Émeraude
1 Esmeralda
Notas iniciais
Acho que vou passar a postar minhas histórias no Nyah! também, mas devo confessar que ainda estou me adaptando à plataforma...
Boa leitura ♥
Eu sou uma especialista em machucados. Depois de três anos salvando Paris quase todos os dias, não há outra definição. Já experimentei cortes, arranhões, marcas de contusões das mais diversas origens. Meus braços estão quase integralmente cobertos de manchas roxas e arranhões vermelhos, que escondo com a manga comprida de meu casaco marrom.
Ainda assim, nunca consegui me acostumar com a ardência que parece transformar meus braços e pernas em brasa. Naquele dia, eu estava especialmente dolorida; o akuma tinha dado trabalho. Muito trabalho. Mordi o lábio inferior com força, fechando a garganta para que um grito não escapasse quando passei álcool na ferida em minha perna. Enquanto enfaixava o ferimento, pensei em Chat Noir. Será que ele está bem?
Quando nos separamos, Chat sangrava copiosamente. Ele me assegurara que conseguiria cuidar de si mesmo, mas eu ainda não confiava plenamente. Sabia que o garoto não poderia aparecer em um hospital (eu mesma tinha que tomar cuidado), pois alguém descobriria sua identidade secreta. Chat precisaria levar pontos. Eu duvidava que ele teria condições de tratar-se sozinho.
Terminei todos os curativos e guardei minha caixinha de primeiros socorros, suspirando. Manquei até a escrivaninha, pronta para ligar as caixas de som no máximo e adormecer ouvindo a voz melodiosa de Ed Sheeran, provavelmente acordando apenas na manhã seguinte. Liguei a tela do computador, soltando um longo suspiro com os olhos profundos de Adrien me saudando no monitor. Pode parecer coisa de fangirl histérica, ter uma foto do seu ídolo teen como wallpaper do computador. Bem, Adrien é muito mais que meu ídolo; ele é meu amigo, ainda que eu perca toda minha capacidade cognitiva perto dele. Vai entender.
Tikki já havia se deitado, depois de devorar seus cookies. Antes de seguir seu exemplo, eu precisava terminar meus deveres. Estava checando a caixa de entrada do meu e-mail, torcendo para que não houvesse uma tarefa surpresa ou algum trabalho que eu tivesse que terminar antes de dormir, quando ouvi três batidas na minha janela. Eu não ficaria tão apreensiva se meu quarto não estivesse a dois andares do chão.
Ok. Nada de pânico.
De súbito, a janela se abriu e uma massa escura caiu para dentro com estardalhaço. Levei um susto enorme, encarando a coisa se mexer no chão, até discernir os cabelos louros bagunçados de Chat Noir. Corri até ele, segurando-o sob os braços com esforço — ele era mais pesado do que parecia, com seus um metro e noventa — e colocando-o na minha cama. Como imaginei, ele ainda sangrava muito e parecia estar apenas semi-consciente. Fora um verdadeiro milagre que ele tivesse chegado até minha casa.
“Marinette…” ele sussurrou, seguido por um ataque de tosse assustador. “Você sabe… costurar, não é?”
Assenti, mortificada. Caramba, tinha uma pessoa MORRENDO na minha cama!
“Acho… que vou precisar de sua ajuda.” Ele abriu um sorriso fraco, segurando minha mão. “Vai ter que me costurar. Pegue… um pouco de… álcool.”
Eu estava tão amortecida pela surpresa e pelo medo que mal pensei no que estava fazendo, apenas segui suas instruções. Graças a algum poder divino, minha caixinha de primeiros-socorros estava bem à mão. Agarrei tudo de uma vez e corri para meu posto o mais rápido que consegui com minha perna direita machucada. Joguei um pano qualquer sobre seu rosto — minha camiseta do Jagged Stone, como reparei mais tarde — e ele se destransformou. As vestes negras rapidamente deram lugar a roupas caras de grife. Observei a mudança com uma sobrancelha levantada. Chat é rico? Por algum motivo, sempre imaginei que ele seria um garoto baderneiro e rebelde das ruas, desses que usam roupas rasgadas e andam de skate por aí.
Suas roupas, porém, diziam o contrário. Calças cáqui do mais fino tecido, que meu olhar de designer logo reconheceu como pertencentes à coleção de verão de Gabriel Agreste. Tênis de edição limitada da Nike, uma jaqueta de couro que provavelmente custava mais que a minha casa, e uma camiseta branca simples, mas que devia ser feita de linho árabe. Minha contemplação foi interrompida pelo surgimento alarmante de uma mancha de sangue no tecido da camiseta.
“Por Deus, Chat” murmurei enquanto despia a parte superior de seu corpo, não sem um pouco de vergonha. Também estava curiosa, mas jamais admitiria em voz alta. Tirei o tecido de seu peitoral, expondo os músculos bem trabalhados e firmes de um cara cujo hobby é salvar o mundo. Porém, mesmo tendo tudo… aquilo à vista, minha atenção se prendeu no corte logo abaixo de suas costelas. Aquilo estava realmente muito feio. Meu estômago revirou um pouco.
“Marinette.”
Sua mão larga tateou o colchão em busca da minha. Segurei-a com força, e Chat riu sob a camiseta que conservava intacta sua identidade.
“Por favor. Faça isso por mim. Eu sei… que você é capaz.”
“Chat…”
“E, se você não fizer, eu provavelmente vou morrer. Só um detalhe que talvez você não queira esquecer.”
Claro que isso foi o suficiente para acabar com os meus nervos. Será que nem morrendo ele conseguia levar algo a sério? Preparei a agulha e a linha, minhas mãos suadas e tremendo.
“Isso…” Engoli em seco. “Isso vai doer. Chat, você vai conseguir?”
Ele assentiu. Quando a agulha tocou sua pele, ouvi sua respiração descompassar. Porém, ele me incentivou a continuar. Cada ponto era uma tortura para ambas as partes. Tentei ser o mais eficiente e rápida que pude, mas ainda assim errei duas vezes e tive que refazer os pontos. Estava consciente de cada pulsação do garoto deitado ao meu lado.
“Pronto.”
Depois do que pareceu uma eternidade, eu finalmente consegui. Chat, porém, havia desmaiado em algum momento da operação. Com o coração a mil e o estômago mareado, guardei tudo de qualquer jeito na caixa e me joguei na cama. Eu tremia de nervosismo, suando dos pés à cabeça. Minha boca estava seca e sentia a língua áspera raspar no meu céu da boca. Eu, definitivamente, não fui feita para ser enfermeira de ninguém.
Chat acordou dez minutos mais tarde, já enfaixado e coberto para que eu não precisasse ficar encarando os gomos de sua barriga. Francamente, meus nervos já tinham sido levados ao limite naquela noite. Tudo o que eu não precisava era ser observada pelo seu tanquinho.
“Você já terminou?”
Sua voz ainda soava fraca e cansada, mas pelo menos eu sabia que ele não corria perigo imediato.
“Sim, Chaton. Nunca mais me peça para cuidar de você.” Ele fez menção de se levantar, mas o impedi com uma mão em seu ombro. “Ei. Vai com calma, herói. Não faço a menor questão de descobrir quem você é de verdade.”
Isso pareceu lembrá-lo de algo.
“Plagg!”
Franzi o cenho. Plagg?
“Marinette, você teria visto um… um bichinho voador, preto, que parece um gato?”
Compreendi imediatamente o que era o tal Plagg. Seu kwami, é claro. Preocupada, discretamente avaliei o perímetro do quarto procurando por Tikki. Esperta como era, ela provavelmente já estava muito bem escondida em algum lugar.
“Não vi nada como esse bichinho voando por aí. Ainda bem, porque senão estaria ficando maluca.”
“Ele deve ter descido à cozinha para encontrar algo para comer.” Ele levantou um pouco a camiseta para analisar os pontos que eu fizera, mas não o suficiente para que eu visse algo. “Fez um ótimo trabalho, menina, meus parabéns.”
“Trabalho que espero jamais ter que fazer novamente.”
Pude sentir, mais que ver, seu sorriso.
“Se depender de mim, não quero precisar de seus serviços uma outra vez. Embora, a julgar pela enfermeira, talvez fosse uma boa ideia.”
Ai, ai. Chat Noir e sua lendária capacidade de flertar com qualquer coisa que se mexa ou respire. Até mesmo machucado, cheio de curativos e pontos, na casa de uma — teoricamente — quase completa estranha, ele achava espaço para suas gracinhas.
Sentei-me e comecei a brincar com as pontas de meus cabelos. O que é que eu ia fazer? Estava mais do que claro: não havia a menor chance de Chat sair de meu quarto tão cedo. Havia dois kwamis soltos pela casa, e a probabilidade de que acabassem se encontrando era mais alta do que eu gostaria de admitir. E eu teria aula no dia seguinte.
Para piorar, meus dedos formigavam com o calor da pele de Chat. A lembrança da maciez que encontrei em seu abdômen, de músculos trabalhados, fez-me corar imediatamente. Agradeci pelo rosto de Chat estar coberto.
Que situação.
“My princess...”
“Hmmm?”
“Eu poderia descobrir os meus olhos? Apenas os olhos… É muito estranho estar completamente na escuridão, ainda que eu seja um gato.”
Ri de sua piada ruim, não por achá-la engraçada, mas porque estava tão nervosa que a risada simplesmente escapou sem esforço. Lentamente e vacilante, puxei o tecido de sua testa, revelando sobrancelhas escuras e bem delineadas que sempre ficam sob sua máscara. As mechas claras de seus cabelos caíram sobre os olhos claros que me fitavam, atentos.
Ao vê-los, levei um choque. Eu conhecia meu gatinho há tanto tempo, e nunca havia reparado na cor incrível que seus olhos assumiam com a luz fraca de meu quarto. As íris reluziam em um caleidoscópio de cores frias, variando do azul-turquesa ao verde esmeralda. Emoldurados por longos cílios escuros, davam-me a impressão de que analisavam minha alma. E gostavam do que viam.
“Olá, purrrr-incess.”
***
Espiei a janela com cuidado, torcendo para que Marinette já tivesse caído no sono. Dentro do quarto, uma suave melodia pairava no ar, doce e tranquila. Ela já havia me contado sobre seu costume de ouvir música ao dormir. Sem que ela soubesse, eu espiara sua playlist e encontrei músicas tão delicadas e meigas quanto ela.
A mudança de temperatura quando entrei em seu quarto foi agradável. Lá fora o vento gelado castigava minha pele, e ela me mataria se soubesse que saí no frio apenas para vê-la. Eu ainda estava me recuperando dos machucados, embora eles já tivessem começado a cicatrizar.
Observei seu rosto relaxado, pálpebras fechadas sobre os olhos azuis. Ela parecia tão angelical quando dormia… Eu não podia deixar de sorrir enquanto simplesmente olhava para seu rosto. Ed Sheeran continuava a cantar.
Lumiere, darling
Lumiere over me
Seus pontos perfeitos ainda incomodavam um pouco, já que a costura teve de ser feita por um grande pedaço das minhas costas e costelas. Era muito impressionante o que Marinette podia fazer apenas com agulha e linha; eu nunca vira uma costura tão bem-feita em toda minha vida — e, bem, cresci rodeado pelo mundo da moda.
Quando abri os olhos, naquele dia, e Marinette tirou a camiseta de cima de meu rosto, não estava preparado para o que encontrei. Seus cabelos estavam bagunçados e gotas de suor se espalhavam pelas suas bochechas, que tinham o mais delicioso tom rosado. Ela estava toda desalinhada, afinal, acabara de salvar a vida de uma pessoa. Sei por experiência própria como isso pode ser aterrorizante.
Eu nunca a vira tão bonita.
Passamos alguns momentos assim, apenas trocando um olhar que pareceu durar séculos, até que sua mãe subiu as escadas chamando por ela. Marinette foi muito rápida, em um segundo eu estava debaixo de suas cobertas. Pude ouvir o que as duas diziam.
“Mari, você não deveria estar dormindo? São quase três da manhã!”
Houve silêncio. em seguida, novamente a voz de Sabine.
“Marinette, esse garoto no seu computador não é o rapaz do cachecol azul? Aquele modelo, Adrien?”
“Mãe!” A voz de Marinette estava claramente constrangida. O que eu fazia no wallpaper de seu computador? “Ehr… eu estava apenas… lendo sobre a última coleção do pai dele, Gabriel Agreste.”
“Jura? Então por que a foto está cheia de coraçõezinhos e uma declaração de-”
“Nooossa, já está tão tarde, não? Pode deixar que eu já estou indo pra cama, mãe, boa noite” Ouvi o som do alçapão sendo fechado e passos na escada. Marinette suspirou puxou os cobertores. “Essa foi por pouco.”
A camiseta havia caído de meu rosto, então virei-me para os travesseiros. Meu corpo ainda doía, mas consegui rir de leve.
“O filho de Gabriel Agreste? O modelo teen mais imbecil, superficial e covarde desse mundo, Adrien Agreste? O que ele faz estampado no seu wallpaper?”
“Para início de conversa, Chat Noir, Adrien é meu amigo, então tome cuidado com os adjetivos que pronuncia na minha presença. Eu fiz seus pontos e posso muito bem desfazê-los.”
Suspirei. Aquela conversa não estava tomando o rumo desejado.
“Ok, desculpe-me. Só fiquei… surpreso.”
Ficamos ambos em silêncio. O que dizer para uma garota que admira o trabalho de uma casca vazia? Decidi que talvez estivesse na hora de eu sair dali. Não conseguiria ficar perto de Marinette por muito mais tempo. Ela estava sendo enganada por uma farsa e eu me sentia muito mal por isso. Segurei a camiseta novamente e amarrei-a sobre meu rosto. Plagg estava deitado em algum lugar pelo quarto, pois não demorou a aparecer quando gritei a ordem de transformação.
“Onde o senhor pensa que vai, Chat Noir?”
“Já abusei muito de sua hospitalidade, princess.” Abri meu melhor sorriso sedutor, mesmo com toda a dor que se espalhou por meu corpo. Marinette ergueu uma sobrancelha, claramente pouco convencida com minha explicação. Ela levantou-se e andou até mim, chegando tão perto que eu podia sentir sua pulsação através do tecido de seu pijama. Ela segurou meu rosto com tenacidade e tocou seus lábios nos meus, com ferocidade, ardência, paixão. Então, empurrou-me delicadamente, deixando-me estático.
“Vá logo.”
E agora, eu estava de volta pela primeira vez desde aquele episódio. Criamos um laço que até hoje eu não soube explicar. Ela salvara minha vida, foi meu porto seguro mais vezes do que pude contar, e agora detonara o meu coração.
Ela suspirou durante o sono. Em seus lábios, um sorriso teimava em aparecer. Guardando essa visão para sempre em minha memória, virei-me e deixei que meu corpo caísse na escuridão fria de Paris.
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