Éphémère

1 Sweet Girl


“A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos.” – Scott Fitzgerald.



Notas se sucediam combinando-se perfeitamente e, juntas, criavam a melodia que me guiava por conta própria uma vez que meus olhos, fechados, não me mostravam o caminho. Meus pés deslizavam de maneira espontânea — tinham vida própria — e todos os movimentos por eles realizados eram executados com tamanha naturalidade que pareciam fazer parte de meu código genético. Meu corpo se curvava de um lado para o outro e era como se o fizesse para não se chocar com obstáculos nunca antes visíveis, mas sempre presentes. Os braços se moviam soltos no ar, a cabeça pendia para os lados vez ou outra e eu não fazia esforço algum para me transportar de um lado para outro do palco; os compassos da canção me levavam de lá para cá com tamanha facilidade e precisão que não era necessária preocupação com qualquer outra coisa que não fosse o que se passava em minha mente. Haveria pessoas ao redor? Seria tudo apenas uma ilusão, assim como o sangue e a discussão ocorrida momentos antes? Assim como a vida que eu vivera até aquele momento?

Em meio a passos de dança e notas musicais deixadas soltas no ar, dei-me conta de que, pela primeira vez, algo parecia real e naquela realidade só havia o meu sangue: eu podia senti-lo junto à dor proveniente da chaga em meu abdome, um fluído viscoso e quente que deixava meu corpo e determinava, a cada segundo, o quanto ainda me restava de vida, como uma ampulheta que tem um ciclo mais próximo do fim cada vez que um grão de areia sofre sua queda; e a única discussão que sempre houvera fora a travada comigo mesma, minha vida toda. Quem eu realmente sou? E após tantos anos sem resposta, talvez a pergunta pudesse ser, finalmente, respondida.

A música me elevava. A verdade me elevava, assim como a certeza do papel que eu interpretava ali; o papel que eu interpretara desde sempre. A luz me cegava e provocava dor ao atingir meus olhos; ela tornava tudo real e de repente tornei-me ciente em relação ao que a vida me reservara. Eu era Odette. Eu morreria. É esse meu destino e cada ato realizado por mim desde meu nascimento culminou nisso, nesse momento. Eu podia ouvir as batidas do meu coração. As batidas condizentes aos compassos da música que ainda tocava. É tudo real. Real como o fato de eu estar ali, real como minha vida nunca havia sido. A dor era real e eu podia sentir suas garras penetrarem minhas entranhas.

Com o mesmo impacto de uma onda que atinge a costa rochosa, eu me tornara ciente de tudo ao meu redor de uma maneira inédita. Era como se entre mim e qualquer elemento do meio exterior não existisse fronteira definida, nada que nos diferenciasse – eu era eu e ao mesmo tempo tudo. Eu era a música e podia sentir em mim cada nota que compunha os vários compassos, como se elas, através de mim, ressoassem para ganhar o limitado espaço daquele teatro, que naquele momento era infinito, era um mundo inteiro. Eu era também as luzes, raios que refletiam, evidenciavam e também enganavam – ou seria eu, realmente, a fonte de tudo aquilo? Estavam todos ali por minha causa. Era tudo por mim. E tudo emanava de mim.

E seria perfeito.

Seria a morte perfeita. Porque Odette tinha que morrer. Então eu tinha que morrer.

Lágrimas encheram meus olhos, simplesmente porque elas tinham que o fazer para que fosse perfeito. E ali estavam elas.

Eu era o centro daquele mundo. Meu corpo, que até aquele momento havia se movido naturalmente, deixou de fazê-lo da mesma maneira. E eu estava caindo. A resistência do ar pareceu aumentar de tal maneira que a queda levou muito mais tempo que o esperado, foi quase interminável. O ar era inspirado e expirado por pulmões cansados; o sangue, bombeado por um coração exausto. Este parecia agradecer pelo sangramento que aliviava seu trabalho e levava a vida existente no corpo que acabara de alcançar o colchão posicionado no piso brilhante do palco. E foi ali que repousei, finalmente.

As luzes se apagavam. A música silenciava-se. Os aplausos que se iniciavam, vigorosos, tornaram-se quase inaudíveis por mim. E naqueles poucos segundos que representaram e concluíram uma vida inteira, eu alcançara a perfeição. Longos e duradouros segundos; uma breve e efêmera vida.

Havia sido perfeito.

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