Águas De Veneza
1 One-shot
“Veneza é realmente magnífica...”
Balançava as pernas, sentindo vontade de esticá-las apenas mais um pouco e deixar a água fria beijar-lhe os dedos em ternura. Fechara os olhos há tempos e não via razão para abri-los tão cedo. Apreciaria a beleza do toque, do som, do cheiro úmido que provinha do rio abaixo de si. A Veneza dos romancistas, aquela cuja visão não era o que mais importava, mas os sentimentos na cidade ocultos. Ouviria cada murmurar daquele líquido inconstante e transparente e os gravaria na memória, tentando decifrá-los. Poliria com dedos esguios o local onde sentava, por onde tantas mentes brilhantes já haviam passado. Degustaria de tudo que fosse possível, de todos os timbres, de todos os pratos, de todos os tatos, de todos os odores. Estava ali, em carne, osso e sangue latino pulsante nas veias; e não desperdiçaria tamanha oportunidade.
Abaixo de si, ouviu um borbulhar concordando. “Tente”, parecia instigar-lhe em uma voz pastosa.
Tentaria.
Segurou-se nas pedras lisas, as mãos agarrando-se ao apoio escorregadio o mais forte que podiam. O vento impulsionava-a para cima, bagunçando os cabelos castanho-escuros e acariciando-lhe a face candidamente. Mas Veneza a chamava, as águas a chamavam. Guarneciam-lhe os ouvidos com as mais tenras palavras, seduziam-na com os mais doces respingos que pousavam em sua pele. Sim, precisava; necessitava; dependia daquela refrescante sensação em seu corpo ardente.
Inclinou-se para frente e deixou os pés nus mergulharem na corrente fria.
Tremeu. E um prazer elétrico passou por seu corpo.
Lançou-se ao ar. Queria aquilo por completo, permeando-lhe corpo e mente, desbravando seus contornos. Pertencia à cidade, e a ela se entregaria total e plenamente.
– Attenzione!
Com um baque, as costas bateram em uma superfície dura. “Isto não é minha água” , pensou, abrindo os olhos.
Estava deitada em uma gôndola, os pés fora da embarcação. Sua coluna prestou suas reclamações e decepções em forma de dor, e a garota se curvou, arfando. O vestido colorido havia levantado mais do que deveria, deixando as belas pernas inteiramente à mostra e, acima de si, um jovem as observava com renomado interesse.
Corou e puxou o tecido para baixo.
–Desculpe... – gaguejou, tentando ficar de pé. Trôpega, balançou e caiu novamente.
O garoto riu. Deveria ter pouco mais de 20 anos, com fios e orbes castanhas. Uma mecha de cabelo rebelde projetava-se para cima, enrolando na ponta. Tinha a pele clara e livre de arranhões, e ela não precisava ficar de pé para saber que ele era uns bons centímetros mais alto. Seu sorriso era malicioso e os olhos ainda fitavam o que o pano não havia coberto a tempo. Ajoelhou-se perto dela e estendeu a mão.
– Está tudo bem, bella? – falou em voz baixa e rouca, aproximando-se.
Sangue subiu novamente à sua face, e virou o rosto para que o rapaz não pudesse ver o rubor.
– Sim – sua voz falhou um pouco. Ele estava cada vez mais perto, fitando-a com um olhar que penetrava sua alma. – Sim, está, obrigada.
– Ma – o jovem ergueu uma sobrancelha, em diversão – Che cosa foi essa, tesoro mio? Poderia ter se machucado.
“Me machucado?”, pensava com seus botões. “Mas valeria a pena”.
– Nada demais – desviou os olhos. Não estava certa se suas razões soariam racionais. – Desculpe o incômodo. – levantou-se, fugindo daqueles olhos quentes, e precipitou-se para a amurada.
Antes que pudesse saltar, sentiu um par de braços fortes a abraçando por trás. E caiu, por cima do italiano de olhares maldosos e rosto atraente.
– As águas de Veneza são sedutoras, principessa – sussurrou em seu ouvido – Mas não se deixe levar por elas.
Um arrepio percorreu sua coluna. Aquela voz lhe embriagava e desorientava.
“Fala-me das águas” suspirou sofregamente “Mas elas e ele tem sobre mim o mesmo efeito”
– Que me sugere, então? – ousou perguntar, vermelha.
Pôde senti-lo acariciando seus cabelos. Se visse seu rosto, teria a visão de mais um daqueles sorrisos atraentes, que lhe enrubesceriam ao máximo.
– Dirijo esta gôndola, amore. – apertou-a contra si – Posso lhe mostrar este rio. Apenas... – mordeu-lhe o lóbulo – Deixe-me conduzir.
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