É Natal
1 Capítulo Único - É Natal
Notas iniciais
A neve me causava arrepios a cada floco desfeito em minha pele, o vento soprava gelado e sacudia as árvores, dava vida aos imponentes pinheiros ao meu redor. As casas de madeira escura – tão distantes umas das outras, mas ao mesmo tempo tão próximas pela convivência – brilhavam na noite, competindo com a luz das agora poucas estrelas no céu. Era inverno, porém o calor do Natal aquecia a todos e o amor de cada um aquecia o coração dos outros. Mas, o que acontecia se você estivesse sozinha?
Oh, eu sabia bem o que acontecia, o que acontecia quando você se dava conta de que apesar de tudo, sempre esteve sozinha. Desde quando eles estavam aqui, desde quando estavam vivos, respirando, bem ao meu lado, carregando guloseimas para lá e para cá, arrumando a mesa e conversando frente à lareira, decorando a árvore, brincando em volta dela, indo, vindo, cantando e demonstrando seu carinho uns aos outros, um carinho que nunca pude sentir, compartilhando de uma fé que nunca consegui ter. Como era doce o Natal deles, como era doce tudo em sua vida, como se fartavam com aquilo enquanto, desesperada para alcança-los, eu engolia as sobras à seco, me segurando para não regurgitar tudo de volta e banhar sua felicidade com meu âmago, tingir de preto com minha amargura toda a luz que eu sonhava ter.
Mas eles já não estavam por aqui, se foram e eu fiquei, dessa vez sozinha por inteiro. E não poderia mesmo ser diferente, eu sempre estive à margem de tudo, beirando o abismo no qual eu acabei sendo empurrada. Mas será que não era isso o que na verdade eu queria? Não seria para isso o clamor incessante que ecoava dentro de mim? Para que perdesse o medo e me atirasse de vez àquela falésia? Bom, tendo caído, posso dizer que o medo continuou me acompanhando, tão forte quanto nunca, e que em meu interior ainda não me sinto saciada, então se era isso que antes desejava, é difícil de entender a razão. Mas acho que essa vontade era impulsionada por uma certeza que eu sempre tive, a de que quando chegasse ao fundo do poço só haveria um caminho: cavar mais um pouco.
Claro que para alguns a resposta pode ser subir, mas é porque estes ainda se sentem capazes de juntar seus destroços e construir uma escada, enquanto que de mim não sobraram nem as cinzas.
Olhei mais uma vez para baixo, não era tão alto, quatro andares até o chão, mas ainda assim meu corpo tremia, minha respiração falhava e a visão embaçava. O coração palpitando subitamente, como se na hora da morte, descobrisse a vida.
Ele não fazia isso há muito tempo, desde os tempos da garotinha tola que vendia sua alma ao primeiro Don Juan que lhe fizesse um agrado, assinava logo o contrato sem ligar para as letras miúdas e, quando o galante juiz lhe condenava por amar, corria para buscar auxilio em um travesseiro felpudo, se agarrava a ele como um criminoso se agarra a um advogado, porque o colo da mãe já havia sido requisitado por outro réu.
Mas, agora, ali, no telhado de uma igrejinha esquecida, em plena véspera de Natal, refletindo sobre todos esses meus porquês, sobre tudo que me levou até aquele exato momento, aos poucos eu parava de sentir. O medo ia desaparecendo, a angústia indo embora e de repente não havia mais nada, nenhuma vontade de desistir, nada. Apenas, talvez, a tranquilidade de ainda poder me entregar àquela última gota de esperança, esperança de que tudo aquilo fosse acabar, de que toda a dor iria embora e ninguém mais seria ferido, esperança de que todas aquelas memórias que iam e vinham, se contorcendo, gritando e remoendo em minha mente iriam se aquietar.
Sem dor, sem solidão, sem aquela tragédia me assombrando todos os dias. Só o vazio do imenso ponto de interrogação que vinha depois do fim. E o vazio da morte soava bem melhor do que a ininterrupta linha de tentativas malsucedidas que compuseram minha vida até aquele ponto. Não sentir, era esse o paraíso pelo qual eu orava, pelo qual eu clamava de joelhos em todas as noites de insônia e todos os dias cinzentos. Se eu ainda tinha um deus, ele carregava uma foice.
Respirei fundo e com aquela mesma velha prece selei meu túmulo, enquanto uma última vez me apegava a minha fé, sentindo-me pronta para a unção final.
Meia noite em ponto. É Natal.
Um puxão de ar, um último sopro de vida, um longo olhar para as luzes à minha frente e, então, somente a escuridão que sucedeu o pulo.
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