Notas iniciais
Comentem o que acharam ♥

Três dias depois, ainda não tínhamos nos resolvido. Jack não tinha encontrado os malditos papéis que estavam faltando na sua pasta e me culpava por isso – e, honestamente, eu estava cansada demais para discutir e tentar fazê-lo entender que não era culpa minha. Ao invés de brigar, nós ignorávamos a existência um do outro. Jack chegava tarde do trabalho com cheiro de cachaça e ia direto para o quarto sem me dar boa noite. Era mais fácil assim. Eu, por outro lado, me concentrava no meu trabalho e dormia no sofá para não incomodá-lo.

Na terça-feira combinei de encontrar alguns amigos num bar perto do trabalho para tomar alguma coisa e jogar conversa fora. Já não os via fazia algum tempo e seria bom relembrar os bons tempos. Fui a primeira a chegar, mas não demorou muito para que Emma aparecesse.

— Já faz muito tempo. – cantarolou.

Quando me virei, dei de cara com uma Emma bastante mudada. O seu cabelo não era mais escuro e curto, as bochechas tinham diminuído e ela definitivamente perdera alguns quilos desde a faculdade.

— Ah meu Deus... – Abri os braços para ela e trocamos um abraço apertado. Era tão bom vê-la.

Nos tempos de faculdade costumávamos sair o tempo todo, mas desde que tinha me mudado para morar com Jack era difícil sairmos juntas.

— Você está ótima. – disse com um sorriso satisfeito. – Adorei o que fez com o cabelo. – Enrolou uma mecha da minha franja no dedo e deu uma risadinha, balançando a cabeça. – Faz muito, muito tempo mesmo.

— Não lembro a última vez que te vi. – Admiti com certo pesar.

— E nem eu. – Ela puxou um banco e se sentou ao meu lado. – Como estão as coisas?

— Bem. – respondi, mas havia muita coisa entre nós para que não percebesse que algo estava errado.

— O que foi? – perguntou com as sobrancelhas franzidas.

— Jack e eu tivemos uma briga feia. – Encolhi os ombros querendo dizer que não era nada de mais.

— O que o filho da puta fez desta vez? – Sinalizou duas cervejas para o barman e apoiou o cotovelo no bar, me dando toda a sua atenção.

— Nada. Foi só uma briga.

— Tem certeza? – Assenti e ela suspirou sabendo que não arrancaria mais nada de mim por agora.

— Por que não fala sobre você? – Eu a cutuquei com o cotovelo e abri um sorriso para incentivá-la a começar. – Sei que adora falar sobre si mesma.

— Tem razão. – Ela concordou e retribuiu meu sorriso. – O que quer saber?

— Como está a Brooke? – Brooke era sua namorada desde a época do colegial. As duas eram simplesmente perfeitas juntas e era o casal em quem eu me inspirava.

— Nós terminamos. – Ela disse como se não fosse nada de mais.

— Vocês o quê?! – Não podia acreditar! – Como?!

— Brooke se mudou para Chicago. Nós nos falamos de vez em quando, sei que ela está bem. – Emma não parecia afetada.

— Ah, meu Deus... – Era difícil absorver isso.

— Não se preocupe, Maya. Nós estamos bem. – Ela agradeceu ao barman pelas cervejas e bebeu um longo gole da sua. – A decisão foi mútua e mantivemos a amizade depois do fim do relacionamento. Já faz alguns meses.

— E o Bobby? – Era o produto do amor das duas, um cachorro mimado e fofo que vivia melhor do que eu.

— Ele morreu. – disse com uma expressão meio triste.

— Ah, eu sinto muito... – O cachorro era tudo na vida da Emma. Obviamente tinha sido duro perdê-lo.

— Como está o Jack? – Até mesmo o jeito que pronunciava o nome dele era diferente, como se fosse uma palavra maldita. – Ainda vive tendo chiliques e sendo um verdadeiro pé no saco?

— Emma... – Eu a censurei, mas sabia que não adiantaria muito. Desde que vira Jack me agarrar pelo braço durante uma discussão, Emma era contra a nossa relação.

— O quê? – Arqueou as sobrancelhas. – Estou me esforçando aqui.

— Certo. – Desisti com um suspiro e bebi um gole da cerveja. – Ele está bem.

— Por que brigaram? – Não desistiria daquela história tão fácil, então.

— Ele acha que sumi com uns documentos do escritório. – Encolhi os ombros e bebi mais um gole.

— E você sumiu?

— Não.

— E disse isso pra ele?

— Sim.

— E mesmo assim ele não te deixa em paz? – Assoviou e deu uma boa olhada no bar. – Que relacionamento saudável.

— Não fale assim, Emma. Você sabe o quanto relacionamentos podem ser complicados. – Abri a boca para falar mais, mas percebi que ela não estava mais prestando atenção em mim.

Do outro lado do bar, perto da porta, Chase entrava acompanhado por um homem bonito. Acenou quando nos viu e empurrou o acompanhante na nossa direção. Chase não tinha mudado muito desde a faculdade. Usava o mesmo estilo de roupas desde o nosso último ano e ainda era muito bonito. O seu amigo, por outro lado, se destacava entre nós quatro. Era obviamente o mais velho. Enquanto Emma, Chase e eu estávamos mais próximos dos vinte, o seu amigo claramente estava mais perto dos trinta.

— Chase! – Emma pulou do banco e se atirou nos braços dele. – Não acredito que se atrasou! – Ela deu um cascudo na cabeça dele e revirou os olhos.

— É bom te ver também, Emma. – Ele esfregou a cabeça e sorriu meio sem graça.

— Por que não pedimos alguma coisa no bar? – O seu amigo sugeriu e foi o suficiente para chamar a atenção para si.

— Ah, claro. – Chase deu um tapa na própria testa como se finalmente reparasse que estava acompanhado. – Este é Scott.

— É um prazer. – Emma o cumprimentou com um beijo no rosto e eu acenei brevemente, bebendo um gole da minha cerveja.

— Eu o trouxe para caso a Maya tenha terminado com o imbecil do namorado dela. – Engasguei com a cerveja e Emma desatou a rir.

— Chase... – Comecei a dizer, mas ele deu risada e eu percebi que se tratava de uma brincadeira.

— Nós trabalhamos juntos. – Empurrou Scott com o ombro e abriu um sorriso meio sem graça. – Além disso, Scott está me emprestando o sofá por uns dias.

— Vocês brigaram de novo? – Emma perguntou como se fosse um assunto recorrente.

— Sim. – disse com um encolher de ombros.

— De quem vocês estão falando? – perguntei depois de acenar para o barman se aproximar mais uma vez.

— A namorada do Chase. – Scott foi quem respondeu, mantendo os olhos em mim por vários segundos além do necessário.

— Ah. – murmurei.

Era estranho vê-los depois de tanto tempo e perceber que eu tinha perdido tanta coisa. Não fazia ideia de que Chase agora tinha uma namorada, ou que Brooke e Emma tinham terminado, ou um monte de outras coisas. Gostaria de ter estado por perto.

— Não fique assim, Maya. – Chase me envolveu com seus braços longos e plantou um beijo no topo da minha cabeça. – Você está aqui agora.

— E não se preocupe, ok? Vai odiar Emma quase tanto quanto eu odeio o Jack. – Emma secou a sua cerveja e pediu por mais três, já que a minha ainda estava na metade.

— Isso é verdade. – Chase concordou com um riso sem alegria. – Ela é insuportável.

— E por que estão juntos? – perguntei.

— Pelo mesmo motivo que você não larga aquele comédia do seu namorado, Maya. – Emma abriu um largo sorriso satisfeito e completou. – Porque os dois são imbecis.

(...)

Horas depois, minha barriga doía por rir de mais uma das péssimas piadas de Scott. E eram mesmo péssimas, mas Chase parecia satisfeito por vê-lo interagir com a gente. E, ao contrário do que eu imaginava, ele era muito divertido. Emma foi a primeira a declarar que o adorava do fundo do coração quando sugeriu que pedíssemos um baralho ao dono do bar. Fui conquistada depois da terceira tequila quando começou a cantar Bennie and The Jets a plenos pulmões. Agora estávamos só na cerveja esperando um pouco para chamar os táxis.

— Preciso de um pouco de ar. – declarei para ninguém em especial e me levantei cambaleante. – Se eu beber mais um gole de tequila, vou cobrir todos vocês de vômito.

— Eu te acompanho. – Scott me seguiu para fora da mesa com um sorriso no rosto. – Preciso de um cigarro. – disse quando nos afastamos um pouco.

— Tudo bem. – Seguimos em direção ao lado de fora.

— Você fuma? – Ofereceu um cigarro do seu maço e o isqueiro.

— Não. – Aceitei mesmo assim, acendendo o cigarro do jeito que o vi fazer. — Como você e Chase se tornaram amigos?

— Ele é um cara legal. – disse sem mais explicações.

— Okay, Sr. Misterioso. – respondi soprando a fumaça na sua direção.

— Não é isso, é só que... – Ele riu meio sem graça e se apoiou na parede. – Eu me casei com uma mulher e ela me largou no ano passado. – pausa – Era amiga do Chase.

— Ah. – Engoli em seco meio sem graça por ter perguntado, mas ele não parecia particularmente irritado com a menção do assunto.

— É. – Levou o cigarro aos lábios e ficou em silêncio por longos segundos. – Ele é um cara legal.

— Ele é. – concordei.

— O que há de errado com o seu namorado? – O seu olhar era curioso, mas dava pra ver que respeitaria se eu escolhesse não falar sobre o assunto.

— Ele é... complicado. – respondi.

— De um jeito perigoso? – Arqueou as sobrancelhas.

— Só quando bebe. – Cruzei os braços para afastar o frio.

— Devia largá-lo. – disse.

— E você não devia se casar de novo. – Trocamos um sorriso cúmplice totalmente sem graça e ele indicou a porta.

— Vamos entrar. – Deve ter notado que eu estava com frio, já que seu cigarro ainda estava na metade.

Quando retornamos ao bar não havia sinal de Emma e Chase. Os casacos tinham sumido e a mesa estava vazia, exceto pelas garrafas de cerveja. Esperamos por quase meia hora, mas nenhum dos dois apareceu.

— Acho que está ficando tarde. – A mensagem era bem clara: não poderíamos ficar ali para sempre.

— Acho que é melhor irmos, então. – Chequei o telefone pela sétima vez só para constatar que não havia mensagem nenhuma. – Eles devem ter ido pra casa juntos.

— Provavelmente. – Scott me ofereceu um sorriso meio sem graça. – Onde você mora?

— Brooklyn Heights.

— Quer dividir um táxi? – Não fazia ideia de onde era a sua casa, mas devia ser no Brooklyn também se queria dividir um táxi. Seria bom economizar uma graninha.

— Onde você mora?

— Perto. – Ele encolheu os ombros e finalizou a sua cerveja. – Então?

— Tudo bem.

Durante o caminho, descobri que não tínhamos muito em comum. Scott adorava filmes cult, bem diferente das minhas comédias pastelão; a sua comida favorita era a italiana e eu era apaixonada pelo cachorro-quente da barraca de esquina; a sua cor favorita era cinza e eu adorava azul. No campo da música, por outro lado, tínhamos sobre o que falar. Concordávamos que Arctic Monkeys era a melhor banda de todos os tempos e que AM era o melhor álbum. Era bom conversar com alguém que entendia metade das palavras que saíam da minha boca enquanto eu tagarelava sem parar sobre a minha banda favorita.

— Bom, é aqui que eu desço. – disse quando chegamos na frente do meu apartamento. – Foi muito divertido.

— Eu também me diverti. – O seu sorriso era muito bonito.

Nos despedimos com um abraço e eu saltei do táxi com as chaves da porta na mão.

— Até outro dia, Scott. – Acenei mais uma vez antes de entrar no prédio.

Os lances de escada do prédio deixaram minhas pernas queimando pelo esforço. Destranquei a porta do apartamento e guardei as coisas no closet de entrada. A minha cabeça ainda estava girando por causa da bebida e teria que trabalhar no escritório mais uma vez amanhã, então não podia acabar de ressaca. Fui à cozinha para beber um pouco de água e aproveitei para lavar o rosto. Seria um dia e tanto amanhã. O melhor que podia fazer agora seria dormir um pouco.

— Acho que você finalmente chegou, então. – Ouvi a voz de Jack assim que coloquei o pé na entrada da sala.

Estava sentado na poltrona de costas para mim, mas se levantou quando ouviu o som dos meus passos em direção ao quarto. Era tarde e estava cansada demais para brigar.

— Será que podemos ter essa discussão amanhã? – Praticamente implorei, mas não pareceu fazer diferença alguma para ele.

— Sabe que horas são?

— Onze e meia? – Não fazia mesmo ideia.

— Uma e dez. – Jack apontou para o relógio na parede e fixou o olhar afiado em mim. – Tem noção do quão preocupado eu fiquei?

— Preocupado? – Arqueei as sobrancelhas e dei uma risada seca. – Você não me dirigiu a palavra nos últimos três dias, Jackson. Acha que tem o direito de falar sobre preocupação?

— Eu me preocupo com você, Maya. – Cerrou as mãos em punhos e me encarou com aquela sua expressão irritadinha.

Estava farta daquilo. Dele. Ah, meu Deus... Estava tão farta dele.

— Estou cansada, Jack. – Dei as costas e caminhei em direção ao quarto mais uma vez.

— Não pode sair assim! – Agarrou meu braço com força e me puxou de volta para o lugar. – Com quem você estava?

— Emma. – respondi encarando a sua mão em meu braço. – Você está me machucando.

— Aquela vadia que vive falando mal de mim? – E riu. – Então é por isso que está desse jeito.

— Ela não é uma vadia. – Sacudi o braço para sinalizar que ainda estava me segurando, mas não afrouxou o aperto. – Jack, você está me machucando.

— Não quero que saia com ela, Maya. – Ele finalmente largou o meu braço. – Isso não é bom pra gente.

— Você não é bom pra gente. – rebati antes que pudesse pensar melhor no que estava falando.

— O quê? – Parecia verdadeiramente surpreso.

— Estou cansada de você. Estou tão cansada de você, Jack. Estou cansada das suas crises, do seu comportamento de merda, eu só... não aguento mais.

— Está terminando comigo?

— Estou dizendo que você é um merda.

Nos encaramos pelo que pareceu uma eternidade, então Jack soltou um suspiro longo e se afastou. Parecia transtornado.

— Acho que podemos falar sobre isso amanhã. – falou com uma voz trêmula.

— Durma na sala. – Era uma ordem.

Arrastei o meu traseiro cansado até o quarto e dormi quase no mesmo instante em que caí na cama.