Índigo
2 Capítulo 2
Morar sozinha não é uma tarefa fácil. Ainda menos quando se tem muitos compromissos, como um consultório cheio de crianças normais tachadas como problemáticas pelos seus pais, e uma lista de escolas, hospitais e insitituições que querem me ver palestrando sobre uma coisa que eles não acreditam, apenas para entreter as crianças e fazê-las acreditar que esse é um programa especial e diferente promovido por eles. Mas eu dou meu jeito.
Hoje, como sempre, eu acabei me atrapalhando. Cheguei quase na hora, literalmente quase... Às 9h01min, quando minha consulta era às nove da manhã. Eu deveria chegar ao menos com cinco minutos de antecedência... A sorte é que os pais de THE são tão incompetentes que não conseguem fazer o menino chegar na hora certa nem uma vez. Pobre THE... Os pais dele é que precisam de um psicólogo dos bons! Só não falo isso para não ofendê-los.
– Bom dia, Rosalyn. — Disse para a secretária enquanto entrava esbaforida.
– Bom dia, Dra. Spark.
– Por favor me diga que o TH... Que o Tgonk ainda não chegou.
– Claro que não, doutora. Quando ele chega na hora?
– Eu não sou nenhum exemplo, então não vou falar nada.
Rosalyn riu. Tenho sorte por ter uma secretária com um senso de humor tão bom quanto o meu.
A recepção fica na frente da sala de espera. Fui direto para o corredor que leva ao banheiro, ao meu escritório e depois ao meu consultório com paredes e porta imunes a ruidos. Isso garante que os pais não ouçam o que a criança conta.
O ambiente da sala é bem agradável. Climatizado, colorido, descontraído. As paredes repletas de desenhos feitos a giz de cera e guache. No chão, um daqueles tapetes coloridos de borracha, formados por peças que parecem quebra-cabeças e que são estampados por letrinhas ou figuras de animais. Ao lado dele, uma pequena mesa de plástico cercada por cadeirinhas. A mesa guardava folhas e todo tipo de material para desenho. Na parede próxima à porta, uma bancada baixinha com pia, o que não poderia faltar com a bagunça que eles fazem. Em outro ambiente, puffs coloridos confortáveis de frente para uma estante com televisão, rádio e video-game, guardando um acervo de Cds, Dvds, e jogos. No canto, uma estante branca com livros infantis e um baú com vários tipos de brinquedos. Uma parede só para abrigar um quadro-negro gigante repleto de desenhos deixados pelos últimos pacientes. Passei para o fundo da primeira sala, onde um biombo guardava meu camarim. Numa mesa no canto, deixei minha bolsa e tirei meus sapatos. Simplesmente não dá para uma criança mal-compreendida se sentir à vontade com uma tia que usa salto alto. Tirei o jaleco branco, revelando minha blusa rosa. Trancei o cabelo lateralmente com fitas coloridas. Foi só eu terminar que o interfone próximo à porta tocou.
– Pois não, Rosalyn.
– Os pais de Tgonk chegaram.
– Peça para ele vir aqui, por favor.
– Para já, doutora.
Desliguei o interfone e sentei em uma das cadeiras para esperá-lo. Pouco depois, o menino de 12 anos entrou na sala, os longos cabelos negros caindo sobre o rosto.
THE é a abreviação de Tgonk Hall-Ether. Só por isso já dá para saber que os pais não são muito normais... Quem coloca o nome de um filho de Tgonk? Por isso ele dizia para todos que esse era seu nome: THE. Ele me disse que todos o chamam assim, e resolvi não ficar de fora. Afinal, a meta de qualquer psicólogo é entender a criança, e para isso deve haver intimidade.
THE parecia triste. Mas assim que ele fechou a porta com cuidado, abriu um sorriso e veio me abraçar.
– E então, o que quer fazer hoje?
Ele apontou para a sala de jogos. A pergunta era a mesma, em cada sessão. Mas ele sempre queria os jogos. Os pacientes com personalidade forte, como THE, não se encantam com os brinquedos e desenhos. THE acha que já pode ser considerado adulto, e discorda que aquela sala seja para crianças da idade dele. Ele rejeita tudo nela, exceto o videogame. Talvez ele desperte a única parte infantil de THE.
Ele foi para a sala de jogos e escolheu o tal do Mortal Kombat Komplete Edition. O jogo dele já estava salvo no memory card. Ele estava colocando o jogo normalmente, quando olhou para mim, sentada no puff à sua direita.
– Vai jogar comigo hoje?
– E quando eu não jogo com você, hein?
O menino riu. Ele me entregou a segunda manete. Assim que ele escolheu Sub-Zero, eu escolhi Sonya. Lutamos por meio minuto antes que eu puxasse assunto.
– E então... Como vão as coisas?
– O mesmo de sempre, Angel. As coisas nunca mudam.
– Isso até que seria bom, se “as coisas” estivessem bem.
– Mas não é o caso.
– E como é o caso?
– Você já sabe. Brigas o tempo todo. Eles dois não se entendem nunca. Tenho certeza que vão se diviociar.
Mordi os lábios. Quando a criança acha que a separação vai acontecer, geralmente é o que acontece.
– Você já tentou conversar com eles sobre isso, como eu sugeri?
– Eles não me ouvem. Acham que eu sou criança e não sei das coisas.
– O que não é verdade.
– É claro que não! Eles dois sim deveriam ser chamados de crianças. Vivem discutindo, não têm um pingo de maturidade. Eu sou mais centrado que os dois juntos. Eu sei como mediá-los. Sei como resolver a questão entre eles. Mas eles não me deixam ajudá-los! — Sonya caiu no primeiro round, e THE se virou para mim. — Você faz ideia do quão agonizante é você saber como ajudar uma pessoa e não poder?
– Sei exatamente como é, THE. Eu sou psicóloga, lembra? É difícil fazer as crianças se abrirem comigo, de vez em quando. Você mesmo demorou a entender que eu só queria te ajudar.
– E como você faz para convencê-las disso?
– Bem, é complicado. Eu tenho que entrar no mundo delas, tenho que ser uma delas. Tento fazê-las encontrar semelhanças comigo, para que elas vejam que eu entendo o que elas sentem. E que sei como fazê-las se sentirem melhor.
– É fácil quando se tratam de crianças. Entrar no mundo infantil é fácil. Mas eles são adultos que se comportam como crianças, não no sentido de brincar e de ser bobinha, mas de não ter maturidade o suficiente para manter um relacionamento estável e resolver seus próprios problemas. Eu faço isso melhor que eles.
Prestei atenção no pequeno Tgonk por um momento. Ele realmente parecia ser o que dizia. Era mais esperto e maduro do que seus próprios pais.
– Acho que você está certo quando diz que sua situação é difícil. A idade define uma hierarquia. Os filhos devem respeitar os pais, mas os pais não são realmente obrigados a respeitar seus filhos. Ou seja, se a criança age de forma errada, os adultos podem mediar, podem até corrigir de maneiras não muito agradáveis. Mas uma criança não pode mediar os adultos. Isso foi convencionado porque, geralmente, os pais são mais sábios que os filhos, mas esse não é o seu caso, THE. O pior é que você não pode nem intervir à força, porque eles são maiores e mais fortes que você.
– Não tenho certeza de que eles são mais fortes, Angel.
– Ah, mas eu tenho.
– Tanto faz, mas me diga, Angel. — A essa altura, ele já tinha pausado o jogo. — O que eu faço?
– Eu... Eu sinceramente não sei, THE. Seu caso é sem solução, ao menos por sua parte. Os seus pais colocaram você em tratamento porque acham que você é o problema.
– Eles me acham que eu atrapalho. Acham que eu sou problemático por tentar ajudá-los. Por achar que eu sou mais maduro que eles.
– Você é mais maduro que eles.
– Eu sei disso. Mas eles não sabem. Acham que eu tenho um transtorno de comportamento por pensar que eu sou mais velho do que realmente sou. Eles queriam que você me domasse. Que fizesse eu entender que sou criança. Eu percebi isso, por isso tive uma rejeição inicial. Mas agora eu sei que você está do meu lado, Angel.
– É claro que estou, querido. E hoje eu fiz uma... Uma descoberta. Você não precisa de tratamento psicológico. Os seus pais precisam.
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