Às Vinte e Três.
1 Uma hora.
Notas iniciais
Repreendo a mim mesma por levantar para atender ao telefone. Seria muito mais vantajoso continuar abrigada no calor da minha cama, que me protegia do frio que tomava as ruas. Tolice. Já estava acordada há horas, lutando contra o impulso de me por de pé. O telefone foi uma desculpa vazia.
As cobertas não me protegem do frio que reside em mim.
Nenhuma novidade me ganha quando ouço a voz alegre de minha mãe do outro lado da linha. Ela irá viajar para Paris. Infelizmente, não poderemos passar a virada de ano juntas. Isso não me surpreende. Não me abate, ou me dói. Eu apenas concordo. Desejo-lhe felicidades e digo para que aproveite. Volto para a cama quente que guarda minhas ilusões vazias.
Deixo que as horas passem. Nego-me a encarar o relógio. Nego-me a seguir a rotina de todos os dias comuns. Afinal, hoje não é um dia comum, certo? Ao menos, é o que todos pensam. Tento acreditar nisso, mas falho. Não vejo o sentido na crença de mudanças infundadas. Na esperança de que um número a mais no calendário lhe trará uma nova vida. Será apenas mais um dia. Apenas mais um ano.
Ou talvez seja menos um dia, menos um ano.
Levanto e busco o meu café quente. Seu cheiro me faz fechar os olhos, me levando às lembranças felizes guardadas em mim. Apenas por um instante, eu me esqueço da complexidade da vida. Esqueço-me de como viver tem sido um fardo pesado de se carregar. Esqueço-me dos dias riscados em um calendário velho, sem motivo algum. Eu conto a passagem das horas perdidas. Talvez eu inveje aqueles que acreditam nas mudanças do novo ano. Eles têm esperança, enquanto eu já a perdi há tempos.
O céu cinza me faz sorrir. Hoje é um dia belo, independente de que dia é. As nuvens contam poesias não verbalizadas. Poesias que poucos enxergam. Estão ocupados demais com a turbulência de suas felicidades para ver a peculiaridade que reside na calmaria. O céu se mantém ali, com seus recados secretos, com seus poemas melancólicos guardados só para si.
Busco por um papel próximo, mas tudo o que encontro é um filtro de café sujo. É o bastante. Rabisco palavras cheias de um vazio meu, que guardam todo o sentido de sentido algum. Não as releio, não busco a estrutura poética que deveriam levar. Eu as abandono por ali, sem me importar que sejam lidas um dia, sem me importar que sejam guardadas.
Invejo a vida felina. O andar de pelos negros que não guarda nada além de uma calma só sua, de uma paz que só a ele pertence. Senhor Bartolomeu se sentou à minha frente, lambendo sua pata, esperando por sua refeição matinal. Ele é meu gato. Na verdade, sem a parte do meu. Ele é um gato e nós dividimos a casa. Um dia, há alguns anos, um pequeno filhote foi deixado em minha porta. Hesitei em aceitá-lo ali. Imagine só lidar com os pelos voando para todos os lados, a obrigação de alimentar outra vida além da minha. Um gato. Acabei descobrindo que não era uma escolha a se fazer. Não escolhi ter um gato. Foi ele que escolheu viver aqui. Somos amigos, desde então. Nós compartilhamos nossas solidões e, a meu ver, isso basta.
— Bom dia, Bartô. — acariciei seus longos pelos e ele ronronou em resposta. — Eu também achei uma noite muito agradável para o sono. Você prefere cordeiro, ou atum? — ergui os sachês a sua frente e ele os cheirou, miando em reprovação. — Eu estou brincando. Aqui está sua salada de ervilhas. — coloquei a pequena tigela a sua frente e ele esbarrou sua cabeça em minha perna, como um agradecimento breve.
O meu celular apitava, denunciando as ligações não atendidas. Ligações que não seriam retornadas, não hoje. O meu dia melancólico e belo não poderia ser invadido pela felicidade fácil de minha irmã. Não hoje. Hoje eu preciso permanecer em minha solidão. Preciso do silêncio cantarolando sons inexistentes em meu ouvido. Preciso lidar com os meus vazios pesados demais. Esses vazios que são só meus e que jamais poderiam ser explicados. Quem compreenderia?
Essa constante sensação de estar cheia de vazios. Um vazio que se alimenta de mim. Eu também me alimento dele. Uma relação tóxica nunca recomendada, da qual eu não consigo abrir mão. A minha dor é familiar demais. Quase como uma amiga. Eu já não me vejo sem ela, porque ela é o que sou. Eu nunca disse que sou algo bom.
No fundo, seria hipocrisia julgar minha mãe. A verdade é que há dias venho desejando essa ligação. Sua desistência de conviver com a minha complexidade. Com as minhas palavras ditas em códigos dificilmente compreendidos. Eu não a culpo. Eu agradeço a ela.
Passava-se das nove horas quando decidi sair pelas ruas turbulentas demais. Pessoas corriam para todos os lados. Algumas caminhavam em direção à sua passagem feliz, outros estavam atrasados para ela. Eu apenas andava, contemplando a imensidão negra, pintada por pontos estelares de uma beleza única.
Quantos segredos são guardados pelas estrelas?
Ah, e a Lua. Ela brilha lá no alto, em toda sua magnitude. Nosso satélite natural, incrivelmente misterioso. Como podemos buscar por uma verdade concreta, quando até mesmo a Lua esconde um lado de si?
Entro em um bar sem nome, que abriga vidas vazias. Vidas como a minha, mas o meu vazio pesa. Talvez o deles também, mas isso já não é da minha conta.
Escolho uma mesa escondida. Um lugar de onde possa observar, sem ser observada. Não é de meu interesse ser analisada por olhos desconhecidos. Ainda assim, parece que o universo não está interessado em saber o que é de meu desejo.
Um homem bonito se senta ao bar. Pergunto-me o que ele está fazendo sozinho em uma noite tão bela. Ele parece cansado. Seu rosto sério esconde tristezas não ditas. A marca em seu anelar guarda a lembrança de um laço que me parece desfeito. Ele está sozinho em busca de algo que lhe devolva o sentido dos dias. Mais uma alma perdida.
Uma mulher se aproxima. Ela tem cabelos longos e negros. Os olhos azuis o analisam por alguns segundos antes de tomar a decisão final de ir até lá. Ela se aproxima e sorri, ele a cumprimenta. A mulher se esforça para mostrar uma face feliz que eu sei não ser verdadeira. As dores estão ali. Não ditas. Como a maioria das coisas. Talvez alguns detalhes não mereçam ser verbalizados, ainda assim, eu os vejo. Quase como se fosse claro demais para ser ignorado. Eles trocam algumas palavras que não me interessam, ainda que seja fácil ler seus lábios. Os dois saem juntos. Duas almas perdidas.
Tome o último gole de minha bebida quente.
Eu a vejo.
Parece que o universo realmente não se importa com o que eu quero.
— Olá. — o sorriso fácil lhe toma os lábios. Tento convencer-me do quanto é irritante.
Tolice.
Ele é belo, tal como sua dona.
A mulher de cabelos loiros e olhos verdes se senta ao meu lado. Quem ela pensa que é?
Quem eu penso que sou?
— Não é uma boa noite para me conhecer.
Talvez seja mais fácil assim. Cortar desde o princípio, impedir que algo maior seja plantado. Breve. Curto. Grosseiro, talvez. Mas eu nunca disse que sou agradável.
Ainda assim, os seus malditos olhos penetrantes me ganham. O sorriso fácil continua em seus lábios, ainda maior. No entanto, aqueles olhos. Eles são diferentes de qualquer outro. Eles analisam e esperam. Parecem guardar a paz e o caos. Ela abriga o desconhecido.
— Eu não quero te conhecer. — mentiria se dissesse que sua resposta não me surpreendeu. — Nós podemos conversar uma hora inteira sem nos conhecermos, assim como podemos contar verdades secretas em cinco minutos silenciosos. — assenti. Não por não querer responder. As palavras me faltaram. — Vai passar a virada sozinha?
— Sim. — eu preciso de outra bebida. — E você? — eu deveria resistir a minha curiosidade?
— Não. — deu de ombros. — Vou passar com você.
— Ah claro. — sorri sem saber o porquê. Um sorriso irônico não irônico.
— Você pode me dizer o seu nome, querida companheira inesperada? — ela me ofereceu seu copo. Whisky. Perfeito. Eu o aceito.
— Você não precisa saber o meu nome, você não quer me conhecer.
— Sugiro que você também não queira saber o meu. — o questionamento saiu como uma afirmação, eu mantive o silêncio, na esperança de que ela desistisse.
Eu queria mesmo que ela desistisse?
— Por que eu? — a pergunta, que rondava-me a mente desde o momento em que a mulher dos olhos verdes caminhou até minha mesa, foi feita antes que meus lábios fossem contidos.
— Por que não você?
Maldita.
— Certo. — dou de ombros a contragosto. Não por ter desistido de compreender sua inesperada insistência, mas por resistência à minha própria vontade de compreender.
— Saia comigo? — ela encara os meus olhos. Ela lê a minha alma. Sinto que sabe a minha resposta, antes mesmo que seja verbalizada.
— Por quê?
— Por que não? — contenho o sorriso que quero dar.
— Não, obrigada.
Por que os seres humanos tendem a negar o que lhes é de desejo, apenas pelo medo de compreender o que querem?
— Eu não quero que me conheça, que torne-se minha amiga, ou algo perto disso. — ela tamborilou com os dedos contra a madeira, mas eu jamais poderia desviar o olhar de seus olhos. — Eu quero uma hora. A hora que antecederá as oito mil setecentas e sessenta horas que você terá livres de mim nesse novo ano. — Eu sorrio. Droga.
— Não me parece justo. — ela me encara com olhos curiosos. — Você quer o prólogo das minhas trezentas e sessenta e cinco páginas em branco.
— Ninguém nunca lê o prólogo. — quem diabos é essa mulher?
— Eu leio.
— Eu também. — o seu lábio inferior é capturado por seus dentes.
— Saímos daqui às vinte e três horas. — declarei. Não me pergunte o porquê, eu também o desconheço. Também não me pergunte se quero conhecê-lo.
— Por que não agora? — procuro por segredos em seu rosto desconhecido.
— Porque eu gosto de horas exatas. — ela encarou seu relógio.
— São vinte e duas e cinquenta e seis. Eu posso esperar por seu prólogo. — roubou seu copo de whisky das minhas mãos e tomou o que sobrara da bebida. — Pare de fazer isso. — ela apontou para mim, me fazendo despertar.
— O que estou fazendo?
— Me analisando com esses seus olhos.
— Quais são os problemas dos meus olhos?
— Eles guardam coisas demais. — ela se colocou de pé. — Segredos só seus e histórias não contadas. Talvez jamais sejam contadas. Você quer levantar e ir embora. Agora mesmo. Talvez faça isso antes que as vinte e três horas cheguem. Você teme o desconhecido e eu sou uma desconhecida, que acaba de bagunçar a sua rotina bem planejada. — o seu indicador me toca a bochecha. — Ao mesmo tempo, você quer estar aqui. Você quer saber o quê embasa a minha insistência e o que planejo para a próxima hora. A curiosidade lhe consome, tal como o paradoxo que existe aqui. — me toca à testa. — Os seus olhos mostram tudo isso e, ainda assim, escondem coisas que jamais serei capaz de conhecer. Não na próxima hora. Talvez, nem em uma vida inteira, caso fosse possível. E mesmo escondendo tudo isso dentro de si, você ainda busca pelas coisas que eu escondo. — o meu espaço é invadido. Eu não me importo. — O que você vê?
— Você veio até aqui sem grandes expectativas. — as palavras rompem minha boca, sem que eu possa as controlar. Por que não posso? — Estava sentada há algumas horas no bar. Você me viu entrar e me viu procurar pelo isolamento. Veio até aqui, porque você também procurou pelo isolamento. De todas as pessoas que você viu entrar e sair, eu fui a única que realmente a fez levantar de seu legar. Pergunto-me o porquê. Talvez porque não procurei por companhia e nem espero por uma. Assim como você. Isso facilita as coisas. Você não quer companhia alguma e, ainda assim, não deseja estar sozinha. Sua solidão lhe é tão familiar e, ao mesmo tempo, ela te assusta. A ponto de caminhar até uma desconhecida e convidá-la para compartilhar com você sua própria solidão. Você não precisa de muito. Na verdade, você precisa de bem pouco.
— Eu preciso de uma hora. — ela me oferece a mão. — São vinte e três horas.
Eu a aceito, sem saber ao certo o porquê. O desconforto latente está em mim e eu preciso escutá-lo. Quem é essa mulher? Eu não quero saber quem ela é. Talvez eu queira. Ainda assim, não consigo resistir a sua proposta inesperada. Tento me convencer de que pouco importa perder apenas uma hora. O que é uma hora? Seria idiotice dizer que não é nada. Sessenta minutos podem guardar incríveis acontecimentos inesperados, que, talvez, não sejam vistos em uma eternidade. Sessenta minutos podem guardar incontáveis decepções, inúmeros erros. O que eu estou fazendo?
Caminhando.
Estou caminhando ao seu lado. Seguindo seus passos sem rumos que, por uma hora, tornar-se-iam os meus passos sem rumo.
As estrelas permanecem no céu, observando a mudança rápida dos meus planos bem feitos. Elas nos acompanham por todo o caminho que percorremos, gravando em si aquilo que ninguém mais vê. Talvez elas também saibam do futuro e apenas estejam esperando para ver seu desenrolar. Talvez estejam tão surpreendidas quanto eu.
Entramos no beco de uma galeria e subimos pela escada de emergência. A escuridão me impede de analisar o que nos rodeia. A mão da mulher loira de olhos verdes se mantém segura à minha. Eu desejo que me solte. Eu desejo que continue a me segurar.
Eu desejo que suma e que permaneça.
Eu desejo que vá embora e que fique aqui.
Eu desejo jamais ouvir a sua voz e desejo que fale por incontáveis minutos.
Eu desejo não saber nada sobre ela e desejo que me conte tudo a seu respeito.
Eu desejo nunca mais ver seus olhos e desejo que nunca mais saem da minha mente.
Tudo o que eu tenho é a incoerência de tantos paradoxos.
— Pare de pensar tanto. — a sua voz rompe o silêncio e me rouba a atenção.
— Por que acha que estou pensando tanto?
— Você fica com a sobrancelha franzida quando começa a pensar muito. Eu quase posso ouvir o seu cérebro trabalhando. — ela sorri e eu lhe retribuo com um semblante fechado.
— Aonde estamos indo?
— Para o alto. — simples.
Nós fomos para o alto. Para a cobertura. As estrelas estavam mais próximas e, ainda assim, a anos luz de distância. A peculiaridade dos detalhes venceu a minha resistência. Daqui de cima, tudo parecia uma imensidão pequena. A correria nas ruas já não me incomodava. Tornou-se curioso ver os passos perdidos do que estavam ali. Alguns minutos para outro dia comum, que representava um novo começo para muitos. Eu invejo a esperança.
— Eu acho que as estrelas são minha religião. — eu a ouço suspirar e me viro. Estática. Ela contempla a imensidão celeste. Eu juro ver galáxias guardadas dentro dos seus olhos.
— Você também sai à noite para pintar as estrelas? — encara-me, para, então, deixa o maldito sorriso lhe tomar os lábios.
— Então você conhece Van Gogh. — ela caminha em minha direção. O ar me falta. O que é o ar?
— É possível passar a vida sem conhecê-lo? Me parece tão impossível. Na verdade, acredito que as pessoas deixam de conhecer coisas demais. Talvez por isso vivam desse jeito.
— Nessa constante incoerência? — assinto, sem aceitar que alguém possa prever minhas palavras. — Todos nós vivemos determinadas incoerências, só que de maneiras diferentes.
— Eu acho que a certeza das coisas é uma ilusão. — confesso, sem saber o que me leva a fazê-lo. — Como podemos ter certeza de algo diante da imensidão do desconhecido? — o céu me ganha mais uma vez. — De qualquer forma, as estrelas me fazem sonhar com uma realidade distante.
Ela corre.
Corre em direção à beirada.
Corre até que seu corpo ganhe velocidade o bastante para pular. Então, ela para. Ela abre os braços e gira em seus calcanhares. O vento lhe balança os cabelos loiros, externando uma rebeldia que eu sinto viver em seu interior. Ela me encara e sorri. Maldito sorriso.
Como se faz para respirar?
— Louca. — suspiro pesado. O meu coração volta a bater.
— Venha até aqui. — ela me oferece a mão e eu penso se devo aceitar. Eu não deveria estar aqui.
— Eu não quero. — os seus olhos me analisam. Ela se abaixa. O ar me falta.
— Você tem medo. Por que você tem medo?
— Eu não tenho medo.
— Os seus olhos têm medo.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Eu sei sobre os seus olhos.
— Eu não vou. — decretado.
— Tudo bem. — ela se vira de costas.
Levo minha mão ao rosto. A necessidade de sentir minha própria matéria é sufocante. Sua leveza me assusta demais, quase como se fosse inadequada. Ela é cheia demais. Cheia de uma luz só dela, de uma presença inesperada. Cheia do desconhecido. Eu só tenho os meus vazios. Eles ainda estão aqui. Eles ainda me doem. Sua presença não apaga minha solidão interna.
— Por que eu? — pergunto mais uma vez. Pergunto, porque a não compreensão está me roubando a paz.
— Por que não você? — olhos verdes.
Ela pula de volta e se aproxima. Ah, o oxigênio me visita mais uma vez. Respirar é bom.
— Essa resposta me parece bem vaga.
— Você não precisa de respostas concretas. Nós não queremos nos conhecer. — maldita.
Ela corre mais uma vez. O meu peito infla. Ela volta à beirada e encara a imensidão da queda.
— Isso não te traz uma adrenalina estranha? Algo que lhe devolve à vida, que preenche. — ela fica na ponta dos pés e abre os braços. — Nós podemos cair a qualquer momento. Podemos simplesmente abrir os braços e nos jogar. Abraçar a queda, me jogar no desconhecido.
— Suicídio?
— Não o suicídio em si. A queda. — ela olha mais uma vez o espaço vazio. — Não é o fim. É o processo.
— A queda. — ela assente.
— Venha até aqui. — eu vou. Por que eu vou?
Ela me estende a mão e me puxa. Eu pulo, perdendo o equilíbrio necessário. Sua mão me prende pela cintura. Ela impede a queda que tanto deseja. Uma sensação estranha me invade. Uma segurança desconhecida. O desconhecido está apresentando-se demais à minha vida essa noite.
— Você não vai me deixar cair. — não sei se pergunto, ou se afirmo. A frase sai em um desabafo estranho.
— Não. — seus lábios são finos e suas bochechas são coradas.
Irritantes.
Adoráveis.
— Eu sei.
— Eu prefiro morrer de paixão a morrer de tédio. — sorrio.
— Van Gogh. — ela sorri. — Eu sou apaixonada por Van Gogh.
— É difícil não se apaixonar. — os seus olhos trazem um olhar dúbio que não me passa despercebido. Eles me analisam e me gravam. Ela segura minha mão. Paradoxos me invadem. Eles nunca saíram de mim. — Abra os seus braços.
Eu os abro.
— Oh céus, é incrível. — um sorriso inexplicável me ganha. Eu entendo suas palavras não ditas.
— Você sente isso? O vento lhe rasgando a pele. É libertador. — os seus dedos me apertam. Segurança. Estranha. — Ele passa por você, enviado direto pela noite. Você sente ele te preencher?
Sim.
Não.
Os meus vazios estão aqui. Meus vazios pesados demais. Meus vazios incompreensíveis. Eu os sinto esmagar a minha alma, ainda que um sopro de felicidade a faça clarear por poucos segundos. A alegria é genuína, mas a dor é massacrante. Os momentos bons existem, mas eles não são fortes o bastante para romper o que me abate. O vazio.
O vazio se transforma em lágrimas presas.
— Eu preciso ir embora. — solto sua mão.
Insegurança. Inconstância. O conhecido.
— Não vai, não. — ela pula atrás de mim e me puxa para si mais uma vez. Por quê?
— Eu preciso ir. Eu preciso. — a minha voz me traí.
— Me conta.
— Você não quer me conhecer. — ela sorri.
— Talvez eu queira. — não.
— Não, — sorrio. Irônica. — você não quer.
— Você não precisa me falar. — ela se aproxima. Ela me sufoca. — Eu posso ler os seus olhos. — penso em interromper. Tarde demais. Ela está em mim. — Eu sei que você quer voar, mas os seus pesos te prendem à terra. Uma segurança ilusória. Você não se sente segura. A sua solidão te sufoca. — você me sufoca. — Você está vazia. Existe uma ausência de coisas boas. Talvez, até uma ausência de coisas ruins. Existe um vazio grande demais. Um vazio que te toma, porque ele é a ausência de você. Aonde você está, se não está aqui? — ela toca meu peito. Eu sinto o calor em meu coração.
Ela me sufoca.
Eu não preciso de ar.
— Por que eu? — pergunto mais uma vez, esperando a resposta já conhecida.
Ah, o desconhecido.
— Porque eu me vejo em você.
— Isso não faz sentido algum.
— Você esconde os seus vazios com a feição fechada, o olhar sério e as frases curtas. Você se acostumou com eles.
— E você procura o que os preencham. — ela assente.
— Isso não faz sentido algum. — ela repete minha frase. As palavras têm um gosto diferente agora.
— Eu acredito que a maioria das coisas não faz.
Então, eu entendi. Entendi o inexplicável. O inatendível.
Talvez eu não tenha entendido nada.
Mas ela me escolheu, porque o seu interior é um espelho do meu. Do lado oposto, como todo reflexo.
Eu me acomodei com o meu vazio. Apeguei-me a ele. À nossa relação tóxica. Eu já não me vejo sem a minha dor, porque ela é o que sou. Além da dor, eu sou o vazio. Nem mesmo o negativo se mantém, tudo se vai. E tudo bem não estar tudo bem. Os dias passam e eu lido com isso. O vazio conhecido, porque o desconhecido incomoda. Eu aceito o que sou. Vazios pesados.
Ela não. Ela não aceita. Jamais poderia. A falta de preenchimento lhe tira a paz. Ela busca por sensações. Pelo vento que lhe corte e lhe preencha. Pela noite estrelada. Ela busca alguma coisa. Ainda que seja qualquer coisa.
Mas até mesmo ela precisa aceitar seu vazio para, só então, preenchê-lo. Não se pode lutar contra algo que desconhece. Ela precisa da minha aceitação.
Eu preciso da sua necessidade de preenchimento.
Nós precisamos da plenitude de uma hora.
Mas nossa uma hora está acabando.
— Eu quero te conhecer. — ela rompe o silêncio. — Eu quero conhecer além dos seus olhos, que já me dizem tanto, ainda que nada digam. Eu nunca vi olhos como os seus.
— Você não quer me conhecer.
— Por quê? — recordo-me das palavras vazias escritas em um filtro de café velho.
— Ofereço a ti minha dor e essa talvez seja minha única real oferta. Pois se a dor é tudo o que sou, dor é tudo o que tenho. — uma lágrima me cai. O preenchimento pleno me dói. — Eu não tenho nada.
— Você tem o seu vazio e eu tenho o meu vazio. — ela segura minhas mãos.
— Então nós duas não temos nada. — ela sorri.
— Faltam quinze segundos. — um suspiro. — Me diga o seu nome.
Quinze.
— Por que você quer saber o meu nome?
Catorze.
— Eu preciso dar um nome aos olhos da minha vida.
Treze.
— Regina.
Doze.
— Não deixe o seu vazio te sufocar, Regina. Não deixe. Não desista de preenchê-lo.
Onze.
— Ele foi preenchido. Por uma hora, ele foi.
Dez.
— Não desista.
Nove.
— Eu não vou desistir. Eu espero que você também não o faça.
Oito.
— Feche os olhos. — eu os fecho.
Sete.
— Talvez esse tenha sido o melhor prólogo de todas as minhas páginas. — confesso. Não sei porquê confesso. Não preciso do porquê.
Seis.
— Eu pretendo relê-lo mais vezes. — palavras sinceras que me rasgam. Palavras que me preenchem.
Cinco.
— Eu também. — desconhecido conhecido.
Quatro.
— Espero que não me odeie.
Três.
— Por que eu odiaria?
Dois.
Ela me toca os lábios. Um beijo rápido. Um beijo calmo. Um simples toque. O bastante.
Um.
Eu ouço os fogos e abro os olhos. Encaro o vazio. Ela não está ali, não mais.
Ela é real?
Meia noite.
O fim das vinte e três horas.
***
Eu acordo com Senhor Bartolomeu cheirando-me o rosto. Seus pelos finos e negros se arrastam por minha pele, me causando cócegas gostosas. Abro os olhos e vejo os seus amarelos. Olhos.
Eu me lembro dela.
A mulher misteriosa dos olhos verdes. Os olhos desconhecidos. O rosto que jamais sairá da minha mente. Coloco-me sentada e vejo a pilha de papéis jogada ao chão. Poemas. Minhas palavras vazias cheias dela. Eu não consigo tirá-la de minha mente, porque não consigo tirá-la de mim. Uma vida de vazios fora preenchida por uma hora. Sessenta minutos.
O que são sessenta minutos?
Hoje, sessenta minutos foram o ápice da minha plenitude. O vazio que sinto agora é a ausência de estar preenchida. Completamente preenchida. Agora eu sei a sensação da inexistência da imensidão pesada demais que carrego.
Quem compreenderia meus vazios?
Ela compreendeu.
O vazio que sinto hoje é a sua ausência. Eu desejo uma hora.
Eu desejo uma vida.
Saio por ruas turbulentas. Sempre turbulentas. O céu hoje está azul. As nuvens cinzentas abriram passagem para a beleza azulada que toma a grandeza celestial. O céu azul também é poético.
Ele contempla a terra. Cada pedaço é coberto por ele. Eu costumo acreditar que existe uma paixão platônica entre a terra e o céu. Entre Urano e Gaia. Sempre estarão a olhar um ao outro. Jamais irão se unir. Não realmente. Ainda assim, se você se afastar e olhar uma rua distante, lá no final você verá. A união entre Urano e Gaia, entre a terra e o céu. Ao menos por alguns minutos você pode pensar que eles se encontram de verdade. Você pode acreditar que também encontrará o que busca.
Lá está ela.
A galeria.
Tornou-se uma das minhas passagens preferidas. Passo por aqui todos os dias, ainda que esteja longe do meu destino, ainda que não seja preciso passar por aqui. Eu passo. Eu olho para as escadas já conhecidas, olho para o alto. Por um segundo posso vê-la lá em cima. Os seus braços abertos. Seus olhos sedentos pela queda. Não o fim. O processo.
Suas palavras estão gravadas em mim.
Hoje eu paro.
Não porque meu plano é parar, mas pela descrença que trava minhas pernas.
Eu paro, porque andar torna-se impossível.
Eu paro e contemplo o impossível. O improvável.
O desconhecido? Não. O conhecido. Muito conhecido.
Desconhecido ao mesmo tempo.
O vejo os meus olhos.
Uma enorme tela, exposta em uma das paredes de vidro da galeria. Olhos castanhos estão pintados.
Os meus olhos.
Vistos por ela. Eu sei que é ela. Ainda que não tenha olhado os outros detalhes. É ela.
O fundo negro, por trás dos olhos castanhos — os meus olhos —, é pintado por pequenos pontos. Não pequenos pontos simples. São estrelas. Belíssimas estrelas. O que vejo abaixo só confirma as minhas certezas.
Existem certezas?
Eu sou a imensidão de dúvidas. De questionamentos. De incoerências.
Mas ali, ali eu vejo. Os ponteiros de um relógio, marcados nas estrelas.
Vinte e três horas.
Entro pelas portas de vidro, pelas quais jamais passei. Encontro uma mulher qualquer. Mal olho o seu rosto. Eu me sinto sufocada.
— Qual é o título dessa obra? — a pergunta me sai em um suspiro. Sufocada.
— “Os olhos da minha vida”. — ela responde o meu desespero. Eu sorrio.
Ah, o ar.
Olho a borda. Tão pequena e tão singela. Uma assinatura. Eu me abaixo para enxergá-la.
“Swan, E”.
Os olhos da minha vida têm nome.
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