Tá, tudo bem. Admito que realmente eu fiquei estática ao vê-lo na minha frente. Quem poderia imaginar que o senhor Jacobs era na verdade Mark Jacobs? Ele parou encostado na porta com seu ar casual e com um sorriso daqueles para mim. Tenho que confessar que por um momento eu quase perdi a linha e demonstrei reação por sua beleza. Mark era do time de futebol da escola e ficou alto e forte desde então. No último ano, onde a adolescência aflorava nos altos índices, seu corpo teve músculos bem evidentes de um atleta profissional. Não que eu tenha visto com frequência, mas não pude deixar de reparar quando tirava a camisa ainda no campo. O que eu estava fazendo lá? Bom, na verdade estava esperando dar a hora da minha mãe me buscar. Porque eu não esperava na frente da escola como as pessoas normais? Bom, eu... é que... ah tá! Eu admirava sim! Tá satisfeito? Eu passei um período de amor não correspondido por ele, o que eu mantinha em segredo com as gêmeas e a Ashley, até que a idiota deu com a língua nos dentes e falou pra ele. Desde então, ele se aproveitava disso e me seduzia e descartava semanalmente. Tipo, ele chegava perto de mim, dizia um monte de lorotas, me deixava mais apaixonada e esperançosa e desprezava publicamente. Eu te contei que nesse período todo, a Ashley já estava namorando com ele? Foi assim um mês até que descobri, e ela que se dizia minha amiga, espalhou para todos e aí, como era de se esperar, fui alvo das melhores e mais impiedosas chacotas e eles assumiram o namoro e ficaram famosos por armarem contra mim. Obviamente foi um período bem difícil para mim, e é claro, as gêmeas foram quem me deram o suporte necessário, além de um especialista e meus pais. Espero que me entenda o quanto sofri até a formatura, eu, gorda, de óculos, ruiva e é claro, sem a menor noção de moda, como não poderia ser descartada por um dos mais populares e bonitos da escola? Devo confessar que ele não mudou, continua lindo, alto, forte, mais masculino com um corpo que ainda acredito ser belíssimo embaixo do terno e incrivelmente sarcástico, idiota, patife e sem-vergonha! O que ele está fazendo na minha frente?

— O que você está fazendo aqui?

— Você me mandou chamar, não se lembra? – Diz enquanto desencostava da porta e vem andando até minha mesa. Faça o que puder, mas não trema. Não trema, não trema...

— Se, sei... Então, você é o senhor Jacobs que ouço falar. Muito bem, sente-se senhor Jacobs.

Ele dá a volta na cadeira e senta confortavelmente à minha frente parecendo extremamente relaxado e confortável. Coloca as mãos atrás da cabeça e inclina a cadeira para trás.

— Samantha como você está? Não a vejo há anos. Você está bem... diferente, e se me permite a ousadia, bem mais bonita e feminina.

— Pra dizer a verdade, eu não permito a ousadia. E direcione-se a mim como senhorita Cooper.

— Pois bem, senhorita Cooper. O que devo a sua presença na nossa filial?

— Estive observando nos registros, e verifiquei que houve uma redução de vinte e cinco por cento nos lucros no mês de maio. Gostaria de saber o motivo e, é claro, acertar o controle da empresa.

— Vinte e cinco por cento no mês de março? – Coloca a ponta do dedo no queixo como se estivesse puxando a memória. – Bem, este mês estive de férias e quem ficou responsável pelo meu setor foi o Greg. Irei conversar com ele sobre essa possível falta, ele me passou um relatório sobre o mês e até onde eu me lembro, estava tudo correto. Não precisava vir até aqui para confirmar. A não ser que, — Ele se inclina para frente e dá um maravilhoso sorriso. – você estivesse vindo aqui para me ver.

— Com ousa dizer tal coisa? – Me levando indignada. (eu vi isso em uma novela, dá um certo drama) — Senhor Jacobs, para ser honesta eu não sabia da sua existência até vê-lo há cinco minutos atrás.

— Isso quer dizer que você adorou ter me visto. – Ele se levanta e se aproxima de mim.

— Não, claro que não. Surpresa sim, eu devo admitir. – Droga, eu dei uma brecha. – Não esperava que fosse o senhor quem estava administrando a filial. – Me afasto dele e vou em direção à porta e abro. – Se puder me passar até a hora do almoço a resposta sobre a administração desse senhor Greg, eu ficaria agradecida. Gostaria de conversar com ele depois do almoço. Agora, se puder me dar licença.

— Claro que sim, senhorita Cooper. Farei o que for possível para ter a resposta o quanto antes. – Diz enquanto vem á minha direção e para na minha frente e aproxima seu rosto perto do meu.

— A propósito, você está muito linda hoje.

— Faça seu trabalho e eu faço o meu. É tudo o que preciso até resolver esse problema. – Digo com segurança frente a frente com ele.

Ele sorri para mim e sai pelo corredor sem olhar para trás. Bato a porta e fico com muita raiva, voltando para minha cadeira. Já vi que enquanto eu estiver aqui, terei dificuldades de trabalhar, ou de pelo menos me concentrar. Fiquei muito feliz em saber que estou resistindo bem aos encantos dele. Mark Jacobs. O homem quem me fez sofrer, o homem quem me fez passar por tratamento, o homem quem me fez perder tempo, quando poderia estar namorando ou apaixonada por um solteiro e que me tratasse bem de verdade. Pronto! Estou feliz que tenho certeza que nada sinto por este crápula! Jogo meus cabelos para trás, arrumo minha postura e começo a trabalhar, hoje eu sei que o dia será longo.

Durante o dia não tive problemas em adiantar o serviço, graças a Kurt, pude trabalhar em relação à matriz, já que essa filial não me importava. Como diria Jim, “o senhor Jacobs tem deixado tudo muito bem, a ponto de não precisar viajar para verificar”. Fiquei tão concentrada nos meus serviços que quando olhei o relógio e vi que eram mais de quatro horas e não tive resposta do Mark, liguei pra sua sala e a secretária disse que ele já tinha saído então decidi caminhar para conhecer melhor as instalações.

À medida que andava, pude ver alguns olhos em minha direção, talvez por não me conhecerem ou curiosidade, trabalhei aqui durante o meu estágio e tem mais de cinco anos que não volto. Vi somente umas caras conhecidas da minha época, mas ninguém com quem tivesse alguma intimidade. Meu contato é somente com o senhor Jacobs ou esse tal de Gregory. Feito o serviço vou embora e não quero voltar a ficar aqui. Minha única finalidade na cidade é resolver o problema da empresa, resolver o meu problema e ir embora. Simples assim, depois é só subir ao altar. Falando nisso, até lembrei que ainda não liguei pro Rob e saber como ele está. Droga, meu celular está sem carga. Terei que voltar à minha sala para ligar. Quando me viro quase esbarro numa baixinha de cabelos pretos que andava quase correndo devido às pernas curtas.

— Ah, oi! Meu nome é Stevens, bom é Donna Stevens, trabalho na sala ao lado. Estou aqui há três anos. Sou responsável pelo setor de cargas. Você deve ser a senhorita Cooper, ouvi falar de você. Na verdade, todos ouviram falar, sabe como é, qualquer novidade a “rádio-empresa” corre depressa, então todos esperavam por você. Aqui quase não vem gente de fora, sabe como é, a empresa é uma das poucas que ficam em cidade pequena por isso não costumamos receber muita visita e nem de outros gestores. É fácil gerenciar aqui, pois como a maioria vem do interior, estão acostumados a pegar no batente desde cedo.

Pelo amor de Deus, como ela não para de falar. Nunca vi uma pessoa tagarelar tanto em pouco tempo. Ela me passou uma informação completa por aqui. Como eu me livro dela? Vou andando para minha sala e pode ser que ela me deixe sozinha. Virei o corredor em direção a minha sala, mas a Donna veio me seguindo com dificuldade nos seus passos curtos.

— Olha, eu sei que não é do meu setor, mas gostaria de dizer que me sinto responsável em recepcionar todos que chegam, pois como pode ver, as pessoas não são muito receptivas por aqui e gostaria que se sentisse a vontade no que necessitar em relação a empresa, posso providenciar relatórios, planilhas, chamar algumas pessoas e farei no que for necessário para que se sinta confortável aqui. Quero que saiba que podemos ser parceiras.

— Senhora Stevens – Viro-me para ela parando em frente à porta da minha sala.

— Senhorita, bom, eu era senhora na verdade, mas me marido me deixou há alguns anos. Sabe como são essas coisas, né? Ele foi transferido para outra cidade para trabalhar e prometeu que viria todo fim de semana me visitar, mas só veio no primeiro fim de semana para dizer que não voltaria mais e me deixou em casa sozinha. Fiquei muito mal por uns três meses, mas no trabalho eu conseguia me distrair, mas mesmo assim passava todas as noites chorando até que a Christie que trabalha comigo me deu um gato. Coloquei até o nome de Zassi, porém o gato me abandonou depois de um mês e meio. Desde então moro sozinha do outro lado da cidade. Costumava vir de carro, mas eu ficava pouco tempo no trajeto e me fazia sair tarde de casa, agora venho a pé para ter mais tempo para apreciar a vista e caminhar um pouco, na verdade, quanto menos tempo eu estiver em casa melhor.

Finalmente ela fez uma pausa. Tenho me acostumar a lidar com ela, qualquer palavra que eu dou ela me vem com uma história pra contar.

— Senhorita Stevens, agradeço a sua atenção, porém meu dever aqui é só com o senhor Jacobs a quem devo me direcionar e não devo passar mais que uma semana aqui. De qualquer forma se eu precisar eu te procuro, tudo bem?

— Ah sim tudo bem, então não hesite em me procurar estarei feliz em ajudar. – Me dá um sorriso extremamente grande e feliz. Não acredito que ainda encontre pessoas assim.

— Claro. Obrigada, até mais. – Fecho a porta antes que ela diga mais alguma coisa.

Caramba! Como uma mulher tão pequena pode conseguir armazenar tantas palavras e despejá-las de uma só vez? Finalmente alcanço o telefone e o celular dele está desligado. Ligo para a empresa e quem atende é o sócio dele Alan, dizendo que ele teve que sair para fazer um atendimento á casa de uma cliente. Digo que ligo mais tarde então. Finalmente pego minhas coisas e saio na esperança de não encontrar a falante outra vez. Optei por sair caminhando até em casa, não é muito tempo, mas é o suficiente para dar uma volta na cidade, e procurar lembrar onde meus convidados moram. Meu estômago reclamou e pensei em dar uma olhada nos cafés por perto, finalmente encontro um com uma aparência bem acolhedora. Entro e procuro um lugar, a garçonete logo me recebe. Peço um café e sanduíche, depois que ela sai, abro minha pasta e procuro por minha lista de convidados a entregar os convites.

Nossa, tem tanto tempo que não vejo esse pessoal, Jimmy, Drake, Roberta, Ângela, Darla, caramba o tio Ted, que trabalhava na jardinagem até aposentar que foi uma ótima figura de pai quando o meu não me atendia por causa do trabalho. Onde será que todos moram? Daniel namorava Carla que não sei onde mora. Nunca fui á casa dele, éramos grandes amigos, mas só nos víamos na escola e nas aulas de dança, uma vez ele me chamou para ir até a casa dele, mas achei que era um pretexto para ficar comigo, do estilo, ficar mesmo, e dei no pé. Fugi dele por uns quinze dias me esquivando na escola e inventei que estava com o pé doendo pra não ir às aulas de dança, até que um dia ele me cercou e me perguntou o motivo das minhas fugas e confessei tudo, ele ficou rindo da minha cara por eu ter pensado isso sobre ele, quando na verdade tinha comprado uma guitarra nova, mas não queria tirá-la de casa. Fiquei muito vermelha de vergonha, por fim ele, e disse que também queria me contar que ia namorar a Carla e mesmo sem minha opinião, pediu-a em namoro assim mesmo e teve resposta positiva. O namoro rendeu bem acho que por quase três anos, falavam em casar e tudo, até o dia que Carla pegou a guitarra dele sem ele ver e sem querer a arranhou, mas foi bem pequenininho, pouco dá pra ver, vai dizer isso a um dono de guitarra que levou um tempão pra comprar? O menino virou o bicho, brigaram feio e ela não quis mais saber dele, mas depois ele ficou supertriste e arrependido e ligou para Carla várias vezes, mas parece que estava com outro cara. Só sei que não poderei ir até a casa da Carla para pegar o endereço, depois do término do namoro ela nunca mais quis saber dele. Nunca se sabe por quantos anos o ressentimento pode permanecer. Durante a faculdade eu e Daniel mantivermos contato e sempre nos telefonávamos, ele me disse que não fez a faculdade, queria ser músico e até última vez que me ligou foi pra dizer que estava ligando da casa de um amigo por ter perdido o celular e cortaram o fixo dele por não pagar, estava passando por momentos difíceis da banda. Eu perdi o telefone dele e acho que ele perdeu o meu numero por não mais me ligar.

Peguei minha agenda e separei os convites por ordem dos que sei onde moram e os que eu tenho que pegar informação. Não percebi que tinha uma pessoa em pé ao meu lado fazia um tempo.

— Ora, ora, ora, o que o destino nos reserva?

— Senhor Jacobs, não esperava vê-lo por aqui. Estava esperando respostas o dia inteiro, mas me informaram que você fugiu. – Mesmo com o susto que me deu, não deixei que percebesse. Disfarcei minha respiração acelerada.

— Querida, lamento que minha secretária não a tenha informado, tive uma reunião de emergência e levei o Greg comigo e peço mil desculpas por não ter te retornado com os relatórios, mas amanhã cedo assim que chegar eu e Gregory passaremos todo o tempo necessário para agilizar a situação. Sinto fazê-la esperar tanto.

— Agradeço a sinceridade, gostaria de poder acreditar em você. Quero ver tudo terminado o quanto antes.

— Bem, o que vejo por aqui? Parece que alguém vai se casar logo.

— Sim, e esse alguém não quer sua intromissão. Com licença, está na minha hora. – Digo levantando da cadeira e deixando o valor da conta na mesa.

Assim que me retiro, Mark vem ao meu lado até a calçada. Viro em direção a minha casa e percebo que ele não sai do meu encalço. Paro e me viro de frente a ele.

— Você não tem algo para fazer?

— Na verdade, tenho sim. Estou ajudando uma dama á entregar os convites.

— A dama não aceita companhia. Por favor, gostaria de fazer isso sozinha.

— Vejo que não está percebendo o quanto isso pode ser mais fácil com a minha ajuda. Vi que a primeira pessoa da sua lista está mais perto do que imagina. A informante trabalha aqui.

— Obrigada, prefiro... como é?

— Claro, se assim preferir, a deixarei sozinha. Boa tarde. – E saiu em direção ao carro.

A princípio fiquei bem surpresa com sua atitude. Depois percebi que poderia estar falando a verdade e larguei meu orgulho e fui a trás dele.

— Tá, tudo bem, olha só, quem é essa pessoa? – Digo antes de ele entrar no carro já com a chave na mão.

— Tudo bem, pergunte a garçonete que te atendeu.

— Não entendi.

— Olha lá. – Aponta pra cafeteria. E quando vejo quem ele apontou, fico pasma. Deixo-o de lado e vou entrando na cafeteria a passos largos.

— Carla? É você mesma? – Digo estupefata

— Quem mais seria? Pelo visto o tempo fez bem a você, ao contrário de mim.

Nossa, nunca a imaginei vê-la assim. Ela era tão linda quando estava com Daniel. Corpo esbelto, cabelos longos e negros e ondulados. Agora eu vejo a imagem de uma mulher cansada e acabada, com cabelos curtíssimos e mal penteado, corpo acima do peso, manchas na pele e unhas quebradiças, que imagino ser pelo cigarro.

— Então você trabalha aqui. Desculpe por não ter te cumprimentado antes, estava tão absorta que não te vi.

— Não esquenta, é o que a maioria faz com as garçonetes. Nosso emprego é assim, muitas pessoas nos veem, mas não nos olha, exceto por caminhoneiros que estão na seca, isso é normal.

Caramba, vê-la assim foi angustiante. Sempre achei que ela teria um futuro brilhante ou com um trabalho em que ela mandaria e não seria mandada como aqui, principalmente por ser boa com números e o máximo que a vejo calcular é a conta de cada mesa. Fico até com medo de perguntar sobre Daniel, ela parece ser agora bem amargurada.

— Olha Carla, me desculpe pelo que houve, eu, eu realmente não a imaginava vê-la por aqui. Você era tão boa na matemática, pensei já estar num banco trabalhando como investidora. No último ano você até ganhou as olimpíadas de matemática pela escola. Acredito que deve ter ganhado uma bolsa para faculdade.

— Gracinha você não tem que se desculpar por nada. Sim, eu ganhei a bolsa pra Trikson, mas infelizmente depois que seu amigo me deu um pé na bunda por causa daquela maldita guitarra eu não fui mais a mesma. Não o culpo, é claro que foram minhas escolhas. Ele parou de me procurar para pedir desculpas, quando as aulas já haviam começado na faculdade eu descobri que estava grávida. Então, quando estava com seis meses e vi que não tinha onde ficar e trabalhar, eu não ia ter um bebê em uma república atrapalhando os outros dormirem então eu larguei o primeiro semestre e voltei. Fiquei muito triste e liguei para o Daniel pedindo desculpas, só que a essas alturas ele estava começando a ter sucesso com a banda e estava se drogando muito. Quando viu minha barriga ele pirou de vez e teve um surto, disse que não era dele e tal. Nem me deu tempo para dizer algo e me expulsou. Depois que tive meu filho, eu soube que ele desapareceu. Nunca deu notícias, e a família acredita que a essas alturas ele está morto, pois devia muito dinheiro a traficantes, já se conformaram. Confesso que ele era tudo que eu tinha, era uma esperança pra mim, éramos tão bem juntos, par perfeito. Nossos orgulhos nos separaram e não quisermos mais nos ver pra não dar o braço a torcer.

Toda essa narração ela disse sem demonstrar emoção. Deu pra ver que o tempo a endureceu um pouco.

— Nossa, nunca imaginei que isso teria acontecido com vocês depois de tudo que passaram juntos. Desde então está trabalhando aqui?

— Bom, eu não trabalhei por causa do meu filho até ele ter idade pra ir à creche, minha mãe me ajudou, mas não por muito tempo para ela trabalhar. Passei um bom aperto, mas agora ele está maior e meu horário aqui dá pra deixar com minha mãe quando não está trabalhando e eu fico com ele quando ela trabalha. Entre esses intervalos ele está na escola.

— Espero poder te ajudar em alguma coisa, com sinceridade, quero muito ajudar.

— Esquece querida. É a sua vez de se dar bem. – Disse se levantando. – Bom, tenho que ir, já deu minha hora e tenho de pegá-lo na escola.

Fui pra casa desolada, não sabia que tudo isso tinha acontecido. Cortei o Daniel da minha lista e quando cheguei em casa vi Jhenna vendo televisão. Sentei ao lado dela jogando todo o corpo no sofá. Contei a história toda.

— Ih querida, então quer dizer que a coisa foi feia mesmo. Bom, será um a menos pra convidar.

— Jhenna! É sério, precisava ver a situação da Carla. Também sinto por Daniel, mas acredito que ele sumiu ou morreu desde a última vez que nos falamos ao telefone.

— Com certeza alguém pode ter cobrado uma dívida, por isso o telefone dele sumiu.

— É verdade. Ainda tenho mais alguns convites para entregar. Você me ajuda amanhã no almoço?

— Claro, cansei de ficar na piscina o dia todo. Minha pele precisa de descanso. Amanhã vou dar uma passada na casa da galerinha da aula de dança para ver como estão. Depois passo no seu trabalho.

Fui cedo para cama tão cansada que não vi o papai e mamãe. Acordei cedo no dia seguinte e desta vez Jhenna acordou logo e me deu carona como carro do papai. Ao chegar à empresa, Jhenna foi manobrar o carro e levou uma fechada de outro. Ela impaciente que só, já saiu do carro disposta a cuspir fogo até ver quem a fechou.

— Mark? Caramba, nossa, você mudou, heim. – Disse analisando de cima pra baixo quando ele saiu do carro.

— Sim, sou eu Jhenna, você continua esquisita como antes?

— Sim, e continuo não levando desaforo para casa. O que estava fazendo pra me dar uma fechada? – Jhenna devolve explodindo novamente balançando os braços aos ares.

— Me desculpe linda, eu não a vi. – Devolveu com um sorriso irônico. Sei que ele fez de propósito.

— Ah, que seja, — Digo a mim mesma — Jhenna, pode ir, obrigada pela carona.

— Tudo bem, ficaria feliz em estragar esse rostinho delicado — Segue para o carro – na próxima você não escapa. Te pego mais tarde Sam.

Jhenna saiu cantando pneu e soltei minha respiração de alívio, Jhenna nunca gostou do jeito do Mark e sempre quis ter uma oportunidade para um duelo.

— Mark, por favor, eu preciso de você e Gregory na minha mesa depois que ele chegar. – Digo em direção a entrada da empresa.

— Se assim deseja senhorita, nos terá o quanto antes. – Ai droga! Por que ele tem um sorriso irresistível?

Saio a passos largos, o quanto menos estiver perto dele, melhor pra mim. Não acredito que ele ainda consegue fazer surtir algo. Cadê toda a minha ira e mágoa que existia? Estou imune a isso. Eu amo o Robert e é ele a quem vou me casar em poucos meses. Putz! Não conversei com ele ontem. Vai ser a primeira coisa que farei quando chegar a minha sala.

— Bom dia senhorita Cooper. Deixei algumas correspondências na sua mesa.

— Correspondências? Tudo bem, obrigada Sarah.

Vi que havia muitas correspondências da matriz. Kurt me mandou um punhado de coisas para resolver. Terei muita coisa para fazer hoje. Primeiro terei que ligar pro meu Rob.

— Sam. Oi meu amor. Minha nossa, quanto tempo não nos falamos. Tenho andado muito ocupado aqui e estou louco por não te ver. Sinto muito a sua falta.

— Oi Rob, desculpa, prometi que te ligaria logo. Como está com a Andy?

— Está indo bem. Encontrei com ela ontem e até agora sem grandes coisas, ela só me informou que a fotografia teve um pequeno problema, mas está correndo atrás de outro. Vamos nos ver no almoço pra mostrar o trabalho de dois. Está tão difícil sem você.

— Desculpe Rob, quero muito voltar, ontem descobri que um dos meus convidados está dado como desaparecido ou morto, lembra-se do Daniel que te falei?

— Aquele da escola que tinha ciúmes de uma guitarra? Lembro. Caramba, então é menos um na lista.

— É verdade, fiquei mais triste ainda de encontrar a ex-namorada dele. Coitada, ela tinha tudo pra se dar bem e escolheu outro caminho ela está num perrengue.

— Nossa que barra. Bom querida, vou ter que desligar, essa semana começou bem agitada pra mim. Conseguimos mais três contratos e Adam está quase conseguindo mais um. Vai ser uma semana muito doida aqui. Heim, você tem como me avisar quando volta pra eu me programar e te buscar no aeroporto.

— Claro, não vou esquecer. Eu também tenho muita coisa pra fazer aqui também, o Kurt trouxe todo o meu trabalho pelo correio. Eu te amo muito.

— Eu também te amo.

— Olha só que lindo! Desse jeito eu fico até de coração mole. – Percebo que toda a minha conversa foi assistida pelo intrometido do Mark. – Então você está aqui para entregar os convites? Isso quer dizer que o motivo de vir até aqui foi uma desculpa. – Em seguida ele desencosta da porta e vem à minha direção e senta na cadeira.

— Quer dizer que você está pra ficar ouvindo conversa particular? – Mantive a voz firme, sem mostrar surpresa.

— Se fosse particular, a porta estaria fechada. – Rebate pegando meu peso de papel e brincando com ele.

— Não, não vim com uma desculpa qualquer, eu precisava mesmo, bom, preciso ver o que tem de errado no relatório, e espero que você já tenha a resposta agora, já que está na minha sala. – Droga, porque não tenho firmeza suficiente quando ele chega muito perto?

— Então, gostaria de convidá-la para minha sala e conversarmos sobre isso. – Diz como se não quisesse nada.

— Bom, sendo assim, espero poder me reunir com o Greg agora. – Acho que desta vez pus um pulso firme no assunto.

— Tudo bem, vou pedir para entrar em contato com ele. Vamos então? – Levanta da mesa e abre a porta com espaço para eu passar.

— Claro, vamos sim. – Levando e passo por ele onde sinto o cheiro de um perfume muito agradável. Será Ferrari Pacco Rabani?

Durante o percurso ele não pronuncia uma palavra o que me deixa confortável e desconfortável ao mesmo tempo. Penso no que ele estaria pensando ficando calado. Se falasse eu iria me irritar, ou assim que espero que seja. Isso quer dizer que ambas não me satisfazem, mas ficar calado foi uma boa escolha.

— Chegamos a minha humilde sala. – Abre a porta e como se mostrasse um mostruário de móveis.

Sinto que o sangue subiu a minha cabeça, pois senti as minhas bochechas bem quentes. Com ele pôde chegar a tal ponto? A sala dele era quase duas vezes maior que a minha. Não a minha aqui, a minha mesmo, na matriz. A mesa então... Não acredito que várias vezes me eu imaginava em uma sala com aquela mesa. A que eu vi no catálogo de uma loja famosa na televisão. Ela era toda em mármore com o tampo de vidro com detalhes em tons pretos. Ô raiva que me deu agora, como ele teve esse privilégio e eu não? Eu trabalho para o Jim desde antes dessa filial abrir, quando ainda estagiava, acho que são seis anos, droga, droga dupla! A cadeira é enorme em couro preto, de costas para uma parede que é praticamente toda em vidro e nem precisa acender a luz! Acredita nisso? Quando entro olho em volta e vejo dois quadros magníficos com molduras trabalhadas e em baixo a estante com alguns livros técnicos e ao lado uma porta que imagino ser a do banheiro. Nem eu tenho o meu próprio banheiro. Do outro lado vejo um sofá perto e também de couro e ao lado uma minigeladeira. Quem tem uma minigeladeira no escritório? Executivos têm? Jim não tem! Tudo bem, ele quase não fica lá, mas ele deveria ter. Depois de me sentar, em uma das duas cadeiras confortáveis de alumínio e acolchoada, sem perder a pose, eu elogio o escritório olhando em volta, mas sem demonstrar surpresa.

— Seu ambiente é bem agradável.

— Obrigado, eu mesmo decorei, o funcionário anterior não era muito cuidadoso. Gostaria de beber algo? Água, suco ou café?

— Estou bem.

Mark se dirige ao telefone e pede a secretária a presença de Greg, e eu imaginei um silêncio aterrorizante olhando pra ele até o Greg chegar, que felizmente ele começou puxando um assunto.

— Então, eu soube que você está para se casar logo.

— Sim, casarei em dezembro.

— Nossa, em tão pouco tempo. – Diz como se preocupasse com isso. — Deve estar muito atarefada com essas coisas de casamento, mas sei que você não veio aqui somente para verificar irregularidades, se fosse assim, eu mesmo o teria feito. Está aqui por causa de seus convidados, né?

— Não vou negar que foi uma ótima oportunidade para poder aproveitar para entregar os convites e ver meus pais, – Apesar não tê-los visto muito desde que cheguei. Não acredito que estou tendo essa conversa. — de qualquer forma a conferência do relatório tem de ser feita de qualquer jeito, se não fosse por mim seria por outra pessoa.

Ele não insistiu no assunto e agradeci internamente por logo o Greg bater na porta e entrar, nunca havia me sentido tão aliviada por não estar sozinha no mesmo ambiente que Mark. Ele me deixa desconsertada parecia que ele observava isso, sou péssima atriz.

— Com licença senhor Jacobs, desculpe a demora, trouxe os relatórios que havia pedido, era só esses? – Colocou a pilha de papéis em cima da mesa.

— Sim Greg, por favor, sente-se. Gostaríamos de averiguar o período em que estive fora de férias e te deixei a par dos meus assuntos.

— Claro, estão todos aqui. O senhor já havia olhando antes, não entendo porque revê-los.

— Não se preocupe Greg, a senhorita aqui gostaria somente de confirmar uns dados em relação a o caixa da empresa. – Desta vez eu sei que ele foi irônico em me chamar de senhorita.

— Claro, claro. Tudo bem então. Necessitam de mim para mais alguma coisa?

— Para falar a verdade, sim, eu gostaria. Pode me informar o motivo da baixa do lucro nesse mês? – Direcionei firmemente.

— Não há nada de errado nos lucros da empresa. Pode ver claramente no meu relatório. Fiquei horas fazendo-os no final do mês até tarde da noite, conferi todos, não há erros. Mark também viu quando voltou das férias e não viu algo errado. Inclusive eu já os tinha mandado para matriz antes dele chegar e ninguém de lá me disse algo de estranho.

— Viu só, senhorita Cooper. – Vira-se para mim com seu sorriso sarcástico — Não há o que se preocupar podemos verificar se for necessário.

— Mas vou conferi-los mesmo assim, eu não me importo.

- Mas você levará quase um mês para conferir todos. – Greg diz assustado.

- Sim, por isso eu terei ajuda para fazê-lo. – Não sei de quem ainda, mas não poderia deixar baixo.

- Sabe que não é qualquer pessoa que conhece e entende esses relatórios senhoria Cooper. – Como se eu não tivesse escolha Mark ironiza.

- Claro, e por isso você é quem será minha ajuda e testemunha de que meu trabalho não terá erros.

O sorriso de Mark desvaneceu do rosto assim disse que iria conferir todos um a um, eu sabia que ele acreditava que eu não estaria disposta para passar tanto tempo conferindo uma pilha que parecia interminável de papel e é claro, para não deixar baixo, pedi para que me acompanhasse para que fosse testemunha de que eu estaria certa e ele errado, só que com outras palavras, só disse que ele testemunhasse o resultado caso eu esteja errada, o que lhe daria um gostinho de jogar na minha cara que ele estava certo e que a empresa vai muito bem sob a sua supervisão. É provável que ele tenha outros planos, imediatamente ele levantou da cadeira e embora esteja bastante zangado, demonstrou-se frio.

— Senhorita Cooper, acha realmente que a minha ajuda seria de fato uma real necessidade?

— Claro que sim senhor Jacobs. – Nos chamarmos do jeito formal também demonstrava muita ironia da minha parte. – É obvio que caso o valor esteja diferente do real, não estarei a fim de ver você explodindo contra mim dizendo que eu tive um equívoco e o deixando alegre em me ver partindo com o rabo entre as pernas. Poderemos começar depois do almoço. – E isso não foi uma pergunta.

— Depois do almoço haverá uma reunião e...

— Sei perfeitamente da reunião como também o Gregory poderá ir ao seu lugar. Como você mesmo disse que ele é te ajuda quando você não está. Sei que ele estará feliz em contribuir para algo que é muito importante. Não é Gregory?

— Ahm, sim. Claro, claro que sim. Ficarei feliz em ajudar.

Isso o desarmou completamente. Não sei o que passou na cabeça dele, sei que ele ficou muito vermelho e vi uma veia pulsando fortemente no pescoço. Gregory ficou imóvel esperando a resposta e um pouco inquieto tentando controlar a ansiedade. Saí como uma rainha de sua sala com um ar de triunfo e um sorriso enorme no rosto deixando-os com uma cara de inacreditável. Ponto pra mim!


Notas finais
Sujeito a alterações.