É Assim que Acaba
1 Capítulo 1
Quando vi Jack entornar sua terceira dose, soube que seria uma noite muito, muito longa. Enchi o meu copo com cerveja mais uma vez e me recostei ao muro, esperando até que percebesse a minha irritação e viesse implorar por desculpas. Não demorou muito.
— Querida! – Pelo jeito que se movia e falava, tequila definitivamente não era a única coisa que tinha bebido naquela noite. – Como você está?
— Você está bebendo. – disse enquanto avaliava o seu estado. – De novo.
— Só um pouquinho. – Gesticulou com as mãos e riu, mas não achei engraçado. Não era engraçado. – Ah, qual é...
— Você está bebendo. – repeti.
— Estamos numa festa, Maya! – Abriu os braços como se indicasse tudo ao nosso redor.
— Você está bebendo. – disse mais uma vez.
— Não vamos brigar por causa disso, querida. – Tocou o meu rosto com as pontas dos dedos e abriu um sorriso, o tipo de sorriso que dava quando queria algo de mim. – Só desta vez, ok?
— Com você é sempre “só desta vez”. – bufei irritada.
— Eu juro. – Roçou o nariz na curva do meu pescoço e pude sentir seu sorriso contra a minha pele. – Eu juro, Maya. – As suas mãos alcançaram meus quadris e ele me puxou para mais perto, reduzindo a distância entre nossos corpos.
— Só desta vez. – repeti mecanicamente.
— Me desculpa. – Parecia estar sendo sincero desta vez.
— Jack... – Mantive o olhar distante e fixo na outra ponta do quintal.
— Por favor. – O seu tom de súplica me partiu o coração. E pronto. Estava tudo perdoado.
— Não me obrigue a te colocar pra fora de casa, Jack. – Praticamente implorei. – Não exagere, ok?
— Tudo bem. – Beijou o canto da minha boca e sorriu para mim com aqueles seus dentes perfeitos e o sorriso impecável. Era tão bonito. Às vezes era difícil lembrar o quanto eu era sortuda por tê-lo.
— Vá se divertir com seus amigos. – disse com um tom de lamento, indicando o bando de imbecis com quem meu namorado andava o tempo todo.
— Você é o máximo. – Os seus lábios encontraram os meus e depois ele foi embora, me deixando sozinha mais uma vez.
Sempre depois de uma festa, era eu a responsável por arrastar o traseiro bêbado de Jack de volta para casa. Era eu quem o enfiava dentro de um táxi, carregava o seu corpo imenso e pesado pelas escadas do nosso prédio, trocava as suas roupas, deitava-o de lado e garantia que não fosse se afogar no próprio vômito durante o sono. Nenhum dos seus amigos nunca fez nada disso. Era eu. Sempre eu. E era por isso que quando o vi voltar a beber com aquele bando de idiotas, não pude evitar que meus olhos ficassem marejados.
Eles o devolveram para mim horas depois com a camisa suja de vômito e os olhos vidrados por causa da bebida. Mal conseguia se manter de pé, quanto mais me acompanhar para casa sem ajuda. E eu implorei que alguém pelo menos me ajudasse a colocá-lo no táxi, mas não tive nenhum voluntário.
A volta para casa pareceu uma eternidade e precisei ficar segurando a sua cabeça para evitar que vomitasse no banco de trás do táxi. O motorista, um senhor gentil, me ajudou a arrastá-lo para cima e a colocá-lo na cama. Na hora de pagar, dei uma gorjeta generosa pelo auxílio. Depois de trancar a porta da frente e conferir se as janelas estavam fechadas, fui olhar Jack no quarto. Roncava alto mesmo de lado e já tinha se livrado dos lençóis que usei para cobri-lo.
O lance com Jack era que nenhum dia era bom. Ou um dia era excelente, ou era péssimo. Não existiam dias bons. E às vezes, principalmente em momentos como agora, eu o odiava por isso. Eu o odiava porque muitas vezes os dias péssimos superavam os dias excelentes e eu era obrigada a viver amarrada a alguém que não reconhecia e não amava.
Quando o seu ronco se tornou mais pesado e os suspiros mais leves, soube que tinha pegado no sono de verdade. Recolhi minhas coisas no quarto e me arrastei até o sofá. Assistir a um pouco de TV me ajudaria a pegar no sono e era uma bela de uma desculpa para não dividir a cama com Jack. Mesmo assim, ainda era capaz de ouvir seus roncos de onde estava.
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