Étoiles Perdues

4 every wish I make


Notas iniciais
oie! não sei se alguém já tinha lido o capítulo 4, mas exclui ele por achar extremamente vago e ruim. aqui está o novo. espero que gostem.

Éponine

Quando abro os olhos, vejo Babet atirado no chão e a mesma pessoa que me defendeu, com a mão agarrada à gola da sua camisa. A outra está fechada, os nós dos dedos vermelhos, pairando no ar pronta pra voltar ao rosto de Babet.

Segundos depois eu dou um grito estridente.

O rapaz se vira me olhando nos olhos tão apavorados quanto os seus.

– Corre.

Ele diz.

–Agora!

Berra. E eu finalmente faço o que mandou.

Saio correndo do beco e pecho nas pessoas ao redor que me xingam ou não prestam atenção. A fumaça no ar me sufoca e meu coração bate tão rápido que tenho medo de nunca mais voltar ao normal.

As chaves se confundem nos meus dedos nervosos enquanto olho ao redor no corredor pra ter certeza de que ninguém vai me matar no meu primeiro passo pra dentro de casa. Ha! Casa.

Prisão ou inferno seriam formas mais adequadas pra chamar esse cubículo.

A porta range assim que a abro. Deixo as chaves na fechadura do lado de fora.

Enquanto pego a maior quantidade de coisas possíveis, refaço o meu dia e o rumo que minha vida está tomando no exato momento.

Quando acordei pela manhã decidi que fugiria custasse o que fosse. Trabalharia a tarde e quando voltasse ao apartamento pegaria minhas coisas pra nunca mais voltar. Mas o cliente das 4h não era dos mais agradáveis. Ganhei um novo hematoma no braço e apenas 25 euros. Homens. Te ligam cheios de coisas pra dar e te largam sem nada. De brinde topei com um daqueles desgraçados na rua e quase apanhei de novo não fosse aquele estranho vindo dar o ar da graça.

Vasculho o banheiro a procura de algo que possa ser útil. As coisas dentro do armarinho vão caindo dentro da pia ou ao redor dela conforme passo as mãos. Tem pílulas e frascos de remédios vazios. Umas quantas camisinhas usadas enfeitam as bordas da banheira suja e apodrecem o resto da casa com o cheiro podre. Vomito em cima de tudo que ficou no chão.

Lavo a boca e fecho o armarinho me olhando no espelho. Meu rosto raquítico me dá nojo assim como cada centímetro daquele prédio inteiro com exceção das lembranças que tenho dele.

Penso de novo no estranho que me salvou, no cara que me observava nas reuniões e no meu ex-vizinho. Os três ao mesmo tempo. O barulho no teto, ou melhor, no piso do andar de cima onde o vizinho espanca a mulher, me desperta.

Os três são um só e não tenho mais tempo.

Com minha mente embrulhada e a mochila pesando com as coisas aleatórias que peguei, corro como nunca antes pelas escadas vazias. O coração num ritmo acelerado como se fosse tocado pela baterista mais rápido do mundo e todo o resto desfalecendo pelas ruas sujas de uma Paris enfeitada.

Quando paro, rio de mim mesma por ser tão tola. Quando chegar a Paris, ou melhor, se chegar a Paris não vou ter emprego e muito menos casa. Antes de estar lá já sou uma mendiga. Assim que minha respiração volta ao normal, caminho até o próximo ponto que pode me levar pra longe daqui. Não muito, mas ainda assim longe.

Combeferre

– Alguém viu o Grantaire?

– Já mandei mensagem avisando onde estamos, mas ele sabe se virar, Jehan. Vamos embora antes que seja tarde demais. Amanhã com certeza ele vai aparecer na casa de alguém de qualquer forma. Ele sempre aparece.

Respondo observando Courfeyrac limpar a testa ensanguentada de Enjolras.

– Sua mãe vai ter três trecos quando te ver assim.

– Vai nada – ele retruca mesmo sabendo estar errado.

– Cara, isso aqui foi louco. Só que de um jeito ruim. A gente tenta consertar quebrando, não faz sentido algum.

– Sabe o que é, Combeferre? Você é cagão demais.

Se Bahorel soubesse como eu poderia socar ele com o triplo de força que pensa que eu tenho, pensaria mais antes de repetir esse tipo de coisa pra mim.

– Não é questão de ter medo ou não. O governo varre os imigrantes pros cantos e depois chama eles de escória e então nós rebatemos assim? Da pra se dizer que é um grau bem elevado de hipocrisia considerando que estamos devolvendo violência com violência.

– E você sugere o que mais, gênio? Que entreguemos flores enquanto eles ferram com um monte de gente?

– E por que não? – Jehan responde sentado no chão quase sorrindo.

Enjolras interrompe antes que Bahorel possa falar alguma asneira.

– Concordo com você, Comb, mas não há outra estratégia. Cada um ouve de um jeito. O deles é a guerra. Agora chega de discutir sobre isso.

Penso em falar alguma coisa, mas desisto logo após abrir a boca. Grantaire aparece segundos depois virando a esquina do ponto de ônibus onde estamos sentados.

– O que aconteceu na sua mão?

– Não foi nada – ele tira a bandana verde escuro do bolso e estende para Enjolras – Toma. É pra tapar o machucado.

Conversamos sobre coisas idiotas, rimos das histórias de Bahorel, cantamos alto. Faltam 25 minutos pro ônibus chegar quando uma menina senta perto de onde estamos.

– A coluna dela deve estar acabada com todo aquele peso da mochila. A alça chega a estar rasgando – Joly comenta.

Ela parece perdida olhando algum ponto fixo no chão como se estivesse apenas cansada e quisesse sentar em qualquer lugar.

– Garota! – Courfeyrac chama pela trigésima vez, mas ela não olha – Qual o problema com ela? – nos pergunta.

– Para de incomodar, Courfeyrac. Ela responde se quiser – Enjolras xinga, porém ele não liga e grita outra vez:

– EI! Você aí!

Éponine

– Garota! – um dos meninos perto de mim chama pela milésima vez. Fico olhando pra uma pedrinha até perder o foco e as lágrimas ficarem paradas nos olhos embaçando mais ainda a visão. Fecho os olhos deixando elas escorrerem pelo meu rosto e tento uma oração.

Deus, eu não sei se você tá realmente me ouvindo, mas se estiver, dá uma mão aí. Se eu tivesse ao menos onde cair morta eu te deixava em paz, mas acontece que nem isso eu tenho no momento. Provavelmente é errado falar isso, mas se o Senhor me ajudar eu prometo que mudo de vida. Nunca mais toco em um cigarro nem nada que me leve pra lama de volta. Só por favor, me ajuda.

– Ei! Você aí!

– O que foi? – respondo braba.

– Nossa! Precisa ser grossa? Eu hein.

Volto a olhar para o chão. Consigo ouvi-los aos cochichos.

– não é assim que se fala, Courfeyrac.– um deles fala e se levanta. O garoto senta ao meu lado e pergunta como estou. Balanço a cabeça em resposta.

– Não quer falar?

– Não tenho pra onde ir quando chegar a Paris. Só isso.

– Nenhum parente?

– Não. Não tenho nada em lugar nenhum.

– Sinto muito – ficamos em silencio um tempinho enquanto ele fica girando entre os dedos uma grama que arrancou do meio fio. – Não quer ir sentar com a gente?

Dou de ombros porque não sei se quero, mas também não sei se realmente prefiro ficar sozinha. O menino ao meu lado parece tão bonito. Pelo menos o que vi dele em dois segundos era. De qualquer jeito a gentileza já é de grande preço pro mundo.

– Por que se importou de vir falar comigo? – viro para observá-lo dessa vez e meu olhar cruza com outro rapaz do grupo lá atrás que já me olhava antes e sorri um tantinho com as mãos nos bolsos das calças. – Grantaire... – sussurro pra mim mesma antes que o outro responda. Tiro as alças dos ombros e vou até ele. Quando o abraço, ninguém fala nada. Ele apenas coloca os braços em volta de mim e avisa:

Eu sabia que era você.

Notas finais
é isso. vejo vocês nos reviews ou no próximo! xx