Óculos
1 Único.
Notas iniciais
Havia recebido o objeto já fazia algumas horas, mas se negou a ficar com ele por mais de 15 segundos e se focar no quanto tudo era, na realidade, nítido e não embaçado. Nathaniel poderia olhar para as árvores e ver como as folhas podem ser bonitas quando são um amontoado ao invés de um borrão verde. Poderia ler algumas passagens do seu livro favorito — ou do roteiro que estava decorando — e se sentir aliviado por não ter que forçar sua visão para isso. Poderia apreciar detalhes que passavam despercebidos ou que simplesmente não tinha paciência para passar mais tempo do que deveria tentando decifra-los. Poderia, poderia, poderia...
''Algum problema? Por que não sai daqui já com ele?'' A oftalmologista questionou quando o viu guardando o óculos na sua caixinha própria.
O garoto apenas lhe sorriu enigmaticamente. Não queria explicar. Sequer valia a pena.
Quando saiu da clinica, mandou uma mensagem de texto:
[txt] recebi os oculos e to indo ai
[txt] continua torcendo pra eu nao tropeçar durante o curto percurso ate o carro numa pedra, cair de cabeça e morrer
Felizmente durante aqueles poucos dias quase cego essa hipótese mencionada foi muito repetida, mas não aconteceu. Ainda que acontecesse, provavelmente teria um desconto no velório. Ou no caixão. Arthur havia feito pelo menos 3 piadas sobre isso e não tinha certeza se poderia ser algo sério ou não no final.
Ele não tropeçou numa pedra no caminho. Sua mãe olhou-o de canto quando sentou-se no banco do passageiro, perguntando-se silenciosamente o mesmo que a médica. Sabia disso, e também lhe deu aquele sorriso, mais uma vez não se preocupando com explicações.
Foi atendido na porta da casa por justamente quem queria.
— // —
Folgadamente, como de sempre, Nate se deitou de barriga pra baixo na cama do moreno enquanto ele se sentava na cadeira giratória.
''Onde está seus óculos? Não sei por qual motivo não os usa. Achei que estava cansado de estar perdido no mundo aí.''
''Eu estou.'' Respondeu, abafado. Depois falou mais uma vez, porém sem a cara enterrada na almofada. Presumia que o semblante de Arthur devia estar confuso, então sentou-se para explicar e pegar a caixinha na bolsa a tiracolo no chão.
''Veja bem,'' uma risada nasal rápida partiu do outro. Ele prosseguiu: ''Para resumir, só queria que você fosse a primeira coisa que enxergo direito nesses últimos tempos.''
Uma pausa.
''Ah. Que bonitinho. E dramático. Fala como se tivesse passado anos cego de verdade.'' Brincou, assistindo-o procurar na bolsa. Arthur repuxava os cantos da boca em um sorriso pequeno, contudo muito lisonjeado. Ficou meio sem graça, assim como todas as vezes que o outro era tão direto dessa forma. ''Mas vá, ponha.''
O loiro assentiu e acatou a ordem logo, uma vez que já estava com o óculos em mãos.
Piscou enquanto se acostumava novamente, e o mundo se abriu para ele mais uma vez no leque de detalhes que era. Bem, ao menos os detalhes do mundo que era o quarto do mais novo. Só que não era nisso que estava pondo seu foco.
Uma ótima ''volta definitiva ao mundo sem borrões''.
''Cara, como você é bonito. Eu devia ter procurado a doutora no mesmo dia que havia dado problema.''
''Jesus Cristo.''
''É sério. Eu acho que me esqueci que você era tão lindo assim.''
''Diz isso porque ficou séculos sem ver minha cara direito.''
''Acho que está sendo dramático. Fala como se eu tivesse passado anos cego de verdade...''
Mais uma risada vinda de Arthur, sendo depois acompanhada depois pela de Nathaniel.
''Ainda assim, é realmente um colírio natural. Aposto que se tirasse os óculos estaria pelo menos 5% menos astigmático...''
''Isso é bem embaraçoso.''
''Certamente. E bem verdade, também.'' Piscou o olho esquerdo, fingindo um flerte desajeitado.
''Você não cansa mesmo...''
''...De olhar pra você? Não.'' Piscou desta vez o olho direito, o sorriso se alargando. ''Ok, vou parar pois temo que fique tão constrangido que a possibilidade de vir aqui e quebrar o óculos novo nas próprias mãos seja tentadora.''
''Bem, acho que tens visão do futuro.'' Disse enquanto se levantava e ia de encontro ao loiro. Não estava sério sobre isso, obviamente. Parado a frente da cama onde estava ele, levantou a mão como se fizesse menção de que pegaria nas hastes para tira-lo do rosto de Nathaniel, o qual reclinou-se para trás, esquivando logo. Deu um passo a frente e tentou de novo, mais uma vez não obtendo sucesso. Na terceira, Nate já teria quase se deitado, se não fosse a parede atrás de si. Encostou-se nela com ar de vitória pela desistência de Arthur, que meneava a cabeça, aceitando sua suposta derrota.
Até que ele inclinou seu esguio corpo em direção a ele, e por um momento, Nate achou que perderia pois estava isolado naquele pequeno espaço de cama-parede-Arthur. Agarrou-se a almofada que estava no colo e fechou os olhos, virando a cara para o lado.
Recebeu um singelo beijo na bochecha.
Abriu os olhos e riu.
E ele estava tão perto, mais uma vez com o sutil sorriso. Um sorriso para ele. Sabia que se estivesse sem os óculos muito provavelmente não poderia apreciar aqueles pequenos, ainda assim grandes, detalhes de sua face daquela forma. Aquelas pequenas linhas verticais dos lábios meio rachados e pálidos. A forma da ponte do nariz. Os cílios que deixavam seus olhos ainda mais bonitos. E era tão lindo, tão lindo.
Não tinha certeza de quanto tempo havia ficado o encarando, mas foi o suficiente para Arthur baixar um pouco a cabeça. Desviou o olhar — agora também tinha ficado acanhado.
Só sabia que agradecia às pessoas que inventaram os óculos.
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