhe chamava a atenção, mas não sabia ao certo o que era. Por um momento até achou que já o conhecia de algum tempo.
─ Olá, eu sou Draco Malfoy. ─ sem muita cerimônia, o menino se aproxima confiante até o outro que não parece estranhar sua atitude. ─ Logo vai perceber que algumas famílias de bruxos são melhores do que outras. Você não vai querer ser amigo da pessoa errada. Eu posso ajuda-lo nisso. ─ o loiro estende a mão e expressa um sorriso amigável. ─ Quer ser meu amigo?
─ Claro! ─ a figura de óculos e cicatriz resplandece num sorriso largo, aceitando o cumprimento daquele que um dia ele sabia que seria algo a mais para ele. ─ Meu nome é Harry. Harry Potter.
.the end.
XXX
Notas finais
Como dito, terceiramente de novo, eu alterei o conceito do Vira-Tempo nessa história. Em Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban vemos que o indivíduo que usa o vira-tempo vai para o passado em forma física e encontra o seu "eu" do passado. Já nesta história que tu lestes, quando Harry usou o vira-tempo, o sua forma sólida apagou-se e a sua mente do presente migrou para a sua mente do passado. Entendeu? Acho que consegui explicar direitinho. É basicamente o Harry mais velho na cabeça do Harry mais novo.
Obrigado por ter lido.
Foi ótimo te ter aqui.
Por favor, deixe seu comentário, pois isso me deixa muito alegre e faz o meu dia.
Até outra vez!
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