Áurea

3 Capítulo 3


No dia seguinte, Anna e Kristoff (ah, o Sven também) estavam a caminho do Vale do Trolls para levar a gaiola maldita, na esperança de ao menos terem uma noção de com que tipo de animal estavam lidando.

— Não devem ser animais.- Observou Kristoff-. Animais tem senso de sobrevivência e não de suicídio. Não faria sentido correrem para a neve.

— Insetos imortais, sapos engolindo coisas gigantescas para o corpo deles e ainda se transformando em bolas!- Rebateu Anna- Com certeza não vai ser pela lógica que vamos resolver isso.

— Mas talvez seja pela magia. Isso pode muito bem ser algum feitiço.

—Ou pior.- Anna pareceu um tanto apreensiva- Uma maldição.

Depois disso os dois prosseguiram calados. Por parte de Anna, isso se devia por estar demasiadamente concentrada nos próprios pensamentos, o que era de gerar estranheza e até espanto, uma vez que sempre havia sido da sua natureza verbalizar qualquer coisa lhe atravessava a cabeça. Kristoff havia notado a anomalia de sua conduta, mas julgou isso ser de tamanha gravidade, que o melhor seria deixar quieto. E ele por si só não era muito bom com as palavras, em certas ocasiões. Aliás ultimamente, em momento algum ele parecia saber como se expressar. Não fosse o tumulto dos últimos dias, Anna já o teria notado há tempos. Mas Sven estava determinado a lhe mostrar.

— Para Sven!- Disse Kristoff que não conseguia mais ignorar as cutucadas cada vez mais insistentes da rena.

— O que ele tem?

— Nada.- Ele tentava esconder o rosto de Sven.- Só frescura mesmo.

Anna afastou os dois e foi lá falar com Sven.

—O que você está fazendo?- Kristoff estava constrangido e contrariado. Talvez mais constrangido que contrariado.

—Psiu, Kristoff! Eu estou falando com o Sven.

— Tudo bem- Não estava nada bem- Você não vai entender nada mesmo.

Ignorando as implicâncias do namorado Anna ouviu atentamente todas as mímicas e relinchos(ou seja lá o que as renas fazem).

—Ele me disse que você tem uma coisa para me falar.

Ele corou imediatamente, o vermelho do seu rosto piorou mais ainda com aqueles lindos olhos azuis o encarando.

—Fala logo, Kristoff!- Ela se impacientou

– Er....

—O Kristoff voltou!- Gritou a mãe-troll do rapaz.

—Graças Deus!- Ele suspirou muito aliviado- Já chegamos.

— E ele trouxe a minha norinha!- A troll já foi para cima de Anna- Ah, querida! Seja bem- vinda a família....

E tão logo, todos os outros trolls vieram parabenizar a moça. Ela, que amava uma farra, estava adorando aquilo mas não fazia a mínima ideia do que eles estavam falando. Kristoff a afastou deles e disse que não era por conta “disso” que estavam ali.

—Disso o que?- Perguntou Anna.

—Ainda não falou com ela?!- Os trolls gritaram em uníssono.

—Como não falou com ela!!!- A mãe gritou alarmada, como se aquilo fosse o cúmulo dos desastres- As estrelas Kristoff! As estrelas!...

Mas então o Pabbie pareceu e puderam finalmente tratar do que interessava.

—Isso aqui é mineral muito antigo.- Disse um dos trolls que era especialista em paleologia- Coisa de no mínimo 200 anos atrás.

E enquanto os outros trolls examinavam as esferas, Pabbie só as olhava enigmaticamente até se apossar de uma.

—Acha que é algum feitiço?- Indagou a moça.

—Mais que isso.- Ele mostrou a esfera, que em sua mão se converteu-se em água cristalina, escorrendo até mostrar grãos de terra onde estavam os insetos.- Isso foi criado do mesmo modo que Olaf.

Aquilo só poderia significar uma coisa: alguém como Elsa estava por perto.

***

Dentro do castelo, os convidados se divertiam com as apresentações locais e outros frivolidades que justificam a exclusiva função que eles tinham de só parasitar e ocupar espaço. Enquanto isso, a reunião acontecia ao ar livre, para ficar longe de qualquer inconveniente da cozinha. No entanto, nem por isso o infortúnio foi evitado, muito embora este fosse de natureza bem diferente, mas não menos complicada.

Estava tudo indo aparentemente bem, com eles debatendo sobre os mais variados assuntos, e “eles” significava Aldos e Dmitri já que os demais se limitavam a concordar ou discordar de algum dos dois. Todavia, tão repentino como um relâmpago em dia ensolarado, uma briga tempestiva pareceu simplesmente explodir naquela mesa. O pretexto, ninguém lembrava ou ao menos sabia. A acalorada discursão não teve começo e aparentava também não ter fim. E suas proporções foram de uma magnitude que conseguiram alcançar quem estava na longínqua extremidade oposta.

Elsa olhava para os outros como se perguntasse se alguém teria a decência de tomar alguma providência. E a resposta era não. Aquelas ovelhinhas não tinham voz nem para tomar a palavra quem diria para intervir em uma briga.

—Se está tão determinado a tomar as decisões sozinho!- Lorde Dmitri salivava o ódio(Ugh!)- Vá! Assine! Esse conselho só deve servir para exaltar a sua falta de bom-senso! Mas saiba que nada na Terra está complacente com isso!

Nesse exato instante uma brisa suave soprou os papeis para o rumo do Rei de Blumon.

—Ora, ora, ora!- Ele sorriu sarcástico. Era impressionante como o veneno do recalque escorria naquela mesa- Parece que a próprio natureza veio tomar meu partido!

—Não seja ridículo...- O vento soprou os papeis para Dmitri- Bem... Vejo que ele mudou de ideia. Parece que o absurdo de seu julgamento está afetando o equilíbrio do ecossistema.

E vento mudou de novo

—Você dizia?

Enquanto eles tinham aquela estapafúrdia discursão sobre de que lado o vento estava, do outro lado da mesa acontecia algo ainda mais esdrúxulo. Elsa, a única não absorvida na balburdia do conflito, percebeu que as canetas-penas começaram a girar no ar. Com suave sutileza mas preocupante insistência. E antes que alguém cometesse a infelicidade de olhar para baixo, ela foi congelado cada uma delas sob a discreta regência de seu dedo indicador.

—Viu!- Aldos mostrando que o vento concordava com ele.

—Ha!- O vento virou de novo- Desista Aldos! Eu sou o senhor da razão e essa brisa é a materialização dela.

Então veio uma forte rajada de ar levando todos os papéis. Quando ela passou, só havia na mesa uma linha reta formada pelas penas congeladas, apontando justamente para Elsa. Todos os olhares se voltaram para ela em constrangedor silêncio, que se acentuou pelo fato dela ainda está com o dedo suspeitamente posicionado. Aldos saltou uma enfática gargalhada, os membros-ovelhas obviamente o seguiram.

—Senhor da razão, é? Hahahah...- Ele praticamente se afogava nos próprios risos- Eu não... hahaha!...Acredito que disse isso.

Dmitri não sabia nem mais que cor seu rosto ficava de tão ultrajado.

—Então, jovem Rainha.- Parece que sua revolta havia encontrado um outro alvo.- Por que não nos esclarece a sua opinião sobre o assunto?

Que assunto poderia ter havido naquele turbilhão incompreensível de vociferações? Elsa ajeitou sua postura, talvez a única coisa que podia consertar naquela embaraçosa situação. Os outros membros a olharam com tristonha empatia , Aldos fez menção de interceder mas ela foi mais rápida:

—Discordo de ambos.- Fez uma pausa em respeito aos olhares de surpresa de ambos, e de perplexidade dos muitos- Vossa Majestade sugere incluir países de economia menor nas parcerias comercias, para lhes prestar auxílio. Uma razão nobre, mas com um método estéril, pois nunca haverá possibilidade de um retorno e brevemente tais países se endividariam.- Dmitri sorriu sarcástico, prestes a pronunciar um “Eu não disse?”, mas Elsa o cortou –Por outro lado, a posição de Lorde Dmitri em só manter relações com nações ricas é superficial e limitada. Uma vez que se algum deles se envolver em uma guerra toda a Aliança será obrigada a aderir e no final das contas será o próprio conselho a sair desestabilizado. Ou o que é pior, dependendo de qualquer outro Estado menos desafortunado. Então o melhor a se fazer seria usar o dinheiro dos países grandes para financiar a industrialização dos pequenos. Assim todos se beneficiariam e a longo prazo.

Um silêncio carregado da perplexidade e admiração tomou conta do recinto.

—Excelente.- Disse Aldos admirado.

—Concordo...em parte.- Até Dmitri parecia satisfeito com o que ouvira- Mas...Reconheço que foi um argumento muito bem colocado.....

—Meu Deus! Dmitri von Risthofen concordando com alguém?!- Aldos falava genuinamente espantado.- Não vejo algo tão surpreendente desde o presente de Lastero!

— Sensacionalismo seu.- Rebateu Dmitri, sem se sentir ofendido mas também sem abrir mão de sua natural soberba- Sou um homem racional o suficiente para reconhecer uma opinião inteligente e sensato o bastante para ignorar uma tola. Como era o caso dessa superstição provinciana que vocês tinham com aquele país.

—Tão provinciana que até o senhor partilhava dela. Aliás...Não. Melhor nem comentar qual foi a sua reação quando...

— Nunca acreditei nisso!- Explodiu Dmitri em um misto de cólera e vergonha. –A única maldição que Lastero tinha era de não ter nada para exportar!

—Impopularidade.- Corrigiu Aldos- Impopularidade e a más interpretações. Eram esses os males deles.

—Que não ocorreriam se fossem mais abertos.

— E como poderiam? Se segundo você eles não valiam nada. Ou está novamente em contradição?

—Nunca estive em contradição! Agora vejamos você: Então por que eles vieram a festa?

— Em sinal de boa vontade.

—Em sinal de mendicância!

E as nuvens de discórdia começavam, de novo, a nubla-los. Até que a ventania veio interromper a precipitação da tempestade.

—Tem razão Majestade- Aldos voltou-se para Elsa, que não tinha nada a ver com aquilo- Aqui não é lugar- E foi se retirando

— Ao menos alguém aqui tem razão.- Dmitri o acompanhou.

Os demais lançaram olhares de gratidão a jovem monarca antes de se juntarem a eles. E a pobre garota ficou lá, embaraçada, tendo de assumir o ato sem nem ter a chance de dizer um “não foi eu”.

Findada a reunião os membros da Aliança foram fazer uma lanchinho regado a chá, café e, claro, muito chocolate. Mas Elsa se mantinha a parte do deleite gastronômico, e de tudo que estava ali, só a trajetória de um papel sendo carregado pelo vento lhe prendia a atenção.

—Uma excelente estréia.- Aldos a trouxe de volta a realidade.- Com certeza marcou presença, Digníssima.- Ele riu-se- E como!

—Quanto ao que houve....eu...- Elsa nem sabia como atestar sua inocência.

—Era só um gracejo, Majestade. Convenhamos que aquela brisa era morna demais para ser sua.- Ele lhe deu uma cúmplice piscadela- Mas o importante foi o seu desempenho. Seus pais certamente ficariam orgulhosos.

Ela apenas sorriu timidamente.

— E fico feliz que tenha mantido relações com Lastero- Ele mostrou a xícara de chocolate quente com o brasão lasteriano.

—Claro.- Disse como se não tivesse descoberto quase ontem que Lastero não era marca de chocolate- O chocolate deles é o melhor do continente(nisso ela estava certa).

—Que bom que agora são famosos por isso. Antes ter fama de marca de chocolate do que de reino amaldiçoado...

— Amaldiçoado?- A pergunta de Elsa saiu mais interessada, e suspeita, do que gostaria.

—Seu pai não lhe contou?

—Não.

— Como ele pode ter lhe privado de uma história dessas?- A simples lembrança já fez um riso de Aldos escapar- Mas, já que é assim. Permita- me fazer as vezes....

Era o aniversário do seu pai, e apesar de toda a relevância de ser a data do nascimento do Rei, esse evento tal qual todos os anteriores não precisava passar de um festejo local. Mas seu pai queria algo diferente e inesquecível, a começar pela lista de convidados, que chegou a proporções globais. Não exagero, ele mandou chamar todo o mundo, mesmo! E vieram convidados, penetras, as crianças dos convidados e até os bichos dos convidados! Acho que em termos de lotação estava uma ou duas pessoas pior do que hoje.

Mas logo a razão da celebração seria esquecida para dar lugar a outra atração: Lastero. Ninguém sabia muita coisa, aliás ninguém sabia era nada sobre aquele reino. Eles eram isolados e reclusos, e tais características eram mais do que suficientes para gerar as mais mirabolantes especulações, e como não aparecia que os defendessem o imaginário alheio corria solto. Havia quem dissesse que lá era um covil de feiticeiros, santuário de satanistas ou o mais assustador: que eram democratas! E também tinha até quem desconfiasse da existência deles, Dmitri era adepto dessa última facção. Isso até anunciarem a chegada da Rainha imaginária. E foi só olhos subirem em sua direção para todas as teorias caírem por terra. Ela era normal! Talvez um tanto jovem demais para já ser coroada, ela não devia ter mais do que 15 anos, mas ainda assim tão comum quanto qualquer um naquele salão.

Obviamente, seus pais tudo fizeram para recebe-la bem e deixa-la a vontade, mas os demais estavam empenhados em conseguir o contrário. Veja só, Elsa, é mais fácil destruir um império do que uma crença, e aquelas pessoas eram simplesmente fanáticas! Ficavam no mais desconcertante silêncio só para analisa-la e estudar cada um dos seus gestos à procura de qualquer sinal que comprovassem a superstição. E a chance de tal sinal aparecer estava nos presentes. Quando chegou a vez de abrir o pacote lasteriano, um gigantesco livro saiu de lá. Eu me juntei aos outros na suposição de que devia ser alguma coisa sobre magia, sabe como seu pai desde pequeno era maravilhado por essas coisas. Nem imagina o quanto foi difícil para ele achar aquele tal do Livro dos Trolls. Mas enfim, quando ele foi abri-lo, o livro despencou. E uma coisa pesada como aquela produziu tamanho estrondo que fez as damas tremerem e Dmitri gritar o mais agudo (e afeminado) dos sons. Passado o susto, e a vergonha alheia, seu pai pegou o livro e sorriu, deixando a vistas de todos o título: 1.001 formas de trabalhar com chocolate. E aquele inusitado presente transformou-se em uma descontraída brincadeira e foi assim que aquela jovem conquistou a aceitação e simpatia de todos, com a exceção de Dmitri. Posteriormente o seu pai firmaria uma aliança com o reino dela, mesmo sabendo que eles não tinham como retribuir.

E consequentemente, as superstições e boatos foram caindo no esquecimento, ainda mais porque agora eles haviam visto uma garota cuja a única anomalia era a tenra idade e uns exóticos olhos dourados.

Assim que Aldos terminou sua narrativa viu, que esta não tinha dado o resultado esperando, acentuando ainda mais a expressão de seriedade no rosto da jovem Rainha.

—Não te aflijas, Elsa.- Disse com uma ternura paternal- Isso nunca acontecerá contigo e nem com o seu reino.

— Eu sei.- Ela tentou o reconfortar- Só estou... um tanto dispersa hoje.

Ao longe ouviram o anúncio do início do Rodízio de Ensopados.

— Talvez isso a possa animar.- E Aldos se ofereceu para guia-la.

Não, não animaria. Quando Elsa empacava com alguma coisa muito dificilmente ela conseguia ser distraída, e única capaz de tal proeza estava bem longe dali. Mas como o Rei de Blumon estava se preocupando tanto com o ânimo da moça, ela se sentiu na obrigação de participar ao menos da primeira rodada. O pequeno evento culinário se organizava assim: os participantes formavam um circulo e na frente de cada um ficava uma mesinha ambulante com um caldeirão de ensopado, em um primeiro momento eles se vedavam e recebiam as instruções sobre quando podiam apenas cheirar e por fim degustar. Depois rodavam os ensopados e se repetia o processo.

Mesmo depois de sentir o aroma, Elsa continuou sem saber o que era, mas a julgar pelo cheiro só podia ser algo podre. Como se não bastasse poluir seu nariz com aquele fedor, ainda teria que intoxicar seu paladar com aquilo, e isso se a aparência não lhe estragasse as vistas também. Mas ela parecia está imune a desgostos, a situação já estava tão mal que nem valia a pena se estressar. Assim que foi dada a ordem, foi a primeira a tirar a venda e já encarar a gororoba, mas para sua surpresa, ou súbito espanto, não tinha comida para olhar. Só havia um rapaz moreno e descamisado em um recolhido pior do que o de um contorcionista, a olhando com pedantes olhos amarelos.

— Que cara foi essa?- Aldos riu da reação da reação dela. Assim que ouviu sua voz Elsa fechou o caldeirão imediatamente.

— Com essa carniça, você ainda estranha a expressão dela?- Disse Dmitri que estava do outro lado dela.- Parece até que tem um corpo aí dentro. Por Deus, quem tocaria nisso?

—Você. Quando rodarmos as mesas o ensopado dela vai parar na sua frente.

Elsa quase teve um infarto, mas antes que esse se consumasse, já havia sido dada ordem para virarem as mesas e lá ficou Enzo defronte a Dmitri. Kai, o empregado que coordenava o evento(assim como quase tudo naquele castelo) pediu para que colocassem as vendas.

—Mãos para atrás por favor. Agora os senhores e a senhorita vão...- Ele olha com estranheza sua Rainha afastando o caldeirão da frente de Lorde Dmitri. Ela gesticula para ele continuar- Vão continuar quietos. Não vão tirar a veda por nada.- O caldeirão cai, fazendo o maior estrondo- Ignorem qualquer ruído! Mantenham a posição. Isso, continuem parados...

E ela, finalmente, consegue sair na surdina com o caldeirão.

***

Estavam em um lugar inóspito e mal-iluminado o suficiente para tirar uma pessoa de um caldeirão sem atrair olhares alheios. Elsa havia congelado o ferro ao um nível tão insuportável a ponto de racha-lo. O vapor subiu e ele saiu.

—Ai...Uau! Ufa!-Enzo saiu de lá tal qual um agoniado filhote de galinha do ovo- Eu ainda sinto minhas pernas! Depois de ficar horas preso nessa coisa, achei que nem as tinha mais.

Ele ficou tão feliz por está liberto que pareceu se esquecer da situação. Como se fosse uma infeliz eventualidade se prender em uma caldeirão de sopa.

—Mas como é que você foi parar....- Ela olhou para aquele caldeirão que não tinha o menor cabimento de uma pessoa sequer entrar, quem dirá se entocar lá dentro- Aí?

Enzo já havia enchido os pulmões para dar sua longa explicação a cerca de sua proeza, quando ouviram vozes circularem acima deles. Aquele lugar estreito e desabitado era uma espécie de beco, ou melhor um aqueduto, na verdade parecia um pouco dos dois. Mas fosse lá o que fosse, a certeza era que não poderiam ficar lá em baixo dos bueiros, pois ainda que as trevas encobrissem sua presença, os ruídos os entregaria.

Vencido o umbral do beco/aqueduto foram seguindo um ínfimo rastro de luz. Elsa tomava a dianteira, talvez não soubesse de cor o caminho mas havia na firmeza dos seus passos a certeza de onde queria chegar. Até que o fraco feixe de luz tornou-se em uma explosão de claridade. Estavam no subsolo do castelo. O local de assemelhava a uma espécie de gruta, deixando a luz entrar apenas por um lado, a água do mar abastecia as inúmeras poças de mármore que cobriam o chão e o ar era perfumado pelo agradável aroma de sabão e lavanda.

—Que lugar é esse?— Enzo estava fascinado com a aquele mosaico de aromas, a poesia em pedra que era arquitetura e água cristalina que corria rasteira pelas...

—A lavanderia.— Disse matando a magia do momento e prosseguindo a caminhada.

O rapaz também prosseguiu e continuou em seu transe contemplativo, mesmo depois daquela resposta decepcionante, ele não sabia o que era uma lavanderia mesmo. Mas quando a sua guia sumiu, seus devaneios também desapareceram.

—Bem, como estamos sem o ar quente do verão, dificilmente mais alguém virá aqui.

Ele ouvia a voz dela mas seus olhos não faziam ideia de onde ela estivesse. Ela só podia está por ali, em algum lugar no meio daquelas paredes curvilíneas que se enfileiravam e resultavam em uma desconcertante ilusão óptica, que escondiam roupas, pessoas e até lugares inteiros.

—A-ainda bem.— Ele tentava acha-la naquele labirinto de rochas e poças.

—É, e você ainda poderá se trocar, tomar um banho.- Ela frisou bem essa última parte para lembra-lo da inhaca que ele estava emanando, apesar desta ter sido suavizada pelo cheiro local—Mesmo que tenha pouca roupa, acho que deve ter por aqui pelo menos uma camisa...

—Camisa! —Ele se perturbou como um gato perante uma banheira.—Não, não preciso disso, não .

E foi repetindo essa sentença em todos os cantos que passava, para ter certeza de que a mensagem seria recebida.

—Claro que precisa— Elsa surgiu atrás dele já com a veste nas mãos.

Ela fez uma grosseira, e contraditoriamente precisa, observação, com um rápido subir e descer de olhos. Difícil, era saber o que ele não precisava. Estava ensebado da cabeça aos pés, com o caldo seco se esfarelando em sua pele, melecando seus cabelos e encardindo suas escuras(e até em bom estado) calças. Mesmo em meio a esse augusto conjunto de desfavoráveis condições ela resolveu apenas dizer:

—Você está só de calças.

— É, é, eu sei. Mas é que...é que...Eu não consigo usar.

—As camisas?

—É! Veja. — Ele vestiu a blusa e ficou de costas para ela.

Nada aconteceu.

—O que...

—Só um instante... Começou! Primeiro vem uma coceira horrível.

— Claro! Você vestiu a roupa sujo...

— Não é isso. É que...

Ele nem precisou continuar. O tecido da roupa foi se escurecendo até queimar por completo.

—Não é a camisa.—Observou Elsa—É o seu suor. A sua pele fica tão quente que evapora antes dele escorrer.

— Também acontece quando eu durmo.

— Então deve ter sido por isso que derreteu o teto daquela vez.— As peças estavam se encaixando— Você consegue fazer isso de novo?

— A fumaça? Sim— Ele se jogou na poça mais próxima, levantando aquele baforada de vapor.

—Não assim. Por conta própria.

— E o que é uma conta própria?— Ele a lembrou que era uma pessoa que tinha se esquecido de tudo.

— Fazer isso sozinho ao invés de provocar....—Ela viu que ainda não se tinha feito compreender. Então tentou algo mais didático.— Fazer algo, mais ou menos assim— Estendeu sua mão e flocos esvoaçantes brotaram de lá.— Consegue?

—Bem... Desse jeito, sozinho, sozinho, eu não consigo. Até que tentei, mas...— Ele olhou para si próprio.

—Não deu muito certo?— Perguntou com uma gentil sinceridade, mesmo que já sabendo a resposta.

— E talvez nunca dê. Todo aqui é tão facilmente “sapecável”! As cortinas, os tapetes, as pessoas.

Ele fez menção de reclamar mais, porém sua boca se fechou e de seu inesperado silêncio surgiu uma pontada de chateação, melancolia e até decepção. Ao ver essas destoantes emoções num rosto que até então só era habitado pelo gracejo e alegria, a garota sentiu algo maior do que a pena, a empatia.

—Talvez ainda não seja possível responder todas as perguntas a seu respeito, Enzo.—Com um único movimento ela congelou todo o recinto.— Mas podemos tentar.

***

Em um canto curiosamente desabitado do pátio real, um pequeno corpo jazia imóvel no chão, escondido que qualquer assistência. Até passos impacientes se aproximarem dele.

—Mas o que diabos você está fazendo Alexsei?! Eu te procurando por toda a parte e você brincando no chão!- Bradou um rapaz patologicamente estressado.

—Eu não brinco.- Falou esbanjando uma maturidade que só um molecote de 14 anos podia dissimular- Eu estou...

—Não interessa!

—Então por que perguntou?

—E eu perguntei?! Ah, é. Perguntei.- Agora sua voz estava no modo normal- Mas mudando de assunto, eu tinha vindo avisar que a reunião acabou.

—Já?

—É, menino! O que eu acabei de falar?! E também porque a Rainha ficou indisposta. Enfim, temos que ir logo, já que se seu pai não estiver brigando com o meu, então deve está te procurando.

—Mas eu tenho que achar o boneco...

—E como é que você perde um boneco em um bueiro que nem tem como colocar um dedo?...

—Não é “um” boneco! É “o” boneco. O boneco de neve falante!

—É mesmo, falaram que tinha uns bichos desses por aqui.

—Não só tem como eu o vi! Ele estava deslizando pelos telhados, eu o segui e ele desapareceu. Mas acho que finalmente encontrei seu paradeiro. Veja como aqui está mais frio.

—Não está, não.—Ele já estava em cima do bueiro.

—Dessa altura não tem como.

Então o rapaz quilométrico e inusitado despencou de um jeito tão brusco que fez o chão tremer e a grade do bueiro entortar. Alexsei já estava com a orelha colada na grade

—E se a gente ficar bem quieto dá até para ouvir...Um floco de neve! Caramba! Eu sabia, sabia que ele estava aqui!

Agora eram os olhos que ele estava tentando espremer através das grades, isso até seu corpulento amigo chegar e abrir as grades(isso mesmo, e com os dedos!), fazendo um buraco do tamanho de uma cabeça. Dessa “cratera” surgiu um grito, que depois se transformou em uma risada e então voltou a ser grito, até chegar num ponto onde os ecos estavam tão misturados que não havia como saber que raio de som era aquele.

E uma fina rajada de neve saiu do grotesco orifício.

***

Berros e risos de uma única voz se misturavam a neve agitada e esvoaçante.

—Agora eu estou pronto!

Ele repetiu tanto essa frase quanto a empolgação. E pela milésima vez tomaria outra surra de gelo e neve. Elsa já estava até sentada, e entediada, no topo de seu elevado assento, que havia sido feito com tal altura por motivos estratégicos, mas que agora só servia para que ela ministrasse os golpes com o mínimo de esforço possível. O progresso era artigo de luxo na miséria em que se encontrava aquele treinamento. Por mais que ela o irritasse com aqueles ataques desleais e apelativos, nenhuma alteração de seu humor parecia fazer efeito nos seus poderes. Tudo aquilo pareceu uma perda de tempo para ela e uma tortura para ele, chegada a essa conclusão disse:

—É melhor darmos um intervalo.

—Mas...—Ele teve que parar para respirar, evidentemente estava exausto—Justo agora...Que eu estou quase lá. Vamos....mais... um pouco.— E ele rolou por detrás daquele montinho de neve.

—Não, Enzo. Já está decidido. Vamos parar por aqui.—Disse enquanto desfazia seu altíssimo assento.

Quando ela chegou ao chão, varreu aqueles montes de neve deixamos pela batalha

—Enzo?

Parecia que ele havia sumido, não tinha mais nenhuma neve para esconde-lo. Elsa foi ao corredor das paredes inclinadas, que agora haviam virado espelhos cristalizados por conta do congelamento. O único reflexo por ali, era o seu , e não havia mais nenhum sinal de qualquer outra presença. Até ela ouvir:

— Pensa rápido!

Ela se virou e viu Enzo sair de uma das paredes. Deslizando, ou melhor, escorregando desastrosamente e dando de cara com a parede oposta.

—Você está bem?

—Só foi um erro de cálculo— Ele, que estava estrupiadamente caído, se virou de bruços e conseguiu vê-la— Ué! Você estava aí? Eu errei feio, então.

Ele fincou os dedos quentes na superfície gélida do chão, se impulsionando para deslizar na direção de Elsa. E ainda assim sua torpe trajetória o fez parar há metros de seu alvo. Mas tentou de novo.

—O que está fazendo?— Ela perguntou enquanto desviava com extrema facilidade do corpo errante do rapaz. Não tinha a mínima noção do que aquela esquisitice significava.

—É a minha vez de te derrubar.— E ele se lançava de novo, deixando o chão cada vez mais molhado e escorregadio, dificultando ainda mais a sua “retidão”.

—Mas eu falei para darmos um tempo- Desviou de novo— Você não estava nem conseguindo ficar de pé. E agora quer treinar deitado?

—Não é um treinamento. É só uma brincadeira.– Errou de novo–Muito difícil, por sinal! Ajudaria se você não deixasse sua capa tão perto de você.

—Assim?– Ela pegou a capa e deixou bem na frente dele

—É! Ótimo! Assim está perfeito.– Não se continha de tanta animação, dessa vez não tinha como errar.

Ele estava quase pegando a capa, quando Elsa a puxou de súbito. Pois é ruim que ela vai se deixar derrubar. Então fizeram uma espécie de tourada, com Enzo batendo em tudo quanto é canto tentando ao menos chegar perto da garota. E ela, só para dificultar o que já estava impossível , ficava fazendo rampinhas, loopings e tudo quanto era artimanha para tirar o rumo dele. Até por fim ele deslizar lentamente e derrotado, com a cara arrastando no chão, para perto dela.

—Desiste?­– Perguntou bem-humorada se ajoelhando ao lado dele. Até que aquilo havia sido divertido, pelo menos para ela, que tinha vencido.—Enzo?

Ele nem se mexia e seus braços imóveis cobriam-lhe o rosto. Receando que ele tivesse se machucado, ela foi o virando aos poucos até encontrar um rosto completamente sorridente.

—Consegui!– E lhe mostrou uma ínfima chama saindo de seu dedo. Fechou a mão bruscamente e quando a abriu uma grande labareda brotava de sua palma.

—Tenta acertar isso.– Elsa fez um paredão de gelo na frente deles.

A bola de fogo explodiu no objeto e o transformou em fumaça em questão de segundos. Então Elsa fez outro, um pouco mais longe, depois mais alto, mais baixo, mais fino e mais grosso. E por fim fez um pequenininho, escondido no ponto mais alto bem na quina de uma das paredes inclinadas. Não só acertou como também a chama correu mais do que devia, entrando no aqueduto e causando um estrondo e uma fumaceira, seguidos de um berro:

—Alexsei!!!

***

Enquanto isso, em algum lugar daquela longínqua e extensa floresta.

Depois de muito procurar, vasculhar, examinar, marcar, desmarcar, farejar, rezar e implorar, o persistente trio de desbravadores finalmente... Desistiu. Na verdade, apenas pararam, e isso por conta do bom-senso do vendedor de gelo, pois se dependesse da determinação da princesa, só continuaria na determinação mesmo. Porque o corpo dela já estava pedindo arrego há muito tempo. Prova disso foi quando Kristoff, depois de muito insistir, conseguiu faze-la se sentar, e foi só o corpo dela relaxar para ela não poder mais se mexer. Como se seus próprios músculos se recusassem a obedecer ao comando suicida de voltarem a se mover.

Diante disso, acabou que ficaram os três vegetando no trenó, cansados e doloridos mas até um pouco aliviados pelo “repouso”. Só Anna que não partilhava de nenhum conforto, atormentada por uma dor que ia muito além do esgotamento físico, via naquela estagnação a materialização de sua própria impotência. Só o simples pensamento de não conseguir impedir que algo de ruim acontecesse com a irmã já ameaçava marejar seus olhos. Kristoff a abraçaria, se não estivesse paralisado pela fadiga. Mas se o consolo não podia vir através dos gestos, teria que ser pelas palavras. E mesmo sabendo da sua atual inabilidade verbal, o rapaz não deixou que isso o intimidasse. Só tinha que achar as palavras certas:

—Sabia...que os trolls nem sempre foram pedras?—Não foi nem Anna, mas sim Sven a encara-lo como que dissesse “Sério? Isso é o melhor que você pode fazer?”. Mas ele, ainda que hesitante, prosseguiu.– Não que eles fossem humanos...Ou qualquer outros bichos. Eles...Enfim, o importante é que não eram pedras.

A rena cobriu a cara com as pastas, devia está pensando o quanto aquilo era uma desastre. Como os trolls já haviam falado, Kristoff já não levava jeito com palavras, era uma perdição com sentimentos. Imagine se juntasse palavras e sentimentos.

—E essa é uma história muito boa, pelo menos para mim. Já que foi por causa dela que minha família virou minha família. Eu não me lembro muito bem do começo, acho que ninguém lá em casa lembra. E não é pra menos, essa lenda deve ter um século ou mais... Sei lá. Só lembro que era mais ou menos assim: Há muito tempo atrás, Arendelle teve um Rei tão terrível e cruel que quando seu reinado acabou, todos fizeram questão de lhe esquecer o nome. Mas não podiam esquecer o que ele fez. Certa noite, ele mandou destruir qualquer coisa que envolvesse magia, e nessa extensa lista estavam os trolls. Os guardas procuram e procuram, e nada acharam. Só viam uma criança subir e descer a colina, sempre carregando sozinha um pesado carrinho de entulho. “Deve ser da família de algum lavrador miserável tentando se aproveitar dos destroços que deixamos” foi o que pensaram. Mas não, dentro naquele pequeno carrinho de madeira podre, estavam os tão procurados trolls. E depois de muito esforço, a criança finalmente conseguiu trazer todos. Então, de repente, as folhas se agitaram e os galhos tremeram, anunciado a mortal chegada dos guardas. Os trolls estavam a salvo, haviam conseguido se camuflar graças a um feitiço, mas não tinha como fazer o mesmo com a criança.– Ele fez uma pausa dramática– E foi assim que os trolls passaram a viver nas terras mais distantes da floresta, tomando tanto daquela poção de camuflagem que ela se encorpou naturalmente neles. E tudo isso aconteceu na noite da chuva de meteóros, por isso que esse fenômeno é sagrado nas tradições trollianas. Tão importante que... – Ele corou– Muita gente fica noiva nesse dia e ... Ele já vai acontecer amanhã...

—Mas e a criança?

—Não sabemos, ou lembramos. Uns dizem que ela conseguiu fugir, outros que virou o anjo protetor dos trolls...

—O que? Ela morreu?!

—Ué, para virar anjo, acho que esse é o primeiro pré-requisito.

—E por que diabos você gosta dessa história?– Ela estava revoltada– O herói morre!

—Pra salvar todo um povo! Ela é boa, porque depois disso crianças foram consideradas pelos trolls como símbolos de sorte, o que facilitou muito na minha adoção. Mas é sério? Você não gostou nem um pouquinho?

–Ela falou na lata– Principalmente na parte daquele Rei...

Ela parou bruscamente, seus olhos ficaram estáticos e ela pareceu entrar em um estado de transe.

—Anna?– Ele balançou a mão na frente dos olhos dela.

—Já sei!!!– Ela berrou, quase ensurdecendo o rapaz. Isso porque ela ainda tinha o agarrado no meio dessa epifania.– Era o Rei Insano! Uma luz veio e levou todo mundo! O Pabbie tinha até dito que aquela visão não era do futuro e sim do passado! Então... Talvez tudo que está acontecendo tem alguma coisa haver com isso! Meu Deus agora tudo faz sentido!

O pobre Kristoff não estava entendendo nada daquela chuva de informações que Anna estava euforicamente jogando. E quando ela finalmente parou de falar, porque ela tinha que respirar, tudo que ele fez foi lhe dar um sincero sorriso para mostrar o quanto era bom ver Anna voltando a ser Anna.

— Obrigada.– Ela foi aproximando seus lábios– Mas não podemos perder tempo!–Jogou ele pro lado– Vamos Sven!

E partiram com as forças milagrosamente restabelecidas.

***

—Você bebeu tudo?– Disse pasma depois de virar a já seca jarra de chocolate.

Não fazia nem 10 minutos que haviam corrido da cena do crime, e da culpa, o chocolate quente veio não mais do em 5 segundos e ele já havia acabado com ele em questão de milésimos. E ainda tinha a cara de pau de responder:

— Não.­–Disse Enzo inocentemente.— Só o que tinha na jarra.

—Mas...– Elsa não sentia nem mais o cheiro do chocolate–Você não tinha a sua xícara?

—Sim, e eu bebi lá também. No começo eu não entendi direito o porquê de colocar o chocolate em dois lugares diferentes.

—Era para quando você terminasse de beber na xícara, você reabastecesse com o chocolate da jarra.

—Ah, entendi.... Não. Não entendi. É que muito confuso. Porque veja, a xícara tem chocolate mas a jarra tem mais chocolate. Só que você tem que beber o chocolate da xícara para depois beber o chocolate da jarra e para beber o chocolate da jarra tem usar a xícara, então o chocolate da jarra vira o chocolate da xícara. Mas o chocolate da xícara nunca vai ser o da jarra? Ou é tudo o mesmo chocolate?

—Ahn?– Elsa tinha se perdido no 3º chocolate

—Eu explico de novo....

—Não! Não precisa. Que saber, o jeito mais fácil de resolver isso é assim.– Ela tocou o sininho– E felizmente a minha xícara ainda está cheia de chocolate– Deu um gole e se decepcionou– E ele está frio.

—Deixa que eu esquento!

Enzo saltou da cadeira eufórico e ansioso em usar seus poderes. Suas mãos já estavam envoltas na xícara enquanto Elsa a segurava pelas asas, monitorando o aquecimento. A bebida já estava quente há muito tempo, mas como ela não gostava de coisas quentes e sim pelando, o processo continuou e se intensificou. Até o líquido “erupcionar” e quase acertar a cara do rapaz, mas Elsa foi mais rápida. O chocolate petrificou e a xícara se despedaçou.

—Se machucou?­

Elsa pegou as mãos dele para procurar algum corte, e assim que as mãos quentes dele e as gélidas dela se tocaram o extraordinário aconteceu. Um líquido preto começou a surgiu e desapareceu. Juntaram as mãos de novo, cada um liberando um pouco de seu poder, e o líquido negro e denso apareceu. E parecia está tomando forma quando...

­ —Com licença...­– Era empregada trazendo o chocolate. Assim que a ouviu, Elsa se virou com tanta surpresa e de forma tão brusca que quase chegou a assustar a mulher– Me-me perdoe, Majestade, devia ter batido na porta.

Na verdade, há 2 anos que Elsa fazia questão que não se batesse nas portas, uma vez todas elas deviam ficar abertas. A jovem ficara tão desconcertada com aquela interrupção que nada conseguiu dizer, mas a empregada a olhou com se tivesse entendido tudo. Acontece que, apesar do fenômeno ter acabado a posição ainda estava a mesma, com as mãos de Enzo ainda segurando as delas.

—Majestade, pode ficar tranquila que eu não vou deixar ninguém incomoda-los.– E saiu de lá quase sorrindo.

As mãos de Elsa saíram das de Enzo para irem parar no seu rosto rubro de vergonha. E ele por sua vez continuou com a cara de passagem sem entender nada.

***

Foi uma luta quase odisseica para que Anna conseguisse escapar do tumulto que estava o salão. O mais medonho era que parecia que tinha mais gente do que antes. Quando enfim chegou em uma das, por enquanto, desabitadas escadas periféricas, se deparou com dois guardas que desciam as pressas. Eles não sabiam do paradeiro da sua irmã, mas saíram avisando para ela não subir para lá de jeito nenhum. Imaginando o pior Anna não subiu, voou.

—EU NÃO DISSE PRA VOCÊS...A-a-alteza?– Se atrapalhou a empregada que tinha espantado os guardas.

—Gerda..­– Ela ficara ofegante pela correria.­– A Elsa...­

—Acalme-se, Alteza.­– Ela tentou reconforta-la– Ela está bem.

—E onde ela está? Preciso falar com ela.

—Eu...–Lembrou da sua missão de não deixar que ninguém atrapalhasse–Eu não sei.

—Mas você não tinha acabado de dizer que ela estava bem.

—Sim, mas... Eu não disse que sabia onde ela estava.

—E como sabia que ela estava bem?

A mulher não pode sequer pensar em formular sua embromação, quando um exército caótico e apressado de empregados invadiu o corredor. Não tinham tempo para explicações e foram logo levando a empregada, mas o furdunço acabou carregando a princesa também. Explosão do encanamento, pátio inundado, bando de nobres encharcados e uma lavandeira “indisponível” eram as principais informações naquele emaranhado de vozes.

***

A confusão do corredor foi tão grande, que até da sala trancada deu para ouvir o motivo de sua origem em alto e bom som. Elsa sabia quais providências tinha que tomar, o problema era como ser rápida, e principalmente, discreta. Se fosse depender da geografia daquele caos não conseguiria ir lá embaixo nunca. Tinha gente no corredor, no salão e provavelmente em qualquer direção daquele castelo. Mas nem tudo estava perdido, havia um outro lugar que podia leva-la para onde precisava, a janela. Fazer uma escada não seria problema, e ela mal tinha terminado de faze-la quando Enzo pulou para lá imprudentemente. O corrimão derreteu e por pouco o rapaz não despencou, ela tinha conseguido puxa-lo a tempo.

—Você fica aqui.‑ Deixou ele seguro no chão e foi indo para janela.

­—Mas eu quero ajudar. ­–Disse mais em tom de pedido do que protesto.

—E vai, só que para isso tem que ficar vivo primeiro.

—Vou ficar vivo, prometo. Dessa vez tomarei cuidado, não tocarei em nada, nem notará minha presença. ­–Sendo que não a tinha convencido apenas disse.—Por favor, eu posso fazer alguma coisa certa, eu acho. Quer dizer, tenho certeza. Se eu tiver certeza posso ir com ir você ?

—Enzo...

—É a incerteza, então?‑ Ela lhe pareceu um pouco frustrada­.– Não? Aliás, qual é a resposta certa?

O granido das gaivotas os interrompeu.

—A maré alta!–Ela se alarmou.

—Mas...

—Que eu tenho que ir nesse instante!

Estava certa, com o escoamento da lavanderia bloqueado com o gelo o mar logo inundaria o local, que a essa altura já estava cheio de gente. Quanto mais o tempo passava mais a confusão crescia. E Elsa correu para as escadas com tanta pressa que parecia que nem se lembraria de olhar para atrás. O que fez Enzo ainda ter a intenção de segui-la até ela se virar de súbito e lhe dar o que devia ser a mais importantes das ordens:

—Fique aqui, tranque a porta e não deixe que ninguém te veja.–E reforçou com maior gravidade.­–Ninguém!

Pode deixar!– Respondeu com uma convicção soldadesca– Serei mais invisível que o vento!

***

Se não fosse por aquele extenso rastro de fumaça saindo da porta, por pouco Anna perderia o caminho. Ela já se sentia indenizada pelo sufoco que foi sair daquela multidão, para depois entrar em varias outras, mas por fim se achar. Atropelou a porta e a fumaceira a cegou por uns instantes, até ela conseguir avistar um vulto.

—Enzo!

O vapor foi baixando e ela viu que o que achava ser um tórax, na verdade eram costas. Grandes e musculosas o suficiente para parecerem uma pessoa mesmo. Não era o Enzo que ela estava procurando, mas o que a surpreendeu mais foi ver que era ele o espantado da história. Se seus olhos já arregalados, agora faltavam caírem da cara. Todo o vapor foi embora, e ela se dá conta que não só entrara na sala errada. Mas sim em uma cheia de homens, só de toalha, tão espantados e quanto mudos.

—Hoo- hoo! – O vendedor da estrada/dono da sauna que quebrou o silêncio– A parte feminina é ao lado, Alteza.

***

A balburdia generalizada não deixou ele sequer se aproximar das redondezas do castelo. No meio daquela zona, Kristoff olhou para o único lugar que não tinha gente e teve uma ideia louca. E em dois tempos, lá estava ele escalando a parede, acobertado pela escuridão e guiado pela luz das janelas. Teve êxito em passar despercebido, por mais absurdo que fosse uma pessoa fazer rapel em um castelo. Mas seu caminho não deixou de ter intempéries, visto a dureza que foi ultrapassar uma janela que não parava de soltar vapor. Visão comprometida e mãos escorregadias dificultaram seu percurso. Apesar de tudo, finalmente havia chegado ao telhado, que devia ser bem mais alto do que ele imaginava. Havia até parado de ouvir o barulho da água jorrado e o algazarra do pessoal.

— Oi!

Kristoff olhou para o lado e viu ao longe Olaf acenando enquanto deslizava com bastante velocidade. Ele estava indo atrás de alguma coisa que era levada pelo vento. E quando a coisa mergulhou em uma chaminé, o boneco foi junto!

—Olaf!

Ele correu, mas o gancho ainda estava preso. O que deu-lhe um puxão que o fez despencar para o outro lado do castelo. Mas, o gancho ainda estava preso, e ele ficou pendurado de ponta-cabeça de um jeito tão destrambelhado que seria muito difícil de sair. Lamentou de olhos fechados só de pensar que teria de pensar em como sair dali.

—Kristoff?

Ele olhou para baixo e viu Elsa subindo uma escada de gelo que poderia tê-lo poupado de toda aquela situação.

—Anna está te procurando. Ela achou uma pista que pode explicar o que está acontecendo.

—Sério! Até que em fim, uma notícia boa.–As rugas de preocupação dela tinham virado um sorriso.– E qual é a pista?

—Er... – Lembrando que ele não tinha entendido nada—Eu não sei. Ela falou alguma coisa sobre um rei louco... Uma maldição... Uma coisa assim.

—Mas isso é a lenda do Rei Insano.­­

—Isso! Foi insano que ela falou.

—E?

—E aí, ela saiu correndo, entrou no castelo e eu fiquei preso naquela muvuca.

—Vamos atrás dela, então.

Elsa fez uma extensão da escada até o rapaz e cortou a corda que o segurava. Ela já estava subindo e ele, que não tinha nem se levantado, resolver dizer outra informação de grande importância.

—Tem... Mais uma coisa.

—O que? – Ela parou para escuta-lo

—Não, nada. Deixa para lá.

—Se não fosse importante, você nem pensaria em me contar. Pode falar.

—Então...tá. Lá vai.- Ele ia começar.

Mas só ficou no “ia” mesmo. Do pouco que ele conseguiu falar, tudo o que saiu foram uns murmúrios tão ininteligíveis que nem teve como colocar em um diálogo. Chuva de meteoros, foi única coisa compreensível. Até Sven seria melhor compreendido, isso falado em sua língua vernácula.

—Tá, entendi. –Interrompeu Elsa

—Sério?

—Não. Me conta no caminho.

­ —Eu...eu...­–Tomou fôlego e coragem– Eu vou pedir sua irmã em casamento!

Disse aquilo e fechou os olhos, como se tivesse acabado de jogar uma bomba. Mas a explosão não veio. Tinha falado para o ar, porque Elsa já tinha cortado caminho na janela mais próxima. Ainda bem que Sven e Olaf não estavam lá para zoa-lo por isso

—Meu Deus! Olaf!

***

Quando chegou na 122º porta (como tinha cômodos naquele castelo!), Anna nem mais abria, arrombava. E finalmente era a sala certa, sabia disso porque um chocolate congelado no chão não se encontrava em qualquer lugar. Só que por lá não havia um único sinal de vida. Depois de examinar o local só lhe faltava a janela, e assim que começou a se aproximar dela as luzes do corredor se apagaram. Foi para o corredor e não só viu o vento as apagando, como também um familiar boneco de neve indo junto. Anna seguiu o rastro de escuridão correndo enquanto chamava o boneco, mas ele estava longe demais para ouvi-la. Até uma colisão para-la de súbito.

—Ai! Olha por onde anda!– Reclamou Anna ainda se recuperando a porrada.

—Olha por onde corre.

—Elsa!

E quando a princesa ia revelar sua descoberta um sininho tocou e vieram empregados de tudo quanto é lado. Era a hora de preparar o jantar, aquele corredor (assim como nenhum lugar daquele castelo) ficaria livre. Anna praguejou:

—Meu Deus! Então não tem nenhum lugar vazio nesse castelo?!

***

Em um lugar vazio chamado prisão.

—Então, o que está acontecendo aqui seria como a maldição do reinado do Rei Insano. Já que, se tivemos problemas com magia antes, talvez eles voltaram a acontecer agora.– Elsa repetiu a teoria de Anna.– O que explica os ataques.

—E Enzo veio de Lastero, que no final das contas era mesmo um lugar sobrenatural. Chegou e perdeu a memória por ter um assunto mal-resolvido aqui–Disse por sua vez Anna– O que explica os poderes dele. Certo?

—Certo!– Ambas sorriram como se o caso já estivesse resolvido.— Agora só falta a teoria que faz sentido!- Só que não.

—E que não seja baseada em lendas e boatos!- Ela se lamentou

As duas se jogaram na cama, que haviam esquecido que era de pedra, e suspiraram com as cabeças doloridas e frustradas.

—Deve haver algum tipo de ligação nisso tudo.–Disse Elsa.

—Que seria?

—Vamos pensar. O que há de comum nesses ataques?

—Deixa eu ver... São todos bichos estranhos, veem aos montes, atacam o castelo...

—E param.

—O que?

—Eles não paravam do nada? E era sempre de noite. Às 10 da noite!– A garota correu alarmada

—Mas...- Anna foi atrás. —Hoje não aconteceu nada!

—Mas ainda não são 10 horas!

***

Foi só quando Olaf chegou na sala de relíquias que a brisa, finalmente parou de carregar a folha. Quando pegou a tão desejada planta o boneco nem se contentava de contente, em fim seria seu aroma. E ele deu um profunda cheirada.

—Cheirinho de.... nada.– E largou a ela no chão. Foi tentar sair mas não a brisa já não era mais brisa e se converteu em um devastador vendaval. Derrubava e quebrava tudo que ali tinha, e o boneco cercado ficaria, no centro da tempestiva ventania.

***

Elas já estavam atrás da porta do salão, onde essa altura todos estariam reunidos a espera do jantar. Elsa ficou parada diante da porta, bastante apreensiva e relutante.

—O que foi?­– Anna se preocupou

Sua irmã nada disse, apenas tocou na porta e com muita concentração começou a congela-la.

— O que?!- Anna a impediu– Por que você fazendo isso!?

—Porque não tem outro jeito! Temos que tira-los daí agora!

—Mas se espantar eles a história da Aliança já era!

—Já foi Anna! O importante é salvar a vida deles, não importa como.

— E tem nada mais discreto?

—Não! Como vamos fazer uma evacuação sem ser uma evacuação?!

O silêncio da indecisão caiu sobre elas. Elsa ia continuar sua ação mas Anna se colocou entre ela e a porta.

—Anna!– Elsa protestou.

—Você não está aqui.

—Ahn?

—Está lá em cima passando mal. É o que todos pensam. Então... Nada de poderes!- Entrou no salão e trancou a porta.

Assim que a princesa se virou, aquele mundaréu de gente parou para olha-la. Talvez estivessem esperando que fosse Elsa.

—Alteza!- Aldos foi até ela e se ajoelhou muito envergonhado.— Sei que não basta, mas peço desculpas pelos transtornos que meu filho causou. E a propósito com está sua irmã?

—Espero que ela esteja melhorando. –Acrescentou Dmitri– Aquela sopa foi um desastre.

—Ela já está melhor, Majestade. E fiquem tranquilos que a sopa já foi banida. Mas...

—O que?–Perguntaram todos.

Anna sentiu, pela primeira vez a pressão de ter uma multidão a olhando. Ela nunca foi de se incomodar com isso, aliás, muito pelo contrário quanto mais gente mais diversão. Mas as circunstancias não deixavam isso nada divertido, e agora era ela e não Elsa que estava no centro das atenções, prestes a falar uma coisa muito séria.

—Vocês não podem ficar aqui.– Tentou usar o tom mais sério que conseguira– Esse lugar está muito quente e abafado. Pode prejudicar a saúde de vocês.

—Mas acabamos de nos secar.– Disse Dmitri.— O certo não é que nos aqueçamos?

—Não! Er... Pesquisas recentes mostram que depois de se molhar você tem que ir para um lugar frio. E de preferência em céu aberto. Pegar um pouco de sereno, para ser exata.

Todos a olharam confusos. Ela se preparava para investir mais na sua pseudo-ciência.

—Faz sentido.–Disse Aldos

—Como assim?- Retrucou Dmitri- Não faz o menor sentido!

—Faz sim, isso é medicina moderna- Disse um intelectual

—Mas que asneira é essa? Isso não tem nada haver com medicina moderna.- Disse um outro

—É curandeirismo!

—Não! É xamanismo!

E aí começou a briga entre os pseudo-inteletuais deixando o lugar uma zona. Até a chegada de alguém parar tudo e deixar todos incrédulos.

—Alexsei...?- Disse Aldos perplexo vendo um indivíduo de 2 metros, musculado até o osso, mas com o exato rosto de seu filho.

—Ah... Oi pai.– E voz confirmou.

Todo mundo correu para tomar sereno.

***

Enquanto vasculhava os cômodos ordinariamente vazios Elsa pensava como aquilo não fazia sentido! Ainda não eram 22:00 horas e simplesmente nada! Se até ontem aquelas coisas faziam questão de um escândalo, agora estavam absolutamente mudas. Ela já havia procurado em todos cantos, mas não havia um único sinal. Isso até seus atentos olhos pararem diante de uma escadaria apagada. Aqueles degraus a levariam para a sala de relíquias, o único lugar que ainda não verificara.

—Elsa!- Kristoff apareceu.– Encontrei o problema do dia.

E ele estava justamente na sala em que ela deixará Enzo. A porta estava no chão e o pedaço de tapete mais próximo da lareira estava queimado. Elsa se aproximou da lareira um fogaréu apareceu, Kristoff tirou uma tora de gelo de sua sacola (devia ser amostra grátis) e jogou na ameaça flamejante. Mas a chama não fez nem menção de se apagar e acabou com o gelo. De repente ela se apagou sozinha. Elsa se aproximou de novo mas dessa vez era o seu gelo que eles iam usar. Ela congelou a chaminé toda, e Enzo despencou com tanta brutalidade que chega saiu rolando. Kristoff deu uma olhada na lareira e ficou aliviado de não encontrar uma cenoura entre os carvões.

—Por que você estava fazendo isso?

—Ué, para ninguém me ver. Eu tive que me virar, depois que a porta foi arrombada. E eu fiquei um tempão pendurado lá na chaminé. Acho até que eu não tô sentindo um dos meus braços...

O relógio-coco tocou anunciado a chegada das 22:00.

—Ótimas notícias! Eu convidei tudo mundo para ver a chuva de meteoros!- Anna entrou muito empolgada.

—O que?– Elsa ficou confusa.

—O que?!–Kristoff assustado.

—Que!- Enzo foi na onda.

—É amanhã gente! Ainda não entenderam?- Ela foi para a mesa onde tinha um jogo de tabuleiro. Pegou as peças e começou a ilustrar seu raciocínio.–Eles vão ficar aqui. E a gente ali. O que vai nos dar privacidade e tempo de sobra para investigar.

—Mas o fenômeno só acontece 10 da noite.– Disse Kristoff

—Melhor ainda! Eles vão ficar dispersos no porto, se preocupando em preparar os próprios navios. E muito antes das 10 todo mundo vai estar no mar esperando o céu ficar riscado.

—O céu vai ficar riscado amanhã!- Olaf apareceu são e salvo.

—É Olaf. – Ela o levou para a janela e virou a cabeça dele para o céu.– E enquanto eles estirem distraídos com isso, nós vamos ter o castelo todinho para gente! Caramba! Esse plano é muito perfeito!

Ela voltou para sala e Olaf na escadaria de gelo. Mas não era a exuberância do céu que o fascinava, era o mar. Suas águas estavam tão límpidas e paradas, que espelhavam com perfeição toda a beleza do céu. Até negras nuvens trazerem as trevas aquele encanto.