Notas iniciais
Olá meus amores, Eu queria ter postado antes, mas na correria com faculdade, serviço e início de TCC fica realmente complicado. Não vou especificar um dia de postagem, mas trarei pelo menos 1 capítulo por semana para vocês. Boa leitura!

Pela janela do hotel eu podia ver que céu já se tornava mais escuro e o horizonte estava alaranjado...laranja...suco pelo meu corpo. Isso tinha me traumatizado. Mas eu tinha de admitir, aquela era uma bela visão. Fazia eu me arrepender de deixar minhas cortinas fechadas em minha casa, embora eu não tivesse certeza de se a vista seria tão bela na cidade em que eu vivia.

Havia passado o resto daquele dia no quarto e minha vontade de sair continuava menor que zero. Estava maravilhosamente bom ficar jogada naquela cama, com o celular sem bateria, lendo um livro qualquer. Sem ligações inconvenientes, sem me preocupar com nada, porém minha consciência me atormentava todos os segundos me lembrando que esse não era o propósito de minha viagem.

Suspirei fundo pela milésima vez naquele dia e levantei da cama, calçando um par de sapatilhas e saindo do quarto. O ronco alto do meu estômago enquanto eu passava pela recepção do hotel me constrangeu e me fez torcer para ninguém tivesse escutado o mesmo — “ninguém” se resumia a recepcionista e a um velho que estava sentado em uma poltrona lendo um jornal.

Desta vez caminhei mais rápido até o centro da cidade. As sapatilhas eram confortáveis e o fato de eu não precisar segurar vestido, já que estava vestindo uma calça jeans, era reconfortante. Admito que senti um pouco de medo ao passar pelo mato, o que me fez parar e retirar um bloquinho de anotações da minha bolsa. Eu julgava que toda boa escritora andava com um.

Tomei nota de que seria sensacional que o corpo do meu livro fosse encontrado no mato. Daria um tom todo suspense — talvez dramático demais, mas eu gostava.

Pela segunda vez em um mesmo dia me peguei abrindo a porta da lanchonete, mas dessa vez, para meu alívio, entrei no local sem nenhum tipo e problemas.

O ambiente era agradável, as mesinhas eram de madeira, bem como as cadeiras, e todas estavam cobertas por toalhas xadrez em tons de laranja e branco. No centro de cada mesa repousava uma garrafa de vidro marrom com alguma florzinha dentro e, no canto das mesas, havia o “kit delícia” que, na minha mente, era aquele formado pelos vidros de ketchup, maionese e mostarda.

Sentei em uma mesa mais afastada da entrada, ao lado de uma gigantesca janela lateral. Através da mesma eu via um pequeno jardim e então o muro e, ao lado, a parede da farmácia. Sai de meus devaneios quando uma jovem morena parou ao meu lado, com um avental florido e um bloquinho de anotações.

—Você gostaria de fazer seu pedido? — Perguntou a moça.

“Sim, eu gostaria de ter uma imaginação malvada que me rendesse um belo romance policial”, foi o que pensei, entretanto respondi apenas:

—Vocês têm hamburguer?

—Temos sim, vem coberto de fritas. — Falou ela, dando-me um sorriso metalizado.

—Então é exatamente isso que vou querer, por favor. E se tiverem, quero uma latinha de Coca-Cola. — Esse era um dos meus maiores vícios: Comer coisas gordas com uma bebida mortal, entretanto muito...perfeita?! É, acho que posso dizer assim.

—Logo trago seu pedido. — Falou ela, retirando-se em seguida.

Enquanto aguardava, retirei meu bloquinho da bolsa e comecei a rascunhar coisas aleatórias. O movimento no local foi aumentando devido a chegada da hora do jantar. E minha fome foi aumentando junto.

Quando, enfim, ergui a cabeça para ver se localizava a garçonete e lhe perguntar se meu pedido demoraria, dei de cara com um ser humano me encarando sentado na mesa ao lado. Na verdade, um ser humano e um “humaninho”. O dono do suco que havia molhado toda a minha felicidade mais cedo naquele dia estava sentado na mesa ao lado junto com uma garotinha que deveria ter seus 10 anos.

Os dois me encaravam. Ela parecia me avaliar e ele parecia surpreso.

—É ela sim, papai. — Falou a pequena.

“Ferrou”, pensei. Pelo jeito a pequena loirinha me conhecia. Não pensei que um público tão jovem lesse meus livros.

—É a escritora favorita da tia Rosa! Eu lembro do rosto dela que estava na foto na página do fim do livro.

É, ela definitivamente me conhecia. Eu gostaria de sair dali, ir embora para a próxima cidade onde absolutamente ninguém me conheceria, mas realmente seria muita falta de educação da minha parte. Sendo assim, dei um pequeno aceno para a menina, que abriu um sorriso, ressaltando duas covinhas absurdamente fofas em suas bochechas.

Virei o rosto de volta e, neste momento a garçonete voltou com minha refeição. Agradeci mentalmente ao universo por me dar essa oportunidade de ter uma desculpa para desviar a atenção dos meus vizinhos de mesa.

Comi meu lanche com calma, apesar de estar levemente incomodada com os olhares que vinham da mesa ao lado. Saboreei aquela comida maravilhada. Eu definitivamente amava hamburguer. E mostarda. Os dois juntos formavam uma combinação tão saborosa quanto...feijão com arroz.

Estava quase terminando de comer quando uma mão pequena tocou meu braço de forma delicada e hesitante.

—Moça? — Perguntou uma voz infantil.

Me virei e a menininha da mesa do monstro que gostava de dar banho de suco em pessoas desconhecidas estava parada ao meu lado, me olhando com dois belos azuis claros que brilhavam de espectativa.

—Sim? -Perguntei sorrindo. Ela não tinha culpa de ter o pai que tinha.

—Você poderia assinar essa folha para mim? Autografar. Minha tia favorita neste mundo ama você e seus livros e sei que ela vai amar se eu der isso de presente para ela. Embora ela não vá acreditar que vi você aqui. — Falou ela, praticamente num fôlego só. Ela era uma fofura.

—É claro que posso. — Respondi, pegando a folha. — Qual o nome de sua tia? — Perguntei só para garantir.

—Rosa. — Respondeu ela, confirmando o que eu imaginava.

Autografei o papel, como era acostumada a fazer e entreguei a ela. Que me deu um sorriso ainda maior e um pequeno abraço.

—Muito obrigada, Ella. — Disse ela, voltando para sua mesa.

Apenas sorri e terminei de comer. Precisava voltar pro hotel e tinha um pouco de medo de voltar muito tarde, ainda mais que o céu parecia estar nublado, já que eu não conseguia enxergar nenhuma estrela pela janela. Não queria tomar um segundo banho indesejado no dia.

Peguei minha bolsa e, ao passar pela mesa do lado, a garotinha falou, novamente:

—Obrigada, Ella. — Seu sorriso impulsionou o meu.

—Por nada. Mas me diga seu nome, mocinha. Muito injusto eu não saber isso ainda.

Ela corou levemente e me respondeu:

—Nicole.

—É um belo nome. — Falei, percebendo que o moreno mal educado me encarava em silêncio, pelo jeito ele só falava quando era para ser estressante. Acenei um tchauzinho e, após pagar minha conta decidi voltar ao hotel correndo, pois os primeiros pingos da chuva já estavam começando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.