Às vezes
1 Nem sempre... Mas às vezes.
Notas iniciais
Às vezes, acordo com um peso no peito
Uma matéria escura que se recusa a ir embora
Não importando quantas vezes eu ria
E tanto faz quantas vezes ela me obrigue a chorar
Às vezes, noto um riso falso, um comentário sarcástico
Por cima das vozes, se destacando dos outros
E aquilo me fere como se me apunhalasse
Durante dias e dias e dias, com minhas próprias mãos
Às vezes, tento me ajustar e me esconder
Evitando as cobranças, os olhares julgadores
Virei mestre na arte de me tornar invisível
Porque qualquer atenção... É uma deixa para o mal
Às vezes, só um olhar, um toque sem malícia
Bastam para me alarmar, para que eu me arme
Sei de onde vem, mas não compreendo
Como consigo achar as pessoas tão assustadoras
Não sou eu uma delas também?
Também tem as noites em que deito a cabeça, procurando o sono
E faço o maior esforço do mundo para não mover um músculo
Porque sabe-se lá o que me espera fora das minhas cobertas
Sabe-se lá quem está à espreita, tendo entrado despercebido
De prontidão para me massacrar
E as tragédias, inúmeras delas, com várias formas, várias cores
Tão reais que podiam ter se passado diante dos meus olhos
Talvez só para me lembrar de que tive sorte por mais um dia...
E me odeio e me puno e me culpo
Por causa do tamanho que tomou esse orgulho idiota
A força que tem essa mordaça que eu mesma me coloquei
Por ter essa resistência nem tão infalível assim
Por tanta coisa...
Quando te vejo sentir medo ou raiva ou tristeza ou vontade de desistir
Não minto; eu te condeno, é meu primeiro impulso
Eu te chamo de fraco, de incapaz, de indigno
Mas antes de qualquer coisa
Sinta-se vingado, pois já fiz o mesmo comigo
Tantas vezes que não consigo mais contar
Expulso todos esses pensamentos cruéis
Na verdade, eu queria te abraçar
Secar suas lágrimas, afagar seu cabelo
Até que você dormisse
E acordasse e saísse e vivesse
Em plena segurança
Numa mente e num mundo onde não fosse obrigado
A carregar esse fardo
Apesar de tudo
Não sou a pior pessoa
E mesmo que não seja a melhor
Ainda tenho um fiapo de sanidade
O bastante para não desejar a ninguém
Ter o que tenho
Ser o que sou
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