É por isso que eu odeio o futuro!
14 Capítulo 14- Penhasco.
Notas iniciais
E nem me pergunte como isso foi acontecer, porque nem mesmo eu sei. Pra ser sincero, esse tipo de coisa acontece de uma maneira que você simplesmente não consegue notar até que elas tomem proporções gigantescas.
Tudo bem, eu bem que já havia admitido que Beto era incrível e um bocado atraente, mas até aí tudo bem. Quer dizer, não é nenhum crime achar alguém bonito, certo? Mas caramba... Eu realmente estava gostando dele!
Mas afinal, quem liga?
Eu estava apaixonado pelo meu namorado.
— O que você disse? – Beto se pronunciou após um constrangedor momento de silêncio.
E movido pela curiosidade, acabei levantando o olhar para ver sua expressão. Seu rosto era uma mistura de surpresa e encantamento.
— Eu disse que acho que estou me apaixonando por você...
Ele sorriu. Um pouco hesitante, mas sorriu, porém, continuava sustentando meu olhar, analisando cautelosamente o meu rosto.
— Você... Quero dizer, tem certeza que quis dizer mesmo isso? – Seus olhos continham uma esperança dentro deles que me fizeram imóvel por alguns minutos.
— É claro que eu quis dizer o que eu disse. – Respondi – Tudo bem, eu não sou muito bom com palavras e nem com esse tipo de coisa, mas...
—Eu entendi. – Ele assentiu.
— E essa não era exatamente a reação que eu estava esperando... – Comentei e abaixei a cabeça, mas senti os dedos dele se encaixando em meu maxilar e ele me fez olha-lo nos olhos mais uma vez.
— Não é isso. Acredite, estou usando todo o meu autocontrole agora, porque tudo que eu consigo pensar agora é em te levar pra aquele quarto... – Ele suspirou. – Eu desejo te tocar, Alex. Você não faz ideia do quanto.
— Então, Por... – Tentei interrompe-lo, mas não precisou que eu terminasse minha pergunta para que ele a respondesse.
— Porque temo que você esteja confundindo as coisas. E eu não quero que pense que estou me aproveitado de você. Depois de tudo que aconteceu hoje, eu acredito que você esteja se sentido sozinho, e por conta disso...
—Você acha que eu estou fazendo de novo. – Balancei a cabeça, completamente desamparado. – Acha que estou fazendo a mesma coisa que fiz na primeira vez. Que droga!
Como é que dizem mesmo? Quem faz fama, deita na cama? Pois então. Agora serei julgado o resto da minha vida como o cara carente que não tem noção alguma sobre os próprios sentimentos e sai por aí dizendo esse tipo de coisa pra todo mundo quando simplesmente está tendo um dia ruim.
Muito legal da parte dele me falar isso a essa altura do campeonato.
Acabei me debatendo tentando me livra de seus braços, mas ao contrário de ceder, ele os apertou ainda mais.
— Você entendeu errado, Alex. Não estou te julgando. – Ele se apressou em dizer. – O que estou dizendo é que não posso me dar o luxo de me aproveitar de você quando está tão fragilizado desse jeito. Não me entenda mal. Mas olhar pro seus olhos tão tristes desse jeito... Isso me mata.
— Eu não esqueci sobre hoje. Eu ainda me sinto mal. Mas não me sinto mal com você. Pelo contrário, você é o único que fez com que eu me sentisse melhor depois de tudo. Você me pediu pra te amar e eu disse que não sabia se podia fazê-lo. Porque amar você é como me jogar de um penhasco. É difícil tomar coragem, é difícil dar o primeiro passo, porque eu sei que não tem mais volta... E também porque eu acho que vou me ferrar no final, mas... Que droga! Quando eu percebi... Eu já havia pulado.
Penhascos? Mas do que eu estava falando agora? Juro que não entendo metade das coisas que eu falo quando estou nervoso.
— Eu meio que te amo... – Soltei para ele.
Nunca me imaginei dizendo isso para ninguém. Mas nunca me imaginei fazendo muitas coisas e olha só a situação em que me encontro agora. Ah, como eu odeio o futuro! Sem trocadilhos.
Beto avançou seus lábios contra os meus, e sua língua penetrou minha boca com ímpeto. E eu, incapaz de resistir, acabei agarrando com força sua camiseta. Estávamos próximos os suficientes para que eu notasse que as coisas estavam muito além do controle. Mas acham mesmo que eu estava ligando? Nenhum pouco. Havia perdido completamente a noção.
Beto separou sua boca da minha depois de alguns segundos – ou minutos, ou horas, ou qualquer coisa, porque eu já havia perdido a noção do tempo – e a levou ao meu pescoço dando pequenos beijos.
— Diga de novo...–Ele pediu com a voz rouca.
— Eu te amo... – Falei baixinho em um suspiro.
Quando ele se afastou para olhar para mim, pude ver que o rosto dele estava iluminado com uma coisa que só podia ter um nome: Satisfação.
— Realmente resolveu ficar comigo? – Eu podia sentir sua respiração pesada contra minha pele.
— Mas tecnicamente, nós nunca nos separamos... – Contestei.
— Você não tem ideia... – Ele proferiu antes de voltar a me beijar.
Em qualquer outro tempo eu estaria constrangido. Enfiando minha cabeça dentro de uma almofada ou cavando um buraco. Mas era como se eu nunca estivesse tão certo de algo. Não tinha porque eu brigar com meus próprios sentimentos. Era o mesmo que negar como tudo havia se tornando tão diferente na minha vida. Chorar, brigar, sorrir e amar. Coisas que eu jamais havia realmente entendido o significado, até conhecê-lo.
Mas e se eu apagasse novamente?
Acabei empurrando os ombros de Beto para que ele se afastasse.
— Está com medo?– Ele indagou, provavelmente observando a expressão que eu fazia.
— Estou. – Confessei. – Mas não de você. Medo de misturar a realidade...
—Também estou com medo. – Ele disse subitamente.
Franzi o cenho para ele.
— De que?
— Estou esperando você sair correndo e se trancar em algum lugar.
Péssima hora para piadas, mas mesmo assim eu ri.
Sua mão deslizou pelo meu corpo até encontrar a minha.
— Acha que isso é um sonho? – Ele perguntou com a voz em sussurro.
Prendi meu olhar no dele.
— Não sei... Mas nem estou ligando mais... – Arquejei quando senti seus dedos tocando de leve minha cintura e ele continuou com as caricias e com os beijos irritantemente vagarosos.
— O que fazemos agora?– Ele respirava com dificuldade.
— Eu estava imaginando que você tinha a resposta pra isso... – Comentei.
Ele me beijou, rapidamente dessa vez.
— Então confie em mim.
— Eu confio...
Mas não podia deixar de ficar nervoso. Eu me sentia sendo o protagonista do videoclipe de “like a virgin”. Só que eu já estava tão entorpecido por ele, que antes que eu sequer pensasse em desistir, agarrei seu rosto juntei meus lábios com os dele. Era incrível como eu não me cansava de beija-lo, mas nunca me senti na liberdade de fazê-lo. Até aquela noite.
Atravessamos o corredor ainda aos beijos e Beto bateu a porta atrás de nós. Como se já tivéssemos feitos aquilo incontáveis vezes.
Percorri meus dedos pela extensão de suas costas e meus dedos pararam no fino tecido de algodão de seu short. E embaixo dele se encontrava somente sua pele.
Separei-me dele completamente incrédulo.
— Você não está usando cueca? – Indaguei.
Beto sorriu e apertou seu corpo mais contra o meu para que a minha suspeita de que não havia nada por baixo daquela fina camada algodão, fosse completamente comprovada.
— Era você quem estava com as mãos em lugares impróprios. – Sua voz estava entrecortada.
— Por que não está usando?
— Por que sou muito calorento.
— Todas as noites assim?– Perguntei atônito.
Ele sorriu.
— Todas as noites. Mas você nunca tinha se interessado pra saber o que eu usava por baixo da roupa... – Ele sussurrou contra minha orelha.
— E é por isso que eu disse que você era um pervertido.
— Tem certeza?– Ele deslizou seus lábios mais uma vez para meu pescoço. E eu acabei engolindo um gemido. É sério! Literalmente o engoli, porque tenho certeza que ele desceu junto com o resto da minha sanidade e eu cedi cada vez mais aos toques.
Beto puxou minha camiseta pela cabeça e nós caímos no colchão. Seus lábios desciam do meu pescoço até a minha barriga e eu apenas arqueava meu corpo em busca de mais contato. Meu baixo ventre formigava e eu dava adeus a minha consciência.
Ele levantou o rosto para fitar o meu e acabei me encontrando com seus olhos dourados e famintos.
—Ainda está com medo? – Ele perguntou com os dedos descendo cada vez mais pela lateral do meu corpo.
— Não. – Sorri. E me surpreendi. Porque era verdade.
Como se aquilo fosse uma deixa ele puxou minha calça tortuosamente e eu ofegava a cada toque.
Eu estava completamente exposto e acabei me sentando na cama e me debrucei sobre minhas pernas.
— Posso saber por que eu sou o único nesta situação constrangedora? – Questionei.
— Porque estou apreciando você. – Ele respondeu completamente febril.
Eu sabia que ele estava testando o seu autocontrole, assim como eu sabia que ele estava quase o mandando para cucuias.
— Hã... Mesmo que biologicamente falando, eu já tenha feito isso, mentalmente... – Mentalmente eu sou uma pamonha mole. E eu não sei como prosseguir com isso...
— Eu entendi. – Ele disse tocando meu rosto, pacientemente. – Mas tente relaxar, tá bom?
Ele avançou mais uma vez e eu senti meu corpo estremecer. Ele mordiscava minha orelha, ombro e clavícula.
Suas mãos desceram despudoradamente para o meio das minhas coxas e dessa vez não contive o gemido surpreso quando sua mão se fechou em meu membro.
—O... O que– Tentei argumentar, mas Beto foi mais rápido e atacou meus lábios, e eu perdi minhas forças novamente quando ele começou com uma massagem lenta e dolorosa por toda aquela região, enquanto eu remexia meu quadril involuntariamente contra sua mão.
Sua boca ainda esmagava a minha avidamente permitindo apenas que pequenos gemidos sôfregos da minha parte escapassem. Ele parecia se divertir com aquilo. Senti um calafrio prazeroso subir pelo meu corpo como se algo muito grande estivesse chegando. Tateei desesperadamente em busca de algo para agarrar e meus dedos se fecharam com força contra o lenço.
Então ele parou.
E eu nunca senti tanta vontade de matar alguém na minha vida.
— Por... Que fez isso?– Perguntei uma mistura de raiva e desolação.
—Porque não estamos com pressa. – Ele sussurrou.
Estamos sim! Se isso queria dizer que ele iria terminar o serviço, eu estava sem a menor dúvida, com muita pressa.
Mas para ele nós tínhamos todo o tempo do mundo.
Beto me virou cuidadosamente de bruços e espalhou beijos lentos e demorados pelas minhas costas. E continuou a explorar cada parte, alternando entre lábios e dedos. E eu apenas tentava conter os murmúrios que saiam dos meus lábios.
De repente seus dedos pararam na minha bunda. E meu corpo todo entrou em alerta. Porque acredito que tanto eu, quanto ele, nos lembramos de o que aconteceria depois disso.
—Es-espera aí...– Pedi, mas o problema é que quando eu precisava de espera, ele não esperava.
Ele separou minhas pernas e derramou algo gelado no meio dos meus glúteos. E eu arquejei surpreso.
—Alex, se você não relaxar não tem como prosseguir... –Ele me censurou, mas pude sentir o humor na sua voz.
— O que é isso que você jogou em mim? Aliás, de onde você tirou isso? – Sibilei.
—Lubrificante. Fica na mesinha de cabeceira. –Ele respondeu tranquilamente.
— Porque você tem um treco desse na mesa de cabeceira?– Franzi o cenho.
— Hum... Porque será? Realmente não faço a menor ideia... – Ele respondeu sarcasticamente e eu senti o sangue de todo meu corpo subir para o meu rosto.
— Péssima hora para fazer perguntas... – Minha voz se calou na hora que senti seus dedos em um lugar muito, muito íntimo.
Beto se aproxima o suficiente para que sua boca sussurrasse em meu ouvido:
— Vou precisar que você seja muito bonzinho agora, Alex... Ou isso realmente não vai dar certo.
Pra mim, já havia dado muito errado no momento em que aqueles dedinhos resolveram passear por onde não deveriam, mas já havia chegado até aqui, e eu ia até o fim. Mas não daquele jeito.
Virei-me repentinamente e me sentei de frente para ele.
— Eu tenho uma ideia muito melhor... Vamos parar de provocações. – Eu agi por puro impulso. – Ou você vai ficar me torturando para compensar?
Ele sorriu largamente e maliciosamente.
— Compensar o que?
Alcancei sem cerimoniosa a movimentação rígida e pulsante de sua calça. E fui compensado por um gemido alto que escapou de seus lábios.
— Isso aqui. – Sussurrei para ele. – Ou você realmente gosta de tortura? Não sabia que era assim... – Sorri maldosamente para ele.
—Só estava tentando não apressar as coisas. – Ele tentava articular a fala, mas estava com um pouco de dificuldades, visto que eu continuava a friccionar seu membro embaixo do tecido.
— Bom, paciência nunca foi meu forte. – Respondi. – Eu quero você.
E consegui o que queria.
Beto me jogou de volta no colchão e seu corpo cobriu o meu e ele se colocou entre as minhas pernas.
—Tem certeza disso? – Ele suspirou com o rosto centímetros do meu.
Não respondi. Apenas puxei sua cabeça e ataquei seus lábios. Ele pareceu entender aquilo como um “sim”.
Seu corpo ficou tenso por um minuto, então ele entrou em mim lentamente.
Por falar nisso... Ninguém havia me falado como aquilo doía! E não estou “exagerando”. Naquele momento preferi mil vezes cassetar o dedinho na quina da mesa...
Mordi o lábio.
— Isso dói pra caral... – Chiei, mas Beto colocou o dedo sobre meus lábios antes que eu terminasse o meu desabafo.
— Shhh. Apenas confia em mim.
— Você não disse que ia doer desse jeito. – Falei entredentes. Meus olhos estavam fechados com força.
— Mas eu estava com toda paciência do mundo. Quem foi que pediu por isso mesmo?
A conversa parou ali. Eu só conseguia ofegar desesperadamente.
—Tudo bem!– Beto disse me parecendo incomodado. – Se está doendo tanto assim, eu vou sair.
Prendi minhas pernas ao redor do quadril dele como e minha vida dependesse daquilo.
—Não! Você não vai. Você vai ficar quietinho e esperar. – Me apressei em dizer.
Ele me obedeceu. Mas acabou levando sua mão até o meio das minhas pernas novamente.
— Você não pode mesmo ficar quieto? – Perguntei.
Ele não respondeu, apenas continuou com um vai e vem lento.
A dor não se dissipou magicamente e do nada. Na verdade, não parou de doer. Apenas ficou menos incomoda. Era algo no mínimo, suportável.
Ainda com minhas pernas em seu quadril, o puxei de encontro a mim. Mesmo que indiretamente, dei-lhe sinal verde. Beto apenas fechou os olhos e soltou um gemido longo. E eu o acompanhei tentando lidar com o ardor e a pressão.
O movimento do corpo dele contra o meu passaram a ser ritmados. E a coisa já não estava tão ruim, na verdade. Ele entrou mais uma vez dentro de mim e sem querer acabei soltando um gemido alto e me agarrando em suas costas, em resposta a sensação prazerosa que aquilo causou.
Beto, ainda sem diminuir o ritmo se afastou o suficiente para olhar para mim com um sorriso incrivelmente indecente nos lábios.
— Acertei. – Foi tudo que ele disse.
Na hora, eu realmente não entendi o que aquilo queria dizer, e nem tive tempo de perguntar, pois a pressão em meu interior aconteceu de novo, e de novo, e chegou um ponto que eu já estava completamente extasiado com cada movimento.
— Eu senti tanto a sua falta. –Ele sussurrou, sem folego. Seus lábios buscando meu pescoço.
Senti a dormência prazerosa passar por todo meu corpo novamente e sabia que já estava no meu limite.
E ele também. Os ruídos que Beto imitia se tornaram cada vez mais altos.
— Alex... – Ele gemeu meu nome e eu estremeci.
— Não para. – Acabei implorando sôfrego.
Meu corpo estremeceu completamente e eu o arqueei uma ultima vez com a sensação intensa que eu acabava de sentir. Beto me apertou contra ele e adentrou mais uma vez em mim, soltando um gemido tão alto, que tudo que consegui pensar foi que estaríamos completamente roucos no dia seguinte.
Ele encostou os lábios vagarosamente na minha testa antes de sair completamente de cima de mim.
Eu estava exausto e ofegante. Parecia que eu tinha acabado de terminar uma maratona. Uma estranha maratona.
Virei-me para olha-lo.
— Obrigado. – Como já esperado minha voz saiu fraca e falha.
Ele sorriu fracamente. Provavelmente tão exausto quanto eu.
— Não esperava um agradecimento formal...
Procurei sua mão na bagunça que ainda chamávamos de cama e entrelacei nossos dedos.
— Não estou te agradecendo por isso. Eu deveria era te jogar pela janela por não ter me contado que ia doer daquele jeito... – Soltei um muxoxo. – Estou dizendo obrigado por hoje. Obrigado por ficar do meu lado.
Ele tocou meu rosto.
— Eu amo você. Sempre amei. – Murmurou praticamente já adormecendo.
— Eu sei. Obrigado por isso também... – Proferi antes e engatar de vez no sono.
Dormi feito um anjinho por toda noite. O problema mesmo foi acordar completamente nu, e embolado em lençóis no dia seguinte. E quando tentei me sentar na cama escutei um “crec” e logo em seguida senti uma pontada aguda na região lombar. E aí que eu me dei conta de que o crec vinha de mim. Parecia que um elefante havia dançado sapateado por todo meu corpo.
Ainda curvado pela maldita dor nas costas virei cuidadosamente à cabeça, apenas para perceber que Beto dormia feliz da vida. O que era muito estranho, pois ele gostava de dar bom dia para as galinhas. Mas no momento, eu tinha problemas maiores para me preocupar do que o sono dele.
Levantei-me tão desajeitadamente que quase pude ver minha tia-avó aparecendo na minha frente e me oferecendo seu andador.
Caminhei vagarosamente até o banheiro e apoiei minhas mãos na pia do banheiro e olhei meu rosto no espelho.
E Jesus! Que merda havia acontecido comigo? Minha clavícula e pescoço estavam cobertos de chupões. Estava tão decadente que se me jogasse no chão, as pessoas parariam para me dar moedinhas.
— Eu não vou sair de casa por um mês!– Choraminguei.
Arrastei-me até o chuveiro e deixei a água quente cair por todo meu corpo dolorido. Saber que o dia de ontem existiu me assustava e me empolgava ao mesmo tempo.
Eu estava feliz. Muito mais do que imaginei que estaria. Mas ao tempo que a frustração em relação ao Beto se dissipava, a minha magoa e a minha frustração contra meu pai voltavam de uma maneira avassaladora. Tentei não pensar naquilo.
Depois de banhado, minha cara ainda não era umas das melhores, mas pelo menos eu estava limpo.
Achei que já que eu havia acordado primeiro, seria legal preparar o café da manhã. O problema é que eu não sabia preparar nada. Na verdade, eu sabia fazer suco. E passar manteiga no pão. Acho que tá ótimo. Ok, não é o café da manhã dos sonhos, mas era o que tinha para hoje.
Fui até a cozinha e tentei fazer o mínimo de barulho possível. Só que, eu tentando não fazer barulho era o mesmo que dizer que resolvi dar um passeio de mamute pela sala.
As portas dos armários batiam com força, a gaveta de talheres parecia um ensaio de escola de samba, os objetos insistiam em cair. E é claro que não importa o peso do sono da pessoa, qualquer um acordaria com toda aquela barulheira. Mas eu juro que não foi de propósito!
Beto apareceu na bancada da cozinha usando apenas o short de algodão da noite anterior. Ele não parecia com raiva por tê-lo acordado, parecia confuso.
— O que está fazendo?
— Eu... Hum, queria preparar o café. – Falei.
— Sim, mas porque está parecendo que tem um exército em batalha por aqui?– Ele conteve um sorriso.
—Foi mal. – Abaixei a cabeça um tanto quanto constrangido.
Beto se aproximou de mim e me abraçou.
— Talvez devêssemos fazer isso juntos... – Ele sorriu e se aproximou do meu pescoço. E eu dei um pulo para o lado oposto.
—Mantenha-se longe! – Bradei para ele. – Olha só como eu estou!
Puxei a gola da camiseta e deixei a visão das marcas espalhadas por toda parte à amostra.
Ele apenas soltou uma risadinha e se aproximou de novo.
— Te deixam ainda mais sexy. – Ele sussurrou. – Como você está?
— Estou ótimo! Tirando fato de que parece que um fusca passou em cima de mim... Estou muito bem.
— Um fusca?– Ele fez uma careta. – Preferia um Porsche.
—É... Ok. Que seja. Estou parecendo um biscoito de água e sal se quebrando... – Lamentei.
— Você se arrepende?– Ele perguntou. Percebi que estava contendo um possível nervosismo.
— Não. Eu não me arrependo. Ossos do oficio. – O beijei rapidamente nos lábios. – Bom dia!
Ele fechou os olhos e sorriu.
—Tem certeza que eu já acordei e que não tem nenhum Alex mal-humorado me jogando pedras?
— Não estou sempre de mau-humor. – Murmurei.
Eu não era muito de ficar de mau-humor, mas que culpa tinha eu de não acordar soltando fogos e dando bom dia para o sol? Isso não é mau-humor... É apenas... Hum... Ok, não sei o nome, mas não era mau-humor.
—Mudando de assunto, se bem me lembro, você disse que faria qualquer coisa que eu pedisse... – Ele comentou me analisando intensamente.
Opa. Eu havia esquecido completamente que havia prometido isso.
— E com essa sentença intimidadora devo presumir que você vai pedir alguma coisa?– Perguntei.
Ele sorriu enigmático e assentiu vagarosamente.
— Quero que pelas próximas horas você não questione o que eu fizer e obedeça exatamente tudo que eu falar.
— O que? Por quê?
— Não questione, Alex. – Ele advertiu.
Eu e as minhas promessas...
—Certo, mas eu não posso nem saber o por quê? – Tentei mostrar indiferença, mas não deu muito certo.
—Porque estarei te sequestrando pelo resto do dia.
Acabei soltando uma longa gargalhada.
— Está me chamando para um encontro? Sabe, pode chegar a mim e dizer “hei, Alex, quero ir a um encontro com você”. Eu ia aceitar de muito bom grado. Não precisaria disso tudo. – Sacudi a cabeça ainda rindo.
Ele me mostrou uma careta.
— Não acho que será exatamente um encontro...
Não entendi. Mas como prometido, resolvi não fazer perguntas. Só que, confesso que fiquei curioso. Beto era muito mais do tipo que convida para um jantar a luz de velas onde terá um garçom chamado “James” do lado servindo vinho. Então confesso que não faço a menor ideia do que poderia ser chamado de “não encontro” quando se tratava dele...
Joguei-me no sofá esperando que ele saísse do banho. Estava com uma alegria incrivelmente tosca na cara.
A verdade é que com certeza eu já estava apaixonado por ele. Eu só não sabia disso. E eu não estou falando de agora, ou realmente de mim.
Eu já havia percebido que cada dia que se passava eu me fundia mais ao meu outro eu. Assim como reconhecia mais os meus sentimentos.
Perdi completamente a minha linha de raciocínio quando vi o homem de jeans e regata vindo em minha direção. Minha boca se abriu em um “o” mudo quando ele parou na minha frente e nem tentei disfarçar a olhada que dei dos pés a cabeça para ele.
— Eu perdi alguma coisa? – Perguntei debilmente.
Ele me encarou e abriu um sorriso que até mesmo os dentes brancos, brilhantes e alinhados do Vitor fariam uma reverencia formal e implorariam por piedade.
— O que foi? – Ele perguntou.
Era impossível não corresponder ao largo sorriso.
— Nada. – Falei.
Só aquilo já era muito estranho. Mas lá estava eu. Impedido de fazer qualquer pergunta. Por isso mordi o lábio tentando impedir que uma porção delas pulasse para fora. Mesmo assim acabei soltando:
— Então, sem perguntas?
—Sem perguntas. – Ele assentiu. – Até que eu autorize.
Tudo bem, não fazer perguntas sobre o “não encontro” não me pareceu assim tão ruim. Pelo menos até sairmos completamente da cidade e acabarmos em um caminho de terra. Mais precisamente, não me pareceu tão ruim até perceber que estávamos nos enfiando no meio do mato.
Me remexi desconfortavelmente no banco de couro e virei várias vezes para encarar Beto que tinha um sorriso travesso nos lábios, percebendo claramente o quanto eu estava incomodado.
— Quer fazer perguntas não quer?– Ele indagou alegremente ainda olhando para frente.
— Você sabe que sim!– Respondi.
—Calma Alex. É a sua vez de ficar quietinho e esperar. – Ele entoou.
Não fiquei vermelho. Fiquei branco. Pasmo. Completamente estático.
— Você. Não. Disse. Isso. – Me afundei completamente no banco e fiquei pensando se ele poderia me absorver.
Beto por outro lado, estava megafeliz. Estava falante, comentava sobre assunto que não tinha nada haver ou que eu nem sabia sobre o que ele falava. Contou-me até sobre um cachorro chamado “jujuba” que ele teve na infância.
— Quem é que da o nome de “jujuba” para um cachorro?– Perguntei incrédulo.
— Eu tinha nove anos, Alex. Achei que ele tinha cara de jujuba. – Ele respondeu.
— Eu queria ter um cachorro quando eu era criança. Minha mãe não me deu. Disse que se eu ganhasse um cachorro, Camila ia querer um bichinho para ela também, e isso não daria certo.
— E qual era o problema de ter mais de um animal? Eles são ótimos companheiros.
— Também acho. Mas o problema é que a Camila não queira um gatinho ou um peixe como as pessoas normais. Ela queria uma coruja silvestre que morava no parque... – Acabei rindo no final. Aquilo fazia tantos anos e para mim era como se fosse ontem.
Depois de subir um gigantesco morro no meio do mato, ele parou embaixo de um enorme arvore.
— Certo, aqui é a parte em que você faz exatamente tudo que eu falar.
Resolvi me manter calado, já que eu não podia perguntar, era melhor nem abrir a boca.
Caminhamos até ficarmos em pé de frente para uma queda d'água. Era muito lindo, diga-se de passagem. E seria ainda mais, se não estivéssemos na beira de um rochedo. Mais conhecido também como:
— Um penhasco... Você me trouxe para um penhasco? –Sibilei completamente incrédulo.
—Ontem você me falou sobre penhascos. Lembrei na hora sobre esse lugar.
Virei completamente atônito par a encará-lo. Até perceber que ele havia tirado a camiseta e se preparava para tirar a calça. Franzi o cenho.
— Por que você está tirando a roupa?
Ele levantou o olhar em minha direção e sorriu.
— Por que você não está tirando a sua?
É sério?
— Quer que eu tire a roupa? Com você? No meio do mato? Na beira de um penhasco?... É algum tipo de fetiche estranho que eu deveria saber?
— Anda logo, Alex! Ou eu vou aí e tiro para você.
Não contestei mais. Apenas retirei as peças.
— Vou fingir que isso não é a coisa mais estranha que eu já fiz na minha vida. E vou fingir que isso não foi ideia sua.
Ele se aproximou de mim e eu senti seu ombro nu encostando-se ao meu. Acabei prendendo a respiração. Ele alcançou minha mão e entrelaçou seus dedos aos meus.
— Está pronto?– Ele perguntou com um enorme sorriso na cara. Gelei.
— Não. Pronto pra que? – Olhei assustado para ele.
— Apenas corra.
E eu corri.
“Apenas corra na direção do penhasco e se jogue de lá de cima.” Foi à parte que ele se esqueceu de comentar.
Quando percebi, estávamos nos lançado no ar e eu dando “adeus vida cruel” e sentindo o impacto dos corpos caindo na água.
Quando emergi puxei fortemente o ar para meus pulmões, sentindo o meu corpo ainda tremer por conta da adrenalina e do puta susto que eu acabara de levar.
Olhei completamente estupefato para Beto que ainda sorria como se acabasse de realizar um grande sonho.
— Você me fez pular de um penhasco com você?– Bradei.
— Então, se apaixonar por mim foi realmente como pular de um penhasco?
Eu continuei imóvel piscando fortemente para tirar a água dos meus olhos.
— Com certeza!– Exclamei depois de um tempo. – Insano, rápido, inesperado e me assustou pra caramba. É... Foi exatamente como me apaixonar por você. –Confessei.
Ele se aproximou e me beijou com os lábios gelados.
— Eu queria... – Ele sorriu. – Fazer algo diferente. Que fosse inesquecível.
— É... Pular de penhascos com certeza é uma coisa supernova. – Comentei. Só espero que isso não vire moda.
— Não te trouxe aqui só pra te fazer pular na água, Alex. – Ele disse.
— Hum... Então pular era só pra me mostrar o quão literal as minhas metáforas podem ser?– Questionei.
— Não. Só queria criar um clima intimo o suficiente para você confiar em mim.
— Confiava em você entes de me jogar de lá de cima. – Falei.
Ele fez outra careta.
— Nunca fui muito bom em fazer isso... Então, só escute tá bom?– Beto não sendo bom com palavras? É o fim dos tempos realmente. – Escute, eu não sei como as coisas serão depois de hoje. Nem se continuarão sendo quando sua memoria voltar. E isso vai parecer muito estranho... Eu resolvi fazer isso no calor do momento, então não vou mentir que estou completamente despreparado. Até queria que tivesse um anel ou algo do tipo, mas eu já providenciei isso...
— Ai, Deus!– Eu não sei se gritei ou se o eco daquele lugar fez com que a minha voz saísse mais alta. – Por favor, me diga que isso não é um pedido em casamento!
— Não!- Ele se apressou em dizer. – Quer dizer ainda não. Não hoje. – A tensão não foi embora. – A verdade é que as coisas saíram meio tortas da primeira vez, e já que tivemos uma segunda chance eu resolvi fazer isso corretamente, então... Alexander, você quer namorar comigo... – Ele sorriu de lado. – de novo?
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