Íroda: As Crônicas Dos Oito Reinos
7 Capitulo VI - Filho Da Lua

Gybbra Oddshark estava sentado desajeitado no majestoso trono, que era totalmente feito de bronze polido e reluzente assim como o castelo. A coroa de Ivernos pairava em sua cabeça como se tivesse sido feita para ele. Era de galhos longos e retorcidos, secos e envernizados. Ao seu lado estava o acusador, Dhagdan e uma testemunha qualquer que defenderia o lado dele. O resto dos presentes estava espalhado no salão redondo, alguns estavam alvoroçados, pois um julgamento era algo um pouco raro de acontecer e algumas vezes eram extensos e interessantes, outras vezes, quando já se sabia que o julgado era culpado e quando todos almejavam que fosse sentenciado, demoravam horas e as vezes minutos.
Lugh e muitos dos homens importantes estavam ali, aflitos e consternados, pois todos eles conheciam Cian muito bem, ele sempre fora um homem sábio e um exímio lutador. Muitos dos thuathans presentes haviam sido treinados com Cian na arte da espada e da luta corporal, por isso, dispunham de um grande respeito e admiração por ele.
Cian foi trazido por dois carrascos, que o arrastavam, pois suas pernas estavam fracas e feridas demais para que conseguisse caminhar sozinho. Aquela cena fez muitos sentirem náuseas e terror, geralmente um preso que seria julgado era torturado após o julgamento, era algo bastante estranho ver aquele nobre homem em tal situação. Até Oddshark se mostrou desconfiado da situação, ele já havia conhecido Cian em pequenas batalhas que aconteceram no litoral e sempre o vira se recuperar das suas feridas, era algo que nunca acreditaria ver em sua vida. O grande lutador Cian completamente retalhado.
– Pelo que bem sei minhas ordens eram de apenas prender o acusado, não de tortura-lo até que ficasse moribundo. – disse Gybbra com firmeza para os carrascos.
Um dos carrascos pareceu acanhado e olhou diretamente para Dhagdan como uma criança que procura a mãe quando se assusta, e o rei turiano o respondeu com um olhar cortante, o que fez o enorme homem abrir a boca.
– Bem senhor, quem fez isso com o nobre senhor foram os irmãos dos dois homens que foram mortos por Cian de Thuathan.
– Pois esta me parece uma explicação plausível. – Oddshark desmanchou a cara de desconfiança e trocou por um semblante de descontração. – Então que comesse este julgamento, que Dannan faça com que a verdade prevaleça.
Dhagdan estava completamente aliviado, sabia que o resultado daquela encenação seria a execução de Cian, e que aquilo afetaria profundamente seu rival. Não demoraria muito para Gybbra dar o veredicto, Cian estava ciente de que cada palavra de defesa que murmurasse ali seria inútil, pois o druida se encontrava ali mesmo, sem expressão ao lado de Dhagdan justamente para que ele não ousasse contar o que realmente acontecera.
– Meu caro rei, este homem acorrentado a sua frente assassinou dois de meus bons e honestos homens em um aceso de ódio. Ele é Thuathan de berço e completamente submisso e fiel ao seu rei e por isso nutre uma aversão e uma raiva cega sem motivo por nós de Turim. – sempre que queria convencer alguém de que era a vítima, Dhagdan fazia o mesmo semblante de triste e preocupado que pouco convencia a maioria.
– O que o rei Dhagdan diz é verídico, lorde Cian? – indagou Oddshark.
Quando tentou responder a pergunta do rei, Cian foi tomado por uma crise de tosse seca e sangue, seus olhos não abriam mais, estavam vermelhos e inflamados e uma bolha de pus e sangue pesava por cima das pálpebras. Apesar de sua situação, ele se sentia incrivelmente libertado, humano e vivo. Sempre que lutava, via homens morrerem, sangrarem até a morte e ele sempre, ao final de tudo estava limpo e sem nenhum arranhão, via os amigos guerreiros contarem histórias de suas cicatrizes, orgulhosos delas e ele nunca poderia ter esse tipo de recordação. Sempre o tratavam como se fosse algo especial e diferente, raramente de referiam a ele como elfo.
A morte para ele seria um presente, não a temia e chegava às vezes a deseja-la. Quando sua vida deixasse a terra ele habitaria os reinos do deus Arawn, o senhor da morte e do Outro mundo, onde se sentiria parte dele, o integraria. Partilharia de fartura, comidas, bebidas e juventude eterna, o que lhe parecia mais atrativo do que o mundo onde se encontrava.
– Eu... Eu os matei, estava furioso. Eu confesso, sou culpado, o rei Dhagdan está piamente correto, tenho asco de turianos! – sua fala era pesada e baixa.
Ao ouvir aquilo os thuathans começaram a se alvoroçar, alguns berravam que aquilo era injusto, que ele fora obrigado a dizer aquilo. Lugh permanecia sério, segurando qualquer lágrima ou sinal de tristeza, Cian era a pessoa mais próxima de um irmão que ele tivera. Éothain o criou como se fosse parte de sua dinastia, de seu sangue. Ele sabia, tanto quando seu irmão que não adiantaria discutir com Dhagdan, ele forjara todo tipo de provas favoráveis a ele, por isso não se encontrava tão suspeito e tão revoltado quanto os outros homens.
– Pois já que confessastes o sentencio a morte e como piedade e por ter confessado rapidamente e claramente á todos aqui de que és culpado e poupando-nos de um extenso julgamento lhe concedo o direito de escolher como será executado. – Gybbra sabia que aquilo irritaria os turianos, mas não se satisfazia apenas em irritar os thuathans. – Esse é meu veredicto e minha decisão, quem se opor estará se opondo ao reino de Ivernos e Carnos.
– Obrigado meu rei, agradeço por sua piedade. – Cian não parecia realmente agradecido, sabia que morreria de uma forma ou de outra. — Desejo que retirem meu coração intacto e ofereça de sacrifício á Arawn para que eu seja bem recebido em seu reino e que meu corpo seja deixado em uma clareira banhada pela luz da lua, minha mãe, e que me deixem apodrecer em tal lugar.
– Pois bem, os carrascos realizaram seu desejo assim que a lua nascer no céu. Declaro está reunião encerrada por agora!
Os carrascos retiraram Cian do salão o arrastando novamente, mas agora ele parecia ainda mais pesado, parecia que a diminuta capacidade que ele ainda tinha de se apoiar havia desaparecido completamente. Ele pensava de que alguma forma, ofertando seu coração para o senhor da morte ele o aceitaria e o integraria ao Outro Mundo com mais facilidade, aquele era um sinal de gratidão e devoção ao deus. Cian esperava que eles realmente oferecessem seu coração em um sacrifício, o rei prometera isso para ele e assim deveria ser feito.
Os homens não o levaram para as masmorras no topo da torre, já era tarde e logo o sol dormiria e a lua despertaria nos céus negros de Íroda. O colocaram em uma gaiola de metal que era puxada por um cavalo, para facilitar a locomoção para a floresta. Muitas pessoas que passavam deixavam tigelas de água ou comida, mas Cian estava sem o menor ânimo para comer e preferia morrer vazio, purificado, limpo. Outras simplesmente viravam a cara ou o olhavam com nojo e tapavam o nariz, ele realmente estava imundo e suas feridas infeccionadas estavam cheias de sangue seco e pus e ele exalava um cheiro característico da putrefação. Tudo em seu corpo parecia de um morto, a única coisa viva que ainda tinha era voz, que se esvaía cada vez que murmurava e a sua mente, ele estava completamente consciente.
O ar havia se modificado, até o cheiro era outro. Anoitecera, e as habilidades sensitivas de Cian estavam em seu auge, ele conseguia de alguma forma sentir o odor da noite, o calor da lua e das estrelas. Ouvia os lobos e se deliciava com seus uivados, era uma criatura da noite como eles. Não havia hora mais propícia para morrer do que aquela. Parecia que os espíritos da natureza acordavam durante a noite, quando aqueles que destroem adormeciam e quando os filhos da floresta acordavam. Era o momento em que sua alma parecia flutuar para fora de seu corpo, que seus sentidos se aguçavam e que se sentia livre e sereno.
Dois homens montaram nos cavalos que estavam presos a gaiola, todos os transeuntes que ainda restaram nas escuras ruas em volta do castelo pararam para ver o lorde imortal partir, a última imagem que teriam daquele ser de mundo desconhecido e que agora não parecia tão imortal assim. Os cavalos corriam e a gaiola sacolejava quando passavam pelo piso de pedra cinza e molhada, ele se debatia dentro dela e soltava gemidos involuntariamente, o que parecia divertir os homens.
Quando adentrou na densa floresta Cian pareceu ficar mais calmo, num estado de completa serenidade. Conseguia sentir o vento frio batendo em seu corpo, as plantas crescerem, ouvir o passo dos bichos e a voz das árvores que pareciam convida-lo para se juntar a ela e era isso que aconteceria, seu corpo iria se desfazer e sua energia iria alimentar a terra e fazer parte da natureza e ali ele seria eternizado.
A carroça parou em uma clareira, pequena, mas seu centro era iluminado pela luz da lua, assim como Cian havia solicitado. Os homens o tiraram de dentro da gaiola sem muito cuidado, não tinha por que ter precaução, e o deitaram no centro, onde havia luz. Um deles trazia uma adaga bastante afiada e um cesto na mão e se sentou ao lado de Cian, rasgou sem muita dificuldade sua roupa em farrapos e suja. O fedor que parecia estar sendo um pouco contido pela roupa pareceu se libertar o que fez o carrasco virar o rosto, alguém que já deveria estar acostumado com o odor da morte. Quando o homem se recompôs, cravou a lamina em seu peito, não muito fundo para não perfurar o coração, e abriu com bastante cuidado para que o órgão pudesse ser pego. Cian não pareceu sentir nada, sua dor era tamanha que sua mente estava ignorando para que ele pudesse suportar. O homem agarrou o coração de Cian, e o puxou para fora do corpo colocando ele dentro do cesto de palha que estava ao lado. Estava tão pálido e enfermo que o sangue não jorrara como se esperava, apenas se espalhava ao redor de seu peito, seu corpo estava estático e sua respiração havia parado.
Para o mundo dos homens, o bravo e habilidoso Cian, filho de Thuathan e da lua e irmão do rei Lugh havia morrido e penetrado nas profundezas ocultas de Annwn. Nunca mais seria congratulado por sua coragem, contemplado por sua beleza, admirado pelos aprendizes. Ele estava ali, com seu corpo inerte sobre a terra para ser engolido e nunca mais visto.
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